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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Postais do Exílio (57): Museu do Descarte

O museu exibe apenas coisas que foram consideradas não apenas absolutamente inúteis, mas indesejáveis, além de qualquer possibilidade de valor. Nas suas prateleiras estão dejetos, cacos, entulhos, restos. Pelos de gato, jornais de ontem, raspadinhas sem prêmio.

Às vezes algum visitante manifesta interesse por adquirir um dos itens do catálogo, que é cedido na mesma hora, gratuitamente. Os curadores do museu fazem questão de se desfazer o mais rápido possível de qualquer objeto que possa agradar a alguém.

Não há loja de souvenirs no museu.

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Postais do Exílio (56): Katamarana

A atração principal da cidade é um vasto espaço vazio em seu centro.

Mas diga isso a qualquer habitante e é briga na certa. Eles não entendem como os estrangeiros não vêem a magnífica torre que se ergue ali. Se bem que alguns dizem que não é uma torre, é um palácio. Ou um labirinto. Um minarete. Um parque. Um colosso de bronze. Depende de quem fala.

Parece que a estratégia katamaranense é simplesmente atrair pessoas para tentar enxergar alguma coisa naquele vazio. Mais ou menos como as pessoas se esforçavam inutilmente para tentar ver alguma coisa em estereogramas (algumas até acreditavam que conseguiam, da mesma forma que um ou outro turista que vai a Katamarana).

Também há quem diga que ali existe algo de fato, mas que só os katamaranenses conseguem ver.

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Postais do Exílio (55): Marco Zero de Harpáquion

Quando o imperador Ariu III, o Magnânimo, mandou erguer a sua nova capital, escolheu o ponto que era o centro de seu império. Os geógrafos da corte foram convocados para calcular o Marco Zero, em torno do qual seria construída a cidade.

Seria. Mas Ariu III não resistiu ao avanço de Felipe II da Macedônia, e a cidade de Harpáquion não chegou a sair dos planos de seus arquitetos.

Somente foi erguido o obelisco do Marco Zero. Não chegou a ser o centro de uma cidade nem de um império, mas à sua volta ainda foi desenhado um mapa do mundo conhecido, incluindo a então recém-descoberta ilha de Guam e o arquipélago de Atarath, que possivelmente reunia os últimos restos de Atlântida.

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Postais do Exílio (54): Vila de N’mbaomba

É o centro histórico da atual cidade de al-Buhib. A vila original foi inteiramente construída dentro de um único baobá, aparentemente o de tronco mais grosso do mundo.

Camelôs vendem aos visitantes miniaturas construídas com madeira que, dizem, foi retirada do interior da árvore quando da construção da vila.

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Postais do Exílio (53): Belvedere de Caona

O Belvedere foi construído muitos anos atrás, quando Caona ainda era um paraíso na terra. Através de suas paredes de vidro podiam-se ver as montanhas, os lagos, as praias, a arquitetura, a arte que encantavam os turistas.

Hoje, com a cidade inteira transformada numa imensa cloaca, o belvedere é a única coisa que restou daquele passado. As vidraças foram recobertas com painéis de fotos, para que o visitante, em vez de contemplar uma Caona degradada, possa vislumbrar o que se perdeu.

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Postais do Exílio (52): Labirinto de Hanamarana

O Labirinto é uma construção modesta: um cubo de oito metros de aresta, paredes caiadas, uma única porta. Que serve de entrada e teoricamente também de saída. Teoricamente, pois não se sabe de pessoa alguma que tenha saído.

Uma teoria diz que, mesmo no reduzido espaço dentro do cubo, há uma arquitetura perversamente elaborada, jogos de espelhos, pinturas em trompe-l’oeil e outras diabolices que fazem quem entra perder-se para sempre. Há também quem aposte que todos que entram conseguem sair, mas passando por um túnel que leva ao outro lado do mundo, e por isso ninguém voltou para dar notícias. Variações desta hipótese sugerem que a saída é numa ilha inóspita no meio do oceano, ou ainda num universo paralelo.

Mas a explicação mais aceita, e que continua atraindo visitantes, é de que a construção é inteiramente vazia. Porém, quem nela entra encontra a paz, a felicidade, a suprema beatitude. Assim, mesmo tendo a porta de entrada (e saída) diante dos olhos, não quer mais voltar. O Labirinto está na mente de cada um.

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Postais do Exílio (51): Teneri

Na cidade-estado de Teneri fica o único túnel em U de todo o mundo.

O túnel começou a ser construído para celebrar a paz com a vizinha e rival Samarânia. Duas galerias foram escavadas na montanha que separa as duas cidades, para a abertura de um túnel duplo que se tornaria o símbolo da união entre os seus povos. Mas um incidente diplomático azedou novamente as relações e as obras foram interrompidas.

Para não desperdiçar o investimento, o governo de Teneri resolveu unir as duas galerias. E assim a cidade passou a contar com um túnel cujas duas bocas estão uma ao lado da outra. Tornou-se um símbolo da inimizade.

Para piorar, Samarânia alega que o ponto extremo da curva se localiza já em seu território. E exige o pagamento de pedágio.

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Postais do Exílio (50): Adenaire

Na Casa de Banhos de Adenaire ficam as fontes termais mais quentes do mundo. Diz a lenda que uma delas brota de um fosso que vem diretamente do Inferno, e que grandes poderes são dados a quem se banhar em suas águas.

Foi por isso que, ao tomar a cidade, o sultão Mustafá III mandou fechar o dito fosso, que considerava uma abominação. Imediatamente, porém, a água começou a jorrar fervente e sulfurosa de todas as fontes da cidade, ameaçando escaldar todos os moradores.

Mustafá III rendeu-se à ameaça e mandou reabrir a fossa infernal. Mas mandou também que grandes fornalhas fossem acesas para aquecer igualmente todas as outras fontes da Casa de Banhos, para confundir todos aqueles que ali entrassem procurando os dons demoníacos.

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Postais do Exílio (49): Ápolis

Antão, patriarca de oito religiões (e de um povo ateu), foi quem descobriu o vale. Ficava entre dois rios, que garantiam a sua fertilidade durante todo o ano. A temperatura era amena no inverno e agradável no verão. Toda espécie de planta crescia nas terras que se espealhavam por onde a vista alcançava.

Fincando seu cajado no solo, Antão decretou:

- Que nenhuma cidade seja erguida nesta terra. Maldito seja quem algum dia habitar aqui.

E assim foi feito. O vale permaneceu intacto para sempre, apenas com o cajado erguido como mastro sem bandeira.

Nenhum dos povos que chamam Antão de “pai” jamais entrou em guerra contra o outro.

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Postais do Exílio (48): Camarcândia

O palácio foi construído pelo sultão Ashamahar III em homenagem à sua noiva. São torres e mais torres de mármore, com cúpulas douradas. Água das montanhas escorre por canaletque percorrem toda a construção, alimentando cascatas em sete jardins que representam os sete reinos oferecidos como dote pela mão da princesa. No pórtico de entrada foram gravados em ouro os versos da mais bela canção de amor já composta, e cuja execução foi proibida daquele dia em diante, tornando-se exclusiva do sultão para cantar à sua amada.

Que, porém, nunca existiu.

Pressionado para casar-se e engendrar herdeiros, Ashamahar III retardou o quanto pôde a sua obrigação. Vendo que não poderia mais escapar, mandou construir Camarcândia e anunciou seu casamento com uma princesa de um reino distante. Da noiva, ninguém jamais viu mais do que a liteira trazida ao palácio, coberta por pesados cortinados.

O palácio foi, até o fim da vida do sultão, o seu álibi, esconderijo e cárcere. Dizem que ali vivia com seu amante, um condutor de elefantes.

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Postais do Exílio (47): Arvena

Em Arvena há uma casa projetada (por Leonardo da Vinci, dizem) para tocar música com a passagem do sol. As barras de metal posicionadas sobre um trilho são aquecidas à medida que a luz solar passa pelas gretas calculadamente construídas, e aos poucos se dilatam até tocar os sinos dispostos ao longo do trilho.

O gênio do arquiteto foi tamanho que fez a casa tocar quatro composições diferentes, uma em cada estação do ano.

Infelizmente, a especulação imobiliária em Arvena levou à construção de vários edifícios em volta da casa musical, que nunca mais tocou suas melodias. Só ao meio-dia se ouve um ré menor, monótono e fúnebre.

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Postais do Exílio (46): Fosso de Tungre

Saram, neto de Nimrod, era ainda uma criança quando foi erguida a Torre de Babel. Quando herdou o trono, resolveu consertar o erro de seu avô, e levar os povos da terra a falar novamente uma única língua.

Se Deus semeou a confusão porque os homens quiseram acançá-lo com uma torre, a única forma de inverter a maldição seria fazer o contrário. E Saram mandou reunir operários de toda a terra, um falante de cada língua que houvesse, para cavar um fosso tão fundo que chegasse aos infernos, onde suas falas seriam reunidas numa só.

O fosso de Tungre falhou tanto quanto a Torre de Babel. Mas, segundo a tradição, foi durante as suas obras que surgiram os primeiros tradutores.

Até hoje, tradutores e intérpretes do mundo todo vão ao local e, simbolicamente, retiram mais um punhado de terra do fundo do fosso.

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Postais do Exílio (45): Templo de Estiagmira

O templo da colina de Estiagmira data do século XIV. Mas a pequena câmara em seu centro, o Santo dos Santos, é muito mais antiga. Tanto que ninguém sabe dizer quando foi construída.

Nos tempos de Alexandre já era antiga a lenda de que quem visitasse a câmara central do templo de Estiagmira veria seu deus, qualquer que fosse. O conquistador, afirmam, olhou para o altar e viu a si mesmo.

Em 1347, o califa Mohammed III assumiu a tarefa de acabar com aquela abominação, onde não só um mas centenas de falsos deuses haviam sido idolatrados. Subiu a colina com seu exército e, enquanto os soldados destruíam tudo, ele próprio foi ao Santo dos Santos. Saiu de lá transtornado. Não vira ídolo algum.

“Se nada existe no Santo dos Santos, não há representação de Alá. Como Alá não pode ser representado, Ele está lá”, afirmou. Em seguida, ordenou que o templo fosse reconstruído, da forma como o conhecemos hoje.

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Postais do Exílio (44): Ilsir

É impossível fazer turismo em Ilsir.

Na cidade mutante, os hotéis da noite para o dia viram estações de trem, os restaurantes se transformam em quartéis e os museus, em hospitais. Qualquer pacote reservado com meses de antecedência por um guia turístico é garantia de um pandemônio. Todos os roteiros são aleatórios.

Mesmo assim, Ilsir recebe muitos visitantes. São aqueles que preferem viajar a fazer turismo. Alguns nunca mais querem sair.

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Postais do Exílio (43): Terzel

E por falar em palácios, no centro de Terzel fica uma construção magnífica, que é a sede do Banco da Felicidade.

O BF é um banco igual a qualquer outro. As pessoas entram, abrem contas, e depositam sua felicidade, para sacar quando for conveniente. Infelizes podem obter empréstimos — mas as garantias exigidas são muitas, e a taxa de juros, exorbitante.

Justamente por isso, ninguém quer correr o risco de precisar de um empréstimo. Assim, a população deposita todas as suas alegrias, esperanças e sonhos nas contas de poupança. Sobra pouco ou quase nada para as necessidades do dia-a-dia.

Graças a uma política de investimentos muito bem planejada pelos diretores do BF, a Felicidade Interna Bruta de Terzel vem crescendo mais de 10% ao ano, e a Felicidade Per Capita já supera a do Butão. Mas o povo anda cada vez mais cabisbaixo.

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Postais do Exílio (42): Mungroe

Vulcões típicos expelem lava, ou seja, fogo e terra. Gêiseres soltam água e ar. O vulcão de Lapindo, na província de indonésia de Sidoarjo, expulsa  lodo, que é basicamente água e terra. Então, deveria existir alguma cratera com emissões de fogo e ar¹.

Existe. Fica no atol de Mungroe, no Pacífico Sul, entre as ilhas Pitcairn e as Gambieri. Uma vez por ano, seus vulcanitos (como são chamados pelos geólogos) entram em erupção, soltando grandes bolhas de gás incandescente. O espetáculo atrai muitos turistas, especialmente da Austrália, apesar do perigo que representa.

Um neozelandês chegou a morrer em 1999, atingido por uma explosão. Um americano, em 2003, sobreviveu mas entrou num estado de alucionação permanente.


¹ Evidentemente, não existem vulcões que soltem misturas de água e fogo, ou de ar e terra. Estes pares, como ensinava o alquimista Du Chesne, são absolutamente incompatíveis.

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Postais do Exílio (41): Templo de Norienna

Quando Aníbal tentou atravessar os Alpes, na sua devastadora campanha em direção a Roma, perdeu boa parte dos elefantes que trouxera de Cartago e que vinham sendo a arma mais eficaz de seu exército. A maioria não sobreviveu a travessia das montanhas.

E houve, também, os que fugiram.

Alguns desceram as montanhas e foram parar na Gália, para surpresa e terror da população, que jamais vira criaturas como aquelas. No entanto, apesar da aparência aterrorante, os paquidermes estavam fracos e cansados, longe de seu ambiente natural, e foram facilmente mortos pelos guerreiros celtas.

No local onde os animais haviam sido vistos pela primeira vez, os druidas fizeram erguer um santuário a uma nova deusa: Norienna, a elefanta, a quem os homens pediam coragem. Porém, o templo foi logo abandonado e hoje é apenas um punhado de ruínas no meio de uma floresta francesa.

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Postais do Exílio (40): Parnire

Deveria ser uma cidade banal, sem qualquer atrativo, tão rasa quanto a imensa planície no meio da qual fora fundada. Mas entrou no mapa — e nesta coleção de postais — graças a um prefeito visionário.

Foi ele quem mandou trazer de localidades distantes milhares de caminhões carregados de pedras e terra. O entulho foi denso despejado e amontoado na entrada da cidade, formando uma verdadeira (ou melhor, falsa) montanha.

E por dentro dela foi aberto o Túnel Mais Desnecessário do Mundo, para orgulho dos parnirenses.

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Postais do Exílio (39): Kamalak

Em Kamalak fica um dos melhores mercados de peixe do mundo. O que não seria de surpreender, a não ser pelo fato de a cidade ficar no meio do deserto, a centenas de léguas de qualquer rio, lago ou litoral.

Mas o deserto salino, como todos sabem, um dia foi o leito do oceano. E sob as camadas de areia ainda é possível encontrar peixes, muitos peixes. Todos deliciosamente conservados pelo sal que os envolve.

Chefs dos restaurantes mais sofisticados do planeta vão a Kamalak para comprar os peixes salgados recém-pescados, antes que a exposição ao ar moderno arruine o seu sabor pré-histórico.

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Postais do Exílio (38): Avençon

Arcos do triunfo existem aos montes. Mas só Avençon conta com um Arco do Fracasso.

O magnífico monumento começou a ser erguido para homenagear a vitória de Napoleão sobre os ingleses e seus aliados, que o prefeito dava como certa. O último tijolo foi posto no fatídico (para o exército francês) dia 18 de junho de 1815.

Um batalhão formado por jovens daquela região, ao voltar de Waterloo, indignou-se ao chegar à cidade. Mas os soldados estropiados não tinham forças sequer para derrubar o Arco — e ele ficou.

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Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.