Arquivo do dia: quarta-feira, 5/8/2009

Biografemas (3): Paul Gauguin

Boa parte do que o pintor viu e viveu na sua segunda viagem ao Taiti (1891-1897) está no seu diário publicado com o título de “Noa Noa”. Mas os poucos parágrafos dedicados ao jovem taitiano Nepeo não fazem jus à importância que ele teve na vida do artista.

“Nós éramos dois, dois amigos,, ele um jovem na flor da idade e eu quase um velho, no corpo e na alma, nos vícios civilizados: nas ilusões perdidas. O corpo dele, flexível como o de um animal, tinha graciosos contornos, e ele caminhava à minha frente sem qualquer definição de sexo.
Desta amizade tão bem cimentada pela mútua atração entre simples e composto, o amor criou forças para florescer em mim.
Tive uma espécie de pressentimento de crime, o desejo pelo desconhecido, o despertar do mal (…)
Cheguei mais perto, sentindo-me livre de barreiras, as têmporas palpitando.”¹

Aparentemente, Gauguin não chega a consumar o ato nessa excursão com o efebo (“Ele nada suspeitara. Eu carregava sozinho o peso de um mau pensamento”²). Mas ele se tornaria seu amante pelos meses seguintes. E mais do que isso.

Aprendendo a técnica da pintura e da escultura, Nepeo em troca daria a Gauguin o vigor artístico que o impressionista fora buscar na Polinésia. Foi sob a influência do jovem amante que o estilo do mestre se transformou completamente. E há quem julgue que boa parte das obras deste período atribuídas ao francês  tenham sido, na verdade, criadas pelo taitiano.

Gauguin romperia o relacionamento com Nepeo no ano seguinte, para se casar com a adolescente Tehaurana.


¹ “Noa noa”, trad. de Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1977. Págs. 26-27.
² Idem, pág. 27.

Criptoetimologia (18): Retrato

Ainda hoje se usa a palavra “tratamento” para se referir a cada versão intermediária de uma obra. Assim, um romance passa por vários tratamentos antes de ser considerado pronto para publicação. O mesmo acontece com músicas e outras criações artísticas.

No Renascimento, o “tratto” era o primeiro esboço desenhado por um artista encarregado de pintar este ou aquele nobre. Depois, aquela obra passava por sucessivos “re-trattos”, até aquele que seria considerado o definitivo. O que o artista apresentava, portanto, era o “último re-tratto”. E daí veio “retrato”.