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Meninos, eu li (42)

Neil Gaiman claramente precisava resolver alguns problemas quando escreveu “O oceano no fim do caminho” (Intrínseca, 2013) – e nem estou falando das teorias conspiratórias sobre Cientologia. A fantasia do protagonista sem nome se transforma num pesadelo freudiano que de certa forma retoma temas já explorados antes (em “Coraline” e “Os filhos de Anansi”, principalmente) mas que dessa vez são explicitados num nível que chega a ser quase grosseiro (no sentido de que mereciam um tratamento ficcional mais sofisticado, de que ele certamente seria capaz). O desfecho é um pouco precipitado, como se houvesse uma pressa de se livrar do conflito o mais rápido possível. Mas Gaiman continua sendo muito bom na arte de transitar no limite entre realidade e fantasia, e isso compensa os defeitos.

A primeira reação à leitura do “Caderno de sonhos” Dantes, 2000) é de uma certa irritação, uma sensação de que Ana Miranda publicou um caça-níqueis, uma mera descrição de sonhos, sem mérito autoral algum. Mas basta um pouco mais de atenção para perceber, por trás da aparente intervenção mínima da autora no fluxo de imagens do seu inconsciente, uma proposta literária bem interessante, e corajosa em dois níveis. O primeiro, justamente o de se disfarçar de não-literatura. O segundo, o de expor traumas, fantasias e delírios, abrindo uma janela para a alma.

METAMORFOSES Não vou negar os méritos de Vera Lúcia Leitão Magyar de se aventurar a traduzir a íntegra das “Metamorfoses” (Madras, 2003). O esforço em si é digno de elogios, mas o resultado deixa a desejar. Tem até um “círculo redondo” que duvido muito que esteja no original. Além disso, a edição não traz sequer um breve prefácio que ajude a guiar o leitor pelas diversas histórias que se encadeiam e entrecruzam ao longo dos cantos de Ovídio. Entre um tropeço e outro, porém, sobra a viagem através das inúmeras intervenções dos deuses, sempre transformando a vida dos mortais, levando à conclusão de que a vida em si é eterna mudança.

ZUMBIS1ZUMBIS2ZUMBIS3ZUMBIS4 A série “Zumbis Marvel” (Panini, 2013-2014) começa meio sem saber para onde vai. Robert Kirkman, Sean Phillips e June Chung parecem apenas estar se divertindo muito com o nonsense da premissa, e chutando todos os baldes que estejam ao seu alcance. A partir do segundo volume, com a entrada de Mark Millar e outros, a história fica não mais séria, que seria justamente o pior erro possível, porém mais imaginativa, explorando possibilidades que vão além da caricatura – por exemplo, com a entrada dos Filhos da Meia-Noite, compondo o tipo de conflito que se espera de um gibi da Marvel. As homenagens a capas clássicas da editora são um dos pontos fortes.

Meninos, eu li (41)

Excepcionalmente, vão num mesmo post as leituras de novembro e dezembro. E vamos ver se esse blog volta ao ritmo normal em 2014.

...Quando eu era criança, Marco Polo era um dos meus herois, talvez o primeiro personagem histórico que para mim era tão fantástico quanto os de ficção. Conhecer o Livro das Maravilhas era um desejo, mas teria sido uma grande frustração se na época eu tivesse lido essa edição do Clube do Livro (1989), “As viagens de Marco Polo”. Aos 10 anos, eu teria achado chatas as descrições repetitivas e sem a aventura que eu teria esperado. Adulto, valeu pela curiosidade de ver o mundo pelos olhos de um veneziano do século XIII, seus valores e o seu recorte da realidade que, de tão peculiar que parece hoje, relativiza a nossa experiência atual da realidade.

...A coleção Ponta de Lança, da Língua Geral, nunca me decepciona. “O melhor do inferno” (2011) é mais uma pérola no catálogo da editora. Christiane Tassis mostra muita habilidade narrativa no entrecruzamento dos discursos dos personagens (a começar pelo prólogo, na voz de um gato), na intersecção da literatura com outras formas de texto (vídeo, artes plásticas, web) e mais ainda ao apresentar esse diálogo como a verdadeira história por trás da história entre David, Isabel e Guadalupe. Mais um livro que me deixa querendo saber o que andaram botando na água dessas jovens escritoras.

...Difícil escolher o melhor de “Bolland Strips!” (Nemo, 2013). Tanto “A atriz e o bispo” quanto a saga de “Mr. Mamoulian” são histórias que desafiam o leitor, mergulhando num mundo onírico. Mamoulian acaba levando uma pequena vantagem pelos toques metalinguísticos e autocríticos. Mas, em todo o álbum, Brian Bolland mostra que é possível conciliar o trabalho numa linha de montagem de editora comercial com a produção de uma obra personalíssima, reveladora de influências variadas.

...A Xerazade tunisina pode ser menos prolixa que a sua congênere persa. Mas talvez seja mais eficiente, já que lhe bastaram os contos de “Cento e uma noites” (Hedra, 2002) para acalmar um rei ciumento. A coletânea de contos mantém o sabor das narrativas orais com suas fórmulas mnemônicas e suas estruturas concêntricas, contendo histórias dentro de histórias dentro de histórias. Como no seu melhor momento, o da disputa entre a mulher do rei e seus vizires sobre o destino do príncipe, toda mediada por fábulas que se digladiam.

...Anita Phillips foi uma das raras autoras a trocar o ensaio pela ficção e manter a qualidade. “The Virtues, the Vices and All the Passions” (Polygon, 1991), infelizmente seu único romance, é um quebra-cabeças que remete a Cortázar e, principalmente, Calvino: cada capítulo inicia com uma página da “Iconologie” de Boudard, representando uma das “virtudes, vícios e todas as paixões”, e que dá o tom do texto a seguir. Mas a Iconologia não é gratuita: é também o livro-dentro-do-livro, que Vira, a protagonista, está traduzindo. Phillips, assim como Vira, busca o tempo todo uma tradução, uma correspondência perfeita entre a imagem, o texto, a narrativa e a vida, apenas para revelar a impossibilidade dessa missão e a falta de qualquer sentido. (E sim, a capa é uma foto de Francesca Woodman).

...Eu vou puxar a brasa para a sardinha do amigo Silvio Essinger para dizer que ele foi um dos autores que escolheram o caminho certo em “Se7e: Anões” (Ímã, 2013). Dos oito contos, os melhores foram os que voaram para mais longe do conto de Branca de Neve, e utilizaram os personagens em contextos variados como o Soneca de ficção científica ou, no limite, o Feliz conquistador. Outros autores da coletânea optaram pela sátira escrachada e deixaram a desejar.

...“Tu, só tu, puro amor” (USP/Brasiliana, 2010) é uma raridade. Não apenas o volume, reprodução em fac-símile do exemplar nº 22 autografado pelo autor e dedicado a Joaquim Nabuco, mas o texto em si: uma comédia em que Machado de Assis presta sua homenagem a Camões e que soa até pós-moderno na sua transformação de autores clássicos em personagens de ficção. O poeta-personagem antecipa e justifica, nas suas aventuras românticas, o poeta real que viria a ser depois do exílio.

...Ana Rüsche é poeta do tipo que gosta de reinventar palavras (como se existisse outro tipo). “Sarabanda” (Patuá, 2013), por exemplo, não é uma sarabanda, é outra sarabanda: como nota Paulo Ferraz na carta-posfácio, tem um “samba” escondido ali no meio, fingindo que não é com ele. Boa parte dos poemas desse livro é assim: escondida no meio dos versos tem aquela palavra-tropeço, que depois da página já virada ecoa no fundo do cérebro e volta pra rir do sentido primeiro, mostrar sentidos segundos, provocar intenções terceiras.

...“Ícones dos Quadrinhos” (Nywgraf, 2013) foi o melhor projeto que já apoiei no Catarse, pelo menos na relação custo/benefício. Saiu uma pechincha esse álbum com 100 versões renovadas de personagens clássicos. Algumas, é claro, não tão boas, até mesmo preguiçosas. Mas os pontos altos compensam: o Sandman de José Aguiar, o Tio Patinhas de Danilo Beyruth, o Lobo Solitário de Rafael Grampá, a Morte de Roger Cruz. O texto é uma boa introdução para quem não conhece os personagens, apesar de depois de algum tempo ficar repetitivo (e desnecessário) dizer que Superman ou Mickey fizeram sucesso em diversas outras mídias. Outro problema, que a Alessandra apontou: de 100 personagens, apenas 12 são femininos. E, mais grave ainda, entre 101 artistas, só três são mulheres.

...Ler “Marvels” (Panini/Salvat, 2013) hoje pela primeira vez ainda é impactante. Mesmo que o estilo mostrado por Alex Ross tenha mais tarde se aprimorado em “Reino do Amanhã”, e que o próprio Kurt Busiek tenha desenvolvido melhor alguns dos temas ali presentes em “Astro City”, em que gozava de mais liberdade criativa. Na verdade, talvez a grande realização da dupla tenha sido justamente criar uma história tão forte apesar das limitações impostas pelo desafio de recontar aventuras clássicas dos personagens da Marvel e ainda amarrá-las num todo coerente.

...“O Inescrito” é, para mim, a melhor série de quadrinhos sendo publicada hoje no Brasil. E o volume 4, “Leviatã” (Panini, 2013) é o melhor de todos até agora. Mike Carey e Peter Gross levam Tom Taylor a bordo do Pequod e de lá para o ventre da baleia, onde ele se confronta com a força do arquétipo. Jonas, Pinóquio, Sinbad, Morus e Münchausen entrelaçam suas histórias, aprofundando tanto no protagonista quando no leitor a consciência do monomito.

...“Sabor Brasilis” (Zarabatana, 2013) justificou a expectativa criada pelas boas resenhas publicadas na época do lançamento. Hector Lima, Pablo Casado, Felipe Cunha e George Schall conseguem misturar a trama da novela Sabor Brasilis com as intrigas envolvendo a equipe de roteiristas, salpicando referências a alguns sucessos da TV brasileira. A narrativa é ágil e econômica, usando bem cada detalhe para reforçar os elemtnos da trama e dos personagens. Um exemplo do bom quadrinho independente feito hoje no Brasil.


Resumão de 2013: 54 livros e 27 quadrinhos (respectivamente 4 e 6 a menos que em 2012).

Os melhores: “The book of fantasy” (Borges/Casares/Ocampo), “As crônicas marcianas” (Bradbury), “Old Possum’s Book of Practical Cats” (Elliot), “O Mestre e Margarida” (Bulgakov), “A jangada de pedra” (Saramago), “Grande Sertão: Veredas” (Rosa), “Suíte Dama da Noite” (Sawitzki), “Solaris” (Lem), “A história de O” (Réage), “Eros e Psiquê” (Apuleio), “Fetiche: moda, sexo & poder” (Steele), “As flores do mal” (Baudelaire), “Poema sujo” (Gullar), “Como água para chocolate” (Esquivel), “Backlash” (Faludi), “Luka e o fogo da vida” (Rushdie), “Cento e uma noites” (Anônimo), “Estórias gerais” (Srbek/Colin), “As Cobras – antologia definitiva” (Verissimo), “O Inescrito” – volumes 2, 3 e 4 (Carey/Gross).

As ótimas surpresas: “Paisagem com dromedário” (Saavedra), “A verdadeira história do alfabeto” (Jaffe), “A defense of masochism” e “The Virtues, the Vices and All the Passions” (Phillips), “O melhor do inferno” (Tassis), “Sarabanda” (Rüsche), “Sabor Brasilis” (Lima/Casado/Cunha/Schall).

Os piores: “Pequeno Irmão” (Doctorow) foi o único realmente ruim. Outros foram apenas fracos, irregulares, ou ficaram aquém da expectativa: “Uma aula de matar” (Callado), “Gargantua” (Rabelais), “Sexo” (Sant’anna), “Máquina de pinball” (Averbuck), “Se7e: Anões” (Vários), “Simon’s Cat” (Tofield), “The last knight” (Eisner), “Elektra vive” (Miller), “Demolidor Noir” (Irvine/Coker/Freedman), “Superman – O que aconteceu com o Homem de Aço” (Moore).

Metas para 2014: Pelo menos voltar aos números de 2012. Diversificar a dieta, reforçando as leituras de africanos e asiáticos.

Meninos, eu li (40)

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Continuação do maravilhoso “Haroun e o mar de histórias”, “Luka e o fogo da vida” (Cia das Letras, 2010) não chega a ser tão arrebatador quanto o primeiro. Em compensação, é mais ousado na derrubada de barreiras estilísticas, já anunciada na primeira página, quando aparecem um urso chamado Cão e um cão chamado Urso. Ali já fica claro que as coisas não ficam presas a seus nomes. É assim que Salman Rushdie escreve ao mesmo tempo uma aventura fantástica, um romance de formação e um jogo. Pode não ser o único autor a fazer isso, e nem o primeiro, mas fora das fronteiras da literatura “de gênero”, foi quem melhor incorporou o universo dos videogames a um livro. O que já é uma grande conquista em si.
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Escrever é um ato de narcisismo, mas não precisa exagerar. “Máquina de pinball” (Conrad, 2002) é Clarah Averbuck tentando se inscrever como herdeira de uma tradição literária que vem de Fante e Bukowsky mas que raras vezes passa do “eu sou melhor que vocês pequenos-burgueses acomodados, porque levo uma vida intensa de sexo-drogas-rock’n’roll”. Quando passa, porém, é bom. É nas (infelizmente poucas) páginas em que sai da egotrip autocondescendente pra fazer literatura.

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“Backlash” (Rocco, 2001) é assustador. Não tem outro jeito de descrever. Cada capítulo descreve um contra-ataque brutal a (pequenas) conquistas feministas em diversos segmentos – do cinema à moda, do mercado de trabalho aos sistemas de saúde. O pulo do gato está na forma como Susan Faludi mostra que a reação conservadora não é uma guerra abstrata entre homens e mulheres, mas uma ação política, integrada ao rearranjo de forças que caracterizou os EUA dos anos Reagan. Portanto, uma disputa de poder, com raízes na estrutura econômica. Indispensável para qualquer jornalista que queira, em primeiro lugar, aprender como se faz uma grande reportagem, e, em segundo lugar, entender como as mentiras se propagam (e o papel da mídia nisso tudo).

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Noely Montes Moraes e os outros terapeutas junguianos que assinam “É Possível Amar Duas Pessoas ao Mesmo Tempo?” (Musa, 2010) fazem um ótimo trabalho dentro dos limites da psicologia analítica. Ou seja: constroem uma boa narrativa mitológica em torno da pergunta que motiva o livro (alerta de spoiler: a resposta é sim), mas que não se mostra muito sólida a ataques externos. O maior problema é que, por mais que avancem na desconstrução de códigos e limitações estabelecidos pela sociedade patriarcal (e isso é um ponto forte do livro), fica sempre a impressão de que estão escrevendo apenas sobre heterossexuais cisgêneros ocidentais, o que não seria grave se não estivessem tratando essa parcela como idêntica a toda a humanidade. Faltou à própria equipe aquilo que é cobrado da sociedade: uma integração maior entre aspectos ditos masculinos e femininos, sem amarrar características psicológicas a determinado gênero (ou sexo). O outro problema é que toda vez que o texto sugeria entrar em contato com a deusa eu pensava em E.L. James.

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A grande vantagem de “As Cobras – Antologia definitiva” (Objetiva, 2010) é o excelente trabalho de seleção. Ao contrário de outras edições, esta mostrou uma preocupação nítida de trazer para o leitor contemporâneo apenas aquilo que se manteve de fato relevante nas tiras de Luis Fernando Veríssimo, deixando de fora muita coisa que era dependente demais do contexto e que perderia a graça hoje. Não é esse o caso, definitivamente, das participações de Dudu, o Alarmista, e das lesmas Flecha e Shirlei, que me deixaram rindo alto.

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O mais interessante de “Mandrake, o mágico – O mundo do espelho e outras histórias” (Pixel, 2013) é reunir uma gama variada de aventuras, todas assinadas por Lee Falk e Phil Davis. Especialmente em “O Colégio de Magia”, temos Mandrake fazendo o que sabe fazer melhor – criar ilusões com seus gestos hipnóticos – mas ele também recorre a outros expedientes (em “O Chefe”), é uma vítima inerte (na história qe dá título à coletânea) ou simplesmente ouve uma história ser contada, sem qualquer participação sua (“O Rei”). Só não disfarça o reacionarismo da série, com suas posturas explicitamente racistas e sexistas.

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A coleção Graphic MSP tinha começado muito bem com “Magnetar” e “Laços”, mas caiu de qualidade em “Chico Bento – Pavor Espaciar” (Panini, 2013). A ideia de fazer Chico e Zé Lelé serem capturados por alienígenas foi boa, mas Gustavo Duarte (ao contrário de Danilo Beyruth e dos irmãos Cafaggi) não conseguiu imprimir um estilo pessoal aos personagens. O traço é até interessante, mas a história poderia ter sido resumida e publicada em qualquer gibi de linha. Não justificou a edição. Agora é torcer para que o álbum do Piteco recupere o padrão.

Meninos, eu li (39)

A_DEFENSE_OF_MASOCHISM Há muito tempo um livro não me surpreendia tão agradavelmente quanto “A defense of masochism”. Num mundo em que qualquer texto de não-ficção leva o rótulo abrangente de “ensaio”, Anita Phillips fez just ao título de ensaísta stricto senso, na melhor tradição do patrono Montaigne: uma abordagem ousada aliada a um texto primoroso. A ousadia já começa na contestação do significado que a autora aplica a “masoquismo”, fugindo do diagnóstico psiquiátrico (de Krafft-Ebbing a Freud) que originou a palavra e de suas associações imediatas com dor, e propondo uma definição em que o cerne do fenômeno está nas fantasias altamente elaboradas e roteirizadas. Visto desta forma, o masoquismo deixa de ser um pólo oposto do sadismo e se revela como um elemento essencial da sexualidade humana, e, numa visão ainda mais abrangente, de todo processo criativo. Toda fantasia é, em algum grau, masoquista. Depois de estabelecer esta premissa, a autora analisa como o masoquismo se manifesta na arte, nas políticas de corpo e gênero, na formação da psique. Arremata com uma comparação entre a fantasia masoquista e a ascese mística.

COMO_GUA_PARA_CHOCOLATE Sinto uma certa inveja de quem leu “Como água para chocolate” antes de ter visto o filme, e se encantou em primeira mão com a fantasia de Laura Esquivel. O impacto logo nas primeiras páginas, com o choro de Tita ao nascer inundando a casa, e os quilos de sal recolhidos quando as lágrimas secam. mas o livro traz algo a mais, e não são apenas as (muitas) receitas. Principalmente, é a relação que a autora estabelece entre o texto e a vida. O que torna mágica a existência de Tita é a sua capacidade de criar. Mas também o que faz dela criadora é a necessidade de reagir ao drama da sua vida. Tita começa presa a esse destino, tanto quanto está ao de filha mais nova na tradição da família, mas consegue tomar conta dele, e faz isso como criadora.

POEMA_SUJO Na primeira vez que tive o “Poema Sujo” nas mãos, eu era tão criança que nem sabia o que era “cu” e porque era feio ler aquilo, ainda mais em voz alta, na sala. Muito menos podia entender o resto. Depois veio a adaptação do Milton Nascimento para “Bela, bela”, e a informação do que tinha sido o Poema e do que ele tinha representado para a cultura brasileira, e tal. Mas só agora fui ler – em voz baixa – e de fato entender do que se tratava. É uma daquelas obras que trazem a marca do momento histórico muito nítida e que mesmo assim permanecem atuais. Não porque o Maranhão dos Sarney seja o mesmo da infância de Ferreira Gullar (embora certos aspectos sociais sejam ainda muito relevantes), mas porque o poeta exilado no espaço está também exilado no tempo, o que o deixa perdido diante da cidade que se move, do rio que se move, do mundo que se move. Nesse sentido, a perplexidade do Poema Sujo é permanente.
Não, não ouvi o CD que acompanha o livro (José Olympio, 2006) com o Gullar declamando o texto.

AS_FLORES_DO_MAL Ler “As flores do mal” (Nova Fronteira, 1985, tradução de Ivan Junqueira) exige uma certa preparação, que começa a se estabelecer no “Convite à viagem”. É preciso querer acreditar no país onde tudo é ordem, beleza, luxo, calma e volúpia. Transposto esse limiar, Baudelaire cumpre o que promete. Tudo é beleza, porque só a beleza pode nos salvar de um mundo por natureza feio e cruel. A beleza e o amor, porque, mais até do que nas preces satanistas, é nos poemas eróticos (proibidos na primeira edição) que o poeta atinge mais claramente o seu objetivo.

A_VERDADEIRA_HISTORIA_DO_ALFABETO “A verdadeira história do alfabeto” (Companhia das Letras, 2012) é daqueles livros que despertam amor e ódio ao mesmo tempo. Amor porque é deslumbrante. Ódio porque eu queria ter escrito cada página dali. Alguns dos 26 mitos de origem são simplesmente sublimes, porque cumprem aquela promessa da ficção de criar um mundo. No caso, um mundo em que letras são inventadas conforme a necessidade de expressar coisas com elas, e onde portanto abundam letras, palavras e histórias que precisam ainda ser trazidas do nada para a realidade. Talvez Noemi Jaffe tenha criado este mundo em que vivemos. Eu não duvidaria.

WOLINSKI “Wolinski” (L&PM, 1987) perdeu um pouco da relevância com o tempo. Pelo menos nessa coletânea, reunindo quadrinhos publicados entre os anos 60 e os 80, o que se vê é uma crítica social e de costumes datada, que provavelmente fazia muito sentido na França daquele período mas que hoje perde boa parte da graça. Algumas histórias sobre maio de 68 e a repressão policial ainda encontram algum eco, por exemplo, nos protestos do Brasil de 2013, mas isso é mais uma coincidência do que uma virtude do autor. Vale mais para conhecer alguém que foi uma influência tão importante sobre Laerte e vários outros quadrinhistas brasileiros.

Meninos, eu li (38)

FETICHE Existem dois pontos altamente positivos em “Fetiche: moda, sexo & poder” (Rocco, 1997). O primeiro é quando Valerie Steele recupera os diversos usos da palavra “fetiche”, desde o religioso-antropológico, passando por Marx e Freud, e consegue relacioná-los todos com o seu objeto de estudo, mantendo uma saudável postura crítica. Infelizmente, essa postura não se mantém quando a autora aceita sem exigir maior rigor a afirmação genérica de que homens são mais visuais e fetichistas que mulheres, e menos ainda quando adota apressadamente as explicações da psicologia evolutiva. O outro elogio, é claro, vai para o ótimo trabalho de inventário da moda fetichista e sua evolução. Ficou faltando ir mais fundo na relação entre sexo, moda e poder prometida no subtítulo.

EROS_E_PSIQUE A tradução de Ferreira Gullar renova o frescor da história de “Eros e Psiquê” (FTD, 2009), séculos depois de Lúcio Apuleio escrever as “Metamorfoses”. A jornada de Psiquê parece familiar não por ter sido recontada das mais diversas formas, e sim porque todos nós passamos pelos mesmos caminhos. Análises filosóficas e psicológicas à parte, como história de amor. Como a história arquetipal de amor, com seus estágios de encanto, de provação, de dúvida e de júbilo. Continua sendo preciso buscar o reencontro com Eros a todo custo, mesmo depois de magoá-lo.

HISTORIA_DE_O“A história de O” (Brasiliense, 1985) é provavelmente o maior romance erótico já escrito. O melhor que eu já li, pelo menos, e um daqueles livros que você fica sem entender por que demorou tanto tempo para ler. Isso porque é excelente nas duas coisas: um romance marcante (sem trocadilhos) pela construção e desenvolvimento dos personagens e ao msmo tempo embalado num texto erótico que provoca da primeira à última página. O fim aberto, na verdade menos que uma sugestão de desfecho, pode parecer frustrante mas acaba sendo a melhor saída.

SEXO O fato de André Sant’anna (7Letras, 1999) ser publicitário explica muita coisa em “Sexo”. Principalmente a opção por um romance em que os personagens não são personagens: são clichês, ou na melhor das hipóteses perfis demográficos e de consumo ambulantes. É uma opção consciente, ressaltada pelo tratamento anônimo dado a todos (e pelo uso de dois deles como peças intercambiáveis), mas nem por isso menos incômoda. Especialmente quando reflete estereótipos classistas e racistas: por exemplo, para o autor todos os negros fedem em seu estado natural, ao contrário dos brancos. A sensação no fim é de se submeter a um bombardeio de anúncios não de sabonete nem de creme dental, mas de, vejam só, sexo. Que Sant’anna parece considerar algo geralmente melancólico e sem sentido.

TURMA_DA_MONICA__LACOS Eu achava o trabalho do Vítor Cafaggi (especialmente em “Valente”) meio bobo, sentimental demais. Da Lu cafaggi não tinha visto quase nada, e o pouco que vi não tinha me interessado. Felizmente dei uma chance a “Turma da Mônica: Laços” (Panini, 2013) depois de ver algumas boas recomendações. A dupla acerta no tom, no ritmo e nas referências, criando uma história que poderia até ser a primeira de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. O flashback com Cebolinha ganhando o Floquinho filhote é covardia.

O_FANTASMA “Piratas do Céu” (Pixel, 2013) é basicamente uma curiosidade histórica. Tudo bem, Lee Falk sabia tudo de aventura serializada e Ray Moore foi um bom parceiro, mas as aventuras do Fantasma, lidas hoje, são de uma ingenuidade risível. Claro que isso reforça ainda mais o seu valor como documento de época. Afinal, mostra o que é um mundo em que os leitores conseguiam acreditar num herói branco reverenciado pelas tribos de selvagens, e que com apenas um beijo transformava vilãs crueis em mocinhas arrependidas e apaixonadas.

Meninos, eu li (37)

PORRAJoão Ximenes Braga é melhor cronista do que romancista. A prova disso é que “Porra” (Objetiva, 2003) vai muito bem na primeira parte, construída sobre monólogos dos personagens. Ainda que beirando os estereótipos (o pitboy homofóbico e enrustido, o arquiteto gay moderno e sofisticado, o vaporzinho arrependido e confuso), os três funcionam bem como câmeras que registram cenas do dia-a-dia e principalmente da noite-a-noite da Zona Sul carioca. Quando as três histórias se entrelaçam e forçam o autor a assumir um papel de narrador em terceira pessoa, a história cai um pouco, e se recupera justamente quando os monólogos interiores retomam o foco. Talvez esse desconforto do autor em ficar acima (e fora) dos personagens seja o que o livro tem de melhor, se visto como uma recusa proposital a ser um árbitro das vidas alheias.

LESBIA“Lésbia” (Mulheres, 1998) vale como curiosidade e como registro histórico de um romance protofeminista escrito no Brasil em 1890. Mas a personagem principal Arabela/Lésbia (que é heterossexual – eta título enganoso!), mesmo sendo capaz de empolgar pelas atitudes independentes (a partir do momento em que descobre ser capaz de viver fora da sombra dos homens), decepciona pela falta de profundidade. É talentosa, rica, bonita, amada, invejada, generosa — em resumo, uma heroína pra lá de idealizada. E ainda assim Maria Bormann/Délia não consegue encontrar uma solução satisfatória para o único conflito real com que a protagonista se defronta como mulher adulta. Pelo menos serve como metáfora do quanto o feminismo avançou em cento e poucos anos.

MIDIA_E_POLITICA_NA_AMERICA_LATINACarolina Matos atirou no que viu e acertou no que não viu. “Mídia e Política na América Latina” (Civilização Brasileira, 2013) é cheio de defeitos, a começar pela tradução a cargo da própria autora (o original foi escrito em inglês) e se estendendo pela falta de profundidade e de rigor teórico disfarçada de multidisciplinaridade. A falha mais grave, creio, é quando a autora não se envergonha de apresentar uma enquete entre estudantes de Jornalismo da UFRJ como representativa do público de TV do Brasil. Apesar de tudo, nas conclusões surge uma constatação de um país desiludido com as instituições e tomado pelo “cinismo político”, que se encaixa perfeitamente nos protestos de junho de 2013. Também acerta em cheio quando aponta a complexidade do problema da democratização da mídia no Brasil, e suas relações, por exemplo, com o baixo investimento em educação.

SOLARISEntre as múltiplas camadas de “Solaris” (Europa-América, 1983, traduzido da versão em inglês), a que parece mais atemporal é a da relação entre Kevin e Rheya. Mesmo que sua intenção primordial fosse outra, Stanislaw Lem escreveu não apenas um clássico da ficação científica mas também uma história de amor, talvez a maior da literatura mundial em todo o século XX. Quando Rheya se descobre um instrumento de tortura do homem que ama (o que é aliás recíproco), sofrendo por ter consciência do seu papel, ela sintetiza a condição de todo amante. Ainda que se discorde da sua decisão.

A_HISTORIA_VERDADEIRALogo na abertura de “A história verdadeira” (Ateliê, 2012), Luciano de Samóstata inventa o gênero fantástico. Não que antes não houvesse histórias fantasiosas. A diferença é que ele é o primeiro autor a assumir que tudo o que narra não só é mentira (que afinal é apenas outro nome para ficção), mas também algo impossível, que só pode existir na imaginação do escritor e do leitor. Estabelecida a premissa, a viagem do narrador até a Lua e Vênus se torna verossímil, na verossimilhança que pode existir dentro das regras da fantasia, assim como seus encontros com gigantes e monstros marinhos. As ilustrações de Alexandre Camanho, Carlos José Gama e Jaca atualizam a imaginação do século II para o leitor moderno.

SUPERMAN__O_QUE_ACONTECEU_AO_HOMEM_DE_ACO“Superman – O que aconteceu com o Homem de Aço” (Panini, 2013) deveria ter sido aquilo que sequer fingia ser: a última história em quadrinhos do Super-Homem. Alan Moore conseguiu amarrar direitinho os principais elementos (vilões, aliados, amigos) relacionados com o personagem e levá-lo a um fim digno, convincente. Das histórias-bônus, só “A Linha da Selva” vale a pena, pela participação do Monstro do Pântano. “Para o Homem que Tem Tudo” apenas engrossa o volume o suficiente para justificar a capa dura.

JOHN_CONSTANTINEN_HELLBLAZER“A empatia é o inimigo” tinha deixado um fim aberto. Aliás, tinha terminado sem um fim. “A mácula vermelha” (Panini, 2013) completa a aventura de John Constantine em Glasgow de forma satisfatória. O roteiro de Denise Mina consegue manter a escalada de suspense do confronto de Constantine com entidades malignas amarradinha com um prosaico mas igualmente tenso jogo de futebol entre Portugal e Inglaterra pela Copa do Mundo de 2006. A virada de roteiro tem a dose de sarcasmo que se espera de um volume de Hellblazer.

HITGIRLMark Millar cumpre o que promete em “Hit Girl” (Panini, 2013), fazendo jus ao subtítulo “Prelúdio para Kick Ass 2″. Recupera os personagens do filme, mostrando o que aconteceu a Mindy Macready e Dave Lizewsky, e, depois de uma aventura com mais ação do que cérebro, deixa-os prontos para a continuação na tela. É moralista, muitas vezes reacionário, mas distrai.

THE_INNOCENTGlobalização é isso: um quadrinista israelense radicado nos Estados Unidos criando um mangá. Tudo bem que Avi Arad escreveu “The Innocent” (JBC, 2013) com a colaboração de Fujisaku Junichi e Ko Ya-Seong. Mas dá para ver a marca das suas décadas de Marvel Comics na história do justiceiro que volta da morte. A trama segue assim, meio detetive americano, meio sobrenatural coreano-japonês, e se resolve sem problemas mas também sem grandes brilhos.

VIZINHOSO traço propositalmente rústico de “Vizinhos” (Cachalote, 2013) chama a atenção para a técnica preciosa de Laerte, que consegue contar uma história de 32 páginas inteiramente sem palavras. Porém o resultado fica, da mesma forma que os desenhos, um pouco abaixo do que se esperava. O próprio autor já tinha feito coisas parecidas e bem melhores na antiga revista “Piratas do Tietê”. Mas é claro que até um Laerte mediano já é bem melhor que a maioria do que se encontra por aí.

(Publicado também no skoob)

Meninos, eu li (36)

VASARELY A primeira vez que ouvi falar de Viktor Vasarely tinha sido nas aulas da Miriam Fonseca de Carvalho, na ECO. Na época eu fiquei embasbacado com os efeitos sensórios que ele obtinha manipulando formas e cores, mas foi só. “Vasarely 2″ (Griffon, 1973), mesmo se apresentando como um livro para ser visto, e não lido, apresenta também alguns dos pressupostos teóricos por trás das obras que fazem dele, 40 anos depois, ainda um artista atual. Em especial, o uso da programação (na época, ainda muito longe das ferramentas tecnológicas de que dispomos hoje), mas com a ressalva de que o resultado dela depende do filtro humano para fazer sentido.

NEUROMANCER No prefácio à edição de aniversário de “Neuromancer” (Aleph, 2008), William Gibson pede desculpas por não ter previsto o futuro. Um mundo de ficção científica sem celulares onipresentes, para ele, parece ridículo visto hoje. Não é nisso, porém, que o livro envelheceu. Pelo contrário. Até mesmo a parede de telefones públicos tocando à medida que Case passa por eles continua funcionando muito bem, com a carga dramática intocada. O que marca “Neuromancer” como uma obra dos anos 80 é outra coisa, e é o que o tornou popular. É o estranhamento diante de uma ciborguização do corpo e da mente, que em si ainda é atual, mas que na época só podia ser vista de uma perspectiva individual (sim, eram os anos 80), enquanto a de hoje é principalmente coletiva.

GARGANTUA A maior dificuldade de “Gargantua” (Atena, 1957) nem é a falta de familiaridade com a cena política francesa do século XV, que me impediu de entender todas as referências. Isso uma edição mais caprichada, com notas explicativas, teria resolvido. Chato é que, especialmente nos primeiros capítulos, François Rabelais parece conhecer apenas duas formas de humor — o exagero numérico e a escatologia. A partir do capítulo em que começa a educação formal de Gargantua em Paris, o tom de sátira às instituições melhora um pouco. O que, de certa forma, trai um certo moralismo do autor: com todo o seu liberalismo, ao mudar significativamente o estilo ao longo do texto ele reforça a ideia de que o corpo é impuro e inferior, e a mente, pura e superior. E é assim que ele conduz até o único capítulo que justifica a permanência do livro como um clássico, que é a descrição utópica da Abadia de Telema.

UMA_AULA_DE_MATAR Ana Arruda Callado foi a melhor professora que eu tive na vida e eu não vou falar mal dela por nada nesse mundo. Isto posto, eu preciso lamentar o fato de não ser parte do público (mais jovem, creio) a que se dirige “Uma aula de matar” (Rocco, 2011). É divertido de se ler, e deve ter sido ainda mais divertido de se escrever: dá para imaginar a autora montando um mosaico de personagens e cenas a partir de pedaços da sua experiência jornalística, política e acadêmica, mais uma boa dose dos seus romances policiais preferidos. Duas coisas, porém, atrapalham um pouco: o didatismo em alguns trechos e a alternância entre a narrativa no presente e no passado, sem razão aparente.

SUITE_DAMA_DA_NOITE Não é exagero nenhum dizer que “Suíte Dama da Noite” (Record, 2008) está entre os melhores romances brasileiros deste século. Manoela Sawitzki parte de elementos simples — um casamento sem amor, uma relação extraconjugal — e usa a mitômana Júlia Capovilla para questionar sutilmente as possibilidades e os limites (tanto ontológicos quanto éticos) da própria ficção. Nos capítulos finais, flerta perigosamente com a solução de uma metáfora redentora fácil, mas sai pela tangente e arremata com uma profissão de fé no seu ofício. E ainda faz isso tudo com uma prosa fluida, encaixando duas ou três linhas memoráveis.

O_INESCRITO_3 A melhor coisa de “O retorno de um morto”, volume 3 de “O Inescrito” (Panini, 2013), não está nas aventuras de Tom/Tommy Taylor. É a personagem secundária Lizzie Hexam, que finalmente ganha algum relevo, antes mesmo de protagonizar a segunda parte da revista. No mais, Mike Carey e Peter Gross continuam o ótimo trabalho de construir uma história em cima de todo tipo de referência literária possível. O trecho no formato “escolha sua aventura” é um pouco longo demais (além de no fundo uma trapaça, pois quase sempre leva ao mesmo fim — mas não é isso que acontece em toda ficção?), porém não chega a incomodar.

(Publicado também no skoob)