Meninos, eu li (3)

Atrasado, mais uma vez, o resumo das leituras do mês de fevereiro. Curtinho, porque afinal foram menos dias.

O primeiro livro sério do ano foi o Cultura da convergência, do Henry Jenkins (São Paulo: Aleph, 2008). Fundamental, mas com uma sensação de dejà-vu. Não porque careçam de originalidade, mas dois anos depois do lançamento as ideias expostas se difundiram de tal forma entre as pessoas que lidam com o tema que se tornaram quase verdades axiomáticas. Também não ajuda o fato de o livro se estruturar em torno de estudos de caso – e tome mais do mesmo: Matrix, transmídia, Lost, e por aí vai.

João Ubaldo Ribeiro, quando estava traduzindo Viva o povo brasileiro para o inglês, reclamou que um autor americano não precisa explicar a ninguém o que é hambúrguer, Boston, George Washington, Halloween; mas um brasileiro traduzido para outra língua não pode querer que o leitor saiba o que é acarajé, Salvador, José Bonifácio, São João. Lembrei disso lendo o volume duplo (São Paulo: Iluminuras, 2009) com as novelas A lenda do cavaleiro sem cabeça e Rip Van Winkle, de Washington Irving. A comparação foi porque as duas histórias (especialmente a segunda) já foram tão exploradas em filmes e desenhos animados que eu via desde criança que pareciam ser parte do folclore, tão comuns quanto as lendas gregas, sem que eu sequer soubesse quem era o autor. Ler finalmente as novelas, portanto, também foi uma espécie de dejà-vu. Achei apenas mediano. E me impressionei ao ver como o Ichabod Crane original é em tudo diferente do personagem recriado por Tim Burton e Johnny Depp.

No fim, os deuses que moram nos livros quiseram que eu começasse a ler em pleno carnaval A honra perdida de Katharina Blum, de Heinrich Böll (Artenova, 1974). Eu nem fazia ideia de que a história toda se enovelava em torno de um encontro acontecido durante um baile de carnaval na Alemanha em 1974. Não vou dizer que foi o terceiro dejà-vu do mês, mas 35 anos depois parece que Böll está falando do presente. A imprensa preconceituosa e a polícia irresponsável (troque a ordem dos adjetivos, se preferir) do Brasil de hoje certamente aprenderam muito com as congêneres alemãs no que diz respeito à arte de destruir vidas e reputações.

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