História mal contada

Eu não vi o filme.  E (mal aí, Flávia) nem pretendo ver. Porque tem uma coisa me incomodando muito nessa história.

Vamos recapitular o que qualquer pessoa mais ou menos bem informada já ouviu por aí: o documentário mostra como Wilson Simonal era um ídolo das multidões no fim dos anos 60, mas teve sua carreira destruída no início dos 70, depois de ter sido acusado sem provas de atuar como dedo-duro do DOPS. Um talento que foi calado, vítima de uma campanha de difamação.

Desculpem, mas essa conta não fecha.

Qur dizer que em 1972 todas as rádios e TVs, os jornais, a indústria fonográfica e as casas de shows fecharam as portas a Simonal tremendo de medo do poder do… Pasquim? Em pleno governo Médici?

Vem o Chico Anysio e lança o desafio a “um só que diga que foi dedurado pelo Simonal”. Nem vou entrar no mérito de discutir o desafio em si (imagino os gorilas prendendo um subversivo  dizendo “olha, quem te entregou foi Fulano, viu?”). Mas então vamos a outro. Me digam um só, um só que tenha sido proibido de gravar, vender discos, falar bem, divulgar o Simonal. Porque aí a coisa fica mais hilária ainda.

– Vamos chamar o Wilson Simonal para o programa deste domingo?
– Não, ele não.
– Por que não? É popular, faz o maior sucesso.
– Muito perigoso. Melhor chamar o Chico, o Vandré…

Ou:

– Moço, me dá um disco do Simonal.
– Psiu. Fala baixo.
– Mas eu adoro o Simonal.
– Pega aqui esse embrulho de papel pardo. Mas não conta pra ninguém que fui eu que vendi.

Em 1972. Tá.

Em 1972 a classe média cantava “Eu te amo meu Brasil” e “Esse é um país que vai pra frente”, balançava bandeirinhas para o desfile militar de 7 de setembro, acreditava no milagre e no “Ame-o ou deixe-o”. Essa classe média passou a desprezar o Simonal porque ele foi acusado de dedo-duro pelo Ziraldo? Isso é enredo de ficção, não de documentário.

Finalmente, o que não me desce de jeito nenhum. O argumento de que Simonal só ganhou fama de dedo-duro (que ele mesmo confirmaria, depois) porque mandou dois agentes da repressão darem uma surra num ex-funcionário. Ou seja: dar porrada num ex-empregado que está incomodando pode. É legítimo. Se isso é uma reabilitação, eu não entendo mais nada.

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Uma resposta para “História mal contada

  1. o simonal não era artista da classe média, ele era do povão. podia ter sido um puta cantor de bossa nova mas gostava mesmo era de cantar samba e pilantragem. e o povo jamais deixou de gostar dele, quem virou as costas pra ele foi a imprensa a própria classe artística.

    a gente sabe sabe como a imprensa pode acabar c/ a vida de uma pessoa qdo quer, vide caso escola base. e por + q reconheça q errou depois, sempre vai ter alguém q “ah, mas onde há fumaça há fogo”.

    o doc é legal justamente pq não é chapa branca, mostra q ele não foi santo nesse episódio do contador. e o trabalho é pra recolocar o nome dele na história da música brasileira, q foi totalmente apagado, e não pra dizer q ele foi bonzinho.

    mandar bater no funcionário ñ tá certo em hipótese alguma, mas por esse crime ele foi julgado, recebeu o seu castigo. em nenhum momento foi falado q isso “pode”. ser “dedo duro” era uma boato mentiroso q acabou c/ a vida dele e da família. e, o pior, privou o povo de seu talento.

    ele podia ser simpatizante da direita assim como tem pais e avós de muitos de nós q dizem até hoje q na época da ditadura era muito melhor.

    e mais, se a gente for gostar ou não de um artista pelo seu caráter estamos ferrados, não sobra quase nenhum!!

    o phil spector, o maior gênio da história música pop, é um louco q andava armado, espancava a fofa da ronnie spector, e é acusado de matar a stripper.

    o ike turner todo mundo sabe o escroto q era, mas descobriu a tina turner.

    o john lennon tratava o primeiro filho como lixo.

    dá pra citar centenas de nomes de cantores, escritores, diretores geniais porém escrotos a noite inteira! o q importa de um artista é a sua obra, não o seu caráter.

    enfim, tem q ver pra saber, nem q vaze depois na internet pra quem ñ quiser gastar $ c/ isso. tem muito diz que diz que nessa história q finalmente está sendo passado a limpo!

    R. Essa discussão do artista e da obra vem de longe (rolou há pouco tempo no blog da Lola, por exemplo. Eu acho que não dá para dissociar completamente. De qualquer forma, eu sempre achei o W.S. simplesmente chato.
    Agora, o processo de reabilitação (e não venha me dizer que o doc não é sobre isso, porque essa está sendo a sua consequência) é complicado. Porque o cara nunca negou sua boa relação com o regime enquanto isso era benéfico, e procurou se afastar quando começou a pegar mal.
    E o ponto central do meu post se mantém: dizer que a culpa exclusiva pela decadência é uma campanha do perverso Jaguar é atribuir à esquerda festiva um poder que ela jamais teve.

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