Você se esforça para dominar toda a arte da papelada. Você decifra os códigos secretos dos formulários, dos modelos de ofício, dos memorandos. Você identifica um processo arquivado pelo cheiro. Você carimba e numera as folhas sem sequer olhar. Você acredita que se tornou um verdadeiro burocrata.
Então, quando pede financiamento no banco, descobre que precisa de certidão de nascimento atualizada e declaração negativa de união estável. E reconhece que ainda tem muito o que aprender com os mestres.
É sempre uma alegria ver uma nova turma de concursados assumindo seus postos. A empolgação de quem inicia uma nova carreira. O brilho em seus olhos sendo embaçado pelo mar de papéis a que vão sendo apresentados. A confusão diante do labirinto de siglas e procedimentos. A incredulidade com que reagem aos problemas que apresentamos.
Se existe um deus dos burocratas, eu peço a ele que traga novos servidores todos os anos.
— Quantos funcionários públicos são necessários para trocar uma lâmpada?
— Espera. Deixa eu contar. Um pra constatar que a lâmpada queimou, um para solicitar a troca, um para autorizar a troca, um para chancelar a solicitação, um para levar a solicitação até o Departamento de Lâmpadas, um para protoc…
— Nada disso, basta um. Ele escreve um relatório dizendo “certifico que nesta data a lâmpada foi trocada” e oficialmente está resolvido.
O sinal de que a catraca de entrada se torna um problema na sua vida é quando o ato de esfregar o dedo na roupa para limpar a digital e passar pelo sensor biométrico fica automático e você se pega fazendo isso quando vai passar na roleta do metrô.
Podia ser pior. Eu podia estar preenchendo requisição de café da manhã em casa.
Procedeu-se na última segunda-feira à instalação de bandeirolas azuis nos corredores da repartição, conforme estabelecido pela Lei 7467563748586, art. 157, § 47, item XVIII, alínea F, que dispõe, verbis:
Todos os corredores deverão contar com bandeirolas azuis.
Encerrado o procedimento, encaminhou-se memorando ao Departamento de Bandeirolas, solicitando a aprovação. Em resposta, o Departamento de Bandeirolas trocou as bandeirolas azuis que haviam sido instaladas por outras da cor vermelha, e enviou memorando acompanhado de parecer segundo o qual o legislador, ao especificar bandeirolas azuis, na verdade quis dizer vermelhas.
Diante do exposto, este Departamento houve por bem pintar de azul um dos lados das bandeirolas vermelhas até que seja aprovada Resolução determinando a cor a ser adotada.
Dificuldade
O Departamento de Caça a Predadores está muito ocupado.
Alternativa
Amarrar um guizo no pescoço da onça, para sabermos quando ela se aproxima.
Objeções
1 – Não é nossa função amarrar guizos em pescoços de onças (checar regimento interno); 2 – Se fizermos isso, o Departamento de Caça a Predadores vai achar que o problema está resolvido e nunca vai caçar a onça.
O que fazemos
Criamos um novo e aperfeiçoado sistema de rotas de fuga.
Resultado
Redução de 10% no número de macacos capturados pela onça. Sucesso.
De todos os (muitos) carimbos com que trabalho, o mais enigmático é, sem dúvida, o que diz “EM BRANCO”. Nunca entendi para que serve.
Que ignorante, vocês dirão. É óbvio que ele serve para dizer que aquele papel está em branco. E que, se não estiver, é porque alguma coisa foi escrita depois de a folha ser anexada ao processo. Faz sentido.
Tudo bem. Mas e se alguém, por engano ou má-fé, carimbar “EM BRANCO” numa folha que não está em branco? O seu conteúdo é automaticamente anulado? Como garantir que aquela folha que hoje está em branco não será modificada por alguém que, mais tarde, resolvar impugnar o carimbo?
Algum processualista deve ser capaz de me explicar isso. Mas a dúvida ficou ainda mais grave na semana passada, quando eu carimbei por engano uma folha em branco que já estava carimbada.
Reparem no paradoxo. O segundo carimbo atesta que a folha estava em branco. Assim, anula o primeiro. E, portanto, diz que havia algum conteúdo ali.
É por isso que fiquei aliviado ontem, quando o carimbo de “EM BRANCO” quebrou. Você tenta carimbar e não aparece nada. Fica em branco. Deve ser o primeiro carimbo metalingüístico na história da burocracia brasileira.
É natural que a primeira avaliação de desempenho provoque um friozinho na barriga. E um sentimento de alívio depois de passar por ela — e bem. Mas depois vem a constatação de que, por melhor que você tenha se saído, ainda não passou do primeiro degrau na sua escalada.
Porque a verdadeira medida de poder e prestígio não está no valor (ou mesmo no percentual) da sua Gratificação de Desempenho. Nem nos cargos e suas siglas esotéricas. Há coisas muito mais importantes. Coisas que você só aprende a perceber (e valorizar) quando entra para o serviço público.
Não se engane: o real parâmetro de poder e prestígio está nos perfuradores de papel.
O meu, por exemplo. É pequeno, daqueles que furam apenas meia dúzia de folhas de cada vez. No máximo, oito. Oito folhas! Não é nada num processo. O que fazer quando chegam aquelas cópias de autos com dezenas de documentos anexos? Ainda por cima, está velhinho e não funciona muito bem. O furo de cima sai certinho, mas o de baixo… Tem que ficar apertando e reapertando para ter certeza de que os papéis vão sair prontos para serem arquivados.
Mas basta olhar para a mesa do lado e ele está lá. Um legítimo 565000 Maped. Prata! Um verdadeiro rolls-royce dos perfuradores. Cento e cinqüenta folhas, sem nenhum esforço — eu aposto que a lâmina é de liga de titânio.
Por enquanto, só me resta suspirar. Mas chefias vão e vêm, cargos de confiança mudam, a maré vira, e um dia aquela mesa pode ficar vazia.
E, como não poderia deixar de ser, recebi um link para o tal vídeo comparando a burocracia japonesa com a brasileira. Quem é a melhor? Prace your bets NOW!
Só uma dica: do outro lado do mundo, são séculos de tradição de funcionalismo sob o comando da Casa Imperial.
Tudo bem. Mas o que inicialmente parece um desprestígio para o funcionalismo nacional é apenas uma prova de como somos capazes de nos virar mesmo sem as mesmas condições materiais. Ou alguém acha que meu carimbo agüenta tantas carimbadas sem ter que voltar na almofada de tinta?
Participar desses eventos é bom porque você entra em contato com as novidades do mercado, as tendências, essas coisas todas. Eu, por exemplo, descobri o pão-de-queijo no palito.
Vamos repetir para não haver engano: pão-de-queijo no palito. É. Na sorveteria. Assim:
Depois disso você vê a moça, provavelmente gaúcha, dirigindo seu carro usando somente a mão esquerda, porque a direita estava ocupada segurando uma cuia de chimarrão. Na Rua Augusta. E você pensa: ela está rigorosamente dentro da lei, porque afinal aquilo não é um telefone celular, e sim uma cuia de chimarrão.
A caminho de Congonhas, durante o engarrafamento regulamentar, você descobre que está a seis graus de separação de Osama bin Laden. E não consegue deixar de pensar nisso no vôo de volta.
Primeiro dia de volta à agência, curso de redação de relatórios e pareceres. O professor, na aula de abertura, vai listando os princípios básicos: clareza, concisão, objetividade, frases curtas, palavras simples. Você descobre que já estudou isso na faculdade de Comunicação. E começa a achar que redação de documentos oficiais pode ser tão simples quanto a de textos jornalísticos.
Então você se dá conta de que o que aprendeu nas aulas nunca foi exatamente posto em prática nas redações onde trabalhou. E que não há motivo para no serviço público ser diferente. Pelo menos não tem pescoção.
Três dias longe de processos, memorandos, ofícios e despachos. Até sexta-feira estou no Forum Brasil – Mercado Internacional de Televisão, em São Paulo. Semana que vem, o blog e o burocrata voltam à programação normal.
E ao relatório de viagem, é claro. Com todas as comprovações de despesas e certificados de participação.
And they say
this boy’s born to be a bureaucrat
born to be all obsessive and snotty
I made my friends and relations fill long applications
to get into my tenth birthday party
A Matemática é uma coisa que existe, como diria a Telinha. Você tem uma pilha com 86 pastas de processo, outra com 86 relatórios, outra com 86 cópias da defesa do autuado, e mais uma com 86 ofícios. Você começa a juntar um item de cada e no fim não fica nenhum processo, relatório, defesa ou ofício sobrando. Ainda bem que existe a Matemática.
Outra coisa fantástica é o Eterno Retorno. Você monta uma pilha de solicitações de abertura de processo, cada uma com um monte de papéis presos por clipes. Elas descem para o Protocolo e, quando voltam, cada uma dentro de sua pastinha, você pode tirar todos aqueles clipes que não precisam mais ficar ali. Então, às vezes a sua caixinha de clipes está transbordando, e outras vezes não tem nenhum. Mas eles sempre voltam. O importante é que eles circulem. É o fluxo vital, como no “Rei Leão”. Hakuna matata.
Ainda vou desenvolver um sistema filosófico, ou pelo menos um método de auto-ajuda, baseado nas verdades sobre a vida que aprendi no serviço público. Algo na linha “O monge e o burocrata”.
Não li a revista, mas a capa eu garanto que é mentirosa. Aquela banca que aparece na calçada da Graça Aranha não é de camelô de DVD pirata: é do vendedor de livros de segunda mão. Tem saldos de R$ 2 e outro dia me vendeu “The short stories of F. Scott Fitzgerald” (Scribners, capa dura, 775 páginas) por R$ 5.
Enfim, já começo a achar que qualquer revista que tenha o verbo “ver” no nome merece suspeita.
O macaco do chão passa a banana para o macaco do galho de baixo. O macaco do galho de baixo passa a banana para o macaco do galho do meio. O macaco do galho do meio passa a banana para o macaco do galho de cima. Aí o macaco do galho de cima diz:
— Não pode. Está de cabeça para baixo.
E a banana volta para o macaco do chão. Ele não entende muito bem qual é a diferença entre uma banana de cabeça pra cima e uma banana de cabeça pra baixo, mas vira mesmo assim. E, como o macaco do galho de cima estava passando por ali naquele momento, aproveita e entrega:
— Taqui, ó, de cabeça para cima.
Mas o macaco do galho de cima responde:
— Entrega para o macaco do galho de baixo, que ele dá para o macacao do galho do meio, que passa para mim.
Lembro dos primeiros ofícios que carimbei. Eram carimbadas tímidas, hesitantes, próprias de quem está apenas começando. Ainda estou longe do nível que pretendo um dia alcançar, mas já melhorei muito.
Você reconhece um bom burocrata pela forma como ele carimba seus papéis. As marcas são inconfundíveis: firmes, decididas, sem um pingo de tibieza. Quand encontrar um carimbo tão preciso que seja impossível distingui-lo de um timbre impresso, tenha a certeza de estar diante do trabalho de um verdadeiro profissional.
(Hoje foram 293 folhas carimbadas e assinadas só num processo. Eu, o matador de árvores. Ou fico musculoso nos dedos ou ainda pego uma LER.)
Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.
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