Arquivo da categoria: Postais do Exílio

Postais do Exílio (131): Tormelina

Em Tormelina construíram um vulcão artificial.

Não um reles brinquedo como o “Vesúvio alemão” de Leopold III von Anhalt-Dessau (1740-1817), cujas explosões eram criadas por pirotécnicos. Um vulcão autêntico, com um canal escavado do topo de uma colina até encontrar o magma subterrâneo.

A primeira erupção foi um sucesso. Aliás, todas as outras também, tecnicamente falando. Infelizmente, porém, não foram o suficiente para atrair turistas no volume que fora planejado quando se aprovou o projeto do vulcão.

Atualmente, a prefeitura de Tormelina estuda a hipótese de um festival à beira da cratera, com sacrifício de virgens. Provavelmente com virgindade também artificial.

Postais do Exílio (130): Escola das Artes Inúteis

Como bem indica o próprio nome, a Escola das Artes Inúteis oferece cursos de formação em diversas especialidades que, devido aos avanços técnicos ou sociais, perderam qualquer aplicação prática  se é que algum dia já a tiveram. Ali se ensina a preparar tábuas de argila para escrita cuneiforme, liturgia para rituais do culto a Arany Atyácska, etiqueta para jantares de gala na Roma da época de Tibério e navegação em caravelas.

Há um forte departamento de línguas extintas.

Da escola saíram alguns dos maiores poetas dos nossos tempos. A maioria nega ter frequentado suas aulas.

Postais do Exílio (129): Azenha de Offyre

Localizado na margem do rio de mesmo nome, o moinho d’água é o único no mundo que, em vez de ter suas pás movidas pela correnteza, move-se sozinho e é o verdadeiro responsável por fazer o rio correr.

Numa ocasião, em 1717 (era uma sexta-feira da Paixão), a azenha deixou de girar. Por cinco horas as águas do rio Offyre se estagnaram. Felizmente o movimento recomeçou antes que o pânico se instalasse na região.

Postais do Exílio (128): Túmulo de Abudar

Pouco antes de morrer, Abudar (o oitavo cazafrás do império) deixou instruções precisas quanto ao monumento fúnebre que deveria ser erguido em sua homenagem. O mausoléu deveria ter paredes de mármore, com portões de oricalco cravejados de safiras. Em toda a volta deveriam ser postadas estátuas de bronze de guerreiros em tamanho natural, cento e quarenta e quatro ao todo. Na câmara interna, no local onde seria depositado o corpo de Abudar, haveria outra estátua, esta inteiramente feita de ouro, representando o monarca em sua chegada gloriosa à morada dos deuses. Era um projeto tão grandioso que apenas para iniciar a sua construção seria preciso consumir todo o tesouro arrecadado  com os impostos escorchantes estabelecidos por Abudar nas duas décadas do seu reinado, e a conclusão custaria pelo menos mais quatro décadas de igual esforço.

Em vez disso, enterraram o corpo e cobriram o local com uma laje em que foi gravado o nome do soberano.

Postais do Exílio (127): Museu das Obras Futuras

O MOF, como é conhecido, expõe apenas trabalhos que ainda serão produzidos. Nas paredes das galerias, os visitantes podem apreciar os espaços identificados por plaquinhas com o nome dos artistas que contribuem generosamente para o museu, acompanhados dos nomes das peças que estão criando. Toda vez que uma obra é completada, deixa imediatamente o museu.

Há uma ala inteira do MOF destinada exclusivamente a artistas que ainda nascerão.

Postais do Exílio (126): Terra dos Gatos

Porque faltava eu postar aqui.

TerradosGatos

Da Cazel, por encomenda da Telinha, que nos deu de presente.

Postais do Exílio (125): Auto Posto Estela

No Auto Posto Estela não há bombas de combustível. Ali não se vende gasolina, álcool nem óleo diesel. Quem chega quase sempre já está com o tanque cheio.

O Auto Posto Estela vende direções.

Frentistas atendem a clientes que não sabem aonde ir. Às vezes é preciso oferecer mapas com instruções detalhadas e rotas planejadas em todos os detalhes. Outras vezes, apenas apontam o poente e dizem:

- Siga o sol.

Postais do Exílio (124): Telorama

O gigantesco painel é inteiramente formado por telas de TV, cada aparelho sintonizado via satélite num canal diferente. Acredita-se que todos os canais do planeta são recebidos simultaneamente no Telorama.

O resultado é um mosaico quase sempre disforme. Dizem, porém, que em alguns momentos tão breves quanto raros a soma das imagens parece formar alguma coisa. Um rosto, ou uma paisagem, ou uma palavra. É difícil saber ao certo, talvez seja apenas uma alucinação causada pela exposição prolongada às televisões.

Ainda que seja verdade, dificilmente será algo que compense o ruído bruto produzido a maior parte do tempo.

Postais do Exílio (123): Hotel Último Dia

Quando a pena de morte foi implantada no país, observou-se que a pena, de tão cruel, exigia algum tipo de compensação. Foi assim que a tradição de conceder um último desejo se transformou na garantia legal de 24 horas de hospedagem no mais luxuoso dos resorts, construído e mantido especialmente com esta finalidade. O resort do último dia.

Equipado com todos os luxos imagináveis, e contando com uma equipe apta a realizar qualqquer tipo de serviço que se solicite, o hotel oferece à sua seleta clientela tudo o que for desejado. Tudo, exceto um segundo a mais.

Suicidas também são bem-vindos ao Último Dia.

Postais do Exílio (122): Phantogeusie

É o único restaurante do mundo em que os garçons servem fantasmas gustativos.

Convidam clientes a, depois de fazerem seus pedidos, relaxarem de olhos fechados. Em seguida, começam a descrever o prato escolhido – e as descrições são tão vívidas, tão imaginativas, que em alguns minutos fazem a boca salivar, e dentro de instantes as papilas são inundadas pelas mais deliciosas sensações. Algumas pessoas chegam a mastigar o vazio, o que só acrescenta à experiência: o crocante dos assados, a maciez dos recheios.

Depois da satisfação completa, vem o despertar num estalar de dedos. E a conta.

Postais do Exílio (121): Microzoo

O menor jardim zoológico do mundo fica numa sala, com um balcão sobre o qual se enfileiram dezenas de microscópios. Em cada um se podem ver diferentes microorganismos, desde protozoários até ácaros e rotíferos.

O maior trabalho dos guardas é fazer respeitar os avisos de “não alimente os micróbios”. Especialmente no setor das amebas, que os visitantes sempre querem ver fagocitando nutrientes.

Postais do Exílio (120): Antério

Em algum lugar no fundo da mata fica o Antério.

É para lá que vão as antas, quando, da mesma forma que os elefantes, pressentem que sua vida chega ao fim. Deitam-se ali e esperam a morte chegar.

Sem marfim valioso que torne o local um esconderijo de tesouros, o Antério permanecerá secreto para sempre, já que, sem ser procurado, jamais poderá ser encontrado.

(Obrigado, Flávio!)

Postais do Exílio (119): A Avenida

A Avenida é o nome da cidade e da sua principal avenida. Aliás, a única. A cidade consiste de uma única via expressa, que se estende por quilômetros em linha reta, com várias pistas de ida e volta.

A Avenida cresce continuamente, nos dois sentidos, mas nunca em transversais. Toda vez que uma casa velha é derrubada surgem especulações de que ali haverá uma esquina, mas logo um novo prédio se ergue ali para aproveitar o terreno bem localizado, de frente para A Avenida.

Há moradores que jamais foram até o fim (ou o começo) da Avenida, passando suas vidas inteiras entre a maternidade do número 2.305 e o asilo do 34.501, por exemplo.

Postais do Exílio (118): Galeria do Futuro

Suas paredes, reservadas para obras que ainda virão a ser produzidas, estão permanentemente vazias. Mesmo assim, atrai grande número de visitantes. Principalmente de críticos, sempre dispostos a discutir o lugar da arte na sociedade.

Postais do Exílio (117): Tatúpolis

O nome é impróprio, mas ficou. Afinal, quem cavou os túneis, covas e câmaras desse complexo não foram tatus. Foram seus antepassados pré-históricos, os gigantescos gliptodontes e pampatérios. Pelo menos é o que dizem os registros fósseis.

Outros registros, os arqueológicos, provam que ali viveram depois seres humanos de origem desconhecida e destino incerto. Habitaram a cidade subterrânea quando os tatuzões a deixaram, decorando as paredes com sua arte sem correspondente com qualquer outra civilização pré-histórica da região, seja mais antiga ou mais moderna.

Apesar da estrutura formidável, ninguém mais quis ocupar aquelas cavernas. Os gliptodontes foram extintos. Os homens-tatus, aparentemente, também. Melhor não arriscar.

Postais do Exílio (116): Prefeitura de Tangreia

Todos os edifícios em Tangreia são inacabados. A maioria foi inaugurada faltando uma pintura, ou com uma parede sem reboco. Outros não tem uma janela. Há portas sem fechadura e tramela. Não era uma questão de preguiça, e sim de tradição. Quase de princípios.

Por isso foi com grande revolta que a população soube que a prefeitura local construiria uma nova sede, que seria aberta apenas depois de inteiramente construída, até o último retoque. Era uma vergonha. Um escândalo. Notícias do rigor nos acabamentos eram discutidas todos os dias nos bares (sem balcão), nas esquinas 9em frente à placa de “em obras”).

No dia da inauguração, um piquete se postou à frente da porta principal. Em vão o prefeito tentou se aproximar para cortar a faixa. Jamais!, bradavam os manifestantes.

A nova sede acabou entrando em funcionamento assim mesmo. No entanto, só é possível entrar pela porta dos fundos. A da frente permanece até hoje lacrada, com a faixa cerimonial intacta.

Postais do Exílio (115): Salão Azul

O Salon Bleu abriu suas portas em Reims, em 9 de agosto de 1945, um dia depois da assinatura do armistício naquela cidade (e em Berlim). Desde então, nunca mais fechou, funcionando 24 horas por dia, todos os dias do ano.

Nunca um baile foi tão festivo quanto o daquela noite de estreia. Por isso, desde então, a orquestra jamais mudou o repertório, tocando apenas os sucessos daquela época: músicas de Glenn Miller, Tommy Dorsey, Benny Goodman, Louis Armstrong.

Há quem diga que o Salão Azul foi destruído por uma bomba deixada por um nazista (ou colaboracionista) recalcitrante, e que todos, músicos e dançarinos, morreram naquela mesma noite de 9 de agosto de 1945, e que sem saber disso permanecem tocando e dançando por toda a eternidade. Questão de ponto de vista. De todo modo explicaria por que o tempo, que afinal não espera por ninguém, ali resolveu parar.

Postais do Exílio (114): Monumento a Você

Você chega ao alto da colina e encontra apenas um pedestal vazio.

Basta puxar uma alavanca para descer uma pequena escada retrátil, que permite subir ao pedestal. Uma vez sobre ele, resta apenas assumir a postura desejada – orador sublime, militar invicto, piedoso mártir. E perceber-se alvo da admiração de toda a cidade lá embaixo.

Mas rápido. Porque a fila na escada já está grande. E aquele pombo está se aproximando perigosamente.

Postais do Exílio (113): Ilha da Ascenção

Fica no Pacífico, algumas centenas de quilômetros a oeste da Ilha de Páscoa, e é ainda menor.

Da mesma forma que a outra, é também ornada de misteriosas esculturas de pedra, feitas não se sabe por quem e deixadas lá não se sabe por quê. Ao contrário dos moais, porém, as esculturas da Ilha da Ascenção não são grandes cabeças. São apenas olhos: gigantescos, arregalados, eternamente contemplando o mar.

Há uma lenda sobre a Ilha de Pentecostes, ainda menor e com grandes de pedra representando imensas pupilas. Mas essa ninguém jamais encontrou.

Postais do Exílio (112): Fonte Panacea

Basta um gole das águas de Panacea para curar qualquer doença do corpo ou do espírito. Infelizmente, o oásis onde ela brota fica no centro do mais inóspito dos desertos, e ninguém jamais conseguiu chegar lá com vida.

Postais do Exílio (111): Ponto do 47-B

O que há de mais marcante no ponto do ônibus 47-B não é a sua arquitetura, que se tornou referência mundial em mobiliário urbano. Também não foram os paineis que o decoram. Tudo isso é relevante, mas não tanto quanto o fato de que a linha 47-B não existe. Quem para no ponto, portanto, fica esperando um ônibus que nunca passará.

Há vários motivos que levam as pessoas ao ponto. Algumas vão pela esperança de que o ônibus, algum dia, apareça. Outras aproveitam a espera para meditar sobre as virtudes da esperança. Já foi um bom local de paquera.

Chegou a haver um grupo que comprou um ônibus e pintou o letreiro 47-B, passando no ponto para levar passageiros estupefatos a destinos aleatórios. Mas isso foi proibido, e reprimido severamente. A espera, assim, passou a ser não somente pelo que não existe mas pelo que não pode existir.

Postais do Exílio (110): Tonkalon

É uma ilha deserta. Porém longe de ser vazia.

Toda vez que alguém responde, numa dessas entrevistas-clichê, qual o livro, disco ou objeto que levaria para uma ilha deserta, a resposta se materializa em Tonkalon. A ilha, desta forma, passou a abrigar uma imensa biblioteca, uma discoteca invejável e um surpreendente sortimento de tralhas em geral.

Ninguém está lá para usufruir disso, no entanto. Se alguém chegar à ilha, ela deixará de ser deserta, e o encanto será desfeito.

Postais do Exílio (109): O Aeroporto no Fim do Mundo

É o único aeroporto que não tem uma porta sequer para saída. E nem para entrada, é claro.

Quem nele desembarca nada pode fazer além de aguardar o próximo voo, em direção a qualquer outro lugar. , enquanto não chega a hora do embarque, aguardar no imenso saguão, entre uma cafeteria e uma filial da La Selva.

Os voos atrasam muito.

Postais do Exílio (108): Gran Cine Riviera

O Gran Cine Riviera passa apenas filmes aleatórios. Quem entra nunca sabe o que será exibido em sua tela. Além disso, ao longo de nove décadas de funcionamento ininterrupto, jamais repetiu um título.

Contam que, em certas ocasiões, quatro pessoas que assistiram juntas a uma mesma sessão saíram jurando que haviam visto filmes diferentes (nenhum deles era “O ano passado em Marienbad”, note-se). E há teorias de que na verdade a fita usada é sempre a mesma, e a percepção dos espectadores é que muda (por isso o Riviera também é chamado de Cine Heráclito). Mas isso são histórias de cinéfilos. Como tal, evidentemente, não merecem crédito. Sequer suspension of disbelief.

Postais do Exílio (107): Herdade do Horror

Como toda mansão mal-assombrada, é cheia de histórias. Algumas delas até falsas.

Hoje em dia, sua fama é terrível a tal ponto que quem cruza seus portões não consegue deixar de pensar o que pode haver de tão assustador ali. Alguns passos adentro e a pessoa começa a imaginar aquilo que mais lhe causaria pavor.

Normalmente, é nessa hora que fogem correndo aos gritos, aumentando ainda mais a reputação da casa.

Postais do Exílio (106): Estádio Municipal de Pelada

A inexistência de qualquer clube de futebol profissional ou mesmo de uma equipe inscrita nas ligas amadoras, fosse na cidade ou nos arredores, não impediu o prefeito de inaugurar com pompa o estádio, em cumprimento de uma promessa de campanha. Mas levou a modificações no projeto.

Como não haveria a possibilidade de jogos oficiais, o estádio foi o primeiro do mundo projetado apenas para receber peladas. O campo é de terra batida, e em declive. Para compensar, o gol do campo de cima é mais largo que o do campo de baixo. Numa das laterais, o campo termina numa mureta, com a qual é permitido tabelar.

O maior problema das peladas disputadas no estádio é a casa vizinha, onde às vezes as bolas vão parar, sendo então diligentemente furadas por uma funcionária da prefeitura, que cumpre a tarefa aos palavrões.

Postais do Exílio (105): Mina de Nada

Todos os dias, milhares de mineiros descem pelas suas entranhas, penetrando pelos túneis cada vez mais profundos, que a cada jornada de trabalho aumentam com os golpes de picareta, inutilmente desbastando a rocha na tentativa de extrair algum minério do que é apenas pedra.

A mina foi especialmente designada como local de cumprimento de pena para os condenados a trabalhos forçados. Especificamente, para aqueles cujo crime foi vender a ilusão do ouro onde nada havia: falsários, estelionatários, poetas e corretores de vida eterna.

Postais do Exílio (104): Ponte basculante de Udrula

Em Udrula, a ponte basculante sobre o rio que corta a cidade funcionou perfeitamente bem durante muitos anos. Até o dia em que os responsáveis pelo sistema de elevação de cada um de seus braços brigaram.

O motivo da briga até hoje não foi bem explicado. Dizem que foi por amor, ou por jogo, ou porque seus relógios estavam dessincronizados e os dois, não se entendendo quanto a que horas são, também se recusaram a ceder um ao outro a palma de saber a hora certa.

Certo é que, desde então, quando um dos braços da ponte se levanta, o outro sempre baixa. E vice-versa.

Postais do Exílio (103): Deslabirinto

O Deslabirinto foi construído de forma tão engenhosa que todos os seus caminhos fatalmente levam à saída. Não há como se perder dentro dele.

Para o decifrador de enigmas profissional isso parece frustrante. Somente depois da sexta ou sétima tentativa frustrada de não sair do Deslabirinto, porém, é que a sua verdadeira armadilha se revela.

Estamos todos condenados.

Postais do Exílio (102): Micrônia

Faço saber a todos que esá declarada a independência da Micrônia, a menor nação do mundo, com superfície total de 1 mícron quadrado (1 μm²), num quadrado com um mícron (1 μm) de lado.

A Micrônia é, portanto, um país – e nisso o único no mundo, que eu saiba – menor do que o seu próprio mapa (acima, em proporção de 10.000:1) ou sua bandeira (abaixo, formada por um quadrado sable, representando a compressão do infinito sobre o infinitesimal, o devir da imanência e a cocada de coco queimado, sobre campo blau, que é uma cor bonita).

A localização da Micrônia é segredo de Estado. Assim será mantida para evitar qualquer tipo de conflito diplomático com os países vizinhos. Ou o país vizinho, pois a Micrônia pode muito bem ser um enclave. Você pode já ter passado por ela. Na verdade, pode até estar sobre ela neste exato momento, e portanto sujeito às suas leis.

Até que o hino oficial seja aprovado, será adotado como hino provisório em todas as cerimônias “Eu quero é rosetar”, do micronês honorário Haroldo Lobo.


Nota do Almanaque: O texto e as ilustrações acima foram retirados de um folheto encontrado num local que pode ou não se encontrar nas imediações da Micrônia.

Postais do Exílio (101): Estádio de Nova Murlânia

À época da reforma do Estádio Municipal, o futebol em Nova Murlânia havia decaído de tal forma que ninguém mais aguentava assistir aos jogos, de nível técnico cada vez pior. Ir aos jogos, porém, continuava sendo uma liturgia social de grande importância, além de constituir uma das raras opções de lazer na cidade.

Sendo assim, após a reforma o estádio passou a ser o único do mundo em que as arquibancadas ficam de costas para o gramado, de forma que a torcida sequer olhe para os jogadores.

Postais do Exílio (100): Parque de Vivarin

Ao lado da área dos balanços, gangorras e escorregas, foi montado o maior trepa-trepa do mundo.

Na verdade, sequer era essa a intenção. Foi acontecendo. Começou normal, ganhou um módulo adicional, depois outro, então amliou-se mais um pouco. Cada administrador do parque queria deixar sua marca. O resultado é que hoje o brinquedo ocupa o tamanho de um campo de futebol.

Além de extenso, é tão intrincado que das bordas não se pode ver o centro. Há boatos sobre pessoas que se perderam lá dentro e nunca mais conseguiram sair. Ou não quiseram, e passaram a viver ali dentro.

Postais do Exílio (99): Aeroduto de Munz

Quando a poluição atmosférica na cidade industrial se tornou insuportável, só restou uma solução: injetar ar fresco. O mais puro possível.

O aeroduto foi construído de forma a trazer o frescor das montanhas vizinhas, descendo até o fundo do vale e chegando ao coração de Munz. Imensos ventiladores trabalham ininterruptamente, à potência máxima, para bombear o ar rarefeito.

É claro que os pontos de saída se valorizaram instantaneamente. Condomínios de luxo brotaram nas “bocas azuis”, como foram chamadas as aberturas. No entanto, as paredes do aeroduto foram tomadas por grafiteiros ambientalistas, que as cobriram de protestos contra a elitização do ar.

Postais do Exílio (98): Interponte

Para aumentar a integração e promover os contatos entre os moradores das duas margens do rio que corta a cidade de Soante, o prefeito mandou construir não apenas uma, mas duas pontes.

Os problemas, porém, continuaram. Cedo uma distinção se estabeleceu entre os que utilizavam mais frequentemente a Ponte Norte e os que preferiam a Ponte Sul. A ponto de surgirem desavenças entre “sulistas” e “nortistas”.

Construiu-se, então, uma terceira ponte, ligando uma ponte à outra, para promover a paz.

Postais do Exílio (97): Caverna Astronômica

No teto abobadado do seu imenso salão principal foram instaladas milhares de pequenas lâmpadas. A posição e a intensidade do brilho, astronomicamente corretas, reproduzem o céu como seria visto da superfície no céu de equinócio, caso a poluição luminosa das cidades vizinhas não tivesse ofuscado tantas estrelas.

Postais do Exílio (96): Monumento aos Vivos

Em Panacará há um parque com estátuas representando toda a população da cidade.

Cada vez que nasce um bebê, seus pais são responsáveis por incluir uma estátua representando-o.  Algumas permanecem assim; outras são substituídas por estátuas de crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos, à medida que o homenageado cresce e providencia a atualização do monumento. Nem todo mundo, porém, se preocupa com isso e a média de idade representada no parque é bem menor que a real.

Também há os que deliberadamente se passam por mais jovens ou mais velhos do que são; assim como os falsos heróis, montando cavalos e desembainhando espadas que só existiram no bronze e na imaginação. Ou os poetas que, ao menos nas suas estátuas, ganham coroas de louros.

Uma coisa, porém, é comum a todas as estátuas: quando os seus representados morrem, são destruídas sem clemência.

Postais do Exílio (95): Os subterrâneos de Arznabad

Como várias outras cidades, Arznabad tem quase uma cópia fiel de si mesma no subsolo. A cidade subterrânea foi construída para abrigar a população no caso de um exército inimigo vencer suas muralhas.

Os administradores de Arznabad, porém, não se deram por satisfeitos e escavaram um segundo nível de subterrâneos, já prevendo que os invasores poderiam desconfiar e encontrar os túneis secretos.

Há quem afirme até mesmo que existe um terceiro nível de subterrâneos. Mas este nunca foi encontrado, o que apenas comprova a genialidade dos arquitetos de Arznabad.

Postais do Exílio (94): Parque Escher

As instalações do parque são todas inspiradas em obras de Mauritius Cornelius Escher. Há torres distorcidas, castelos com escadas que sobem (ou descem) eternamente sem sair do lugar, cascatas em moto-contínuo. Nos jardins vivem animais estranhos, sempre em par com seus duplos simétricos. Metade do parque está sempre sob a luz do dia, e a outra metade na escuridão da noite, e as duas metades são rflexo uma da outra.

O brinde para quem sai do parque é um Cubo Impossível. Até hoje ninguém conseguiu um.

Postais do Exílio (93): O Observatório Solitário

Localizado no ponto mais recôndito do planeta, é tão pequeno que nele só entra uma pessoa de cada vez, e de lá não se pode na verdade observar nada a não ser a si mesmo.

Há visitantes que lá passam horas embevecidos em autocontemplação. Há os que fogem assustados em menos de um minuto, e há os que sequer sabem quanto tempo ali estiveram, mas saem transformados.

Postais do Exílio (92): O Parlamento Fantasma

Em Nargravanta há, ao lado do prédio do parlamento, outro onde funciona o Parlamento Fantasma. São seus membros vitalícios (se a palavra se aplica) todos os parlamentares mortos do país.

A Constituição do país estabelece que qualquer lei aprovada pelos fantasmas – por definição, dotados de imensa experiência, conhecimento quase infinito e isentos de qualquer pressão – se sobrepõe às leis dos deputados vivos.

Até hoje, porém, nunca foi aprovada uma lei sequer na casa. Presume-se que as discussões ali durem muito mais do que o normal. Ou que, havendo tantas vozes e tão diversas, jamais se chegue a consenso algum.

Postais do Exílio (91): A Pensão Larchaux

Em Ataranto, onde eram proibidos os restaurantes, a maioria das pessoas resignava-se a preparar sua própria comida. Havia, porém, quem não se contentasse. Para esses, sempre restava a Pensão Larchaux.

Oficialmente, Madame Larchaux dirigia um bordel, um dos muitos existentes em Ataranto, com registros oficiais e tudo o que era preciso. Mas os aromas que a casa exalava não enganavam ninguém, deixando claro que os prazeres do corpo que seus rapazes e moças ofereciam iam muito além do permitido pela lei, e incluíam entradas, massas, carnes, molhos. Para os mais ousados, até sobremesas.

Entre os clientes, além dos incapazes de cozinhar, havia cidadãos de respeito (até mesmo autoridades, como a arcebispa e seu marido), que frequentavam a casa em busca de pratos com temperos diferentes. Fantasias para apimentar o dia-a-dia.

Madame Larchaux, ela mesma, cozinhava apenas para um círculo restrito de amigos, uma vez por semana.

Postais do Exílio (90): O Hospital Infalível

O menor hospital do mundo tem apenas um leito.

Todo paciente que entra é curado. Nunca houve um caso insolúvel. Por isso (e pela exígua capacidade), a fila de espera é imensa.

Para piorar, não se sabe ao certo quais os critérios de admissão. Dinheiro e influências são inúteis. Casos raros e outros banais são aceitos da mesma forma. Alguns pacientes recebem alta em segundos, outros passam anos internados. Mas todos saem em perfeita saúde, sempre.

Dizem que o hospital é uma fraude, e que nunca curou ninguém.

Postais do Exílio (89): Ujarakiglu

O “iglu de pedra” (ou simplesmente “casa de pedra”), na língua Inuit, foi construído na Austrália em 1835.

O responsável foi Mayoan Karenaak, um esquimó que se unira às expedições de Sir William Parry rumo ao Polo Norte entre 1821 e 1827, e acabou acompanhando o contra-almirante britânico quando este foi destacado para a Nova Gales do Sul, em 1829.

Karenaak acabou deixando Port Stephens, no litoral da Austrália, e adentrando o deserto de Strzelecki. Lá, para lembrar um pouco a sua terra natal, resolveu morar num iglu. Na impossibilidade de usar neve e blocos de gelo, substituiu-os por terra e pedras.

Após a morte de seu construtor, que não deixou herdeiros, o Ujarakiglu foi preservado pelos aborígenes australianos. Hoje é um símbolo da convivência entre os povos.

Postais do Exílio (88): Anavoal

É o menor deserto do mundo. Ocupando uma área de menos de três metros quadrados, é uma ilha de aridez cercada de floresta tropical úmida por todos os lados. Por mais que chova nas matas a sua volta, porém, esse pequeno pedaço de terra não vê chuva há mais de vinte anos.

Postais do Exílio (87): Museu dos Intangíveis

Nas extensas galerias, aparentemente não há nada exposto. Mas em cada canto, explicam os guias aos visitantes, foram contadas histórias, entoadas canções, transmitidos saberes. Quem prestar atenção poderá perceber um eco, às vezes impossível de explicar ou descrever, mas que muda para sempre uma pessoa. A maioria dos turistas, porém, passa rapidamente depois de tirar duas ou três fotos.

Uma ala especial é dedicada a sentimentos que não mais existem em seres humanos vivos, como a fúria de Aquiles e o amor de Tristão.

Postais do Exílio (86): Loja das Ideias

Em Paris, não deixe de conhecer La Boutique des Idées. Em funcionamento desde 1798, garante a todos os clientes que as ideias à venda são 100% originais.

Infelizmente, não é possível saber, antes de abrir-se o pote em que vem a ideia, de que tipo será, e menos ainda se será boa ou de jerico. D’âne, como se diz por lá.

Artistas decadentes e publicitários inescrupulosos rondam a porta da loja. Procuram, nos potes jogados ao chão pelos compradores, algum resto de ideia que tenha ficado no fundo. Cuidado: são tipos perigosos.

Postais do Exílio (85): Anticatedral de Vignon

Nos subterrâneos da catedral gótica de Vignon foi construída uma outra, inteiramente simétrica.

Subterrânea, invertida, ela celebra os pecados em vez da santidade. Nos seus vitrais, que luz nenhuma revela, Santo Antão cede às tentações, e Santa Maria Madalena continua exercendo a sua profissão.

Postais do Exílio (84): Casagaia

Toda pessoa que já passou uma noite na Casagaia foi feliz.

Não surpreende, portanto, que tantas pessoas quisessem se hospedar na casa. Seus donos tentaram manter a situação sob controle por algum tempo, mas, quando se viram sem condições de atender à demanda, cederam à oferta de uma empresa do ramo de hotelaria.

Hoje a Casagaia é um hotel comum, e quem nela se hospeda não sai mais feliz do que entrou. Quase sempre, sai menos feliz, devido à frustração. Mas a fama se mantém, mesmo porque poucos admitem que pagaram caro por uma experiência insatisfatória, e a administração só aceita reservas para daqui a dois anos.

Os antigos donos compraram outra casa. E de vez em quando ainda recebem os amigos, sempre felizes.

Postais do Exílio (83): Fontana degli Peccati

Na verdade, são sete fontes, cada uma representada por uma criatura de feições demoníacas. Assim, a Ira é representada por um touro que expele a água pelo falo; a água da Inveja sai pelos olhos de um hieronte; a da Vaidade, pelos ouvidos de um leão; a da Avareza, pelo ânus do que parece ser um rato; a da Gula, pela boca de um porco;  a da Preguiça, pelas narinas de um gato;  e a da Luxúria, pela vulva de uma serpente. As sete estão dispostas em círculo, em torno da figura de Satã, no centro de um pequeno lago que recebe o seu jorro incessante e vicioso.

Esculpida por volta do ano 1320 e localizada à esquerda da Igreja dos Santos Anjos, sua má influência era contrabalançada pela Fonte das Virtudes, do lado oposto. Esta, contudo, foi destruída por um bombardeio durante a II Guerra Mundial.

Mesmo assim, beber da fonte, dizem os padres, não é algo necessariamente maléfico. Cada um dos pecados anula ou inibe o precedente na ordem em que estão esculpidos, tornando a mistura inócua espiritualmente. O perigo seria beber diretamente de cada um dos animais. Por isso mesmo uma grade foi erguida em torno das esculturas, de forma a inibir a tentação.

Ainda assim, muitos são os que fazem questão de se saciar de pecados específicos.

Postais do Exílio (82): Falso Horizonte

Todos os prédios da cidade tem suas fachadas cobertas por pinturas em trompe-l’oeil.

Num bairro se tem a impressão de estar em plena floresta tropical, outro simula um vale entre montanhas azuladas de picos nevados, noutro um conjunto habitacional cria a ilusão de uma praia tão realista que muitos turistas já tentaram mergulhar na parede.

Há até mesmo pinturas que simulam uma cidade cheia de prédios com paisagens pintadas nas fachadas.