Arquivos da Categoria: Postais do Exílio

Postais do Exílio (119): A Avenida

A Avenida é o nome da cidade e da sua principal avenida. Aliás, a única. A cidade consiste de uma única via expressa, que se estende por quilômetros em linha reta, com várias pistas de ida e volta.

A Avenida cresce continuamente, nos dois sentidos, mas nunca em transversais. Toda vez que uma casa velha é derrubada surgem especulações de que ali haverá uma esquina, mas logo um novo prédio se ergue ali para aproveitar o terreno bem localizado, de frente para A Avenida.

Há moradores que jamais foram até o fim (ou o começo) da Avenida, passando suas vidas inteiras entre a maternidade do número 2.305 e o asilo do 34.501, por exemplo.

Postais do Exílio (118): Galeria do Futuro

Suas paredes, reservadas para obras que ainda virão a ser produzidas, estão permanentemente vazias. Mesmo assim, atrai grande número de visitantes. Principalmente de críticos, sempre dispostos a discutir o lugar da arte na sociedade.

Postais do Exílio (117): Tatúpolis

O nome é impróprio, mas ficou. Afinal, quem cavou os túneis, covas e câmaras desse complexo não foram tatus. Foram seus antepassados pré-históricos, os gigantescos gliptodontes e pampatérios. Pelo menos é o que dizem os registros fósseis.

Outros registros, os arqueológicos, provam que ali viveram depois seres humanos de origem desconhecida e destino incerto. Habitaram a cidade subterrânea quando os tatuzões a deixaram, decorando as paredes com sua arte sem correspondente com qualquer outra civilização pré-histórica da região, seja mais antiga ou mais moderna.

Apesar da estrutura formidável, ninguém mais quis ocupar aquelas cavernas. Os gliptodontes foram extintos. Os homens-tatus, aparentemente, também. Melhor não arriscar.

Postais do Exílio (116): Prefeitura de Tangreia

Todos os edifícios em Tangreia são inacabados. A maioria foi inaugurada faltando uma pintura, ou com uma parede sem reboco. Outros não tem uma janela. Há portas sem fechadura e tramela. Não era uma questão de preguiça, e sim de tradição. Quase de princípios.

Por isso foi com grande revolta que a população soube que a prefeitura local construiria uma nova sede, que seria aberta apenas depois de inteiramente construída, até o último retoque. Era uma vergonha. Um escândalo. Notícias do rigor nos acabamentos eram discutidas todos os dias nos bares (sem balcão), nas esquinas 9em frente à placa de “em obras”).

No dia da inauguração, um piquete se postou à frente da porta principal. Em vão o prefeito tentou se aproximar para cortar a faixa. Jamais!, bradavam os manifestantes.

A nova sede acabou entrando em funcionamento assim mesmo. No entanto, só é possível entrar pela porta dos fundos. A da frente permanece até hoje lacrada, com a faixa cerimonial intacta.

Postais do Exílio (115): Salão Azul

O Salon Bleu abriu suas portas em Reims, em 9 de agosto de 1945, um dia depois da assinatura do armistício naquela cidade (e em Berlim). Desde então, nunca mais fechou, funcionando 24 horas por dia, todos os dias do ano.

Nunca um baile foi tão festivo quanto o daquela noite de estreia. Por isso, desde então, a orquestra jamais mudou o repertório, tocando apenas os sucessos daquela época: músicas de Glenn Miller, Tommy Dorsey, Benny Goodman, Louis Armstrong.

Há quem diga que o Salão Azul foi destruído por uma bomba deixada por um nazista (ou colaboracionista) recalcitrante, e que todos, músicos e dançarinos, morreram naquela mesma noite de 9 de agosto de 1945, e que sem saber disso permanecem tocando e dançando por toda a eternidade. Questão de ponto de vista. De todo modo explicaria por que o tempo, que afinal não espera por ninguém, ali resolveu parar.

Postais do Exílio (114): Monumento a Você

Você chega ao alto da colina e encontra apenas um pedestal vazio.

Basta puxar uma alavanca para descer uma pequena escada retrátil, que permite subir ao pedestal. Uma vez sobre ele, resta apenas assumir a postura desejada – orador sublime, militar invicto, piedoso mártir. E perceber-se alvo da admiração de toda a cidade lá embaixo.

Mas rápido. Porque a fila na escada já está grande. E aquele pombo está se aproximando perigosamente.

Postais do Exílio (113): Ilha da Ascenção

Fica no Pacífico, algumas centenas de quilômetros a oeste da Ilha de Páscoa, e é ainda menor.

Da mesma forma que a outra, é também ornada de misteriosas esculturas de pedra, feitas não se sabe por quem e deixadas lá não se sabe por quê. Ao contrário dos moais, porém, as esculturas da Ilha da Ascenção não são grandes cabeças. São apenas olhos: gigantescos, arregalados, eternamente contemplando o mar.

Há uma lenda sobre a Ilha de Pentecostes, ainda menor e com grandes de pedra representando imensas pupilas. Mas essa ninguém jamais encontrou.

Postais do Exílio (112): Fonte Panacea

Basta um gole das águas de Panacea para curar qualquer doença do corpo ou do espírito. Infelizmente, o oásis onde ela brota fica no centro do mais inóspito dos desertos, e ninguém jamais conseguiu chegar lá com vida.

Postais do Exílio (111): Ponto do 47-B

O que há de mais marcante no ponto do ônibus 47-B não é a sua arquitetura, que se tornou referência mundial em mobiliário urbano. Também não foram os paineis que o decoram. Tudo isso é relevante, mas não tanto quanto o fato de que a linha 47-B não existe. Quem para no ponto, portanto, fica esperando um ônibus que nunca passará.

Há vários motivos que levam as pessoas ao ponto. Algumas vão pela esperança de que o ônibus, algum dia, apareça. Outras aproveitam a espera para meditar sobre as virtudes da esperança. Já foi um bom local de paquera.

Chegou a haver um grupo que comprou um ônibus e pintou o letreiro 47-B, passando no ponto para levar passageiros estupefatos a destinos aleatórios. Mas isso foi proibido, e reprimido severamente. A espera, assim, passou a ser não somente pelo que não existe mas pelo que não pode existir.

Postais do Exílio (110): Tonkalon

É uma ilha deserta. Porém longe de ser vazia.

Toda vez que alguém responde, numa dessas entrevistas-clichê, qual o livro, disco ou objeto que levaria para uma ilha deserta, a resposta se materializa em Tonkalon. A ilha, desta forma, passou a abrigar uma imensa biblioteca, uma discoteca invejável e um surpreendente sortimento de tralhas em geral.

Ninguém está lá para usufruir disso, no entanto. Se alguém chegar à ilha, ela deixará de ser deserta, e o encanto será desfeito.

Postais do Exílio (109): O Aeroporto no Fim do Mundo

É o único aeroporto que não tem uma porta sequer para saída. E nem para entrada, é claro.

Quem nele desembarca nada pode fazer além de aguardar o próximo voo, em direção a qualquer outro lugar. , enquanto não chega a hora do embarque, aguardar no imenso saguão, entre uma cafeteria e uma filial da La Selva.

Os voos atrasam muito.

Postais do Exílio (108): Gran Cine Riviera

O Gran Cine Riviera passa apenas filmes aleatórios. Quem entra nunca sabe o que será exibido em sua tela. Além disso, ao longo de nove décadas de funcionamento ininterrupto, jamais repetiu um título.

Contam que, em certas ocasiões, quatro pessoas que assistiram juntas a uma mesma sessão saíram jurando que haviam visto filmes diferentes (nenhum deles era “O ano passado em Marienbad”, note-se). E há teorias de que na verdade a fita usada é sempre a mesma, e a percepção dos espectadores é que muda (por isso o Riviera também é chamado de Cine Heráclito). Mas isso são histórias de cinéfilos. Como tal, evidentemente, não merecem crédito. Sequer suspension of disbelief.

Postais do Exílio (107): Herdade do Horror

Como toda mansão mal-assombrada, é cheia de histórias. Algumas delas até falsas.

Hoje em dia, sua fama é terrível a tal ponto que quem cruza seus portões não consegue deixar de pensar o que pode haver de tão assustador ali. Alguns passos adentro e a pessoa começa a imaginar aquilo que mais lhe causaria pavor.

Normalmente, é nessa hora que fogem correndo aos gritos, aumentando ainda mais a reputação da casa.

Postais do Exílio (106): Estádio Municipal de Pelada

A inexistência de qualquer clube de futebol profissional ou mesmo de uma equipe inscrita nas ligas amadoras, fosse na cidade ou nos arredores, não impediu o prefeito de inaugurar com pompa o estádio, em cumprimento de uma promessa de campanha. Mas levou a modificações no projeto.

Como não haveria a possibilidade de jogos oficiais, o estádio foi o primeiro do mundo projetado apenas para receber peladas. O campo é de terra batida, e em declive. Para compensar, o gol do campo de cima é mais largo que o do campo de baixo. Numa das laterais, o campo termina numa mureta, com a qual é permitido tabelar.

O maior problema das peladas disputadas no estádio é a casa vizinha, onde às vezes as bolas vão parar, sendo então diligentemente furadas por uma funcionária da prefeitura, que cumpre a tarefa aos palavrões.

Postais do Exílio (105): Mina de Nada

Todos os dias, milhares de mineiros descem pelas suas entranhas, penetrando pelos túneis cada vez mais profundos, que a cada jornada de trabalho aumentam com os golpes de picareta, inutilmente desbastando a rocha na tentativa de extrair algum minério do que é apenas pedra.

A mina foi especialmente designada como local de cumprimento de pena para os condenados a trabalhos forçados. Especificamente, para aqueles cujo crime foi vender a ilusão do ouro onde nada havia: falsários, estelionatários, poetas e corretores de vida eterna.

Postais do Exílio (104): Ponte basculante de Udrula

Em Udrula, a ponte basculante sobre o rio que corta a cidade funcionou perfeitamente bem durante muitos anos. Até o dia em que os responsáveis pelo sistema de elevação de cada um de seus braços brigaram.

O motivo da briga até hoje não foi bem explicado. Dizem que foi por amor, ou por jogo, ou porque seus relógios estavam dessincronizados e os dois, não se entendendo quanto a que horas são, também se recusaram a ceder um ao outro a palma de saber a hora certa.

Certo é que, desde então, quando um dos braços da ponte se levanta, o outro sempre baixa. E vice-versa.

Postais do Exílio (103): Deslabirinto

O Deslabirinto foi construído de forma tão engenhosa que todos os seus caminhos fatalmente levam à saída. Não há como se perder dentro dele.

Para o decifrador de enigmas profissional isso parece frustrante. Somente depois da sexta ou sétima tentativa frustrada de não sair do Deslabirinto, porém, é que a sua verdadeira armadilha se revela.

Estamos todos condenados.

Postais do Exílio (102): Micrônia

Faço saber a todos que esá declarada a independência da Micrônia, a menor nação do mundo, com superfície total de 1 mícron quadrado (1 μm²), num quadrado com um mícron (1 μm) de lado.

A Micrônia é, portanto, um país – e nisso o único no mundo, que eu saiba – menor do que o seu próprio mapa (acima, em proporção de 10.000:1) ou sua bandeira (abaixo, formada por um quadrado sable, representando a compressão do infinito sobre o infinitesimal, o devir da imanência e a cocada de coco queimado, sobre campo blau, que é uma cor bonita).

A localização da Micrônia é segredo de Estado. Assim será mantida para evitar qualquer tipo de conflito diplomático com os países vizinhos. Ou o país vizinho, pois a Micrônia pode muito bem ser um enclave. Você pode já ter passado por ela. Na verdade, pode até estar sobre ela neste exato momento, e portanto sujeito às suas leis.

Até que o hino oficial seja aprovado, será adotado como hino provisório em todas as cerimônias “Eu quero é rosetar”, do micronês honorário Haroldo Lobo.


Nota do Almanaque: O texto e as ilustrações acima foram retirados de um folheto encontrado num local que pode ou não se encontrar nas imediações da Micrônia.

Postais do Exílio (101): Estádio de Nova Murlânia

À época da reforma do Estádio Municipal, o futebol em Nova Murlânia havia decaído de tal forma que ninguém mais aguentava assistir aos jogos, de nível técnico cada vez pior. Ir aos jogos, porém, continuava sendo uma liturgia social de grande importância, além de constituir uma das raras opções de lazer na cidade.

Sendo assim, após a reforma o estádio passou a ser o único do mundo em que as arquibancadas ficam de costas para o gramado, de forma que a torcida sequer olhe para os jogadores.

Postais do Exílio (100): Parque de Vivarin

Ao lado da área dos balanços, gangorras e escorregas, foi montado o maior trepa-trepa do mundo.

Na verdade, sequer era essa a intenção. Foi acontecendo. Começou normal, ganhou um módulo adicional, depois outro, então amliou-se mais um pouco. Cada administrador do parque queria deixar sua marca. O resultado é que hoje o brinquedo ocupa o tamanho de um campo de futebol.

Além de extenso, é tão intrincado que das bordas não se pode ver o centro. Há boatos sobre pessoas que se perderam lá dentro e nunca mais conseguiram sair. Ou não quiseram, e passaram a viver ali dentro.