Postais do Exílio (138): Paredão de Las Palmas

Sim, é o que você está pensando: no paredão eram fuzilados os inimigos do regime de Las Palmas.

Eram muitos, esses inimigos, e não diminuíam com as sucessivas execuções. Dia após dia algum líder político, sindicalista, poeta ou simplesmente alguém que havia por qualquer motivo desagradado a alguma autoridade era levado ao paredão. Chegou-se ao ponto de qualquer um na rua poder ser levado á toa, apenas porque ninguém ainda havia sido executado naquele dia.

Dia após dia, portanto, uma vida se acabava ali. Depois do fuzilamento, ficavam apenas as suas marcas no muro: os buracos dos tiros, mais as manchas de sangue, pólvora e merda.

Essas marcas aos poucos foram formando um desenho. No início não se distinguia muito bem o quê, mas aos poucos percebeu-se que era uma figura humana. Um dia, uma mancha vermelho-escura completou o que já não se podia negar. Era um retrato inconfundível do ditador.

Foi o toque final. Naquela mesma noite, um levante popular derrubou o regime.

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Dramatis Personæ (207): Ada

Como guardiã do harém, era responsável por escolher qual dos esposos e concubinos da sultana a atenderia a cada noite.

No início, ainda perguntava o que ela desejava. Mas em pouco tempo aprendeu a interpretar os menores sinais que a soberana emitia ao longo do dia, e a escolher os amantes adequados às suas necessidades. Às vezes um bruto, outras um delicado, raramente um de fôlego muito longo, e para certas ocasiões havia aquele que passava a noite apenas massageando os pés. Aos sábados era comum mandar dois ou três juntos. Qualquer que fosse a escolha, era sempre complementada por instruções e recomendações detalhadas sobre o que fazer naquela noite específica.

Ada foi a maior amante que a sultana conheceu, sem jamais ter tocado o seu corpo.

Era uma vez (8): O mercador e o gênio

Era uma vez um pobre mercador. Um dia, procurando no lixo por alguma coisa que pudesse levar para o mercado da cidade, encontrou uma garrafa velha. Limpou-a, abriu a sua tampa e de dentro dela, no meio de uma nuvem de fumaça, saiu um gênio.

– Saudações, mestre. Tenho o poder de realizar todos os seus desejos, mas uma antiga maldição me prendeu a esta garrafa – ele disse.

O mercador, para testar os poderes do gênio, pediu um saco cheio de moedas de ouro. No mesmo instante viu o seu desejo realizado e, depois de mandar que o gênio voltasse para dentro da garrafa, foi á cidade para gastar seu dinheiro.

Em pouco tempo já havia esbanjado tudo. Abriu outra vez a garrafa, então, e disse ao gênio:

– Será muito trabalhoso ter que ficar fazendo um desejo depois do outro. Quero logo ser imensamente rico e morar na casa mais luxuosa da cidade.

No mesmo intante viu-se transportado aos salões de um palácio, onde vários criados o serviam em meio à abundância de bens.

Passou-se mais algum tempo e o mercador, insatisfeito, voltou a abrir a garrafa, dizendo ao gênio:

– Posso comprar tudo o que quiser, mas descobri que existem coisas que não estão à venda. Quero o poder. Quero ser rei.

Piscou os olhos e, quando os abriu, estava sentado no trono, rodeado por seus ministros, dando ordens e distribuindo sentenças. Não demorou muito, porém, para cobiçar um reino vizinho, ao qual declarou guerra.

Foi uma péssima decisão, pois o inimigo era mais poderoso e sitiou sua capital. Recorreu então mais uma vez ao gênio:

– Os invejosos estão tentando tomar meu reino. Quero que meu exército seja invencível.

Assim se fez, e as suas tropas reverteram a situação, rapidamente subjugando o país vizinho. Vencedor, tomou gosto pela conquista e partiu para novas campanhas, rormando logo um vasto império. Mas ainda era pouco, e demorado.

– Desejo ser imperador de toda a terra, e que todos os reis do mundo me prestem vassalagem – exigiu ao gênio.

Agora então seu palácio se erguia no topo de uma montanha, e dali ele governava todos os homens do mundo. Mesmo assim, um dia entediou-se e convocou de novo o gênio, dizendo:

– Tudo está ao meu alcance, mas não me basta. Quando quero alguma coisa, ainda preciso ordenar, e esperar que seja feita. Isso me irrita. Quero o poder de ter imediatamente tudo o que desejar.

– Então queres ser como eu – observou o gênio.

– Sim! Quero ser como tu – ele respondeu.

No mesmo instante o gênio capturou seu mestre e trancou-o consigo dentro da garrafa, onde ele se tornou igualmente poderoso e prisioneiro da mesma maldição. Dizem os sábios que os dois, de fato, sempre foram um só.

Dramatis Personæ (206): Maura e Daniel

Ainda na lua-de-mel constataram que o casamento havia sido um erro. Deram entrada no divórcio antes mesmo de voltar para casa. Tudo de forma civilizada, sem brigas. Aliás, não havia motivo para brigar. Apenas não havia motivo para serem um casal.

Todo ano se encontram para comemorar o aniversário de divórcio. Já vão completar 20 anos e prometem uma festa de antibodas para marcar a data.

(A mãe de Daniel já prometeu não chorar e nem dizer à ex-nora o quanto lamenta a separação. O segundo ex-marido de Maura, aquele traste, não foi convidado, é claro.)


Pela inspiração involuntária, obrigado, Viviane.

Rebuliço

hermes.jpgPara essas pessoas, o sr. Chawla respondeu:

— Ele está no serviço público.

Serviço público! As pessoas pensavam nas sestas vespertinas. Em garotos que servem chá, o dia inteiro de cima para baixo com copos de chá com leite soltando vapor. Pensavam em remédios gratuitos no dispensário e pensões. Em tíquetes para comida e telefone. Em ligações de gás que poderiam ser conseguidas tão facilmente. Pensavam em como esse era um país com muitos festivais e feriados. Em como os escritórios do governo fechavam em cada um. Imaginavam um emprego em que, mesmo que o seu chefe se revelasse desagradável, haveria sempre uma porção de gente com quem você poderia gritar, pessoas com quem gritar ainda mais alto do que o seu chefe tinha gritado com você. O varredor ou o contínuo, por exemplo. Você poderia dizer: “Onde está a sua cabeça? Ela caiu no caminho para o trabalho?” Ou: “Cuidado ou lhe darei um chute que vai mandá-lo de Shahkot até a baía de Bengala.” Que prazer seria ter um emprego assim! Realmente, era uma boa coisa ter um filho no governo. As pessoas pensavam no Ministério das Finanças. Da Indústria. Na Administração Florestal e na Previdência Social das Mulheres. No Ministério da Pesca. De Arte e Cultura. No Ministério dos Transportes.

Sampath, no entanto, trabalhando à mesa dos fundos no correio de Shahkot, não se considerava tão fantasticamente afortunado. 

DESAI, Kiran. Rebuliço no pomar das goiabeiras. Trad. Ana Luísa Borges. Record, 2000.

Bestiário (159): Quimíria

A cauda é de tamanduá-bandeira. O focinho é de hiena. As asas são de arara — aliás, as asas, não: só uma, a direita. A esquerda é de libélula. Das patas, uma é de arminho, uma de cágado, uma de elefante, uma de grilo e a última parece também ser de arminho, mas é difícil afirmar com certeza. Um dos olhos é de faisão, o outro de mosca (este, com alguns ocelos de vespa). Os chifres, definitivamente de veado-campeiro, embora nas ramificações apareçam características de cabrito, antílope e escaravelho. Os dentes são de tubarão (arcada inferior) e vaca (arcada superior).

O corpo é humano. Exceto pelos órgãos sexuais, que se parecem com o do narval. Cada pelo, pena e escama que a cobre parece ser de um animal diferente.

Dizem que a quimíria contém em si toda a criação. Dizem que na verdade era o único animal presente na arca de Noé, que aliás não passava de uma canoa.

Postais do Exílio (137): Templo de Hurmidão

As ruínas do templo estavam entre as mais espetaculares do planeta. Hoje, porém, o templo foi reconstruído, e pode ser visto exatamente como era quando foi erguido, milhares de anos atrás.

Uma ruína é um testemunho da ação (quase sempre destrutiva) do tempo. Em Hurmidão, não mais. Não mais os nichos vazios de onde os ídolos de bronze foram roubados nos saques. Não mais as colunas partidas pelo terremoto. Não mais o piso carbonizado pelo incêndio. Não mais as paredes marcadas por tiros e metralhas. Não mais as manchas do vandalismo.

Não mais uma ruína: Hurmidão hoje é, pelo contrário, a ruína de uma ruína.