Meninos, eu li (2)

Bom. Com alguns dias de atraso, aí vai o resumão das leituras do mês de janeiro. Não que alguém estivesse esperando, já que a seção é nova, mas mesmo assim.

Macaco – Uma jornada para o oeste foi mais uma concessão ao meu vício em lendas, narrativas tradicionais, textos ancestrais. Esse nem é tão antigo assim: a gistória vem da China, século XVI, de um certo Wu Ch’eng-en, recontada pelo armênio-americano David Kherdian. Foi uma boa diversão conhecer as peripécias do Macaco enfrentando seres celestiais, passando a perna em Lao-Tsé, sendo enganado por Buda, e na segunda metade do livro acompanhando um peregrino à Índia (a tal jornada para o Oeste).

Mas de tantos deuses, demônios e bodisatvas, meu personagem preferido, pelo nome, é Devaraja Li, que ostenta o título de Rei Celestial Sustentador do Pagode. Imagino que ele ficava o tempo todo cantando: “Deixa comigo/eu seguro o pagode e não deixo cair…”

Mas o melhor trecho vem da introdução, escrita pela atriz budista Odete Lara: “As aventuras narradas no livro se prestariam também a um filme de animação. E, neste caso, por tratar-se de imagens, poderia atingir também crianças e até mesmo analfabetos”. Comentar o quê depois dessa?

A Oxford de Lyra é caça-níqueis. A começar pelo selinho malandro da editora Objetiva, que diz que é um novo episódio de “A bússola de ouro”. Mas vai: é um caça-níqueis dos bons.

A história em si parece um trailer, um capítulo inicial do que poderia ser de fato um novo romance logo após a trilogia Fronteiras do Universo. Nesse sentido, funciona para deixar os fãs (como eu) com gosto de quero-mais. Não é pouca coisa.

Philip Pullman complementa o livro com uma série de falsas (?) pistas sobre tramas paralelas. Dá a impressão de estar iniciando um ARG, ou algum tipo de narrativa transmídia. Mas não é o caso. É simplesmente uma afirmação de que, no fundo, mesmo que não tenhamos portas para outros universos, todas as histórias (e todas as vidas) são transversas, transmídias, complexas. Só isso vale a leitura.

Fico devendo um scan da capa de Assunção de Salviano, primeiro romance de Antonio Callado (Atualizado: taí a capa, com todas as deteriorações do tempo). Não chega a ser tão bom quanto um “Quarup”, um “Reflexos do baile”. Mas de certa forma tudo o que Callado se tornaria como escritor já está lá, de forma embrionária.Política, religião, amor. O homem simples que enfrenta os poderosos ao mesmo tempo que realiza sua jornada interior e com ela acaba descobrindo que mesmo sendo mais fraco pode vencer.

Ler Assunção depois de conhecer quase todos os romances posteriores dá uma satisfação estranha. É como se eu estivesse conhecendo agora o jovem escritor e pudesse dizer pra ele: continue assim que você vai longe, rapaz.

O volume com as Seis primeiras histórias de Thomas Mann causou exatamente o efeito oposto que o de Assunção de Salviano. O que não é de se estranhar, considerando que a situação também foi oposta.

Mann é um desses clássicos que eu nunca li. E continuo considerando como um desconhecido para mim, mesmo depois desses contos, que são apenas razoáveis.

O saldo positivo foi a constatação de que não é um autor impossível. Acho que já posso encarar a “Montanha mágica”.

Mais um romance de estreia, mas esse de uma escritora que eu não conhecia. Só sabia de Patricia Melo o que se diz: pastiche de Rubem Fonseca, coisa e tal.

Bem, pelo menos nesse Acqua toffana a acusação pareceu injusta. A autora não se limitou a imitar ninguém. Construiu duas narrativas em torno de personagens que, paradoxalmente, ficam mais vivos e reais quanto mais inverossímeis são as suas histórias.  Deu pelo menos a curiosidade de saber o que mais ela tem a dizer.

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