Dramatis Personæ (206): Maura e Daniel

Ainda na lua-de-mel constataram que o casamento havia sido um erro. Deram entrada no divórcio antes mesmo de voltar para casa. Tudo de forma civilizada, sem brigas. Aliás, não havia motivo para brigar. Apenas não havia motivo para serem um casal.

Todo ano se encontram para comemorar o aniversário de divórcio. Já vão completar 20 anos e prometem uma festa de antibodas para marcar a data.

(A mãe de Daniel já prometeu não chorar e nem dizer à ex-nora o quanto lamenta a separação. O segundo ex-marido de Maura, aquele traste, não foi convidado, é claro.)


Pela inspiração involuntária, obrigado, Viviane.

Rebuliço

hermes.jpgPara essas pessoas, o sr. Chawla respondeu:

— Ele está no serviço público.

Serviço público! As pessoas pensavam nas sestas vespertinas. Em garotos que servem chá, o dia inteiro de cima para baixo com copos de chá com leite soltando vapor. Pensavam em remédios gratuitos no dispensário e pensões. Em tíquetes para comida e telefone. Em ligações de gás que poderiam ser conseguidas tão facilmente. Pensavam em como esse era um país com muitos festivais e feriados. Em como os escritórios do governo fechavam em cada um. Imaginavam um emprego em que, mesmo que o seu chefe se revelasse desagradável, haveria sempre uma porção de gente com quem você poderia gritar, pessoas com quem gritar ainda mais alto do que o seu chefe tinha gritado com você. O varredor ou o contínuo, por exemplo. Você poderia dizer: “Onde está a sua cabeça? Ela caiu no caminho para o trabalho?” Ou: “Cuidado ou lhe darei um chute que vai mandá-lo de Shahkot até a baía de Bengala.” Que prazer seria ter um emprego assim! Realmente, era uma boa coisa ter um filho no governo. As pessoas pensavam no Ministério das Finanças. Da Indústria. Na Administração Florestal e na Previdência Social das Mulheres. No Ministério da Pesca. De Arte e Cultura. No Ministério dos Transportes.

Sampath, no entanto, trabalhando à mesa dos fundos no correio de Shahkot, não se considerava tão fantasticamente afortunado. 

DESAI, Kiran. Rebuliço no pomar das goiabeiras. Trad. Ana Luísa Borges. Record, 2000.

Bestiário (159): Quimíria

A cauda é de tamanduá-bandeira. O focinho é de hiena. As asas são de arara — aliás, as asas, não: só uma, a direita. A esquerda é de libélula. Das patas, uma é de arminho, uma de cágado, uma de elefante, uma de grilo e a última parece também ser de arminho, mas é difícil afirmar com certeza. Um dos olhos é de faisão, o outro de mosca (este, com alguns ocelos de vespa). Os chifres, definitivamente de veado-campeiro, embora nas ramificações apareçam características de cabrito, antílope e escaravelho. Os dentes são de tubarão (arcada inferior) e vaca (arcada superior).

O corpo é humano. Exceto pelos órgãos sexuais, que se parecem com o do narval. Cada pelo, pena e escama que a cobre parece ser de um animal diferente.

Dizem que a quimíria contém em si toda a criação. Dizem que na verdade era o único animal presente na arca de Noé, que aliás não passava de uma canoa.

Postais do Exílio (137): Templo de Hurmidão

As ruínas do templo estavam entre as mais espetaculares do planeta. Hoje, porém, o templo foi reconstruído, e pode ser visto exatamente como era quando foi erguido, milhares de anos atrás.

Uma ruína é um testemunho da ação (quase sempre destrutiva) do tempo. Em Hurmidão, não mais. Não mais os nichos vazios de onde os ídolos de bronze foram roubados nos saques. Não mais as colunas partidas pelo terremoto. Não mais o piso carbonizado pelo incêndio. Não mais as paredes marcadas por tiros e metralhas. Não mais as manchas do vandalismo.

Não mais uma ruína: Hurmidão hoje é, pelo contrário, a ruína de uma ruína.

Biblioteca de Babel (128): Tulcaze

Tulcaze é, ao mesmo tempo, o nome de um povo, de uma língua, um nome próprio e o título de um livro. O único livro escrito em tulcaze, que conta a história de Tulcaze, que fundou a civilização tulcaze.

No auge da civilização (ouso dizer do império) tulcaze, o livro era um extenso tratado que cobria quase todos os aspectos do conhecimento humano. Porém, a cada tulcaze que morria, uma ou mais palavras eram eliminadas da língua (e do livro). Hoje, no último povoado tulcaze, restam pouco mais de cinquenta almas que mal conseguem usar o idioma materno para se comunicar, reservando-o apenas para usos rituais.

Há 13 anos não nascem crianças tulcazes. Acredita-se que Tulcaze, hoje adolescente, será a última testemunha dessa história. Quando morrer, morrerão igualmente o povo, a língua e o livro, que perderá sua última palavra — “Tulcaze”, naturalmente.

Dramatis Personæ (205): Ernesto

Existem dois tipos de relojoeiros: os comuns e Ernesto.

Os comuns fazem o que se espera de um relojoeiro: consertam relógios que estão andando muito rápido ou devagar demais, ajustando-os à marcha correta do tempo. Ernesto não. Ernesto faz o tempo das pessoas se adequar ao relógio que usam.

Mitolorgias (3): Medusa e Narciso

Algumas fontes narram que não foi Perseu, e sim Narciso, o herói enviado para enfrentar Medusa. Com sucesso, de certa forma: pois a górgona, ao ver o mais belo dos mortais, ficou paralisada de emoção; Narciso, porém, ao olhar no fundo dos olhos dela, viu a si mesmo refletido neles (como não poderia deixar de ser) e ficou igualmente petrificado.