Arquivo da categoria: Vida de barnabé

Repartição Blues

hermes.jpg – Essa empresa fechou. E agora, arquiva o processo?
– Não pode. Tem que ver quem assumiu a responsabilidade.
– Como faz isso?
– Olha o distrato.
– Já olhei, só diz que Fulano fica com a guarda dos livros. E agora?
– Não sei. Não entendo muito de distratos.
– Nem eu. Só entendo de maus-tratos, sofri muitos nesta vida.

(Segunda-feira, cada ato administrativo é um drama.)

Discutindo a regulação

hermes.jpg – Temos que ver quais são os critérios de rejeição.
– Pois é. Pra mim, se tiver erro, tem que rejeitar.
– Mas não pode ser assim. Tem que ver qual é o tipo de erro. Dentro de uma certa margem, dá para aceitar e corrigir mais para a frente.
– Eu sou contra. A obrigação é vir sem erro.
– Se você insistir nisso, nunca vai ter nada. Precisa baixar o nível de exigência.

E a essa altura do diálogo eu já não sabia mais se a reunião era sobre normas administrativas ou sobre relacionamentos. Acho que no fundo deve ser a mesma coisa.

Discutindo o papel do Estado

papel

hermes.jpg – Acho que esse novo papel não é recomendável para líquidos quentes.
– Tem razão. Não podemos aquecer o mercado.
– Aí fica a questão: se é pequeno para água e inadequado para café, o papel da agência fica reduzido.
– De fato. Onde pode atuar, é pequeno para a demanda.
– Ainda corre o risco de se queimar.
– Ou pior, de molhar a mão do funcionário.
– Aí o papel vai pro ralo!

(Obrigado, Leandro!)

Noite na repartição

hermes.jpg O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Papel,
respiro-te na noite de meu quarto,
no sabão passas a meu corpo, na água te bebo.
Até quando, sim, até quando
te provarei por única ambrosia?
Eu te amo e tu me destróis,
abraço-te e me rasgas,
beijo-te, amo-te, detesto-te, preciso de ti, papel, papel, papel!
Ingrato, lês em mim sem me decifrares.
O corpo de meu filho estava amortalhado em
papel,
em papel dormiam as roupas e brinquedos, em papel os doces
do casamento. Em grandes pastas os rios, os caminhos
se deixam viajar, e a diligência roda
num chão fofo, azul e branco, de papel escrito.
Basta!
Quero carne, frutas, vida acesa,
quero rolar em fêmeas, ir ao mercado, ao Araguaia, ao amor.
Quero pegar em mão de gente, ver corpo de gente,
falar lingua de gente, obliviar os códigos,
quero matar o DASP, quero incinerar os arquivos de amianto.
Sou um homem, ou pelo menos quero ser um deles!

O PAPEL:
Tu te queixas…
Distrais-te na queixa e a mágoa que exalas
é perfume que te unge, flor que te acarinha.
Dissolves-te na queixa, e tornado incenso, halo, paz
te sentes bem feliz enquanto eu sem consolo
espero tua brutalidade
sem a qual não vivo nem sou.
Teu escravo, isto sim, tua coisa calada,
teu servo branco, tapete onde passeias e compões.
Tu me fazes sofrer, bicho implacável mais que a onça
o é para o galho que pisa.
Por que não sou sem ti? Por que não existo, como as árvores,
por conta própria?
Sou apenas papel, e teu misterioso poder
me oprime e suja.
E te revoltas…
Quisera dizer-te nomes feios independente de tua mão.
Que as palavras brotassem em mim, formigas no tronco,
moscas no ar; viessem para fora em caracteres ásperos,
crescessem, casas e exércitos, e te esmagassem.
Homenzinho porco, vilão amarelo e cardíaco!
(Avança para o burocrata, que se protege atrás da porta.)

A PORTA:
De tanto abrir e fechar perdi a vergonha.
Estou exausta, cética, arruinada.
Discussões não adiantam, porta é porta.
Perdi também a fé, e por economia
irão, quem sabe, me transformar em janela
de onde a virgem
enfrenta a noite
e suspira.
Seu ai de dentifrício americano cortará o céu
e me salvará.
Talvez me tornem ainda gaveta de segredos,
bolsa, calça de mulher, carteira de identidade,
simples alecrim, alga ou pedra.
Sim: é melhor pedra.
Dói nos outros, em si não.
Uma pedra no coração.

A ARANHA:
Chega!
Espero que não me queiras nascer um simples vaga-lume.
Fica quieta, me deixa subir
e fazer no teto um lustre, uma rosa.
Sou aranha-tatanha, preciso viver.
A vida é dura, os corvos não esperam,
ouço os sinos da noite, vejo os funerais,
me sinto viúva, regresso à Inglaterra,
a aranha é o mais triste dos seres vivos.

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Depois de mim, é óbvio.
Sou o número um – o triste dos tristíssimos.
A outros o privilégio
de embriagar-se. Non possumus.

A GARRAFA DE UÍSQUE:
Não pode?

O GARRAFÃO DE CACHAÇA:
Não pode por quê?

O COQUETEL
Experimenta. Sou doce. Sou seco.

TODOS OS ALCOÓIS:
– Me prova! me prova!
É a festa do rei!
É de graça! de graça!
Me bebe! me bebe!

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Mas se eu não sei beber. Nunca aprendi.

O PAPEL:
Ele não sabe que o artigo 14
faculta pileques de gim e conhaque;
mal sabe ele que o artigo 18
autoriza porres até de absinto;
como ignora que o artigo 40
manda beber fogo, cicuta, querosene;
que por motivo de força maior
cobre derretido se pode sorver;
se pode chegar ébrio na repartição,
se pode insultar o ícone da parede,
encher de vermute o tinteiro pálido,
ensopar em genebra velhos decretos
e nos casos tais e em certas condições…
Ele não sabe.

A TRAÇA:
Que burro.

OS ALCOÓIS:
Sua alma sua palma
seu tédio seu epicédio
sua ftaqueza sua condenação.
Somos o cristal, o mito, a estrela,
em nós o mundo recomeça,
as contradições beijam-se a boca,
o espesso conduz ao sutil.
Somos a essência, o logos, o poema.
Brandy anisette kümmel nuvens-azuis
cascata de palavras…

A ARANHA:
Não me interessa.

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Para beber é preciso amar.
Sinto-me tarde para aprender.

O PAPEL:
Ele não sabe que a paixão amor
segundo reza o artigo 90…

A TRAÇA:
É uma zebra.

O TELEFONE:
Amor?
Através de mim os corpos se amam,
alguns se falam em silêncio,
outros chamam e não agüentam
o peso e o amargor da voz.
Inventaram-me para negócios,
casos de doença e talvez de guerra.
Mas fui derivando para o amor.
Como sofro! Todas as dores
escorrem pelo bocal,
deixam apenas saliva…
Cuspo de amor fingindo lágrimas.

A TRAÇA:
Namorar na hora do expediente!

O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Não resolve. Nada resolve.
O mesmo revólver resolverá?
Amor e morte são certidões,
fichas…

A TRAÇA:
Despachos interlocutórios.

A ARANHA:
Lavrados na minha teia.

AVASSOURA ELÉTRICA:
Senhores deputados, desculpem. Sinto que é hora de varrer.
(Põe-se a varrer furiosamente, a porta cai com um gemido, as garrafas
partem-se, escorrem líquidos de oitenta cores. O oficial administrativo
tira os processos da mesa da direita, jogando fora o processo de cima e
colocando os demais na mesa da esquerda. Em seguida, retira-os desta
última e volta a depositá-los na mesa da direita, sempre atirando fora o
volume que estiver por cima. E assim infinitamente. Do garrafão de
cachaça desprende-se uma pomba, e paira no meio da sala, banhada em
luz macia.)

A POMBA:
Papel, homem, bichos, coisas, calai-vos.
Trago uma palavra quase de amor, palavra de perdão.
Quero que vos junteis e compreendais a vida.
Por que sofrerás sempre, homem, pelo papel que adoras?
A carta, o oficio, o telegrama têm suas secretas consolações.
Confissões dificeis pedem folha branca.
Não grites, não suspires, não te mates: escreve.
Escreve romances, relatórios, cartas de suicídio, exposições de
motivos,
mas escreve. Não te rendas ao inimigo. Escreve memórias, faturas.
E por que desprezas o homem, papel, se ele te fecunda com
dedos sujos mas dolorosos?
Pensa na doçura das palavras. Pensa na dureza das palavras.
Pensa no mundo das palavras. Que febre te comunicam. Que
riqueza.
Mancha de tinta ou gordura, em todo caso mancha de vida.
Passar os dedos no rosto branco… não, na superficie branca.
Certos papéis são sensíveis, certos livros nos possuem.
Mas só o homem te compreende. Acostuma-te, beija-o.
Porta decaída, ergue-te, serve aos que passam.
Teu destino é o arco, são as bênçãos e consolações para todos.
Pequena aranha pessimista, sei que também tens direito ao idílio.
Vassoura, traça, regressai ao vosso comportamento essencial.
Telefone, já és poesia.
Preto e patético, fica entre as coisas.
Que cada coisa seja uma coisa bela.

O PAPEL, A VASSOURA, OS PROCESSOS,A PORTA, OS CACOS DE
GARRAFA, surpresos:
Uma coisa bela?

A POMBA, no auge do entusiasmo, tornando-se, de branca, rosada:
Uma coisa bela! uma coisa justa!

A TRAÇA:
Precisarei adaptar-me…
Só roerei belas caligrafias.

CORO EM TORNO DO OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Uma coisa bela. Uma coisa justa.

O oficial administrativo soergue o busto, suas vestes cinzentas tombam,
aparece de branco, luminoso, ganha subitamente a condição humana:
Uma coisa bela?!..


Carlos Drummond de Andrade. Nunca se pode errar com Drummond. Orgulho e glória do funcionalismo nacional.

143, 144, 145, 146…

hermes.jpg O pessoal com mais tempo de serviço (“idade”, em funcionalês) talvez se lembre de “Quem está guardando essa erva?” (“Who’s minding the mint?”), comédia de 1967 com Milton Berle. Jim Hutton faz o papel de Harry Lucas, um funcionário da casa da moeda americana que enfrenta a dura marcação do seu chefe, Samson Link (David J. Stewart) e por causa de um descuido acaba tendo que imprimir dinheiro às escondidas para cobrir um desfalque.

Logo no começo, Link desconfia (equivocadamente) de que alguma coisa está errada e ordena uma auditoria nos arquivos de Lucas. O auditor responsável não só constata a total lisura do funcionário como elogia seus números, ressaltando como os quatros são desenhados nitidamente diferente dos noves, por exemplo, o que é deveras importante, porque afinal, nove é cinco a mais do que quatro; já alguns outros servidores, aponta (e aqui fica a insinuação de que a crítica é ao próprio Link) são descuidados, fazendo quatros que parecem noves.

Claro, esse filme é do tempo em que relatórios eram feitos na mão. Hoje, trabalhando nos seus computadores (aqui ou nos EUA), ninguém dá mais tanta importância a desenhar quatros que não se confundam com noves. Até cair na sua mão um processo de duzentas páginas que precisam ser carimbadas e numeradas uma a uma.

Lá pela página 143, quando você mesmo não entende que número é aquele que escreveu, vem a sensação de que curso de Caligrafia deveria contar como capacitação.

Estamos de luto

O negócio é que desse jeito vai ficar complicado para cumprir as metas semestrais de bom astral.

É o relatório.

Sistemático

hermes.jpg Ainda na adolescência, você se revolta contra as injustiças, a programação da TV e a aula de Educação Física. Então começa a perceber que existe um padrão, e que os pequenos e grandes problemas do seu cotidiano fazem parte de algo maior. É quando você descobre que a culpa é do Sistema.

Você cresce à base de punk rock, acreditando que precisa derrubar o Sistema. Mais do que isso, que você efetivamente vai derrubar o Sistema.

Você começa a trabalhar, precisa se sustentar, pagar as contas. Quando se dá conta, foi o Sistema que derrubou você.

Você estuda, passa num concurso, toma posse no serviço público. Agora você faz parte do Sistema. Você é o Sistema, de certa forma.

Então um belo dia tudo dá errado. E você descobre que o que realmente atrapalha não é o Sistema. É o sistema, aquele que caiu e que o pessoal da TI não consegue consertar. E você fica xingando quem ou o que quer que tenha derrubado o sistema.