Dramatis Personæ (94): Taniqla

Ela é a última sobrevivente da sua tribo, que habitava uma ilha desconhecida do resto do mundo, no Pacífico Sul. Uma doença misteriosa matou todos os outros – homens, mulheres, crianças. Sobrou apenas Taniqla, imune por algum motivo mas incapaz de transmitir sua resistência a uma futura geração que não existirá.

Catando crustáceos na praia para o almoço, ela os chama pelos nomes dos mortos. Foi o jeito que encontrou para não esquecer deles como é que se fala. Mas sabe que é uma questão de tempo. Um dia virá a morte e com ela o fim da espécie humana (pois Taniqla não faz ideia de que haja outros mundos além do mar, muito menos que sejam habitados). Ao mesmo tempo, o fim da linguagem e da razão.

Depois de dar nomes aos caranguejos, brinca com eles, fazendo-os encenar histórias. Diz poemas para eles. Cria fábulas, filosofa, teoriza. Um dia imaginou que poderia haver um jeito de transformar suas palavras em sinais que desenharia na pedra, mas desistiu de inventar a escrita porque daria muito trabalho. Prefere concentrar todas as suas energias em dizer e pensar tudo o que ainda possa ser dito e pensado por um ser humano.

Porque Taniqla é a última mulher na face da Terra, e quando ela morrer não haverá mais ninguém para falar.

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