Era uma vez (5a): O vaqueiro e o Diabo

(Continuando da semana passada)

O vaqueiro estava desesperado, e sem pensar no que fazia aceitou a proposta.

O Diabo desapareceu de novo numa nuvem preta, e no lugar onde ele estava apareceram vivas as nove reses que tinham caído no barranco, mais a que a onça matou, e mais a que tinha ficado para trás no atoleiro, todas mais bonitas e gordas do que nunca. Ainda por cima apareceu a pele da onça, que o vaqueiro jogou por cima dos ombros antes de seguir viagem.

Levou a boiada toda até seu destino, então tomou sozinho o caminho de volta. O tempo todo matutava como ia fazer, porque o primeiro vivente a lhe saudar quando chegasse na certa ia ser sua filhinha. Por isso mesmo se arrastava pelo caminho, encompridando as léguas, andando sem querer chegar, parando em cada arraial.

Foi numa dessas paradas que o dono de um armazém perguntou ao homem de onde vinha e pra onde ia, e por que tinha aquela cara de desgraçado da vida. Ouviu a história toda da boiada perdida e do trato com o Diabo, e então botou no balcão uma garrafa e um copo.

– Pois então tome dessa pinga. Dizem que ela é tão forte que faz um homem esquecer até do caminho de casa – ofereceu.

O vaqueiro aceitou. Tomou um copo, depois outro, e mais um, e num instante tinha entornado a garrafa inteira, e caiu duro pra trás. Só acordou no dia seguinte, quando o Diabo lhe apareceu outra vez para apressar o retorno.

– Pois olhe, agora eu não posso mais voltar para casa, que não lembro mais onde ela fica – disse o vaqueiro. O Diabo se irritou e respondeu:

– Ah, é? Então vai bater de porta em porta em toda casa que encontrar pelo caminho, e onde lhe abrirem a porta e lhe oferecerem guarida é porque é a sua casa e o primeiro vivente que lhe saudar há de ser meu.

O vaqueiro nunca mais encontrou de novo o caminho de casa. Mas até hoje o Diabo lhe faz bater numa porta toda noite pedindo abrigo. Se um dia alguém bater na sua porta, com uma pele de onça jogada nos ombros, não abra nem lhe saúde, ou senão o Diabo virá atrás para lhe levar.

E cuidado também para nunca tomar daquela cachaça, se quiser encontrar o caminho de casa.

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