Postais do Exílio (15): Gelzid

Há em Gelzid um curioso casarão, maior que todos os outros da cidade e que parece uma colagem de dois edifícios, tamanha é a diferença de arquitetura entre a sua metade esquerda e a direita. E, de fato, originalmente eram duas residências separadas.

Numa das casas viveu em certa época um rapaz; na outra, uma moça. E os dois se apaixonaram para revolta de ambas as famílias, que viviam em pé de guerra.

(Isto foi antes de o Bardo escrever a tragédia dos amantes de Verona; ao que parece, muito antes até de Píramo e Tisbe trocarem confidências pelo buraco de um muro.)

Como não poderia deixar de ser, porém, só a morte dos dois foi capaz de fazer a paz e reconciliar as suas famílias, que decidiram então derrubar as paredes que separavam as duas casas e unificar a propriedade. E uma nova porta principal foi aberta, bem na junção entre os edifícios.

A porta, que se abre em par, tem de cada lado esculpido em relevo o rosto de perfil de um dos amantes. Assim, durante o dia, quando a casa está aberta, eles ficam separados. Só à noite eles podem se beijar, da mesma forma que a escuridão da morte precisou fechar seus olhos para que finalmente se unissem.

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