Meninos, eu li (11)

Em abril tive dengue pela primeira vez na vida. Foi assustador, me derrubou, e com aquela febre que não baixava de jeito nenhum achei que era um bom momento para ler a coletânea de histórias da Zap Comix publicada pela Conrad (São Paulo, 2005). Funcionou: só mesmo assim para algumas coisas fazerem sentido. Ou quase, talvez eu precisasse estar delirando. O melhor da antologia é, disparado, Crumb. Algumas histórias do Shelton são boas, o Moscoso é interessante visualmente (mesmo se eu não estivesse com dengue), o resto fica bem pra trás. Claro que foram importantes para a contracultura, o underground e tudo o mais, mas haja contextualização pra poder dar valor a algumas páginas.

Também foi por causa da dengue que tirei da estante O Sacy-Pererê: Resultado de um inquérito (Rio de Janeiro: Gráfica JB, 1998, fac-símile da edição original de 1918). A Alessandra, com febre, queria que eu lesse histórias pra ela, e eu achei que alguns relatos sobre o saci cairiam bem. Não deu muito certo. Os depoimentos enviados a Monteiro Lobato quase sempre oscilam entre a pretensão beletrista e a antropologia de botequim. Em geral, é a elite paulistana do início do século afetando nostalgia para disfarçar o seu desprezo (no máximo, condescendência) pelos empregados das fazendas. Mas gostei dos relatos que mencionam a mítica flor da samambaia, que faz o homem ser desejado por todas as mulheres, mas que ninguém consegue colher porque é guardada pelo saci.

Passou a dengue e eu pude terminar de ler o Chief Culture Officer (São Paulo: Aleph, 2011). Eu gostei muito da palestra do Grant MacCracken no Rio Content Market, mas fiquei decepcionado com o livro. Ele parece ter sido todo escrito como propaganda, um lobby para fazer as empresas contratarem antropólogos – e mesmo assim, só os convencionais, nada de pós-modernos. Até que de certa forma o autor justifica a pretensão, usando as suas habilidades acadêmicas para fazer o que um cientista social faz de melhor: traduzir em forma de conceito o que o leigo vê de maneira confusa.

Reaper man (Nova Iorque: HarperTorch, 2004) também decepcionou. Acho que foi porque eu tinha gostado muito dos outros livros do Terry Pratchett que eu tinha lido, especialmente O fabuloso Maurício, que aliás ganha uma referência no meio de Reaper man. Então, estava esperando mais. O problema desse está, por incrível que pareça, nas qualidades. Pratchett é um ótimo humorista, sem sombra de dúvida. Mas exagerou. Em vários trechos que já eram engraçados, ele ainda jogou mais uma piadinha, e um trocadilho por cima, e… passou do ponto. Em termos de sátira de costumes também fica bem abaixo da média do autor, beirando o pueril na descrição do shopping-center sugador de vida. Como narrativa, não chega a empolgar nem a provocar grande empatia pelos personagens. Diversão certa, mas limitada.

A melhor leitura do mês acabou sendo Pandemônio (São Paulo: Panini, 2011), a volta de Jamie Delano à série Hellblazer. Em primeiro lugar, pela satisfação de rever um John Constantine como o que eu conhecia, depois das versões fracas que andaram sendo publicadas pela Vertigo (como aquela série no presídio, que é melhor esquecer). Em segundo lugar, porque mesmo para quem não faz e menor idéia de quem é o personagem, esse é um gibi muito bom. A narrativa flui redonda, os diálogos estão afiados, e no meio dos confrontos entre deuses e demônios (com muita fumaça de cigarro mata-rato iraquiano) o leitor pecebe que o maior dos horrores é o provocado pelos seres humanos. O grande problema é que magia não é a solução para eles.

(Resenhas agora publicadas simultaneamente no meu perfil no Skoob)

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