Meninos, eu li (8)

Com um bocado de atraso, aí vão as leituras do mês de janeiro. Comecei com quadrinhos: Histórias para não dormir (São Paulo: ARX/Saraiva, 2010), adaptação de Pedro Rodriguez para contos de terror de autores do século XIX. Pelo menos nas suas versões para “A mão” e “O gato preto” (os únicos que eu já conhecia), foi bem fiel à trama, se não ao clima e ao espírito do texto original. Mas é para isso afinal que serve uma adaptação – para servir como releitura, exploração de aspectos que tinham ficado apenas sugeridos, e para despertar a curiosidade pelo original. Muito bem sucedido nesse aspecto. Já é um forte candidato a melhor HQ do ano pra mim.

Em compensação, a pior deve ser Garotas em fuga (São Paulo: Panini, 2010), de Milo Manara e Chris Claremont. Chega a ser constrangedor mesmo para quem não é grande fã das personagens ver Ororo Munroe praticamente reduzida a objeto sexual, ou usando sedução como único meio ao seu alcance para resolução dos problemas, enquanto as outras integrantes dos X-men, seminuas, capricham nas caras e bocas. Recomendável apenas a quem tem fantasias muito específicas envolvendo Lince Negra e Vampira agarradas uma na outra numa cachoeira.

Felizmente teve mais uma boa HQ no mês: Bordados (São Paulo: Companhia das Letras, 2010), que parece mais uma coda de “Persépolis”, também da Marjane Satrapi. A autora manteve a mão na narrativa em que as fronteiras entre memória e delírio são tênues, tanto quanto as que existem entre os conflitos pessoais das mulheres que se reúnem para tomar chá e as questões políticas do Irã.

Enquanto pulava entre quadrinhos bons e ruins, encarei A sociedade em rede (São Paulo: Paz e Terra, 2008), primeiro volume do megaestudo de Manuel Castells sobre A Era da Informação. Foi um livro que me lembrou a definição de Estatística como a arte de torturar os números até que eles digam o que você quer. Porque é isso que Castells faz boa parte do tempo. Quando os dados não confirmam a sua tese, ele isola quantas variáveis for preciso, deriva euqações a não mais poder, até chegar perto do que se encaixe na teoria. Quando nem isso funciona, ele tem uma explicação sempre pronta: é contingência histórica e cultural. O problema é que você não pode fazer isso com o futuro: publicado originalmente em 1996 e revisado em 1999, antes do estouro da bolha, o livro defende que a hipervalorização das empresas “pontocom” muitas vezes acima de seu faturamento e patrimônio era algo perfeitamente racional. Mas o pior para mim está na análise sociológica mesmo. Depois de demonstrar de forma brilhante que a tecnologia de administração precede e de certa forma é independente da informatização, o autor parece se deslumbrar com o avanço tecnológico e apontá-lo como causa do surgimento de uma nova sociedade. Ele ignora qualquer influência da economia e da política sobre a ciuência e a tecnologia, acreditando que estas são independentes no seu desenvolvimento e condicionam todo o resto.
Pulei o prefácio de FHC, porque aí seria demais.

Para fechar, Em tom de conversa (Rio de Janeiro: Rocco, 1994), péssimo título em português para Talking it over, de Julian Barnes. Aliás, uma tradução cheia de erros, alguns bem irritantes. Mas não chega a comprometer. O que atrapalha mesmo é o fato de que Barnes é muito bom em metáforas. Muito bom mesmo. Foi o que mais me agradou na sua “História do mundo em 10½ capítulos”. Só que aqui ele se empolga tanto que começa a jogar uma em cima da outra, sem dar tempo ao leitor para digerir. Quem paga o preço são os personagens, que ficam mal construídos e incapazes de despertar um mínimo de empatia (com exceção de Val, talvez por ser justamente a que menos aparece). Não é que eu tenha achado ruim. Mas podia ser bem melhor.

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