Dramatis Personæ (68): Marcílio

Foi no cemitério de Inhaúma, como residente, que iniciou a sua carreira de redator de epitáfios. O reconhecimento ao seu talento não demorou. Os agradecimentos comovidos viraram elogios, os elogios deram origem às recomendações, as recomendações criaram fama. Logo era convidado para trabalhos no Caju, no São João Batista, no Jardim da Saudade. Foi a São Paulo, São Luís, Manaus. Chegou a exercer sua arte em Lisboa.

Não era para menos. Suas frases lapidares (e entenda-se o adjetivo tanto no sentido figurado quanto no literal) exprimiam aquilo que viúvos e órfãos queriam dizer mas a emoção não permitia expressar em palavras. Sucinto, sempre, como convém a um poeta da pedra, mas sempre dizendo todo o necessário. Seus textos eram quase hai-kais fúnebres.

Certa vez, quando um homem foi morto em mais uma escaramuça de uma longa rixa entre duas famílias, temia-se por uma carnificina no enterro. Os parentes estavam sedentos de vingança. Os rivais foram ao cemitério prontos para o conflito. Mas a leitura da lápide escrita por Marcílio bastou para reconciliar os inimigos, que saíram dali abraçados.

Sua candidatura à Academia foi recusada, sob o pretexto de que jamais publicara um livro. “Minhas obras permanecerão eternamente gravadas”, respondeu, desdenhoso. Em represália, nunca mais escreveu o epitáfio de um imortal.

Chegou a ficar rico graças ao seu trabalho. Seu testamento dispõe que toda a fortuna irá para o autor do seu epitáfio, a ser escolhido num concurso.

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