Arquivo do mês: setembro 2007

Gugleiros (8)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 24/9 - como surgiu a necessidade do eletricista
Eu acho que foi um choque.

Terça, 25/9 - figuras de linguagem em anedotas
A metáfora estava jantando num restaurante e viu uma mosca na sopa. Chamou o garçom, que era um oxímoro, e reclamou:
— Garçom, tem uma mosca na minha sopa!
— Não faz mal, ela sabe nadar.

Quarta, 26/9 - Histórias reais de acidentes com aranha
Não existem. Elas dirigem com prudência.

Quinta, 27/9 - era uma vez o homem na terra
Veio o aquecimento global e acabou com tudo.

Sexta, 28/9 - camelo geometrico
É o que tem dois dodecaedros. Se tiver um só, é dromedário.

Bestiário (30): Uricrix

Um dos raros lagartos de hábitos noturnos, é provavelmente também o único que apresenta bioluminescência. No período do cio, uma luz alaranjada brilha no focinho da fêmea, atraindo os machos.

É claro que também atrai predadores. Mas a fêmea do uricrix tem recursos impressionantes para iludir os seus inimigos naturais. Quando em perigo, além de ser capaz de disparar e atingir altas velocidades em sua fuga, expele flatulências que, em contato com o ar, emitem também uma luz alaranjada.

Os jatos de gás, lançados em alta pressão, viajam a uma velocidade quase igual à do próprio animal, iludindo os caçadores.

Muitos machos da espécie também já se enganaram e tentaram cruzar com flatulências, sem sucesso.

Dramatis Personæ (39): Florinda

Como num conto de fadas em que a jovem bondosa com os animais acaba sendo recompensada por eles, descobriu que seus 27 gatos eram mais do que companhia para sua velhice solitária. Tornou-se assim a primeira e provavelmente também a única ailuromante do mundo.

Os gatos, afinal, não mentem jamais. Quando Diná, a siamesa, pula no colo de um consulente, é sinal de grandes mudanças. Adolfo, o viralata peludo, gordo e caolho, só esfrega a cabeça nas pernas das pessoas que vão passar por terríveis sofrimentos. E Bibiana, a gata preta, ignora solenemente quem está prestes a se apaixonar.

Florinda teme o dia em que Léo, o persa,  miará para algum cliente.

Criptoetimologia (1): Abnegado

Fidalgos portugueses que pretendiam explorar as riquezas do Brasil precisavam de concessões da Coroa, conhecidas como Autorizações Brasílicas (A.B.) e sempre muito difíceis de se obter. Especialmente no período da União Ibérica, quando o poder para tais licenças passou ao trono da Espanha.

Aquele a quem se negava uma AB era chamado de AB-negado. Como o apelo da fortuna no Brasil era ainda maior que a dificuldade de se obter a desejada permissão real, os AB-negados logo se destacaram por sua persistência. E foi assim que a palavra “abnegado” ganhou a forma e o sentido que hoje tem.

Gugleiros (7)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 17/9 - qual foi o profeta enviado para o exílio
Caetano Veloso

Terça, 18/9 - meditação para lua cheia de setembro
E eu nem sabia que a lua meditava.

Quarta, 19/9 - poesias científicas sobre fisica
Gravidade quando nasce
Relativiza pelo chão
Força é igual a massa
Vezes aceleração

Quinta, 20/9 - poema da primeira a quarta série
Batatinha quando nasce
Esparrama pelo chão
Da primeira à quarta série
Fiquei de recuperação

Sexta, 21/9 - brincadeiras de pandas gigantes
Alguns são viciados em videogame. Por isso não se reproduzem.

Bestiário (29): Chariú

Provavelmente o mais eficaz dos predadores, pelo menos entre os mamíferos. Seu bote é mortal em 87% dos casos, segundo os naturalistas. E não há búfalo ou javali que se mostre capaz de enfrentar suas garras afiadas e mandíbulas potentes.

Daí, talvez, tenha surgido a lenda de que o chariú não gosta de caçar, e quando mata, é sempre com pena. Como o escorpião da fábula que não consegue escapar à sua natureza. E o fato de que ele chora quando come, da mesma forma que o crocodilo, só reforçou a crença. Chariú, ou mais propriamente ù-tcharyu, em língua manzani, quer dizer justamente “chorão”.

Ao contrário do crocodilo, porém,  o chariú não chora por pena das presas nem porque abrir a boca faça sua glândula lacrimal se contrair. É tempero mesmo. Se não for banhada de lágrimas, a carne lhe parece insossa, intragável mesmo.

Os machos mais velhos, cujas lágrimas perdem o sabor, costumam caçar para as fêmeas, que depois apenas choram sobre o animal abatido antes da refeição em dupla.

Biblioteca de Babel (12): Picasso, o caolho

Não: apesar do que sugere o título, e mais ainda o subtítulo “Uma biografia imaginária”, não se trata de uma dessas tentativas de contar histórias de ficção usando pessoas reais como personagens. Ibrahim Acosta, o maior conhecedor vivo da obra de Picasso, escreveu de fato a biografia definitiva do mestre cubista. Ou melhor, do que ele teria sido se naquela tarde de 13 de novembro de 1890 o pequeno Pablo não tivesse escapado ileso da arena onde caiu, na Plaza de Toros de Málaga, e o miúra houvesse acertado seu olho esquerdo, que, sabemos, escapou da chifrada por milímetros.

Acosta esbanja o conhecimento não só de cada detalhe da vida de Picasso mas também da sua psique. E revela como um Picasso caolho teria crescido, criado e amado.

Em alguns capítulos, o autor faz o leitor quase desejar que tivesse sido assim. Que tivéssemos conhecido o Cubismo pela perspectiva de um homem sem visão de profundidade.

“O horror de ‘Guernica’ é, enfim, o horror de alguém que vê o mundo se despedaçando”, escreve Acosta. Mas a “Guernica” do seu universo paralelo é duas vezes mais terrível, porque nela é “o pintor que se despedaça dentro do mundo”.

Postais do Exílio (21): Gimantelli

Como em toda comuna do Rímini que se preza, aqui havia duas famílias rivais. Porém, em vez de vendettas sangrentas, a rivalidade se expressava por meio de dois edifícios, construídos um em frente ao outro, na rua principal.

Cada família, na ânsia de se mostrar superior à outra, estava sempre ampliando sua casa. E acrescentava novos andares, tornando-a cada vez mais alta.

Um dia, a torre dos Miceli, que permanecera a mais alta durante quase 250 anos, começou a se inclinar. Os Colanti, já cantando vitória, ainda acrescentaram mais um andar ao seu edifício. Que, porém, naquele mesmo mês começou a tombar também.

Inclinando-se um em direção ao outro, os dois edifícios acabaram se apoiando e formam hoje um bizarro arco não do triunfo, mas do empate.

Gugleiros (6)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 10/9 - como nascem os pinguins
Você não viu o filme?

Terça, 11/9 - a venda, a espada e a balança
Se você for à venda comprar uma espada, é bom que haja uma balança para verificar seu peso.

Quarta, 12/9 - virgilia da paz igreja universal
No meio daquela gente toda você queria encontrar uma Virgília?

Quinta, 13/9 - O que é sabinos??????
Primeiro procure o que é concordância.

Sexta, 14/9 - histórias reais de tensão
Era uma vez um eletricista que foi montar uma rede de alta tensão. Aconteceu um acidente e fim.

Bestiário (28): Nizália

Uma ave extremamente rara, até porque cada fêmea põe apenas um ovo em toda a sua vida. Sempre quando pressente que está próxima da morte. Dificilmente sobrevive para chocá-lo e ver nascer o filhote.

Como se não bastasse, é muito visada por caçadores. As penas cinzentas não chegam a ser tão procuradas, e a carne, além de pouca, é insossa.  Mas os ovos são deliciosos. Caçadores de Nizálias, portanto, procuram ferir sem matar suas presas, para esperar que, num último e supremo esforço, ela ponha seu ovo inútil e valioso.

Histórias reais (11): Uiagarã, o grande rio

Foi numa época em que havia uma grande seca e uma grande fome no mundo. Quando viu que seu roçado de mandioca tinha se acabado de vez, Ocã anunciou:

— Vou falar com a Mãe da Terra.

Quase todo o mundo riu. Mas Ocã assim mesmo pegou seu bordão e seguiu viagem, para bem longe, lá onde o sol se deita, depois de Yacamiaba, a montanha. Chegando lá, entrou na casa da Mãe da Terra. E pediu a ela que mandasse água.

A Mãe da Terra, porém, estava irritada. Tanto que nem respondeu. Ficou de boca calada, do jeito que estava.

Ocã insistiu. Ameaçou bater na Mãe da Terra com seu bordão, mas ela nem se abalou e continuou muda do jeito que estava antes. E nem chorar adiantou.

Então, Ocã teve uma idéia. Em vez de pedir, ameaçar ou chorar, começou a fazer caretas e macaquices. Deu cambalhotas e imitou a voz do papagaio, até que a Mãe da Terra não se agüentou e começou a rir. E, quando abriu a boca, saiu de dentro dela toda a água que estava guardada, e provocou uma grande inundação.

Ocã só não se afogou porque nessa hora pulou para trás da Mãe da Terra e se agarrou nos seus cabelos para não cair no abismo. Mas todo mundo que tinha rido da sua aventura morreu ou então virou peixe.

Foi assim que surgiu Uiagarã, o grande rio, que também quer dizer “riso da terra”, e que mais tarde Orellana chamou de Amazonas. Quando as águas baixam, é porque a Mãe da Terra fechou a sua boca. Então, todos fazem muitas brincadeiras para ela rir outra vez.

Dramatis Personæ (38): Hermano

Como muitas outras pessoas, sente uma atração irresistível por sebos. Mas com uma peculiaridade. Vasculha as prateleiras em busca de livros de informática, os mais velhos possíveis.

Sua preferência é por tutoriais de velhos programas. Em sua casa, dispõe de uma vasta biblioteca sobre Apple II, Commodore 64 e TK 2000. Mas também gosta de ler manuais de Carta Certa.

Nunca esteve na frente de um computador, e nem pretende. Teme que a inclusão digital o impeça de apreciar a beleza do mundo de ficção-científica onde vive.

(Obrigado, Alessandra e Marcelo)

Fricção científica (3): Cores

O que os olhos vêem o coração não sente, porque o cérebro faz vista grossa. É essa a conclusão do psicólogo Robert Kentridge, da Universidade de Durham, na Inglaterra. Ele descobriu que, assim como muitos animais, o ser humano detecta as cores logo na primeira camada do córtex cerebral, a primeira a receber a informação dos nervos ópticos.

“A cor é um produto do sistema nervoso, um ‘pigmento’ da nossa imaginação. As cores que vemos têm mais a ver com o material de que as coisas são feitas do que propriamente com a luz refletida por elas”, diz Kentridge.

Ele comandou uma série de experiências com um paciente que sofreu danos na região do cérebro responsável pela operação. E descobriu que um passo fundamental para reconhecer as cores é identificar o contraste com objetos próximos.

“Se alguém, por causa de um dano cerebral, perder a capacidade de identificar o contraste, passará a achar que as cores mudam o tempo todo. Qualquer mudança de luz causa um efeito drástico”, explica o cientista.

Existem duas conclusões importantes. A primeira é que nós estamos programados para ver o mundo não como ele é, mas como uma redução, uma simplificação grosseira. É como se passássemos a vida inteira sendo informados sobre a realidade apenas pelo “Jornal Nacional”. E se não fosse assim, talvez não fôssemos capazes de elaborar conceitos, estabelecer definições, pensar.

Isso justifica a tendência geral a querer transformar os assuntos mais complexos num simples contraste entre vermelhos e azuis, um Fla-Flu cromático que molda a percepção e com ela a consciência.

A segunda conclusão é que, se dano cerebral faz as cores mudarem o tempo todo, os anos 70 finalmente fazem sentido. 

Gugleiros (5)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 3/9 - significado da palavra carnívoro
Entra na jaula do tigre que eu explico.

Terça, 4/9 - importância do guardador de rebanhos
Sem ele os carneirinhos vão embora.

Quarta, 5/9 - tigre furioso
Você veio aqui na segunda-feira, não foi?

Quinta, 6/9 - FRASE DITA POR PAVAROTTI
“Ma che bella polpetta!”

Sexta, 7/9 - Análise do conto Rapunzel
A trança é o Id, a torre é o Ego e os espinhos são o Superego. Os rabanetes, às vezes, são apenas rabanetes.

Bestiário (27): Malacochi

O canto do malacochi é o mais belo que existe. Além disso, é de uma complexidade tão grande que pode ser considerado um verdadeiro idioma, com palavras, frases, elementos de significação, figuras de linguagem e até alguma criação poética.

Infelizmente o malacochi é a única ave que só canta em freqüências de ultra-som inaudíveis para o ser humano, o que inviabiliza qualquer tentativa de comunicação entre as duas espécies.

Direto de Praga

Alguns anos atrás alguém escreveu que a internet era a glorificação dos medíocres. O argumento básico: você nunca vai encontrar o blog do Veríssimo, ou o Elio Gaspari dando sua opinião numa lista de discussão. Claro que o tempo se encarregou de derrubar essa idéia.

E, se não faltassem provas, agora Sérgio Sant’anna tem um blog.

Postais do Exílio (20): Jarcuk

O gigantesco tabuleiro de xadrez hoje serve apenas para jogos. Mas já foi bem diferente.

De dez em dez anos, os condenados à morte em Jarcuk e nos burgos próximos eram trazidos ao local e vestidos com roupas brancas e negras. Assumiam as posições das peças no tabuleiro e eram obrigados a seguir o comando de dois enxadristas postados nas torrinhas colocadas atrás das linhas. Todos armados de punhais: quando uma peça tomava outra, o próprio prisioneiro executava o oponente.

Ao fim do jogo, os sobreviventes eram anistiados. Com exceção do rei derrotado, que ainda passava por um mês de humilhação pública no pelourinho, instalado também junto ao tabuleiro. De qualquer forma, os jogos raramente terminavam com mais de cinco “peças” vivas.

O costume cruel foi abolido no século XIX (mas a pena de morte, por enforcamento e depois fuzilamento, se manteve no país até pouco depois da Segunda Guerra Mundial). Dele restam apenas as manchas de sangue nos quadrados de mármore brancos e negros.

Reforma ortográfica

O emprego do trema tem conotações psicológicas: dá uma vaga ilusão de superioridade a quem o usa. Não é que o trema seja inacessível: é que denuncia bom gosto. Embora antigo, não tem ar de obsoleto; apesar das origens, não se tornou anacrônico.
Quando o trema sai de casa, olha-se no espelho e exclama:
— Mulheres, tremai!
As mulheres não tremam. Nem tremem, hoje em dia. Os homens, esses… bem, há exceções. Mas há. Nunca me esqueço, há cerca de três anos, fui ao alfaiate para pagar a confecção duns ternos. Saquei do cheque e escrevi a quantia por extenso: trezentos e cinqüenta cruzeiros. O alfaiate apertou a minha mão efusivamente, me abraçou comovido, seu olhar se desmanchava em gratidão. Fiquei sem entender tanta euforia por causa de um ato de rotina. Afinal eu não cumprira mais do que o meu dever. Fui franco, disse-lhe isso. Mas em seguida, como complemento às medidas da roupa, ele me deu a medida da minha importância:
— Parabéns, doutor! Meus parabéns! Faz muito tempo que eu não via uma pessoa distinta como o senhor, uma pessoa capaz de usar o trema. Isto, sim, é cinqüenta!
Faz tempo que não uso roupa talhada por ele. Mas seu entusiasmo ortográfico — o entusiasmo de um profissional que sabe melhor do que ninguém o que uma pessoa distinta deve usar — serviu para reforçar a minha convicção. Por isso uso trema.

BURNETT, Lago. “O trema não caiu”. In A língua envergonhada e outros escritos sobre comunicação jornalística. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991. Pag. 104. Originalmente publicado no Diário de Notícias, 6/7/71.

Dramatis Personæ (37): Maimônides Ferreira

Vive perto de uma encruzilhada, aonde vai toda sexta-feira de lua cheia. Sempre com a capa preta, o chapéu e a bengala. E quase sempre encontrando alguém. Bancar o capeta é seu ganha-pão.

Passando-se pelo tinhoso, fecha pactos com os desesperados. E consegue bons donativos em troca de suas promessas de poder, amor, riquezas e vinganças.

Prefere quando as pessoas pedem apenas a imortalidade. “Essas nunca voltam para reclamar que não receberam o que queriam”, explica, num sorriso enigmático.

Dizem que há anos ele vendeu a alma em troca da promessa de que nunca faltariam vítimas crédulas para seu golpe.

Gugleiros (4)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 27/8 - palavras com gu
Gumercindo, gurizada e guacamole.

Terça, 28/8 - possibilidade de morrer em marte
Eu diria que é alta.

Quarta, 29/8 - tipos de som que os gatos transmitem
Miau.

Quinta, 30/8 - “símbolos sagrados” golfinhos
Não faço idéia. Eu sigo o Grande Falcão.

Sexta, 31/8 - inferno no pacífico curiosidades
Foi filmado em Airai, no sul da ilha de Babeldaob, em Palau.