Biblioteca de Babel (127): Doze Contos Inacabados

O que há de mais intrigante nesta coletânea é que todos os contos parecem perfeitamente acabados. Seguem, quase todos, uma estrutura linear, com começo, meio e fim (três deles terminam com a morte do protagonista, outros com alguma forma convincente de fim de jornada). Mesmo os que são menos convencionais levam a algum tipo de conclusão.

Poderia se argumentar que, os fins estando sempre corretos, o que há de inacabado são os inícios. Pelo contrário, cada conto abre com uma frase magistral que já desencadeia a narrativa. Os meios também são primorosos. Seria a escrita? Também não. Cada palavra parece ter sido esculpida com todo o cuidado para encontrar seu lugar no texto.

Ao que parece, os contos foram dados como inacabados porque estão até hoje à espera de uma leitura que os complete.

Biografemas (13): Robert Johnson

Sim, o pacto existiu. Mas não da forma como se conta. Na verdade, foi exatamente ao contrário.

Quando chegou àquela encruzilhada, Robert Johnson já era o melhor guitarrista da história do blues. E foi justamente para aprender seus segredos que o diabo lhe propôs um acordo. Em troca, oferecia o sucesso. Não como músico, que já estava assegurado, mas com as mulheres.

Johnson aceitou. Pouco depois, foi morto por um marido traído e ciumento. Porque esses pactos sempre terminam assim.

O diabo, dizem, aprendeu a tocar o blues, e usou o domínio que teve sobre o gênero para garantir que nunca mais ninguém tocasse como Robert Johnson.

Postais do Exílio (136): Delta do Arunã

O rio Arunã sempre foi considerado uma divindade. Uma deusa da fertilidade. E seu delta tem a forma do púbis divino, que intumesce na temporada de chuvas. Cada um dos incontáveis canais do delta é um dos pentelhos sagrados de Arunã.

São comuns os casos de desaparecimento no delta. E também os afogamentos.

 

Bestiário (158): Onça imprecisa

Quem vê a onça imprecisa nunca tem muita certeza do que viu. Seus contornos são indefinidos: às vezes parece que acaba aqui, às vezes parece que continua lá. Não é surpresa que poucos caçadores possam se gabar de algum dia ter conseguido acertar uma delas (e os que o fazem, em geral passam por mentirosos).

Em certas ocasiões, a onça imprecisa milagrosamente perde a sua fluidez e surge sólida, insofismável. Mas então, quando a gente chega perto para conferir, descobre que já não é mais onça, é tamanduá, capivara ou até teiú.

A verdade é que da onça imprecisa ninguém escapa se ela não quiser. Por sorte, seus desejos também são inconstantes.

Bestiário (157): Zuctlan

Da mesma forma que o papagaio, a cacatua e algumas variedades de morcegos imitam a voz humana, o zuctlan é capaz de imitar pensamentos.

Husserl, ao que parece, tinha um zuctlan, que de tanto emular a lógica transcendental do seu dono, chegou a ser melhor que o original. Mas de forma geral o zuctlan prefere imitar pensamentos mais simples, adaptando-se muito bem a think tanks liberais, por exemplo.

Conta-se que no reinado do imperador Huītzilihhuitl (1396-1417), para estimular a diversidade de opiniões no Grande Conselho, havia sempre um zuctlan nas reuniões. Se o animal, exposto a ideias divergentes e conflitantes, apresentasse sinais de sofrimento interno, tudo estava bem. Se, reforçado por uma unanimidade cega, se mostrasse forte e bem disposto, os conselheiros eram castigados.

Postais do Exílio (135): Farol de Mussar

O Farol de Mussar jamais teve uma lâmpada. Seria inútil. Por mais potente que fosse, nenhuma fonte de luz seria capaz de atravessar o nevoeiro que cobre aquela região quase permanentemente. Em vez disso, é um farol sonoro. A cada meia hora, emite uma sirene que alerta os navegantes para a proximidade da costa.

Atualmente, o serviço é feito com auxílio de alto-falantes e um sistema de som programado eletronicamente. Quando o farol foi construído, porém, era preciso soprar um corne que subia em espiral da base da construção até o seu topo, a 22 metros. Os faroleiros, então, eram escolhidos especialmente pelo seu fôlego.

Dramatis Personæ (204): Augusto, o metamante

Começou pela cartomancia, mas em pouco tempo aprendeu diversas outras artes divinatórias. Aprendeu a ler o futuro nos astros, nas folhas de chá, no voo dos pássaros, nas entranhas dos animais, nas linhas da mão, nas varetas do I Ching, nos búzios, no movimento das formigas, no Tarô, na bola de cristal. Jamais conseguiu encontrar, porém, uma técnica que fosse inteiramente confiável.

Hoje, lê o futuro pelas suas próprias escolhas. Se em dada situação opta pela aurospicina seguida de rabdomancia, por exemplo, isso é um claro indício de que o momento é favorável a rupturas radicais, e provavelmente também de que vai chover. Cor: turquesa; número: 17.