A glória de um covarde

Fazia tempo que eu queria escrever sobre esse assunto, e acho que o dia é propício. Eu não aguento mais esses heróis que só protegem os fortes.

Nas suas “Cartas de um subdesenvolvido”, Henfil contou a experiência de viver nos EUA e tentar, sem sucesso, emplacar como quadrinhista no mercado americano. Ele percebeu de cara que criar humor numa democracia era bem diferente do que numa ditadura como a do Brasil do AI-5. Citando:

“O americano não consegue ver onde está a força de uma charge que tem a palavra liberdade no meio, e só. E no Brasil, só da gente colocar esta palavra numa charge ou música, já deu o recado! Estamos desenvolvendo uma linguagem cifrada, língua do pê, que só nos entendemos e só nós percebemos a gravidade e qualidade. Se a gente escrever a palavra “liberdade” num papel branco, sem mais nada escrito, já está ameaçando. Já fez um enorme esforço criativo! Pois aqui tem que escrever o resto do livro”.
(Carta a Tárik de Souza, 7 de janeiro de 1974)¹

O humor brasileiro, hoje, vive um cenário parecido, mas com o sinal trocado.

“Politicamente incorreto” é a qualificação que aparece nas descrições e nos (auto-)elogios de 99% dos humoristas brasileiros. E, na maioria dos casos, é a única apresentada. Fulano é engraçado? Ah, ele é politicamente incorreto que só vendo. Desrespeitar minorias virou condição necessária e suficiente para se fazer humor. Soltou um “crioulo safado”, desmunhecou, a claque vem abaixo.

Pois eu pergunto: é só isso, mermão? Cadê o resto do livro? Qual é a graça? E, principalmente, qual é o risco que você está correndo? A sempre criticada “ditadura do politicamente correto” é uma falácia. Porque quando eu chamo um racista de racista, um homofóbico de homofóbico, um machista de machista, não estou censurando. Estou dando nome aos bois. Estou apontando a covardia de quem replica e reforça a opressão.

A reação dos acusados é sempre a mesma: desqualificar e, se possível, calar a crítica. A liberdade de expressão só vale para o discurso dominante. Esses pretensos heróis apresentam como credencial a sua coragem de ser covardes. O que não chega a ser uma piada pronta, mas é um oxímoro dos bons.


¹ Mais tarde Henfil reveria seus conceitos, chegando à conclusão de que a aparente liberdade nos EUA apenas disfarçava uma ditadura do puritanismo. Mas isso é outra história.

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3 Respostas para “A glória de um covarde

  1. Concordo! Apóio! Piada fácil e agressiva, tô fora.

    R. Fácil, agressiva e ruim.

  2. Luã Vasconcelos Rocha

    mt bom o texto! “onde está a graça?” devemos nos perguntar.

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