Bestiário (159): Quimíria

A cauda é de tamanduá-bandeira. O focinho é de hiena. As asas são de arara — aliás, as asas, não: só uma, a direita. A esquerda é de libélula. Das patas, uma é de arminho, uma de cágado, uma de elefante, uma de grilo e a última parece também ser de arminho, mas é difícil afirmar com certeza. Um dos olhos é de faisão, o outro de mosca (este, com alguns ocelos de vespa). Os chifres, definitivamente de veado-campeiro, embora nas ramificações apareçam características de cabrito, antílope e escaravelho. Os dentes são de tubarão (arcada inferior) e vaca (arcada superior).

O corpo é humano. Exceto pelos órgãos sexuais, que se parecem com o do narval. Cada pelo, pena e escama que a cobre parece ser de um animal diferente.

Dizem que a quimíria contém em si toda a criação. Dizem que na verdade era o único animal presente na arca de Noé, que aliás não passava de uma canoa.

Postais do Exílio (137): Templo de Hurmidão

As ruínas do templo estavam entre as mais espetaculares do planeta. Hoje, porém, o templo foi reconstruído, e pode ser visto exatamente como era quando foi erguido, milhares de anos atrás.

Uma ruína é um testemunho da ação (quase sempre destrutiva) do tempo. Em Hurmidão, não mais. Não mais os nichos vazios de onde os ídolos de bronze foram roubados nos saques. Não mais as colunas partidas pelo terremoto. Não mais o piso carbonizado pelo incêndio. Não mais as paredes marcadas por tiros e metralhas. Não mais as manchas do vandalismo.

Não mais uma ruína: Hurmidão hoje é, pelo contrário, a ruína de uma ruína.

Biblioteca de Babel (128): Tulcaze

Tulcaze é, ao mesmo tempo, o nome de um povo, de uma língua, um nome próprio e o título de um livro. O único livro escrito em tulcaze, que conta a história de Tulcaze, que fundou a civilização tulcaze.

No auge da civilização (ouso dizer do império) tulcaze, o livro era um extenso tratado que cobria quase todos os aspectos do conhecimento humano. Porém, a cada tulcaze que morria, uma ou mais palavras eram eliminadas da língua (e do livro). Hoje, no último povoado tulcaze, restam pouco mais de cinquenta almas que mal conseguem usar o idioma materno para se comunicar, reservando-o apenas para usos rituais.

Há 13 anos não nascem crianças tulcazes. Acredita-se que Tulcaze, hoje adolescente, será a última testemunha dessa história. Quando morrer, morrerão igualmente o povo, a língua e o livro, que perderá sua última palavra — “Tulcaze”, naturalmente.

Dramatis Personæ (205): Ernesto

Existem dois tipos de relojoeiros: os comuns e Ernesto.

Os comuns fazem o que se espera de um relojoeiro: consertam relógios que estão andando muito rápido ou devagar demais, ajustando-os à marcha correta do tempo. Ernesto não. Ernesto faz o tempo das pessoas se adequar ao relógio que usam.

Mitolorgias (3): Medusa e Narciso

Algumas fontes narram que não foi Perseu, e sim Narciso, o herói enviado para enfrentar Medusa. Com sucesso, de certa forma: pois a górgona, ao ver o mais belo dos mortais, ficou paralisada de emoção; Narciso, porém, ao olhar no fundo dos olhos dela, viu a si mesmo refletido neles (como não poderia deixar de ser) e ficou igualmente petrificado.

Biblioteca de Babel (127): Doze Contos Inacabados

O que há de mais intrigante nesta coletânea é que todos os contos parecem perfeitamente acabados. Seguem, quase todos, uma estrutura linear, com começo, meio e fim (três deles terminam com a morte do protagonista, outros com alguma forma convincente de fim de jornada). Mesmo os que são menos convencionais levam a algum tipo de conclusão.

Poderia se argumentar que, os fins estando sempre corretos, o que há de inacabado são os inícios. Pelo contrário, cada conto abre com uma frase magistral que já desencadeia a narrativa. Os meios também são primorosos. Seria a escrita? Também não. Cada palavra parece ter sido esculpida com todo o cuidado para encontrar seu lugar no texto.

Ao que parece, os contos foram dados como inacabados porque estão até hoje à espera de uma leitura que os complete.

Biografemas (13): Robert Johnson

Sim, o pacto existiu. Mas não da forma como se conta. Na verdade, foi exatamente ao contrário.

Quando chegou àquela encruzilhada, Robert Johnson já era o melhor guitarrista da história do blues. E foi justamente para aprender seus segredos que o diabo lhe propôs um acordo. Em troca, oferecia o sucesso. Não como músico, que já estava assegurado, mas com as mulheres.

Johnson aceitou. Pouco depois, foi morto por um marido traído e ciumento. Porque esses pactos sempre terminam assim.

O diabo, dizem, aprendeu a tocar o blues, e usou o domínio que teve sobre o gênero para garantir que nunca mais ninguém tocasse como Robert Johnson.