Dramatis Personæ (76): Norberto

Nos seus tempos de católico, jamais pediu graças a Santo Antônio, Santo Expedito ou Santa Edviges. Seguia a tese de que é melhor buscar a ajuda dos santos menos populares, aqueles a quem ninguém jamais acende uma vela, e que se comoveriam mais com suas preces. Assim, recorria frequentemente a Santa Anísia, São Nepociano ou São Guevrock.

Mais tarde, passou a rezar apenas para os que ainda estavam em processo de canonização, e precisavam de milagres para serem levados aos altares. Consultava periodicamente L’Osservatore Romano para estar sempre atualizado com os candidatos a santo.

O último passo foi radical, porém previsível: a apostasia. Abandonou a religião católica e passou a cultuar os deuses esquecidos da Antiguidade. Quanto mais obscuro, melhor. E passou a dirigir seus pedidos a Adsalluta, Drunemeton, Borvo, Resheph e Huitizilopochtli.

Anúncios

Uma resposta para “Dramatis Personæ (76): Norberto

  1. Junte-se às vantagens, já apontadas, do português do século XV sobre os povos colonizadores seus contemporâneos, a da sua moral sexual, a moçárabe, a católica amaciada pelo contato com a maometana, e mais frouxa, mais relassa que a dos homens do Norte. Nem era entre eles a religião o mesmo duro e rígido sistema que entre os povos do Norte reformado e da própria Castela dramaticamente Católica, mas uma liturgia antes social que religiosa, um doce cristianismo lírico, com muitas reminiscências fálicas e animistas das religiões pagãs: os santos e os anjos só faltando tornar-se carne e descer dos altares nos dias de festa para se divertirem com o povo; os bois entrando pelas igrejas para ser benzidos pelos padres; as mães ninando os filhinhos com as mesmas cantigas de louvar o Menino-Deus; as mulheres estéreis indo esfregar-se, de saia levantada, nas pernas de São Gonçalo do Amarante; os maridos cismados de infidelidade conjugal indo interrogar-se os “rochedos dos cornudos” e as moças casadouras os “rochedos do casamento”; Nossa Senhora do Ó adorada na imagem de uma mulher prenhe.
    GILBERTO FREYRE, Casa-grande e senzala.

    R. Foi o que eu quis dizer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s