Dramatis Personæ (40): Guegué

Faz ponto na Rua do Catete, perto de uma lanchonete. Já viu dias melhores. Hoje em dia, as esmolas são talvez mais do que antes, mas na proporção com os insultos parecem ter diminuído.

Como um dos mais velhos, tem trabalho dobrado. Além de mendigar durante o dia, ensina o ofício aos mais jovens durante a noite. Não apenas a técnica, mas principalmente a ética.

Em conversas com outros decanos , queixa-se da situação. Os meninos, explica, parecem incapazes de compreender sua responsabilidade. Talvez por terem sido mais maltratados que a sua geração, não querem aceitar o fato de que todos na cidade, sem exceção, estão sob a proteção da irmandade. Alguns ameaçam fechar os olhos e deixar que o Mal se alastre.

Mas não enquanto Guegué estiver vivo.

Arrastando seus trapos pelas ruas, ele detecta as investidas do Mal, que repele usando os esconjuros que aprendeu de outro velho mendigo, décadas atrás. Pouco antes do amanhecer, com a consciência tranqüila de quem cumpriu a sua parte para garantir a segurança do mundo, vai dormir por algumas horas. Em seguida assume seu ponto para mendigar o sustento, pedindo a ajuda de quem não imagina o quanto lhe deve.

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