Dramatis Personæ (110): O Velho Abraão

Na verdade, nem sei se ele se chamava assim. Foi minha tia-avó, ainda criança, quem lhe deu esse nome. Olhou para o retrato pendurado na parede e disse: “Ele tem cara de Abraão”. E assim ficou.

O retrato estava na casa bem antes de a minha família chegar. E, se o nome Abraão pegou, o passado do personagem continuou misterioso. Diziam que tinha sido senador, general, comendador, industrial, fazendeiro. Monsenhor, filósofo, cientista. Traficante de escravos, abolicionista, donjuan.

Mesmo com tantas hipóteses, era tratado com a reverência devida a alguém que estava ali há tanto tempo. Toda vez que alguém estava em situação difícil, sentava-se diante do quadro e confiava ao Velho Abraão os seus problemas, pedindo conselhos. Nunca falhou.

Isso sem falar nas muitas discussões que foram encerradas com argumentos como “O Velho Abraão não concordaria com isso”, ou “Já dizia o Velho Abraão que…”.

Sinto falta dele.

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