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Meninos, eu li (42)

Neil Gaiman claramente precisava resolver alguns problemas quando escreveu “O oceano no fim do caminho” (Intrínseca, 2013) – e nem estou falando das teorias conspiratórias sobre Cientologia. A fantasia do protagonista sem nome se transforma num pesadelo freudiano que de certa forma retoma temas já explorados antes (em “Coraline” e “Os filhos de Anansi”, principalmente) mas que dessa vez são explicitados num nível que chega a ser quase grosseiro (no sentido de que mereciam um tratamento ficcional mais sofisticado, de que ele certamente seria capaz). O desfecho é um pouco precipitado, como se houvesse uma pressa de se livrar do conflito o mais rápido possível. Mas Gaiman continua sendo muito bom na arte de transitar no limite entre realidade e fantasia, e isso compensa os defeitos.

A primeira reação à leitura do “Caderno de sonhos” Dantes, 2000) é de uma certa irritação, uma sensação de que Ana Miranda publicou um caça-níqueis, uma mera descrição de sonhos, sem mérito autoral algum. Mas basta um pouco mais de atenção para perceber, por trás da aparente intervenção mínima da autora no fluxo de imagens do seu inconsciente, uma proposta literária bem interessante, e corajosa em dois níveis. O primeiro, justamente o de se disfarçar de não-literatura. O segundo, o de expor traumas, fantasias e delírios, abrindo uma janela para a alma.

METAMORFOSES Não vou negar os méritos de Vera Lúcia Leitão Magyar de se aventurar a traduzir a íntegra das “Metamorfoses” (Madras, 2003). O esforço em si é digno de elogios, mas o resultado deixa a desejar. Tem até um “círculo redondo” que duvido muito que esteja no original. Além disso, a edição não traz sequer um breve prefácio que ajude a guiar o leitor pelas diversas histórias que se encadeiam e entrecruzam ao longo dos cantos de Ovídio. Entre um tropeço e outro, porém, sobra a viagem através das inúmeras intervenções dos deuses, sempre transformando a vida dos mortais, levando à conclusão de que a vida em si é eterna mudança.

ZUMBIS1ZUMBIS2ZUMBIS3ZUMBIS4 A série “Zumbis Marvel” (Panini, 2013-2014) começa meio sem saber para onde vai. Robert Kirkman, Sean Phillips e June Chung parecem apenas estar se divertindo muito com o nonsense da premissa, e chutando todos os baldes que estejam ao seu alcance. A partir do segundo volume, com a entrada de Mark Millar e outros, a história fica não mais séria, que seria justamente o pior erro possível, porém mais imaginativa, explorando possibilidades que vão além da caricatura – por exemplo, com a entrada dos Filhos da Meia-Noite, compondo o tipo de conflito que se espera de um gibi da Marvel. As homenagens a capas clássicas da editora são um dos pontos fortes.

Meninos, eu li (41)

Excepcionalmente, vão num mesmo post as leituras de novembro e dezembro. E vamos ver se esse blog volta ao ritmo normal em 2014.

...Quando eu era criança, Marco Polo era um dos meus herois, talvez o primeiro personagem histórico que para mim era tão fantástico quanto os de ficção. Conhecer o Livro das Maravilhas era um desejo, mas teria sido uma grande frustração se na época eu tivesse lido essa edição do Clube do Livro (1989), “As viagens de Marco Polo”. Aos 10 anos, eu teria achado chatas as descrições repetitivas e sem a aventura que eu teria esperado. Adulto, valeu pela curiosidade de ver o mundo pelos olhos de um veneziano do século XIII, seus valores e o seu recorte da realidade que, de tão peculiar que parece hoje, relativiza a nossa experiência atual da realidade.

...A coleção Ponta de Lança, da Língua Geral, nunca me decepciona. “O melhor do inferno” (2011) é mais uma pérola no catálogo da editora. Christiane Tassis mostra muita habilidade narrativa no entrecruzamento dos discursos dos personagens (a começar pelo prólogo, na voz de um gato), na intersecção da literatura com outras formas de texto (vídeo, artes plásticas, web) e mais ainda ao apresentar esse diálogo como a verdadeira história por trás da história entre David, Isabel e Guadalupe. Mais um livro que me deixa querendo saber o que andaram botando na água dessas jovens escritoras.

...Difícil escolher o melhor de “Bolland Strips!” (Nemo, 2013). Tanto “A atriz e o bispo” quanto a saga de “Mr. Mamoulian” são histórias que desafiam o leitor, mergulhando num mundo onírico. Mamoulian acaba levando uma pequena vantagem pelos toques metalinguísticos e autocríticos. Mas, em todo o álbum, Brian Bolland mostra que é possível conciliar o trabalho numa linha de montagem de editora comercial com a produção de uma obra personalíssima, reveladora de influências variadas.

...A Xerazade tunisina pode ser menos prolixa que a sua congênere persa. Mas talvez seja mais eficiente, já que lhe bastaram os contos de “Cento e uma noites” (Hedra, 2002) para acalmar um rei ciumento. A coletânea de contos mantém o sabor das narrativas orais com suas fórmulas mnemônicas e suas estruturas concêntricas, contendo histórias dentro de histórias dentro de histórias. Como no seu melhor momento, o da disputa entre a mulher do rei e seus vizires sobre o destino do príncipe, toda mediada por fábulas que se digladiam.

...Anita Phillips foi uma das raras autoras a trocar o ensaio pela ficção e manter a qualidade. “The Virtues, the Vices and All the Passions” (Polygon, 1991), infelizmente seu único romance, é um quebra-cabeças que remete a Cortázar e, principalmente, Calvino: cada capítulo inicia com uma página da “Iconologie” de Boudard, representando uma das “virtudes, vícios e todas as paixões”, e que dá o tom do texto a seguir. Mas a Iconologia não é gratuita: é também o livro-dentro-do-livro, que Vira, a protagonista, está traduzindo. Phillips, assim como Vira, busca o tempo todo uma tradução, uma correspondência perfeita entre a imagem, o texto, a narrativa e a vida, apenas para revelar a impossibilidade dessa missão e a falta de qualquer sentido. (E sim, a capa é uma foto de Francesca Woodman).

...Eu vou puxar a brasa para a sardinha do amigo Silvio Essinger para dizer que ele foi um dos autores que escolheram o caminho certo em “Se7e: Anões” (Ímã, 2013). Dos oito contos, os melhores foram os que voaram para mais longe do conto de Branca de Neve, e utilizaram os personagens em contextos variados como o Soneca de ficção científica ou, no limite, o Feliz conquistador. Outros autores da coletânea optaram pela sátira escrachada e deixaram a desejar.

...“Tu, só tu, puro amor” (USP/Brasiliana, 2010) é uma raridade. Não apenas o volume, reprodução em fac-símile do exemplar nº 22 autografado pelo autor e dedicado a Joaquim Nabuco, mas o texto em si: uma comédia em que Machado de Assis presta sua homenagem a Camões e que soa até pós-moderno na sua transformação de autores clássicos em personagens de ficção. O poeta-personagem antecipa e justifica, nas suas aventuras românticas, o poeta real que viria a ser depois do exílio.

...Ana Rüsche é poeta do tipo que gosta de reinventar palavras (como se existisse outro tipo). “Sarabanda” (Patuá, 2013), por exemplo, não é uma sarabanda, é outra sarabanda: como nota Paulo Ferraz na carta-posfácio, tem um “samba” escondido ali no meio, fingindo que não é com ele. Boa parte dos poemas desse livro é assim: escondida no meio dos versos tem aquela palavra-tropeço, que depois da página já virada ecoa no fundo do cérebro e volta pra rir do sentido primeiro, mostrar sentidos segundos, provocar intenções terceiras.

...“Ícones dos Quadrinhos” (Nywgraf, 2013) foi o melhor projeto que já apoiei no Catarse, pelo menos na relação custo/benefício. Saiu uma pechincha esse álbum com 100 versões renovadas de personagens clássicos. Algumas, é claro, não tão boas, até mesmo preguiçosas. Mas os pontos altos compensam: o Sandman de José Aguiar, o Tio Patinhas de Danilo Beyruth, o Lobo Solitário de Rafael Grampá, a Morte de Roger Cruz. O texto é uma boa introdução para quem não conhece os personagens, apesar de depois de algum tempo ficar repetitivo (e desnecessário) dizer que Superman ou Mickey fizeram sucesso em diversas outras mídias. Outro problema, que a Alessandra apontou: de 100 personagens, apenas 12 são femininos. E, mais grave ainda, entre 101 artistas, só três são mulheres.

...Ler “Marvels” (Panini/Salvat, 2013) hoje pela primeira vez ainda é impactante. Mesmo que o estilo mostrado por Alex Ross tenha mais tarde se aprimorado em “Reino do Amanhã”, e que o próprio Kurt Busiek tenha desenvolvido melhor alguns dos temas ali presentes em “Astro City”, em que gozava de mais liberdade criativa. Na verdade, talvez a grande realização da dupla tenha sido justamente criar uma história tão forte apesar das limitações impostas pelo desafio de recontar aventuras clássicas dos personagens da Marvel e ainda amarrá-las num todo coerente.

...“O Inescrito” é, para mim, a melhor série de quadrinhos sendo publicada hoje no Brasil. E o volume 4, “Leviatã” (Panini, 2013) é o melhor de todos até agora. Mike Carey e Peter Gross levam Tom Taylor a bordo do Pequod e de lá para o ventre da baleia, onde ele se confronta com a força do arquétipo. Jonas, Pinóquio, Sinbad, Morus e Münchausen entrelaçam suas histórias, aprofundando tanto no protagonista quando no leitor a consciência do monomito.

...“Sabor Brasilis” (Zarabatana, 2013) justificou a expectativa criada pelas boas resenhas publicadas na época do lançamento. Hector Lima, Pablo Casado, Felipe Cunha e George Schall conseguem misturar a trama da novela Sabor Brasilis com as intrigas envolvendo a equipe de roteiristas, salpicando referências a alguns sucessos da TV brasileira. A narrativa é ágil e econômica, usando bem cada detalhe para reforçar os elemtnos da trama e dos personagens. Um exemplo do bom quadrinho independente feito hoje no Brasil.


Resumão de 2013: 54 livros e 27 quadrinhos (respectivamente 4 e 6 a menos que em 2012).

Os melhores: “The book of fantasy” (Borges/Casares/Ocampo), “As crônicas marcianas” (Bradbury), “Old Possum’s Book of Practical Cats” (Elliot), “O Mestre e Margarida” (Bulgakov), “A jangada de pedra” (Saramago), “Grande Sertão: Veredas” (Rosa), “Suíte Dama da Noite” (Sawitzki), “Solaris” (Lem), “A história de O” (Réage), “Eros e Psiquê” (Apuleio), “Fetiche: moda, sexo & poder” (Steele), “As flores do mal” (Baudelaire), “Poema sujo” (Gullar), “Como água para chocolate” (Esquivel), “Backlash” (Faludi), “Luka e o fogo da vida” (Rushdie), “Cento e uma noites” (Anônimo), “Estórias gerais” (Srbek/Colin), “As Cobras – antologia definitiva” (Verissimo), “O Inescrito” – volumes 2, 3 e 4 (Carey/Gross).

As ótimas surpresas: “Paisagem com dromedário” (Saavedra), “A verdadeira história do alfabeto” (Jaffe), “A defense of masochism” e “The Virtues, the Vices and All the Passions” (Phillips), “O melhor do inferno” (Tassis), “Sarabanda” (Rüsche), “Sabor Brasilis” (Lima/Casado/Cunha/Schall).

Os piores: “Pequeno Irmão” (Doctorow) foi o único realmente ruim. Outros foram apenas fracos, irregulares, ou ficaram aquém da expectativa: “Uma aula de matar” (Callado), “Gargantua” (Rabelais), “Sexo” (Sant’anna), “Máquina de pinball” (Averbuck), “Se7e: Anões” (Vários), “Simon’s Cat” (Tofield), “The last knight” (Eisner), “Elektra vive” (Miller), “Demolidor Noir” (Irvine/Coker/Freedman), “Superman – O que aconteceu com o Homem de Aço” (Moore).

Metas para 2014: Pelo menos voltar aos números de 2012. Diversificar a dieta, reforçando as leituras de africanos e asiáticos.

Meninos, eu li (40)

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Continuação do maravilhoso “Haroun e o mar de histórias”, “Luka e o fogo da vida” (Cia das Letras, 2010) não chega a ser tão arrebatador quanto o primeiro. Em compensação, é mais ousado na derrubada de barreiras estilísticas, já anunciada na primeira página, quando aparecem um urso chamado Cão e um cão chamado Urso. Ali já fica claro que as coisas não ficam presas a seus nomes. É assim que Salman Rushdie escreve ao mesmo tempo uma aventura fantástica, um romance de formação e um jogo. Pode não ser o único autor a fazer isso, e nem o primeiro, mas fora das fronteiras da literatura “de gênero”, foi quem melhor incorporou o universo dos videogames a um livro. O que já é uma grande conquista em si.
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Escrever é um ato de narcisismo, mas não precisa exagerar. “Máquina de pinball” (Conrad, 2002) é Clarah Averbuck tentando se inscrever como herdeira de uma tradição literária que vem de Fante e Bukowsky mas que raras vezes passa do “eu sou melhor que vocês pequenos-burgueses acomodados, porque levo uma vida intensa de sexo-drogas-rock’n’roll”. Quando passa, porém, é bom. É nas (infelizmente poucas) páginas em que sai da egotrip autocondescendente pra fazer literatura.

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“Backlash” (Rocco, 2001) é assustador. Não tem outro jeito de descrever. Cada capítulo descreve um contra-ataque brutal a (pequenas) conquistas feministas em diversos segmentos – do cinema à moda, do mercado de trabalho aos sistemas de saúde. O pulo do gato está na forma como Susan Faludi mostra que a reação conservadora não é uma guerra abstrata entre homens e mulheres, mas uma ação política, integrada ao rearranjo de forças que caracterizou os EUA dos anos Reagan. Portanto, uma disputa de poder, com raízes na estrutura econômica. Indispensável para qualquer jornalista que queira, em primeiro lugar, aprender como se faz uma grande reportagem, e, em segundo lugar, entender como as mentiras se propagam (e o papel da mídia nisso tudo).

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Noely Montes Moraes e os outros terapeutas junguianos que assinam “É Possível Amar Duas Pessoas ao Mesmo Tempo?” (Musa, 2010) fazem um ótimo trabalho dentro dos limites da psicologia analítica. Ou seja: constroem uma boa narrativa mitológica em torno da pergunta que motiva o livro (alerta de spoiler: a resposta é sim), mas que não se mostra muito sólida a ataques externos. O maior problema é que, por mais que avancem na desconstrução de códigos e limitações estabelecidos pela sociedade patriarcal (e isso é um ponto forte do livro), fica sempre a impressão de que estão escrevendo apenas sobre heterossexuais cisgêneros ocidentais, o que não seria grave se não estivessem tratando essa parcela como idêntica a toda a humanidade. Faltou à própria equipe aquilo que é cobrado da sociedade: uma integração maior entre aspectos ditos masculinos e femininos, sem amarrar características psicológicas a determinado gênero (ou sexo). O outro problema é que toda vez que o texto sugeria entrar em contato com a deusa eu pensava em E.L. James.

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A grande vantagem de “As Cobras – Antologia definitiva” (Objetiva, 2010) é o excelente trabalho de seleção. Ao contrário de outras edições, esta mostrou uma preocupação nítida de trazer para o leitor contemporâneo apenas aquilo que se manteve de fato relevante nas tiras de Luis Fernando Veríssimo, deixando de fora muita coisa que era dependente demais do contexto e que perderia a graça hoje. Não é esse o caso, definitivamente, das participações de Dudu, o Alarmista, e das lesmas Flecha e Shirlei, que me deixaram rindo alto.

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O mais interessante de “Mandrake, o mágico – O mundo do espelho e outras histórias” (Pixel, 2013) é reunir uma gama variada de aventuras, todas assinadas por Lee Falk e Phil Davis. Especialmente em “O Colégio de Magia”, temos Mandrake fazendo o que sabe fazer melhor – criar ilusões com seus gestos hipnóticos – mas ele também recorre a outros expedientes (em “O Chefe”), é uma vítima inerte (na história qe dá título à coletânea) ou simplesmente ouve uma história ser contada, sem qualquer participação sua (“O Rei”). Só não disfarça o reacionarismo da série, com suas posturas explicitamente racistas e sexistas.

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A coleção Graphic MSP tinha começado muito bem com “Magnetar” e “Laços”, mas caiu de qualidade em “Chico Bento – Pavor Espaciar” (Panini, 2013). A ideia de fazer Chico e Zé Lelé serem capturados por alienígenas foi boa, mas Gustavo Duarte (ao contrário de Danilo Beyruth e dos irmãos Cafaggi) não conseguiu imprimir um estilo pessoal aos personagens. O traço é até interessante, mas a história poderia ter sido resumida e publicada em qualquer gibi de linha. Não justificou a edição. Agora é torcer para que o álbum do Piteco recupere o padrão.

Meninos, eu li (39)

A_DEFENSE_OF_MASOCHISM Há muito tempo um livro não me surpreendia tão agradavelmente quanto “A defense of masochism”. Num mundo em que qualquer texto de não-ficção leva o rótulo abrangente de “ensaio”, Anita Phillips fez just ao título de ensaísta stricto senso, na melhor tradição do patrono Montaigne: uma abordagem ousada aliada a um texto primoroso. A ousadia já começa na contestação do significado que a autora aplica a “masoquismo”, fugindo do diagnóstico psiquiátrico (de Krafft-Ebbing a Freud) que originou a palavra e de suas associações imediatas com dor, e propondo uma definição em que o cerne do fenômeno está nas fantasias altamente elaboradas e roteirizadas. Visto desta forma, o masoquismo deixa de ser um pólo oposto do sadismo e se revela como um elemento essencial da sexualidade humana, e, numa visão ainda mais abrangente, de todo processo criativo. Toda fantasia é, em algum grau, masoquista. Depois de estabelecer esta premissa, a autora analisa como o masoquismo se manifesta na arte, nas políticas de corpo e gênero, na formação da psique. Arremata com uma comparação entre a fantasia masoquista e a ascese mística.

COMO_GUA_PARA_CHOCOLATE Sinto uma certa inveja de quem leu “Como água para chocolate” antes de ter visto o filme, e se encantou em primeira mão com a fantasia de Laura Esquivel. O impacto logo nas primeiras páginas, com o choro de Tita ao nascer inundando a casa, e os quilos de sal recolhidos quando as lágrimas secam. mas o livro traz algo a mais, e não são apenas as (muitas) receitas. Principalmente, é a relação que a autora estabelece entre o texto e a vida. O que torna mágica a existência de Tita é a sua capacidade de criar. Mas também o que faz dela criadora é a necessidade de reagir ao drama da sua vida. Tita começa presa a esse destino, tanto quanto está ao de filha mais nova na tradição da família, mas consegue tomar conta dele, e faz isso como criadora.

POEMA_SUJO Na primeira vez que tive o “Poema Sujo” nas mãos, eu era tão criança que nem sabia o que era “cu” e porque era feio ler aquilo, ainda mais em voz alta, na sala. Muito menos podia entender o resto. Depois veio a adaptação do Milton Nascimento para “Bela, bela”, e a informação do que tinha sido o Poema e do que ele tinha representado para a cultura brasileira, e tal. Mas só agora fui ler – em voz baixa – e de fato entender do que se tratava. É uma daquelas obras que trazem a marca do momento histórico muito nítida e que mesmo assim permanecem atuais. Não porque o Maranhão dos Sarney seja o mesmo da infância de Ferreira Gullar (embora certos aspectos sociais sejam ainda muito relevantes), mas porque o poeta exilado no espaço está também exilado no tempo, o que o deixa perdido diante da cidade que se move, do rio que se move, do mundo que se move. Nesse sentido, a perplexidade do Poema Sujo é permanente.
Não, não ouvi o CD que acompanha o livro (José Olympio, 2006) com o Gullar declamando o texto.

AS_FLORES_DO_MAL Ler “As flores do mal” (Nova Fronteira, 1985, tradução de Ivan Junqueira) exige uma certa preparação, que começa a se estabelecer no “Convite à viagem”. É preciso querer acreditar no país onde tudo é ordem, beleza, luxo, calma e volúpia. Transposto esse limiar, Baudelaire cumpre o que promete. Tudo é beleza, porque só a beleza pode nos salvar de um mundo por natureza feio e cruel. A beleza e o amor, porque, mais até do que nas preces satanistas, é nos poemas eróticos (proibidos na primeira edição) que o poeta atinge mais claramente o seu objetivo.

A_VERDADEIRA_HISTORIA_DO_ALFABETO “A verdadeira história do alfabeto” (Companhia das Letras, 2012) é daqueles livros que despertam amor e ódio ao mesmo tempo. Amor porque é deslumbrante. Ódio porque eu queria ter escrito cada página dali. Alguns dos 26 mitos de origem são simplesmente sublimes, porque cumprem aquela promessa da ficção de criar um mundo. No caso, um mundo em que letras são inventadas conforme a necessidade de expressar coisas com elas, e onde portanto abundam letras, palavras e histórias que precisam ainda ser trazidas do nada para a realidade. Talvez Noemi Jaffe tenha criado este mundo em que vivemos. Eu não duvidaria.

WOLINSKI “Wolinski” (L&PM, 1987) perdeu um pouco da relevância com o tempo. Pelo menos nessa coletânea, reunindo quadrinhos publicados entre os anos 60 e os 80, o que se vê é uma crítica social e de costumes datada, que provavelmente fazia muito sentido na França daquele período mas que hoje perde boa parte da graça. Algumas histórias sobre maio de 68 e a repressão policial ainda encontram algum eco, por exemplo, nos protestos do Brasil de 2013, mas isso é mais uma coincidência do que uma virtude do autor. Vale mais para conhecer alguém que foi uma influência tão importante sobre Laerte e vários outros quadrinhistas brasileiros.

Meninos, eu li (38)

FETICHE Existem dois pontos altamente positivos em “Fetiche: moda, sexo & poder” (Rocco, 1997). O primeiro é quando Valerie Steele recupera os diversos usos da palavra “fetiche”, desde o religioso-antropológico, passando por Marx e Freud, e consegue relacioná-los todos com o seu objeto de estudo, mantendo uma saudável postura crítica. Infelizmente, essa postura não se mantém quando a autora aceita sem exigir maior rigor a afirmação genérica de que homens são mais visuais e fetichistas que mulheres, e menos ainda quando adota apressadamente as explicações da psicologia evolutiva. O outro elogio, é claro, vai para o ótimo trabalho de inventário da moda fetichista e sua evolução. Ficou faltando ir mais fundo na relação entre sexo, moda e poder prometida no subtítulo.

EROS_E_PSIQUE A tradução de Ferreira Gullar renova o frescor da história de “Eros e Psiquê” (FTD, 2009), séculos depois de Lúcio Apuleio escrever as “Metamorfoses”. A jornada de Psiquê parece familiar não por ter sido recontada das mais diversas formas, e sim porque todos nós passamos pelos mesmos caminhos. Análises filosóficas e psicológicas à parte, como história de amor. Como a história arquetipal de amor, com seus estágios de encanto, de provação, de dúvida e de júbilo. Continua sendo preciso buscar o reencontro com Eros a todo custo, mesmo depois de magoá-lo.

HISTORIA_DE_O“A história de O” (Brasiliense, 1985) é provavelmente o maior romance erótico já escrito. O melhor que eu já li, pelo menos, e um daqueles livros que você fica sem entender por que demorou tanto tempo para ler. Isso porque é excelente nas duas coisas: um romance marcante (sem trocadilhos) pela construção e desenvolvimento dos personagens e ao msmo tempo embalado num texto erótico que provoca da primeira à última página. O fim aberto, na verdade menos que uma sugestão de desfecho, pode parecer frustrante mas acaba sendo a melhor saída.

SEXO O fato de André Sant’anna (7Letras, 1999) ser publicitário explica muita coisa em “Sexo”. Principalmente a opção por um romance em que os personagens não são personagens: são clichês, ou na melhor das hipóteses perfis demográficos e de consumo ambulantes. É uma opção consciente, ressaltada pelo tratamento anônimo dado a todos (e pelo uso de dois deles como peças intercambiáveis), mas nem por isso menos incômoda. Especialmente quando reflete estereótipos classistas e racistas: por exemplo, para o autor todos os negros fedem em seu estado natural, ao contrário dos brancos. A sensação no fim é de se submeter a um bombardeio de anúncios não de sabonete nem de creme dental, mas de, vejam só, sexo. Que Sant’anna parece considerar algo geralmente melancólico e sem sentido.

TURMA_DA_MONICA__LACOS Eu achava o trabalho do Vítor Cafaggi (especialmente em “Valente”) meio bobo, sentimental demais. Da Lu cafaggi não tinha visto quase nada, e o pouco que vi não tinha me interessado. Felizmente dei uma chance a “Turma da Mônica: Laços” (Panini, 2013) depois de ver algumas boas recomendações. A dupla acerta no tom, no ritmo e nas referências, criando uma história que poderia até ser a primeira de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. O flashback com Cebolinha ganhando o Floquinho filhote é covardia.

O_FANTASMA “Piratas do Céu” (Pixel, 2013) é basicamente uma curiosidade histórica. Tudo bem, Lee Falk sabia tudo de aventura serializada e Ray Moore foi um bom parceiro, mas as aventuras do Fantasma, lidas hoje, são de uma ingenuidade risível. Claro que isso reforça ainda mais o seu valor como documento de época. Afinal, mostra o que é um mundo em que os leitores conseguiam acreditar num herói branco reverenciado pelas tribos de selvagens, e que com apenas um beijo transformava vilãs crueis em mocinhas arrependidas e apaixonadas.

Meninos, eu li (37)

PORRAJoão Ximenes Braga é melhor cronista do que romancista. A prova disso é que “Porra” (Objetiva, 2003) vai muito bem na primeira parte, construída sobre monólogos dos personagens. Ainda que beirando os estereótipos (o pitboy homofóbico e enrustido, o arquiteto gay moderno e sofisticado, o vaporzinho arrependido e confuso), os três funcionam bem como câmeras que registram cenas do dia-a-dia e principalmente da noite-a-noite da Zona Sul carioca. Quando as três histórias se entrelaçam e forçam o autor a assumir um papel de narrador em terceira pessoa, a história cai um pouco, e se recupera justamente quando os monólogos interiores retomam o foco. Talvez esse desconforto do autor em ficar acima (e fora) dos personagens seja o que o livro tem de melhor, se visto como uma recusa proposital a ser um árbitro das vidas alheias.

LESBIA“Lésbia” (Mulheres, 1998) vale como curiosidade e como registro histórico de um romance protofeminista escrito no Brasil em 1890. Mas a personagem principal Arabela/Lésbia (que é heterossexual – eta título enganoso!), mesmo sendo capaz de empolgar pelas atitudes independentes (a partir do momento em que descobre ser capaz de viver fora da sombra dos homens), decepciona pela falta de profundidade. É talentosa, rica, bonita, amada, invejada, generosa — em resumo, uma heroína pra lá de idealizada. E ainda assim Maria Bormann/Délia não consegue encontrar uma solução satisfatória para o único conflito real com que a protagonista se defronta como mulher adulta. Pelo menos serve como metáfora do quanto o feminismo avançou em cento e poucos anos.

MIDIA_E_POLITICA_NA_AMERICA_LATINACarolina Matos atirou no que viu e acertou no que não viu. “Mídia e Política na América Latina” (Civilização Brasileira, 2013) é cheio de defeitos, a começar pela tradução a cargo da própria autora (o original foi escrito em inglês) e se estendendo pela falta de profundidade e de rigor teórico disfarçada de multidisciplinaridade. A falha mais grave, creio, é quando a autora não se envergonha de apresentar uma enquete entre estudantes de Jornalismo da UFRJ como representativa do público de TV do Brasil. Apesar de tudo, nas conclusões surge uma constatação de um país desiludido com as instituições e tomado pelo “cinismo político”, que se encaixa perfeitamente nos protestos de junho de 2013. Também acerta em cheio quando aponta a complexidade do problema da democratização da mídia no Brasil, e suas relações, por exemplo, com o baixo investimento em educação.

SOLARISEntre as múltiplas camadas de “Solaris” (Europa-América, 1983, traduzido da versão em inglês), a que parece mais atemporal é a da relação entre Kevin e Rheya. Mesmo que sua intenção primordial fosse outra, Stanislaw Lem escreveu não apenas um clássico da ficação científica mas também uma história de amor, talvez a maior da literatura mundial em todo o século XX. Quando Rheya se descobre um instrumento de tortura do homem que ama (o que é aliás recíproco), sofrendo por ter consciência do seu papel, ela sintetiza a condição de todo amante. Ainda que se discorde da sua decisão.

A_HISTORIA_VERDADEIRALogo na abertura de “A história verdadeira” (Ateliê, 2012), Luciano de Samóstata inventa o gênero fantástico. Não que antes não houvesse histórias fantasiosas. A diferença é que ele é o primeiro autor a assumir que tudo o que narra não só é mentira (que afinal é apenas outro nome para ficção), mas também algo impossível, que só pode existir na imaginação do escritor e do leitor. Estabelecida a premissa, a viagem do narrador até a Lua e Vênus se torna verossímil, na verossimilhança que pode existir dentro das regras da fantasia, assim como seus encontros com gigantes e monstros marinhos. As ilustrações de Alexandre Camanho, Carlos José Gama e Jaca atualizam a imaginação do século II para o leitor moderno.

SUPERMAN__O_QUE_ACONTECEU_AO_HOMEM_DE_ACO“Superman – O que aconteceu com o Homem de Aço” (Panini, 2013) deveria ter sido aquilo que sequer fingia ser: a última história em quadrinhos do Super-Homem. Alan Moore conseguiu amarrar direitinho os principais elementos (vilões, aliados, amigos) relacionados com o personagem e levá-lo a um fim digno, convincente. Das histórias-bônus, só “A Linha da Selva” vale a pena, pela participação do Monstro do Pântano. “Para o Homem que Tem Tudo” apenas engrossa o volume o suficiente para justificar a capa dura.

JOHN_CONSTANTINEN_HELLBLAZER“A empatia é o inimigo” tinha deixado um fim aberto. Aliás, tinha terminado sem um fim. “A mácula vermelha” (Panini, 2013) completa a aventura de John Constantine em Glasgow de forma satisfatória. O roteiro de Denise Mina consegue manter a escalada de suspense do confronto de Constantine com entidades malignas amarradinha com um prosaico mas igualmente tenso jogo de futebol entre Portugal e Inglaterra pela Copa do Mundo de 2006. A virada de roteiro tem a dose de sarcasmo que se espera de um volume de Hellblazer.

HITGIRLMark Millar cumpre o que promete em “Hit Girl” (Panini, 2013), fazendo jus ao subtítulo “Prelúdio para Kick Ass 2″. Recupera os personagens do filme, mostrando o que aconteceu a Mindy Macready e Dave Lizewsky, e, depois de uma aventura com mais ação do que cérebro, deixa-os prontos para a continuação na tela. É moralista, muitas vezes reacionário, mas distrai.

THE_INNOCENTGlobalização é isso: um quadrinista israelense radicado nos Estados Unidos criando um mangá. Tudo bem que Avi Arad escreveu “The Innocent” (JBC, 2013) com a colaboração de Fujisaku Junichi e Ko Ya-Seong. Mas dá para ver a marca das suas décadas de Marvel Comics na história do justiceiro que volta da morte. A trama segue assim, meio detetive americano, meio sobrenatural coreano-japonês, e se resolve sem problemas mas também sem grandes brilhos.

VIZINHOSO traço propositalmente rústico de “Vizinhos” (Cachalote, 2013) chama a atenção para a técnica preciosa de Laerte, que consegue contar uma história de 32 páginas inteiramente sem palavras. Porém o resultado fica, da mesma forma que os desenhos, um pouco abaixo do que se esperava. O próprio autor já tinha feito coisas parecidas e bem melhores na antiga revista “Piratas do Tietê”. Mas é claro que até um Laerte mediano já é bem melhor que a maioria do que se encontra por aí.

(Publicado também no skoob)

Meninos, eu li (36)

VASARELY A primeira vez que ouvi falar de Viktor Vasarely tinha sido nas aulas da Miriam Fonseca de Carvalho, na ECO. Na época eu fiquei embasbacado com os efeitos sensórios que ele obtinha manipulando formas e cores, mas foi só. “Vasarely 2″ (Griffon, 1973), mesmo se apresentando como um livro para ser visto, e não lido, apresenta também alguns dos pressupostos teóricos por trás das obras que fazem dele, 40 anos depois, ainda um artista atual. Em especial, o uso da programação (na época, ainda muito longe das ferramentas tecnológicas de que dispomos hoje), mas com a ressalva de que o resultado dela depende do filtro humano para fazer sentido.

NEUROMANCER No prefácio à edição de aniversário de “Neuromancer” (Aleph, 2008), William Gibson pede desculpas por não ter previsto o futuro. Um mundo de ficção científica sem celulares onipresentes, para ele, parece ridículo visto hoje. Não é nisso, porém, que o livro envelheceu. Pelo contrário. Até mesmo a parede de telefones públicos tocando à medida que Case passa por eles continua funcionando muito bem, com a carga dramática intocada. O que marca “Neuromancer” como uma obra dos anos 80 é outra coisa, e é o que o tornou popular. É o estranhamento diante de uma ciborguização do corpo e da mente, que em si ainda é atual, mas que na época só podia ser vista de uma perspectiva individual (sim, eram os anos 80), enquanto a de hoje é principalmente coletiva.

GARGANTUA A maior dificuldade de “Gargantua” (Atena, 1957) nem é a falta de familiaridade com a cena política francesa do século XV, que me impediu de entender todas as referências. Isso uma edição mais caprichada, com notas explicativas, teria resolvido. Chato é que, especialmente nos primeiros capítulos, François Rabelais parece conhecer apenas duas formas de humor — o exagero numérico e a escatologia. A partir do capítulo em que começa a educação formal de Gargantua em Paris, o tom de sátira às instituições melhora um pouco. O que, de certa forma, trai um certo moralismo do autor: com todo o seu liberalismo, ao mudar significativamente o estilo ao longo do texto ele reforça a ideia de que o corpo é impuro e inferior, e a mente, pura e superior. E é assim que ele conduz até o único capítulo que justifica a permanência do livro como um clássico, que é a descrição utópica da Abadia de Telema.

UMA_AULA_DE_MATAR Ana Arruda Callado foi a melhor professora que eu tive na vida e eu não vou falar mal dela por nada nesse mundo. Isto posto, eu preciso lamentar o fato de não ser parte do público (mais jovem, creio) a que se dirige “Uma aula de matar” (Rocco, 2011). É divertido de se ler, e deve ter sido ainda mais divertido de se escrever: dá para imaginar a autora montando um mosaico de personagens e cenas a partir de pedaços da sua experiência jornalística, política e acadêmica, mais uma boa dose dos seus romances policiais preferidos. Duas coisas, porém, atrapalham um pouco: o didatismo em alguns trechos e a alternância entre a narrativa no presente e no passado, sem razão aparente.

SUITE_DAMA_DA_NOITE Não é exagero nenhum dizer que “Suíte Dama da Noite” (Record, 2008) está entre os melhores romances brasileiros deste século. Manoela Sawitzki parte de elementos simples — um casamento sem amor, uma relação extraconjugal — e usa a mitômana Júlia Capovilla para questionar sutilmente as possibilidades e os limites (tanto ontológicos quanto éticos) da própria ficção. Nos capítulos finais, flerta perigosamente com a solução de uma metáfora redentora fácil, mas sai pela tangente e arremata com uma profissão de fé no seu ofício. E ainda faz isso tudo com uma prosa fluida, encaixando duas ou três linhas memoráveis.

O_INESCRITO_3 A melhor coisa de “O retorno de um morto”, volume 3 de “O Inescrito” (Panini, 2013), não está nas aventuras de Tom/Tommy Taylor. É a personagem secundária Lizzie Hexam, que finalmente ganha algum relevo, antes mesmo de protagonizar a segunda parte da revista. No mais, Mike Carey e Peter Gross continuam o ótimo trabalho de construir uma história em cima de todo tipo de referência literária possível. O trecho no formato “escolha sua aventura” é um pouco longo demais (além de no fundo uma trapaça, pois quase sempre leva ao mesmo fim — mas não é isso que acontece em toda ficção?), porém não chega a incomodar.

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Meninos, eu li (35)

COBRAS_E_PIERCINGS “Cobras e piercings” (Ediouro/Geração, 2007) poderia até ser descrito como “bom para um romance de estreia de uma autora que tinha menos de 20 anos quando o escreveu”, porém é mais do que isso. É um belo retrato de geração, além de uma jornada de autoconhecimento. O uso das modificações corporais de que fala o título como metáfora das mudanças na narradora Lui é meio óbvio: a língua bifurcada de Lui é uma cisão entre dois amantes, dois modos de vida, dois destinos possíveis. O que compensa essa obviedade é a intensidade com que Hitomi Kanehara mostra o quanto esse processo é doloroso, em descrições quase obscenas. É aí que a metáfora fácil se desdobra no processo de aprendizado da própria autora à procura por um modo de falar de si e dos seus.

GRANDE_SERTAO_VEREDAS Eu tinha medo de “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira, 27ª edição, 1994). Medo de abrir o livro, começar a ler e não passar da primeira linha, não conseguir decifrar a prosa de Guimarães Rosa. Nonada! Se o sertão (a terra, e do mesmo jeito a obra) é do tamanho do mundo, o conflito de Riobaldo Tartarana é do tamanho do homem, e por isso fala dentro de cada um. À medida que se aprende a entender a voz do jagunço, se percebe também o quanto ela é necessária para expressar as incertezas do personagem e suas conclusões inconclusivas. Assim é o sertão, a obra, o mundo: complexo e acima de tudo muito perigoso. Mas a maior dificuldade mesmo, vou admitir, foi não pensar em Diadorim com a cara da Bruna Lombardi.

SOB_MASOCH Flávio Braga fez literatura remix em “Sob Masoch” (Best Seller, 2010). Mesmo negando na introdução que estivesse utilizando qualquer coisa de “A Vênus das peles”, sua novela é, especialmente na primeira metade, uma repetição do clássico de Sacher-Masoch, quase página por página. A diferença é que, atualizando a linguagem para o século XXI, Braga torna mais explícitas as relações entre Severin/Gregor e Wanda. Da metade para o fim, o conceito de remix se amplia: o que era literatura erótica envereda pela aventura policial e pelo thriller psicológico, à medida que se afasta da história original. O recurso da mudança de narrador reforça essa estratégia, embora não tenha sido tão explorado quanto poderia.

AS_SETE_FACES_DO_DR_LAO Não, não é a Sessão da Tarde. “As sete faces do Dr. Lao” (Francisco Alves, 1979) não é aquela fábula com final feliz e moral da história da adaptação para o cinema. Charles G. Finney usa o circo do Dr. Lao e seu desfile de bizarrices e maravilhas para traçar um retrato pessimista da cidade de Abalone, microcosmo dos Estados Unidos sob a Grande Depressão. De certa forma, aliás, de toda a humanidade – desde a ancestral Woldercan até o último ser humano na Terra. O maior mérito é fugir da tentação do moralismo, sem contudo deixar de tomar partido.

A_JANGADA_DE_PEDRA Uma das coisas mais impressionantes em “A jangada de pedra” (Cia. das Letras, 1988) é ter sido escrito em 1986, e não na sequência da crise financeira de 2008. Quando Portugal e Espanha ficam à deriva da Europa e os jovens do continente vão às ruas gritar “nós também somos ibéricos”, o romance antecipa em vinte anos a falência dos PIGS e os protestos contra o desmonte do wellfare state. Mas o grande mérito é mesmo a forma como José Saramago imiscui o coletivo no individual, o pessoal no político, a História nas histórias, sem solução de continuidade, demonstrando como os dois são a mesma coisa ainda que diferentes, tanto quanto Portugal e Espanha são partes indissociáveis de uma Ibéria vagando pelo Atlântico.

ESTACAO_DAS_CHUVAS “Estação das chuvas” (Língua Geral, 2012) é, em primeiro lugar, uma aula sobre a História de Angola, mais precisamente do período que atravessa a descolonização, a guerra civil e a democratização. Sobre o pano de fundo da violência política e étnica, a obsessão do narrador em tentar reconstituir a figura da poeta Lídia do Carmo Ferreira espelha o esforço de José Eduardo Agualusa para criar o seu retrato de um país em reconstrução. A discussão sobre o que seria uma autêntica literatura angolana, tema fundamental na vida e obra de Lídia, fica sem resposta, mas com portas abertas.

O_MESTRE_E_MARGARIDA Existem pelo menos três romances em “O Mestre e Margarida” (Nosso Tempo, 1969). O primeiro é a história do “quinto procurador da Judeia, o cavaleiro Pôncio Pilatos”, escrita pelo Mestre. O segundo narra as aventuras de Satã e seus asseclas em Moscou, revirando a vida do mundinho literário-burocrático e encontrando a suprema bondade de Margarida. Já o terceiro, involuntário talvez, é a soma desses dois, transformada numa outra coisa distinta depois de passar pelos cortes dos censores soviéticos. Ao discutir a natureza do Mal e seu efeito sobre o ser humano, Mikhail Bulgakov acabou sendo vítima desse mesmo Mal e prova das suas hipóteses.

DEMOLIDOR_NOIR “Demolidor Noir” (Panini, 2012) não chega a ser ruim, mas é dispensável. Alexander Irvine, Tom Coker e Daniel Freedman acrescentam quase nada ao personagem Matt Murdock quando o situam na década de 1930. A mudança de profissão, de advogado para detetive, não faz diferença alguma. No fim o que fica é apenas uma história normal, que poderia estar em qualquer número de série. Muito pouco para uma edição especial.

AV_PAULISTA A técnica de Luiz Gê sempre foi o mais impressionante nos seus trabalhos. Tanto que ele é mais comentado pela sua influência sobre os outros quadrinhistas do que pelos seus próprios trabalhos. “Av. Paulista” (Quadrinhos na Cia., 2012), isso fica flagrante. É um trabalho admirável, mas que fica no vazio. A maior qualidade é a análise política sobre a história da avenida (e de São Paulo, e do Brasil), mas até isso se perde numa conclusão ingênua, em que inexplicavelmente o autor parece acreditar numa redenção pela tecnologia em si.

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Meninos, eu li (34)

PEQUENO_IRMAOComo romancista, Cory Doctorow é um bom blogueiro. Metade do seu “Pequeno Irmão” (Record, 2011) é uma pregação panfletária sobre os males da vigilância governamental e a importância de preservar a privacidade, baseando-se quase sempre em informação despejada com a sutileza de um troll – num capítulo, uma professora resolve, do nada, dar uma aula sobre a história e as ideias dos yippies de San Francisco, convenientemente no momento em que o autor precisava dessa narrativa para contextualizar a ação. A outra metade mostra o heroi, Marcus/w1n5t0n/M1k3y, um adolescente branco heterossexual de classe média, praticamente um checklist de privilégios, vivendo uma fantasia de poder digna dos pulps mais simplórios, com a ajuda de uma galeria de personagens secundários estereotipados.

AS_CRONICAS_MARCIANASEu era criança quando li pela primeira vez, numa antologia de ficção científica, o conto-capítulo “Encontro Noturno”. Não entendi direito, mas fiquei com uma sensação de estranhamento que se repetiu agora, mais de 30 anos depois, lendo “As crônicas marcianas” (Francisco Alves, 1980) na íntegra. Ray Bradbury alterna humor, poesia, aventura e drama numa série de pequenas histórias interligadas, porém independentes, que ao fim são amarradas e transformadas num mosaico sobre a experiência humana.

CINEMA_E_MERCADOOs artigos reunidos por Alessandra Meleiro em “Cinema e Mercado” (Escrituras, 2010) acertam mais do que erram. Gonzaga de Luca, por exemplo, apresenta uma competente arqueologia das empresas exibidoras brasileiras, mas peca pela falta de documentação que deixa seu texto com jeito de testemunho oral. Antonio Leal e Tetê Mattos mapeiam bem os festivais de cinema, mas falham na hora de oferecer um mínimo de análise. Os textos mais inovadores, do ponto de vista de análise do mercado, são os de Arthur Autran e João da Matta. Além disso, a presença de dois artigos focalizados na economia digital valoriza o conjunto.

OLD_POSSUMS_BOOK_OF_PRACTICAL_CATSLer “Old Possum’s Book of Practical Cats” (Faber and Faber, 1985, desenhos de Edward Gorey) causa muitas emoções, mas sobretudo raiva. Raiva, é claro, de Andrew Lloyd Weber e daquele musical insuportavelmente tedioso em que ele transformou os poemas de T.S. Elliot. Desnecessário: os versos de Elliot já são musicais o suficiente. Seus gatos – Macvity, Mr. Mistoffelees, Jennyanydots – bailam de uma estrofe para outra, provocando risos, lágrimas ou uma piscada de olho de vez em quando. Assim como a “Arca de Noé” do Vinícius, esse é pra reler até decorar.

Y__O_ULTIMO_HOMEM“Rumo à extinção” (Opera Graphica, 2006), primeiro volume de “Y – O último homem”, é uma introdução competente às aventuras de Yorick. O protagonista, o único sobrevivente de um evento inexplicado que matou todos os mamíferos machos da Terra, tem justamente o nome do único personagem de “Hamlet” que só aparece em cena morto. Ora, um mundo em que Yorick está vivo e todos os outros (homens) estão mortos é um mundo fora do lugar. Tanto quanto o mundo que Brian K. Vaughan imagina, com as mulheres tendo que reconstruir tudo de que eram alijadas – política, finanças, governo, exércitos – e principalmente que decidir o que muda com isso.

A_LIGA_EXTRAORDINARIA__SECULO_1910Mesmo pulando o “Black Dossier”, deu para curtir e muito o volume “A Liga Extraordinária – Século: 1910″ (Devir, 2010). Atrapalhou mais o desconhecimento de dois dos novos integrantes – Arthur Raffles e Thomas Carnacki. Mas nenhum dos dois importa muito: o que se destaca mesmo é o esperto triângulo amoroso formado por Mina, Allan e Orlando. Alan Moore mantém o tom dos volumes anteriores, buscando a cumplicidade com o leitor, deixando pistas que aos poucos se encaixam. Foi assim que eu, por exemplo, ao descobrir quem era de fato a filha do Capitão Nemo, não sabia se ficava furioso comigo mesmo por ter demorado tanto ou se simplesmente sorria pela sacada genial de Moore.

O_INESCRITO_VOL_02“O Informante” (Panini, 2013), segundo volume de “O Inescrito”, manteve o bom nível do primeiro. Mike Carey e Peter Gross continuam aproveitando muito bem o recurso de mostrar blogs, forums, Twitter e outras ferramentas online como parte da história, que assim incorpora as mudanças na forma como nos comunicamos (ou seja, como contamos histórias) e ao mesmo tempo reflete sobre as suas consequências na sociedade. Na segunda parte do encadernado, “Jud Süss”, as cores de Chris Chuckry e Jeanne McGee ajudam a pintar o monstro do Nazismo como resultado da deformação de uma história, uma proposta que praticamente obriga ao diálogo com a discussão anterior sobre as distorções da verdade no mundo contemporâneo.

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Meninos, eu li (33)

No mês de março, só livros escritos por mulheres:

A_MAO_ESQUERDA_DA_ESCURIDAO Existem dois grandes incômodos na leitura de “A mão esquerda da escuridão” (Aleph, 2008). O primeiro é a visão de um mundo em que os valores ocidentais se impõem naturalmente como único caminho válido mesmo para as potências vagamente orientalizadas ou sociedades comunistas. O segundo é a afirmação do masculino como neutro, marcando o feminino como outro (e um outro quase sempre desvalorizado, apontado como falho) mesmo numa sociedade hermafrodita (e no entanto paradoxalmente heteronormativa) como a do planeta Gethen. Ursula K. LeGuin disse, na introdução escrita em 1976, que seu livro era sobre o presente, não sobre o futuro. Um presente frio como o inverno permanente de Gethen.

UMA_APRENDIZAGEM_OU_O_LIVRO_DOS_PRAZERES “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” (Francisco Alves, 1990) é Clarice Lispector em plena forma. No recorte da vida de Lóri, a aprendizagem do título atravessa bem mais de cinquenta tons de autoconhecimento. Ainda que a sereia Lorelei e o ardiloso Ulisses (em papeis apenas aparentemente opostos aos da lenda) só resolvam ir para a cama explicitamente nas suas últimas páginas, o livro inteiro é erótico na medida em que os dois personagens constroem uma relação amorosa entre si e consigo mesmos.

PO_DE_PAREDE “Pó de parede” (Não Editora, 2008) é um bom livro de estreia. O problema é que Carol Bensimon parece se envergonhar do que faz (e faz muito bem). Cada imagem, metáfora, símile ou o que seja vem acompanhada de um desnecessário pedido de desculpas, o que acaba travando um pouco o texto, principalmente nas duas primeiras histórias. Só no episódio final é que a autora se solta. Não por coincidência, a personagem principal desse epílogo é uma escritora em processo de autoflagelação. Somente para se torturar é que a autora consegue se libertar da censura que se impõe.

CINEMA_E_POLITICAS_DE_ESTADO “Cinema e Políticas de Estado” (Escrituras, 2010) é talvez a melhor análise já produzida — pelo menos, a melhor que já li — das relações entre o Estado brasileiro e o que Melina Izar Marson chama de “campo cinematográfico”, no período que vai da crise da Embrafilme até o surgimento da Ancine. Um dos maiores méritos da autora é, em cada um dos períodos no qual divide seu estudo, recuar um passo e observar, na leitura dos filmes mais representativos, um retrato dessas relações. Além disso, escapa do reducionismo comum a outros intérpretes, mostrando como a política cultural de FHC começou bem antes, ainda no governo Collor; na prática, os dois governos (mais o período Itamar) formam um continuum. Aborda ainda com propriedade a (falta de) integração entre o tal campo cinematográfico e os setores mais economicamente maduros da indústria audiovisual brasileira e aponta o fantasma do Cinema Novo pairando até hoje sobre a produção brasileira, que não consegue resolver seus dilemas internos e externos.

A empatia Denise Mina faz um bom trabalho com John Constantine em “A empatia é o inimigo” (Panini, 2013). Para o bruxo que sempre se esforçou para se mostrar mais cínico e indiferente do que realmente é, a seita da empatia representa um desafio. A trama é bem construída, revelando-se aos poucos, mantendo a consistência e provocando reflexões éticas. Só o desfecho é meio preguiçoso, apelando para elementos clássicos da série Hellblazer e deixando um fim aberto, na verdade um gancho para uma outra história.

SHUNKADEN“Shunkaden: A nova lenda de Chun Hyang” (New Pop, 2013) toma como base uma lenda coreana sobre um amor proibido (e, é claro, eterno). O grupo CLAMP, ao que parece, tomou várias liberdades ao adaptar a história, fazendo da protagonista Chun Hyang uma mestra das artes marciais. Isso permitiu que ela se tornasse uma heroína de ação, inserida em conflitos grandiosos, com boa tensão dramática. Em comepnsação, um pouco por isso e também por Hyang ser uma adolescente, a sua relação com o nobre Mong Ryong aparece infantilizada. Mesmo sendo um volume único, dá a impressão de que se trata apenas do início das aventuras, e que os dois teriam muito a aprender um com o outro.

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Meninos, eu li (32)

A_MAQUINA Existe uma falsa oralidade na narrativa de “A máquina” (Objetiva, 2006) que tenta convencer o leitor de estar dentro de uma fábula, ou parábola. Na verdade, porém, o cuidadoso jogo vocabular de Adriana Falcão trai essa ideia à medida que se revela uma tecnologia verbal, e assim se ientifica com o outro gênero que ela resolveu espelhar – o da novela de ficção científica. A máquina do tempo de Antonio, nesse sentido, é tão falsa (como macguffin propulsor da trama) quanto a voz do narrador. A máquina verdadeira, que se pretende com potencial transformador, é o próprio livro.

ELEGBARA Alberto Mussa ainda era Beto Mussa quando assinou “Elegbara” (Revan, 1997). A mudança no nome é significativa: o autor cresceu e muito desde esses contos, mas o embrião do que seriam seus ótimos romances já estava presente. Isso aparece tanto na temática (ficção histórica, tomando figuras como Zumbi, Dom Sebastião e até Exu como seus personagens) quanto no tratamento. O autor disseca as ações, analisando os motivos e as razões por trás deles, explicitando o desenvolvimento dos personagens, transformando as histórias em verdadeiros silogismos narrativos. Um pouco secos, mas bastante precisos.

TERRA_E_CINZAS Um menino ensurdecido acha que os bombardeios roubaram não a sua audição, e sim as vozes de todo o mundo. A perda da voz dos oprimidos grita logo nas primeiras páginas de “Terra e cinzas” (Estação da Liberdade, 2001). Mas o menino-metáfora fica para trás. Num cenário de aldeias devastadas por bombardeios e famílias destruídas, o mais incômodo em acaba sendo a narração em segunda pessoa (mais ainda porque o texto em português, traduzido da versão francesa e não do original em dari, deliberadamente mistura a segunda pessoa gramatical com a terceira, sem explicações). Com isso, Atiq Rahimi força o leitor na pele do protagonista Dastaguir na sua jornada inglória. Aos oprimidos não resta sequer a metáfora. Só o absurdo.

THE_BOOK_OF_FANTASY Um belo dia, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo conversavam sobre suas histórias preferidas e resolveram reuni-las num só volume. “The book of fantasy” (Carroll & Graf, 1990) é a tradução inglesa para a terceira edição da “Antología de la literatura fantástica”, aquela mesma mencionada por Borges no pós-escrito de seu conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Mistura alguns clássicos (“A pata do macaco”, “A casa tomada”) com histórias menos conhecidas de autores consagrados (Kafka, Hawthorne) e um punhado de garimpagens. No total, e relevando-se as idiossincrasias dos editores, uma ótima panorâmica do que se pode chamar de literatura fantástica desde Petrônio até o século XX.

ELEKTRA_VIVE Eu passei os anos 90 ouvindo falar que “Elektra vive” (Abril, 1991) era uma obra-prima, a grande prova do talento genial de Frank Miller. Se eu tivesse lido na época, talvez até achasse também. Hoje, achei apenas um gibi melhorzinho, mais pelo traço estiloso do que pelo roteiro. Metade da história é o Demolidor chorando seus traumas ou delirando, e o resto é pancadaria. O grande mérito é funcionar como uma obra quase independente, exigindo pouquíssimo conhecimento prévio dos personagens.

THE_LAST_KNIGHT “The Last Knight” (Nantier, 2000) ganhou o subtítulo de “An Introduction to Don Quixote”. Seria melhor se fosse chamado de “uma história vagamente inspirada em Dom Quixote”, pois foi o que Will Eisner fez. E nem é por ver nos moinhos um dragão em vez de gigantes. A versão em quadrinhos é exatamente o oposto do romance de Cervantes – que ainda aparece em participação especial nas páginas finais, visitando Don Alonso Quijano em seu leito de morte. No fim, “The Last Knight” serve como introdução ao Quixote tanto quanto uma paródia da Turma da Mônica serviria. Vale como passatempo, mas também está longe dos melhores trabalhos do autor.

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Meninos, eu li (31)

UM_ROMANCE_DE_GERACAO “Um romance de geração” (Civilização Brasileira, 1980) era o único livro do Sérgio Sant’anna nesse período dos anos 70-80 que eu ainda não conhecia. A crítica que se poderia fazer ao mestre era ter inspirado e influenciado tanta autoficção vagabunda que se vê por aí atualmente, mas a verdade é que ele não tem nada com isso: a falsa peça, escrita para não ser montada, quebra não só a quarta parede do teatro mas todas as paredes do edifício literário. O jogo entre autor, ator, personagem, leitor, público, forma, conteúdo, linguagem, texto, corpo e política é atordoante. Cumpre com folga a missão autoimposta de escrever o romance daquela geração, dos anos da Abertura. Ainda traz, de brinde, a declamação de Coração Subalterno, o melodrama celestino virado pelo avesso por Sebastião Nunes, poeta da mesma turminha mineira.

41_POETAS_DO_RIO Todos os autores de “41 poetas do Rio” (Funarte, 1998) foram participantes das Quintas de Poesia no Espaço Cultural Moacyr Félix, em 97. E o trocadilho é inevitável: tem uita poesia de quinta na antologia organizada pelo próprio Félix. Em compensação, tem Alexei Bueno, Antônio Cícero (muito melhor como poeta do que como letrista), Denise Emmer e mais um punhado de outros que justificam a edição. Da leitura de todos, ressalta-se a diversidade de origens. Os “poetas do Rio” são paulistas, goianos, gaúchos, mineiros, cearenses e até mesmo cariocas. De alguma forma, todos eles, inclusive os nativos, compartilham uma sensação de desterramento, talvez mais do tempo que propriamente do espaço.

PAISAGEM_COM_DROMEDARIO “Paisagem com dromedário” (Companhia das Letras, 2009) poderia ser apenas um exercício técnico. A estrutura composta pelas transcrições de 22 gravações deixadas pela protagonista Érika, porém, em nenhum momento ameaça virar um daqueles fogos de artifício narrativos que distraem da absoluta falta de conteúdo. Pelo contrário. Carola Saavedra usa o triângulo amoroso formado por Érika, Alex e Karen, bem como seus desdobramentos em outras relações, para questionar o papel da arte e do artista. Ao mesmo tempo, desenha um outro triângulo amoroso, formado por texto, história e subtexto.

CINEMA_E_ECONOMIA_POLITICA Dessa vez, a organizadora Alessandra Meleiro escalou mal o time. É erdade que não existe texto neutro nem desinteressado, mas a maioria dos autores reunidos em “Cinema e Economia Política – Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira Vol. II” (Escrituras, 2009) está longe de qualquer objetividade acadêmica. Então, o que fica é um bocado de wishful thinking e muita autopropaganda (nos casos flagrantes de Bitelli, competente como de hábito na arte de vender seu peixe por muito mais do que ele vale, e Teixeira). Sá Earp e Guimarães e Souza, nessa mesma linha, são convincentes na sua proposta de desoneração fiscal, mas sequer se dão ao trabalho de avaliar seus custos. Do ponto de vista econômico, a melhor contribuição fica sendo mesmo a de Brittos e Kalikoske sobre as barreiras de entrada no mercado. Já a pesquisa sociológica de Botelho, apesar de relevante, parece fora de lugar nesse volume.

SIMONS_CAT Sabe quando o filme é melhor do que o livro? “Simon’s Cat” (L&PM, 2012) inaugura a era do “gostei mais do canal no YouTube”. As animações de Simon Tofield são muito melhores que a adaptação para o papel. Tem um ou outro personagem carismático, como o porco-espinho. O problema é que, de forma geral, o gato de Simon perde a sua principal característica, o exagero catunístico em que no entanto qualquer um reconhecia o comportamento de um gato real. Em vez disso, os quadrinhos mostram um felino antropomorfizado, um sub-Garfield sem personalidade.

ESTORIAS_GERAIS Na linguagem e no tema, “Estórias Gerais” (Conrad, 2007) remete imediatamente a Guimarães Rosa, influência assumida pelo roteirista Wellington Sbrek. De fato existe uma toada rosiana ao longo de todo o álbum. Mas Srbek invoca outros patronos – Lobato, Suassuna, João Cabral – enquanto enovela um causo no outro, incorporando a oralidade sertaneja na narrativa gráfica. Flávio Colin traduz bem essa trama com um traço que remete á expressividade do cordel. A dupla ainda assina o bônus “Estória da Onça”.

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Meninos, eu li (30)

A_SOCIEDADE_DO_ESPETACULO “A sociedade do espetáculo”, com os “Comentários sobre a sociedade do espetáculo” (Contraponto, 1997) era uma leitura atrasada. Não apenas porque o texto original já tinha 45 anos, mas também porque eu deveria ter lido quando ia tentar o mestrado na ECO, ali por 2003. De qualquer forma, o texto de Guy Debord permanece atual não apenas como crítica da mídia mas principalmente como análise da economia pós-industrial. Alguns parágrafos parecem ter sido escritos hoje, em reação às explosões de consumo e à euforia diante do lançamento de um novo aparelhinho. Mais do que em 67, quando foi escrito, ou em 88, quando nasceram os Comentários, é possível ver a sociedade do espetáculo se manifestando em cada atividade da vida social. Só é preciso filtrar o tom de autoelogio, necessário num texto que é muito mais político (e militante) do que acadêmico.

O_SECULO_DO_VENTO Outra leitura atrasada foi “O século do vento” (Nova Fronteira, 1988). Mais de dez anos depois de ter lido os dois primeiros volumes de “Memórias do fogo”, a conclusão da trilogia confirma Eduardo Galeano como um mestre na arte de contar as histórias que formam a História. A América (especialmente a América Latina) de 1900 a 1986 surge como um palco da luta dos povos e também de sua arte, indissociadas, dois lados da mesma moeda. O maior mérito do autor, e isso mesmo quem discorde dele politicamente se verá na obrigação de admitir, está na capacidade inesgotável de transformar o cotidiano em drama, e o drama em significado. Termina-se a leitura com uma sensação de pertencimento a uma dinastia de heróis, conquanto anônimos alguns, que atravessa o tempo e se perpetua na eternidade.

CONTOS_SINISTROS O maior defeito de “Contos sinistros/No olho do Outro” (Max Limonad, 1987) é ter pouco do primeiro e muito do segundo. Ou seja: apenas dois contos de E.T.A. Hoffmann e um longo estudo de Oscar Cesarotto tentando atualizar as observações de Freud sobre o escritor. Ignorei os ensaios e li apenas os contos. “O homem de areia” e “Os autômatos” ainda arrepiam, e permitem uma leitura surpreendentemente moderna em tempos transumânicos, ciborguianos. Os personagens de Hoffmann se horrorizam com a possibilidade de máquinas capazes de igualar o ser humano nas suas duas áreas de excelência, o amor e a arte. Duzentos anos depois, é fácil substituir as engrenagens dos relojoeiros por microchips. Mas as histórias seriam as mesmas? Essa é a segunda pergunta mais importante. A primeira é: por quê?

SWEET_TOOTH__DEPOIS_DO_APOCALIPSE O_INESCRITO Dois lançamentos (Panini Comics, 2012), dois volumes iniciais de séries da Vertigo. “Sweet Tooth – Depois do Apocalipse” avança pouco no tema. Jeff Lemire consegue provocar compaixão pelo pequeno mutante criado longe dos humanos perversos e depois abandonado num mundo hostil em “Saindo da Mata”. Mas isso era o mínimo que se esperava, e é só. Mike Carey e Peter Gross foram mais felizes em “Tommy Taylor e a identidade falsa”, primeira parte de “O Inescrito”. O Harry Potter genérico que sai das páginas do romance e se faz carne como um messias literário (mesmo que relutante) insinua futuras questões mais interessantes sobre o poder das palavras e os limites da criação. Se for pra seguir mais um novelão, fico com o segundo.

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Resumão de 2012: 58 livros, 33 gibis.

Melhores (com destaque para os mais surpreendentes): “Duas pessoas são muitas coisas” (Lisbôa), “Minha vida” (Crumb), “O senhor do lado esquerdo” (Mussa), “Os donos do poder” (Faoro), “Sinal e Ruído” (Gaiman & McKean), “A rosa do povo” (Drummond), “a máquina de fazer espanhois” (mãe), “A condessa sangrenta” (Pizarnik), “Morte e vida severina e outros poemas em voz alta” (João Cabral), “Histórias de cronópios e de famas” (Cortázar), “Valentina 66-68″ (Crepax), “O cavaleiro inexistente” (Calvino), “Orlando” (Woolf), “O evangelho segundo a serpente” (Hayat), “Poesia completa” (Cruz e Sousa), “Mafalda 10 años” (Quino), “Claros sussurros de celestes ventos” (Santos).

Piores: “Fábulas – O bom príncipe” (Willingham), “King Kong” (Lovelace), “Esquin de Floyrac: o fim do templo” (Rodrix), “Mulher-Gato: Cidade eterna” (Loeb & Sale), “Termo de ajustamento de conduta” (Santos), “Pornopopéia” (Moraes).

Metas para 2013:  Mais teoria. Menos autores homens-brancos-heterossexuais-europeus/americanos. E, no entanto, alguns clássicos que estou me devendo.

Meninos, eu li (29)

A última quimera Claros sussurros de celestes ventos É estranho como “A última quimera” (Companhia das letras, 1995) e “Claros sussurros de celestes ventos” (Bertrand Brasil, 2012) são tão semelhantes e diferentes. Os dois partem de princípios muito próximos: Ana Miranda escolhe como protagonista o melhor amigo de Augusto dos Anjos, no momento em que recebe a notícia da morte do poeta e vai contar a novidade a Olavo Bilac; Joel Rufino dos Santos inicia seu romance mais ou menos na mesma época, imaginando uma visita de Cruz e Souza ao leito de morte de Lima Barreto. O desenvolvimento, porém, é bem diferente. Miranda opta por uma narrativa tradicional, apoiada na pesquisa e na historiografia, para chegar a uma conclusão algo melancólica sobre a inutilidade da poesia. Rufino mistura personagens históricos (como João Cândido, Lobato, Friedenreich) com outros tirados da obra de Lima Barreto (a Olga de “Policarpo Quaresma”), numa prosa delirante que atravessa o século XX para tentar explicar uma formação da nacionalidade brasileira um pouco mágica, um pouco trágica emuito poética. O primeiro é mais bem resolvido, amarradinho, mas o segundo leva vantagem por ser mais ambicioso.

Teogonia Desde que li a enciclopédia de Mitologia da Abril Cultural, ali por 85, que eu tinha vontade de ler a “Teogonia”. Essa edição (Iluminuras, 2007) justificou a espera. O ensaio introdutório de José Antônio Alves Torrano, que também assina a tradução, faz você quase virar pagão e sair sacrificando cabras para os deuses do Olimpo. Torrano apresenta a poesia como expressão da Memória (mãe das Musas) e portanto como garantia da Ordem (ou seja, do poder de Zeus) num mundo oral, aliás mais próximo do nosso mundo digital, cibernético, do que das sociedades da palavra escrita. Criar e cantar é decidir o que deve ser lembrado – ou, em termos contemporâneos, o que deve ser posto em relevo e não afundar no Tártaro da hiperabundância de informação.

Cinema no mundo - ÁfricaO volume I da coleção “Cinema no mundo” (Escrituras, 2005), dedicado à África, é bem inferior ao II, da América Latina. O problema principal é que a maioria dos artigos fala do cinema africano como um bloco homogêneo (mesmo quando nega que ele seja) e portanto acaba se repetindo. A história de sucessivas ondas e tendências é contada pelo menos três vezes ao longo dos ensaios selecionados por Alessandra Meleiro. Além disso, os textos citam poucos dados e se concentram na análise do conteúdo dos filmes, raramente comentando questões de economia do audiovisual. As exceções são justamente os dois artigos com foco em países específicos: África do Sul (uma interessante história da evolução do setor e suas relações com o Estado, antes, durante e depois do apartheid) e Nigéria (um bom estudo do fenômeno dos vídeos de Nollywood).

A guerra dos bastardosUm daqueles famosos mandamentos para uma boa história da Pixar diz que coincidências podem criar problemas para os personagens, nunca resolvê-los. “A guerra dos bastardos” (Língua Geral, 2007) subverte essa regra. Não é que as coincidências ajudem ou atrapalhem: elas arrastam o personagem num turbilhão que nega qualquer possibilidade de escrever o próprio destino. Não importa o que eles façam, todos estão condenados ao sofrimento, pelo mero fato de existirem. Não é o melhor romance de Ana Paula Maia: tem alguns problemas sérios de revisão que uma edição mais caprichada teria resolvido. Mas mesmo assim mostra personalidade e uma visão única.

Magnetar Lá pelo fim de “Astronauta – Magnetar” (Panini, 2012), Danilo Beyruth ameaça enveredar pelo discurso de auto-ajuda. Felizmente passa rápido. A primeira graphic novel do selo MSP cumpre o que promete: dá um tratamento adulto e sofisticado ao personagem de Maurício de Sousa (que, eu não sabia, se chama mesmo Astronauta, como mostra uma tirinha de 1963 publicada como extra). Alguns recursos utilizados parecem referencia à metalinguagem que foi característiuca dos quadrinhos de Maurício numa certa época. É assim, por exemplo, na fantástica página em que os quadros são reduzidos e replicados ao infinito para mostrar a passagem do tempo.

Mafalda 10 anosGente en su sitio Na introdução de “Mafalda 10 años” (Ediciones de la Flor, 1991), o jornalista Rodolfo Braceli lembra uma entrevista com Quino, em 1967, durante a qual, para vencer a timidez do entrevistado, pediu que ele respondesse às perguntas com desenhos. Cada resposta era uma pequena obra-prima de humor gráfico. A anedota serviria melhor ainda para apresentar “Gente en su sítio” (idem, 1993), uma coletânea de cartuns e historietas que mostra a facilidade do argentino para dizer tudo o que queria com imagens. A capacidade de explorar detalhes e de mostrar o absurdo presente no cotidiano mas que normalmente passa despercebido lembra a do conterrâneo Cortázar. De Mafalda, então, não há mais o que dizer. Falta uma ou outra tira inesquecível, mas seria impossível uma antologia que agradasse a todos e não deixasse muita coisa boa de fora.

(Publicado também no skoob.)

Meninos, eu li (28)

Os maiores méritos e os maiores defeitos de “A cidade e as ruas – Novelas cariocas” (Lidador, 1965) estão na sua concepção. São dez contos encomendados a diferentes autores para comemorar o IV Centenário do Rio de Janeiro, cada um tendo como tema um bairro da cidade (Barra, Botafogo, Catete, Centro, Copacabana, Glória, Ipanema, Laranjeiras, Mangueira e Tijuca). O resultado foi amplamente satisfatório como celebração de um Rio bossa-nova, que ainda não sentia tanto os impactos a transferência da capital para Brasília. Também executa muito bem aquilo que Beatriz Jaguaribe, nas aulas que dava na ECO, chamava de “cartografia simbólica”. A fraqueza é justamente essa tendência para a crônica que predomina ao longo dos dez textos, levando até um Marques Rebelo a se perder em descrições dos encantos e tradições de Laranjeiras. Só Guido Wilmar Sassi e Carmen da Silva (nenhum dos quais eu conhecia) conseguem voos um pouco mais amplos que o mero registro de personagens da cidade. Outra falha é ignorar o subúrbio carioca, que teria rendido bons retratos, aumentando a diversidade do painel.

Anne McCaffrey fez quase tudo certo em “A diversity of dragons”. Usou o pretexto da visita de um fazendeiro irlandês que tem um “problema com dragões” para oferecer um quadro de lendas e histórias de dragões desde os sumérios e hebreus até os romances de fantasia de Pratchett, LeGuin e dela própria, passando pelas diversas versões da luta de São Jorge. Só tropeça, em termos de texto, quando exagera nas longas transcrições de obras recentes – o que só se justifica como forma de abrir espaço para mais ilustrações de John Howe, que capricha na variação de estilos conforme o tipo de narrativa que acompanha. O livro também deixa a desejar em termos de amplitude: os dragões orientais são pouco explorados, e as tradições ameríndias, africanas (com exceção do Egito) e da Oceania completamente ignoradas.

Frederico de Santa-Anna Nery escreveu em 1887 o que é considerado o primeiro livro dedicado à cultura popular brasileira. Lido hoje, “Folclore brasileiro” (Massangana, 1992) sofre muito com o peso de mais de um século. Isso acontece, por exemplo, quando o autor atribui traços que considera predominantes no folclore nacional a uma tristeza característica das três matrizes étnicas – o índio expropriado, o português exilado e o negro escravizado. Abundam estereótipos desse tipo. Além disso, por ser originalmente uma série de palestras proferidas como apresentação do folk-lore brésilien ao público erudito de Paris, falta rigor teórico: informações são lançadas e amontoadas sem qualquer preocupação sistemática. Também transcreve sem a menor necessidade um longo conto baseado na lenda da Iara. Mas vale, principalmente, pelas histórias da tradição oral reunidas nos últimos capítulos.

Meu primeiro contato com Cruz e Sousa foi nas aulas de literatura no segundo grau. Eu, adolescente fã de rock progressivo, ouvinte de Marillion e Genesis, pirei com versos como os de “Pressago”, com os climas e cenários minuciosamente elaborados mas onde nada acontecia (e por isso mesmo tudo podia acontecer). Mais de vinte anos depois, a leitura da “Poesia completa” (Fundação Catarinense de Cultura, 1981) ainda me causou arrepios, mas diferentes. Porque ou eu não lembrava ou não tinha reparado no erotismo de “Broquéis”. É interessante ver como, nos “Faróis”, o poeta se solta na forma e se controla no conteúdo. A lamentar apenas a falta de uma revisão crítica mais caprichada, que contextualizasse a obra um pouquinho melhor do que faz a breve introdução escrita por aria Helena Camargo Régis.

O maior triunfo de Kyung-Sook Shin em “Por favor, cuide da mamãe” (Intrínseca, 2012) é a imersão que consegue provocar no leitor. Especialmente na primeira parte, com a sua incomum narrativa na segunda pessoa (você vai, você faz, você lembra): a identificação com a personagem que busca a mãe perdida no metrô de Seul é imediata. A mudança de ponto de vista quebra um pouco essa intimidade conquistada, mas transforma a busca pela velhinha numa busca por memórias, e o romance numa desesperada tentativa de estabelecer o quanto podemos conhecer do outro, portanto o próprio status das relações pessoais. No epílogo, o ponto de vista volta para a personagem da filha, e a autora consegue sustentar a emoção no limite das lágrimas.

Agora pare o que estiver fazendo e vá ler “O evangelo segundo a serpente” (Língua Geral, 2006), ou pelo menos as vinte e poucas páginas que a editora deixou abertas no site. Ainda que mais não seja, só pela ourivesaria verbal de Faíza Hayat, que elabora frases como “Um espelho é o retrato órfão de um gêmeo” ou “Sempre suspeitei nela, é certo, um destino de ave”. Não fica nisso: para além das observações que o olhar de cronista dispara, a romancista traça o seu caminho dentro de um labirinto borgiano onde questões metafísicas sobre Deus e o mal são parte de uma busca por um homem perdido (um arqueólogo carioca e rubro-negro!), equalizando amor e verdade, inclusive no quanto é ilusório encontrar uma e o outro, e no quanto a busca é necessária mesmo como ilusão.

Não conhecia nada da literatura iraniana contemporânea (sem contar os quadrinhos de Marjane Satrapi) até ler “Mulheres sem homens” (Martins Fontes, 2010), de Shahrnush Parsipur. E foi estranhamente familiar. Algumas personagens parecem saídas do realismo fantástico – por exemplo, a solteirona que decide virar árvore e cria raízes no jardim, ou a outra que passa a ler a mente das pessoas depois de morrer e ressuscitar duas vezes. Reunidas e depois separadas, numa estrutura quase cíclica, as mulheres de Parsipur formam uma espécie de mosaico da mulher iraniana (da mulher, simplesmente? do ser humano?) e das possibilidades de escrever seu próprio destino, sem homens ou com eles.

“Wolverine Noir” (Panini, 2012) me parece, até agora, a mais bem sucedida das edições “noir” dos personagens da Marvel. Logan convence como o detetive durão, porém como bom coração. É um clichê, mas o roteirista Stuart Moore explora bem as possibilidades de fundi-lo com o personagem, sem cair na armadilha de reproduzir os superpoderes dos quadrinhos originais, efetivamente criando uma nova versão de Wolverine. O ilustrador C.P. Smith também acerta mais que os outros da série na reprodução (atualizada e estilizada, evidentemente) de um clima noir.

William Messner-Loebs (roteiro) e Sam Kieth (arte) fazem um bom trabalho em “Epicuro, o sábio” (Conrad, 2007). A proposta meio anárquica (para usar uma palavra de origem helênica) de misturar personagens históricos sem qualquer rigor cronológico (idem) e fazê-los contracenar com figuras da mitologia funciona como artifício para apresentar os filósofos gregos de forma satírica e com algum espírito crítico — as participações de Sócrates e Platão, em especial, são excelentes. Não é nenhuma obra-prima, mas diverte.

O segundo volume de “Príncipe Valente na corte do Rei Artur” (Ebal, 1984) éuma boa mostra da extraordinária técnica de Harold Foster, tanto no texto quanto na narrativa gráfica. Personagens e cenários são deslumbrantes, a atenção aos detalhes torna cada uma das 96 pranchas um tesouro a ser lido e relido. Mas também é um retrato da visão simplória e até preconceituosa dos quadrinhos de jornal de 1939-40. O bem é identificado com o belo, o herói é um irretocável modelo de virtudes. Até o gigante do vale e seu exército de freaks, o personagem mais interessante da série, só é redimido quando a bondade de Val permite que ele se torne um servidor da sociedade.

O nome do roteirista Garth Ennis foi o maior chamariz na capa de “Jennifer Blood” (Panini, 2012). A arte ser de um brasileiro, Adriano Batista, também influenciou. Mas o resultado foi uma decepção. A premissa é boa: uma dona de casa que à noite dopa o marido e os filhos para sair caçando mafiosos nas ruas. Um “Sr. e Sra. Smith” sem o sr. Smith. O problema é que Ennis aos poucos revela que sua justiceira é apenas mais uma mafiosa em busca de uma vingança pessoal. Esvazia a heroína. Além disso, Jennifer não corre risco em momento algum. A tensão é zero. O que salva são alguns comentários da personagem, que às vezes parecem uma autocrítica do roteirista em relação aos clichês e ao sexismo das histórias em quadrinhos. Batista, por sua vez, é uma decpção total. Fica apenas um pouco acima daqueles garotos da escola que desenham super-heróis com mais músculos do que humanamente possível.

(Publicado também no skoob.)

Meninos, eu li (27)

“Orlando” (Nova Fronteira, 1978) é desconcertante. Não pela mudança de sexo do personagem, nem pela sua imortalidade, nem pela falta de explicação para as duas coisas. Nem mesmo pela grandiosa constatação feminista de que, o se tornar mulher, Orlando permanecia a mesma pessoa, e de que feminino e masculino não passam de construções sociais e tal. É a prosa de Virginia Woolf, aqui em tradução de Cecília Meirelles, que desnorteia e deixa o leitor equilibrando-se na ponta dos pés o tempo todo. Porque é essa prosa profunda, na sua revelação das transformações internas de Lord/Lady Orlando ao longo dos séculos nas suas relações com o amor e a arte, que obriga a constatar que contra todas as aparências se trata de um romance realista, retratando uma realidade incômoda que desperta nas doze badaladas de quinta-feira, 11 de outubro de 1928.

Não li o livro da moda mas peguei esse “S.M.” (Blanche, 2005). O romance epistolar de Joël Hespey (provavelmente um pseudônimo), censurado quando da publicação original em 1974, na coleção L’Or du Temps de Régine Deforges, tem alguns méritos. O primeiro é a verossimilhança dos personagens: a troca de cartas entre Sylvain e Marc parece real, cria uma cumplicidade voyeurista de quem observa o desenrolar de um relacionamento. O segundo é a franqueza: já na primeira carta, Sylvain deixa claro que “chama um cu de cu”, sem eufemismos. Isso, mais algumas espertezas – o título ser formado também pelas iniciais dos personagens, a conclusão cíclica inserindo a história dos dois numa longa trajetória que atravessa as gerações. O maior problema é ser longo demais. Na metade do livro praticamente todos os conflitos estão resolvidos e o que se segue é uma arrastada sequência de mais do mesmo, além do mais açucarada em excesso. Outra falha é o desequilíbrio entre o tratamento dos dois amantes. Sylvain surge pronto e acabado: o personagem da primeira página é exatamente igual ao da última, servindo apenas como referência para a transformação radical que Marc atravessa.

Um Borges menor ainda é um Borges. “O Fazedor” (Difel, 1984) chega a repetir alguns textos publicados em outros livros. Alguns dos microcontos parecem esboços deixados preguiçosamente do jeito que estavam. Mesmo assim, é ótimo. Jorge Luís Borges às vezes só precisa de um parágrafo ou de um soneto para fazer o leitor se perder em espelhos, labirintos, paradoxos, bibliotecas, tigres, pampas, tabuleiros de xadrez. Às vezes parece marcado pela chegada da cegueira, assim como pela ideia da morte. Por isso, talvez, a brevidade: é um livro sem tempo a perder, sem desperdícios de escritura.

Até agora não sei como classificar “Meu destino é ser onça” (Record, 2009). A ficha catalográfica diz que é um ensaio. O autor diz explicitamente na introdução que o seu objetivo era fazer literatura. Mitopoiese é a palavra mais correta para o meio-termo que saiu. Alberto Mussa assumiu a tarefa de ser um Hesíodo brasileiro, recolhendo as diversas fontes e dando uma forma final, literária, ao nosso mito de origem. “Nosso”, leia-se tupinambá: a premissa é de que, mesmo escondida das estatísticas, das genealogias e das políticas oficiais, a herança tupiniquim está presente na maioria da população brasileira, tanto na genética quanto na cultura. É aí que reside a importância da tarefa de Mussa. Se, como dizia Oswald, só a antropofagia nos une, é necessário reviver a mitologia que fundou esse nosso traço característico, definidor. Assumir a antropofagia é assumir também a sua origem metafísica, a história de Maíra e de Sumé.

Ítalo Calvino propõe uma série de jogos em “O cavaleiro inexistente” (Companhia das Letras, 1998). Para começar, é Calvino escrevendo um livro sobre uma monja que escreve uma história de uma armadura que não tem ninguém dentro. À primeira vista, é uma crítica da própria literatura, e em especial a do século XX, que de tanto elaborar discursos sobre si mesma acaba se perdendo no vazio. Enquanto isso, do outro lado, o de fora da armadura, as pessoas reais vivem, amam, sofrem, traem, se acovardam. Esse outro lado, porém, é também impotente sem a forma estruturante que a armadura proporciona. Sem ela, acaba ficando como o louco que acha que é pato quando está no meio dos patos, porco quando está no meio dos porcos e rei quando está diante de Carlos Magno. O final feliz depende da síntese bem sucedida, que depende de as duas partes abrirem mão do que são para se tornarem algo maior.

A edição de “O segredo da Flor de Ouro” (Vozes, 1983) com as notas de Richard Wilhelm e os comentários de Carl Gustav Jung mostram a psicologia analítica junguiana fazendo o que sabe de melhor: funcionar como ferramenta de crítica textual. O manuscrito chinês do século XVIII em si é praticamente ininteligível nas suas metáforas taoístas que não encontram referência para o leitor ocidental contemporâneo. Só faz sentido depois de depurado pelos conceitos do suíço, que teve a sacada genial de confrontar Lü Yen com os alquimistas europeus e mostrar que todos eles estavam falando dos mesmos processos psíquicos. E faz mais sentido ainda quando se percebe a imensa carga de preconceito presente na própria análise – por exemplo, na visão de um texto específico de determinados momento e local como retrato fiel de um “Oriente” homogêneo e idealizado, antítese de um “Ocidente” igualmente idealizado.

“O mestre de esgrima” (Companhia das Letras, 2003), de Arturo Pérez-Reverte, começa devagar. Mas, quando Don Jaime Astarloa começa a se mostrar de verdade, dá para perdoar tranquilamente os personagens secundários estereotipados. O que importa é acompanhar o duelo de lâminas, palavras e gestos entre o mestre e a misteriosa Adela de Otero. A trama cresce, envolve, e chega a um diálogo, pouco antes do clímax dramático, que parece amarrar todo o romance e dar a ele um significado ainda maior – a figura de Astarloa como antítese do real, com todas as implicações que isso traz para a história. A essa altura, o autor abre a guarda do adversário e fica com tudo pronto para a estocada final. O que estraga é o que vem em seguida. O último capítulo despenca para um clichê vagabundo de vilão explicando ao herói seu plano diabólico e rocambolesco, digno do folhetim mais barato.

Um mérito temos que reconhecer em Alan Moore: ele virou H.P. Lovecraft pelo avesso em “Neonomicon” (Panini, 2012, arte de Jacen Burrows). A história recupera diversos elementos do mito de Cthulhu e procura vê-los de uma forma diversa. Como se fossem algo real que o autor americano descreveu de forma imperfeita, e que se transforma quando visto por outros olhos. Com isso surgem algumas adaptações brilhantes, como a linguagem perdida Aklo sendo na verdade uma chave neurolinguística que abre portas para outros mundos, consumida como uma droga e levando à aparente demência. O que atrapalha é o tratamento da sexualidade. Se ela estava sublimada no original do pudico Lovecraft, em Moore ela é o motor da trama, mas apresentada na forma da violência sexual. Pior ainda é a reação da heroína da história a essa violência.

Eu conhecia apenas a figura de Valentina, meia dúzia de desenhos e uma ou outra página, quase sempre de conteúdo erótico, fora de contexto. Então, foi uma surpresa ler os dois álbuns reunindo as suas primeiras histórias (“Valentina 65-66″ e “Valentina 66-68″, Conrad, 2006-2007) e encontrar o universo de ficção científica criado por Guido Crepax, inicialmente para o herói paranormal Neutron e mais tarde para a coadjuvante que assumiu o papel principal. Melhor ainda foi entender como a Valentina fetichista se encaixava ali, de forma fluida. Crepax explora a atmosfera do fim dos anos 60 lançando mão de todos os recursos disponíveis na narrativa gráfica. A forma como os quadros ditam o ritmo da história, o uso dos detalhes, tudo isso faz de Valentina, a personagem e a série, muito mais que uma fantasia erótica.

(Publicado também no skoob).

Meninos, eu li (26)

Já dá para perceber que “Pornopopéia” (Objetiva, 2009) não vai ser coisa boa logo nas primeiras páginas, quando o narrador se revela como um cineasta. Daí até o fim, só piora. Reinaldo Moraes tenta ser um Henry Miller, um Bukowsky, sei lá. Mas só consegue ser um tiozinho daqueles que ficam contando proezas sexuais inventadas enquanto despeja preconceitos dignos de comentarista de portal de notícias. A virada da primeira para a segunda parte ameaça uma pequena melhora, mas só serve para confirmar o egocentrismo do protagonista, que logo retorna à cansativa rotina de beber e trepar.

Logo no começo, “Leite derramado” (Companhia das Letras, 2009) parece que vai ser uma versão remixada e estendida de “O velho Francisco”, do mesmo Chico Buarque (já gozei de boa vida, tinha até meu bangalô, vida veio e me levou). A diferença é que o romance serve como pano de fundo para uma discussão sobre a memória. Uma memória em crise, não só por causa da idade e da esclerose do narrador, mas porque ela é falha por natureza. E, da mesma forma que a memória, falham a percepção, a racionalidade, todas as ferramentas da mente. Resta a narrativa como refúgio, como maneira de dar sentido ao mundo.

O que há de melhor em “Histórias de cronópios e de famas” (Civilização Brasileira, 1998) é a capacidade de Julio Cortázar de não apenas desnaturalizar o cotidiano (como fazem questão de ressaltar quase todos os críticos), mas também de, ao forçar a repensar a realidade, perceber que ela é múltipla. Assim, as partes aparentemente desconexas do livro se completam: se é preciso pensar sobre a técnica de subir uma escada, então também é possível esbarrar em famas, cronópios e esperanças por aí, dançando trégua e catala.

A maioria dos ensaios de “O cinema e a invenção da vida moderna” (Cosac Naify, 2004) tem muito pouco de cinema. Às vezes, enfiado de qualquer jeito no fim, como se tivesse sido um enxerto para justificar a
inclusão na coletânea de Leo Charney e Vanessa Schwartz. Mesmo assim, vale pelo que mostra sobre a invenção dessa tal de vida moderna. Montagens que põem em xeque a credibilidade da fotografia? Ciência apresentada como espetáculo? Fascinação pelo mórbido? Fragmentação do conhecimento? Essa vida moderna na verdade é praticamente pós-moderna! A conclusão principal da leitura de todo o volume é de que a História, afinal, não mostra o passado, e sim a forma como o presente vê o passado, e que revela muito mais o que somos do que o que fomos.

A melhor coisa da coletânea da Granta com “Os melhores jovens escritores brasileiros” (Alfaguara, 2012) é saber que (alguns d)os melhores mesmo não estão lá. Porque o sabor que fica é de picolé de chuchu. Quase todos os autores selecionados, alguns deles bem fracos, escrevem sem um pingo de ousadia. Salvam-se, nesse aspecto, Cristhiano Aguiar (o que mais me impressionou), Michel Laub, Antonio Xerxenesky e até a Luisa Geisler, que errou muito mas pelo menos arriscou. Impressiona negativamente o fato de que, na média, o jovem escritor brasileiro (conforme os padrões da Granta), além de ser crítico, editor, ou alguém de certa forma ligado ao mundo editorial, também só sabe escrever sobre escritores, tradutores, jornalistas. Falta a capacidade de olhar para fora, de buscar o olhar do outro. Talvez isso tivesse aparecido se os editores não ficassem tão restritos a um universo de autores bem apresentáveis, “com cara de escritor”, como disse o Santiago Nazarian. Fica difícil acreditar que não haja bons escritores negros, e que tão poucos não sejam cariocas, paulistas ou gaúchos, e que quase todos sejam homens.

Temos que reconhecer as boas intenções de Augusto Emílio Zaluar, que em 1875 tentou repetir no Brasil o que Jules Verne vinha fazendo com sucesso na França. “Doutor Benignus” (Editora UFRJ, 1994), porém, fica
longe do modelo. O principal motivo é a falha de leitura do próprio autor, que achou que o mais importante num romance “científico” seria acumular informações sobre a fauna, a flora, a geologia e a etnografia do Brasil. Acabou deixando em segundo plano qualquer preocupação com um enredo minimamente interessante ou personagens capazes de despertar identificação. No fim, precisou de um deus-ex-machina (aliás, machina-ex-machina) para resolver o conflito. Ficou mais improvável que os habitantes do sol cuja existência o Doutor Benignus defende. Se alguém quiser uma boa aventura pelo Brasil do século XIX, é melhor ficar com o original e ler “A Jangada”, de Verne.

“Morte e vida severina” (José Olympio, 1980) deve ser lido como pede seu subtítulo (“e outros poemas em voz alta”). Em primeiro lugar, porque os versos de João Cabral de Melo Neto realmente ganham vida e força quando lidos mesmo que num sussurro. E depois, pela outra e menos explícita afirmação, de que o poema-título deve ser considerado em conjunto com os “outros”. Embora isoladamente já seja uma obra-prima, a história de Severino cresce se vista como clímax de um discurso construído pelas “Paisagens com figuras” e pelos “Dois parlamentos”, cada vez mais desumanizando os personagens até se contrapor à personalização do
Capibaribe em “O rio”.

A visão de Alejandra Pizarnik da história de Erszébet Bárthory, em “A condessa sangrenta” (Tordesilhas, 2011), é de início uma mistura de fascínio e repulsa. Depois, diante dos relatos históricos ou folclóricos sobre a figura da condessa, essa mistura se torna uma espécie de perplexidade, diante da dificuldade de estabelecer limites entre o fato e a ficção. O sangue das donzelas se mostra necessário não apenas para manter a juventude da condessa, mas para alimentar a lenda. Afinal, é preciso que seja uma lenda, porque a alternativa de que seja tudo verdade – de que a crueldade humana seja de fato tão intensa – é inaceitável. Assim, quanto mais terrível a história, mais o horror se sacia na ficção e se afasta da realidade. As ilustrações de Santiago Caruso acompanham a reflexão, com os vestidos impossivelmente brancos da protagonista pedindo para serem tingidos de vermelho numa explosão grotesca.

Eugenio Colonnese foi absolutamente fiel ao original na sua adaptação de “Drácula” (Escala, 2010). Fiel demais. Esse é o problema num álbum que, para condensar o livro de Bram Stoker em cem páginas de quadrinhos, recorre a artifícios como intercalar páginas de texto (as cartas de Lucy e Mina, o diário de bordo do Deméter). Uma opção por menos texto e mais narrativa gráfica, mesmo deixando de lado parte do conteúdo, teria melhorado a fluidez. Na arte, a predominância dos tons escuros foi uma escolha um pouco óbvia mas que funcionou bem. Os extras, com uma história dos quadrinhos de vampiro, foram uma boa surpresa.

Eu nunca tinha sequer ouvido falar do videogame em que “Pandora, a namorada do Death Jr.” é baseado antes de ver a revista na banca. Mas, pelo menos neste mangá, os personagens tem carisma. A história de Hai segue as regras básicas de qualquer grupo de aventureiros, juntando os nerds, o louquinho, etc. (alguns deles muito bem bolados), para depois jogá-los contra uma vilã e seus asseclas, exigindo um crescimento moral para obter a vitória. Nada de marcante, mas um entretenimento bem realizado. Funciona para os adolescentes a que é direcionado.

A primeira coisa a ser dita sobre “Erma Jaguar” (L&PM, 2012) é que a sua protagonista é um mulheraço. Com tudo. Alex Varenne convence porque as aventuras eróticas de Erma não parecem direcionadas à satisfação do olhar de um leitor-voyeur. Ao contrário, dão a impressão de que ela de fato é sujeito de seu desejo – embora no fim não seja exatamente isso.

Meninos, eu li (25)

A leitura de “a máquina de fazer espanhois” (Cosac Naify, 2011) demorou um pouco a engrenar, mas depois do segundo ou terceiro capítulo começou a fluir que foi uma beleza. Os velhinhos do valter hugo mãe recuperam os temas principais de Fernando Pessoa, especialmente partindo do “Tabacaria”, que serve de contraponto ao romance, e conduzem uma reflexão sobre a sociedade portuguesa, perdida entre uma saudade do salazarismo e uma perplexidade diante do mundo contemporâneo, que aos poucos transborda da lusitanidade para uma experiência universal. É aí que o tema da morte passa a predominar, deixando ainda mais direta a identificação com os personagens. Ainda mais porque o autor escapa daquela armadilha do sentimentalismo luso, fadista, anedótico; não que fuja da melancolia, mas torna a relação com a melancolia uma coisa diferente.

“A parábola do cágado velho” (Nova Fronteira, 2005) é justamente o que o título promete: uma parábola. Fiel a esse princípio, Pepetela batiza seu protagonista de Ulume (“o homem”) e sua personagem feminina principal de Munakazi (“a mulher”). Ulume atravessa as páginas do romance dividido entre a obediência à tradição e a necessidade de se adaptar às mudanças na sociedade angolana, seja na língua, nos costumes, nas relações sociais. Não é simplesmente uma questão de resistir à mudança: é que o mundo novo dos moradores da cidade grande também não entrega o que promete. Então, a solução tanto para Ulume quanto para Pepetela é tentar extrair de cada lado o que melhor se aproveite em cada situação.

Não precisava de Itabira, nem de pedra no caminho, nem de José, nem de quadrilha. Bastaria ter escrito “A rosa do povo” (Record, 20ª edição, 1999) para Drummond ser reconhecido como o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Está tudo ali. O funcionário do MEC que ao fim de uma noite na repartição descobre a possibilidade de “uma coisa bela” resume um percurso mais longo que começa com a reação à II Guerra Mundial (“este é um tempo de partidos/tempo de homens partidos”) e, quando recorre à poesia, o faz não porque ela traga beleza, porque afinal a rosa que brota do asfalto é feia, mas ela existe. E, existindo, seca e murcha que seja, é a vida possível.

O curioso em Almeida Fischer é que seus contemporâneos criticavam nele aquilo que hoje parece justamente seu ponto forte – o flerte com o fantástico e o surrealismo, que nesse “A ilha e outros contos” (MEC, 1954) dá as caras apenas no conto “O mastro”, sobre um perna-de-pau que se habitua a viver nas alturas e abandona o convívio com os homens comuns. Quando tenta ser sério e realista, fica preso a dramas da classe média dos anos JK, cujos conflitos existenciais não dizem quase nada ao leitor de hoje. Em resumo, envelheceu mal.

Eu tenho que deixar registrado o meu profundo respeito pelos amigos advogados e estudantes de Direito, que precisam enfrentar coisas como esse “Termo de ajustamento de conduta” (Editora Jurídica, 2006). Mas também é em parte culpa deles se autores como Jerônimo Jesus dos Santos acham que sabem escrever. O que se aproveita realmente são os anexos com modelos e exemplos, porque a parte teórica da obra poderia ser resumida à introdução. O resto ou é digressão sobre temas genéricos ou esmiuçamento de questões extremamente específicas.

Publicado, provavelmente, para aproveitar o sucesso da aventura do Homem-Aranha nos anos 30, “Homem de Ferro Noir” (Panini, 2012) não tem, entretanto, absolutamente nada de noir. O Tony Stark alternativo criado por Scott Snyder é muito mais um cyberpunk tardio. A mudança de cenário faz bem ao personagem – como acontece em geral com heróis de poderes diminuídos, em vez de aumentados como costumam fazer as editoras. A melhor personagem, porém, acaba sendo mesmo a Pepper Potts em versão ghost-writer.

Acho que foi Arnaldo Branco quem disse que gibi de super-herói é como filme pornô: tem um fiapo de história para justificar as cenas de sexo explícito, num caso, ou de pancadaria, no outro. “Mulher-Gato: Cidade eterna” (Panini, 2012) é quase um meio-termo, já que usa qualquer pretexto para mostrar Selina Kyle seminua ou em seus uniformes fetichistas, o que dá quase no mesmo. O argumento, em diversos momentos, leva o leitor a duvidar de que está entendendo direito, tamanha é a falta de coerência, que irrita ainda mais quando envelopada em alguma pretensão de quadrinho sofisticado.

Meninos, eu li (24)

Eu vou perder metade dos meus já poucos leitores. Mas a verdade é que finalmente fui ler O guia do mochileiro das galáxias (e mais o resto da série, O restaurante no fim do universo; A vida, o universo e tudo o mais; Até mais, e obrigado pelos peixes; e Praticamente inofensiva – todos em edição semidescartável da Arqueiro, 2010, comprados numa promoção no Dia da Toalha) e achei bem aquém do que eu esperava. Pode ter sido porque depois de tantos anos de cultura nerd eu já conhecia de segunda mão as melhores sacadas. Então, acabou ficando um gosto de piada requentada. Pior, piada esticada. Em vários momentos, a impressão que dá é de que Douglas Adams encheu linguiça para distribuir em cinco volumes o que caberia em no máximo dois. Talvez um e meio.Há capítulos inteiros que servem apenas para o autor mostrar como é imaginativo e engraçado – só que, ainda na metade do primeiro livro, a sua técnica básica de humor, de justapor alguma coisa épica, grandiosa, a outra trivial, banal, começa a se tornar previsível demais. Tanto é que o Guia já contém todos os temas e títulos dos quatro livros seguintes, que apenas os desenvolvem um pouco. Somente Obrigado pelos peixes retoma um pouco do frescor original.

Vilma Arêas é competente. É do ramo. Conhece a técnica do conto, e em especial do microconto. Isso fica bem claro nesse Trouxa frouxa (Companhia das Letras, 2000). As narrativas tem ritmo, tem graça, as palavras fluem redondas e as frases se encadeiam com precisão. Mas é só. Falta o principal, que é ter alguma coisa a dizer. Escrito em 2000, parece ter vindo de quatro ou cinco décadas antes, de uma literatura brasileira com um pé na psicologia e outro no realismo. Pouco inspirado, terra-a-terra, acaba esquecido logo depois da primeira leitura.

Quando vi na banca de revistas esse Assassin’s Creed: A queda (Panini, 2012) nem reparei que o personagem na capa estava carregando um rifle. Eu tinha visto algumas cenas do primeiro jogo da série e achava que era uma aventura medieval. Lendo o gibi é que fui entender que a trama envolve viagens no tempo, coisas assim. Então, tirando a parte do choque com a expectativa, achei a história (de Karl Kerschl, com arte de Cameron Stewart) interessante. Funciona direitinho dentro desse esquema de transmídia, revelando mais coisas para quem já era adepto e ao mesmo tempo funcionando como obra independente para quem não conhecia nada. Mas não foi boa o suficiente para me fisgar.

Meninos, eu li (23)

Perdi boa parte do impacto que “Lugar Nenhum” (Conrad, 2007) deveria ter me causado. Em primeiro lugar, já tinha lido boa parte da versão em quadrinhos publicada na Vertigo. Depois, porque não conheço Londres, e tanto o mapa quanto a história da cidade são elementos fundamentais da história. Mesmo assim, foi possível apreciar a aventura de Richard Mayhew e Lady Porta pelo mundo subterrâneo. O que me pareceu mais interessante foi identificar em “Lugar Nenhum” muitos dos personagens (ou pelo menos traços característicos), situações, tramas e outros elementos que Neil Gaiman desenvolveria de maneira bem mais satisfatória em “Deuses americanos”. Esse, talvez, foi o terceiro e mais importante redutor de impacto: foi como testemunhar o ensaio geral depois de já ter visto a obra acabada.

O que há de melhor nesse “O Romance de Amadis” (Martins Fontes, 2008) não é tanto o trabalho de reconstituição do original medieval de João de Lobeira, feito na medida do possível por Affonso Lopes Vieira. O romance vale mais pelo que reflete e pelo que não diz, no seu capítulo crucial. Amadis, depois de salvar a donzela Briolanja, é por ela obrigado a trair sua amada Oriana, a sem-par, segundo quis el-rei Dom Afonso que Lobeira narrasse; mas Lobeira chama a atenção para o fato de que na verdadeira história isso não aconteceu, e Amadis se manteve fiel. A traição que não houve (ou que pode ter havido, se acreditarmos mais no pragmatismo do rei do que no idealismo do trovador), e que desencadeia uma série de eventos e peripécias, é, quer Lobeira pretendesse dizer isso ou não, uma reflexão sobre as relações entre o poder, a arte e a verdade.

Eu boiei em mais de metade de “Desigualdade reexaminada” (Record, 2001). Faltou conhecimento de teoria econômica para acompanhar boa parte do raciocínio de Amartya Sen. Isso não impediu de aproveitar as perguntas iniciais, que orientam todo o livro e que basicamente terminam sem resposta: afinal, igualdade de quê? igualdade em quê? Além de bombardear certezas, como todo bom autor deve fazer, Sen aponta caminhos interessantes, por exemplo, quando identifica a defesa da liberdade como uma forma de defesa da igualdade (e vice-versa).

As três coleções de poesia reunidas nesse volume (Le Livre de Poche, 1980) são um dos casos em que a biografia explica a obra mas depois a obra explica melhor ainda a biografia. Verlaine bebia e batia em Mathilda. Verlaine traiu Mathilda – com Rimbaud! Mas Mathilda certamente só tomou a decisão de se separar de Verlaine e, principalmente, de nunca mais aceitá-lo de volta, depois de comparar os poemas escritos para ela (de “La bonne chanson”) com os inspirados pelo amante (“Romances sans paroles”). Verlaine sai de um idílio açucarado para uma torrente de paixão e verve que é para acabar com qualquer casamento mesmo. Depois disso, sem Rimbaud nem Mathilda, ele ainda tenta se refugiar no amor a Deus (“Sagesse”), mas nem Deus ganha poemas tão bons quanto os da fase pecaminosa. Eu apostaria que Verlaine foi para o inferno. E lá deve ter encontrado Rimbaud. Final feliz, dansons la gigue.

Mesmo para uma história em quadrinhos de super-heróis dos anos 70, “Superman vs. Muhammad Ali” (Panini, 2011) é tosca. Ridícula mesmo. Neal Adams força a credibilidade do leitor além de qualquer limite. Não falo aqui de bobagens como façanhas fisicamente impossíveis: isso vai de barato no que, repita-se, é um gibi do Super-Homem. Mas a total implausibilidade de todo o argumento (que já começa pelo pretexto criado para transformar Ali em personagem e fazê-lo exibir sua técnica ao longo de uma página de “treinamento”) parece se alimentar de si mesma, sem limites. No fim, a salvação da Terra é obtida convencendo-se os extraterrestres de todas as galáxias de que o ser humano não é violento e, quando luta, sempre o faz com honra. Isso logo depois de o Super-Homem se passar por outra pessoa para poder destruir uma frota inteira de alienígenas.

Gosto mais da Liga Extraordinária do que dos Vingadores. Ou da Liga da Justiça. Ou dos dois juntos. Isto posto, “The League of Extraordinary Gentlemen – volume 2″ (Wildstorm, 2004) é uma continuação estranha. O que tem de bom é justamente o que tem de pior: o fato de os heróis vitorianos estarem perdidos a maior parte do tempo, quase impotentes diante da Guerra dos Mundos. Enquanto eles são usados como peões pela inteligência britânica, o que sobra para agitar as páginas é justamente aquilo que Alan Moore sabe fazer melhor – explorar as relações entre os personagens, ou mais exatamente as relações de cada um com Mina.

“Astro City – Vida na cidade grande” (Pandora, 2002), assim como “The League”, também é um falso gibi de super-herói. Ou melhor, é o que deveria ser um bom gibi de super-herói. O Samaritano, Crackerjack, Vitória Alada e outros fazem o que se espera deles: capturam bandidos, protegem os inocentes, enfrentam o mal, salvam o mundo. Porém, Kurt Busiek subverte os cânones e dá não apenas a voz mas também o ponto de vista a pessoas comuns. Mesmo quando os heróis são os personagens principais, “Astro City” fala muito mais sobre pessoas do que sobre poderes. Sobra espaço até para reflexões sobre feminismo, no meio do diálogo entre Vitória Alada e Samaritano, na história que encerra a coletânea.

Outro engambelo, e dos bons. “Sandman apresenta: Destino” (Panini, 2012) quase não mostra o personagem-título. Em vez disso, conta a história do cavaleiro da Peste e da devatsação que ele traz, primeiro na Constantinopla de Justiniano, depois na Inglaterra medieval e por último nos Estados Unidos de 2000 (vistos de 1990, portanto um futuro do pretérito). Ninguém sente falta. John Ryder (apesar da excessiva “sacada” no nome) e principalmente a rancheira Ruth Knight (mais uma referência dispensável) são personagens que despertam o interesse do leitor. O fim pareceu mal resolvido, como se a autora tivesse ficado com medo de explorar os conflitos. A arte (de Kent Williams, Michael Zulli, Scott Hampton e Rebecca Guay, dando estilos diferentes a cada período da história) funciona muito bem.

(Publicado também no skoob).

Meninos, eu li (22)

A edição que li de “O gene egoísta” foi a de 2001, da Itatiaia, tradução do original de 1976. Parece que Richard Dawkins, numa edição recente, se desculpou pelas interpretações conservadoras dos seus conceitos. Mas, francamente, o que ele esperava? Na hora em que atribuiu uma atitude essencialmente moral (e portanto humana) aos genes, e a responsabilizou pelo sucesso evolutivo – em última análise, pelo fato de existirmos -, ele não apenas legitimou-a mas a transformou em virtude. Metaforicamente, é claro, mas é o que basta considerando-se que a batalha das ideias se dá sempre num plano simbólico. Existiam dúzias de outros adjetivos que poderiam caracterizar o gene bem-sucedido. A escolha da metáfora foi uma escolha política, por mais que o autor tenha se arrependido dela. Se você não quer que as pessoas sejam egoístas, não diga que o egoísmo é uma coisa boa para elas. Tudo isso acabou escondendo o que há de mais interessante no livro, que é a teoria dos memes no último capítulo, igualmente prejudicada pela infeliz caracterização deles como “egoístas”.

O que mais chama a atenção em “Palestina: uma nação ocupada” (Conrad, 2011) é o aspecto formal, ou seja, o uso de uma história em quadrinhos como forma de reportagem. Não que isso seja novidade: antes do Joe Sacco, já tinha sido feito algumas vezes. Robert Crumb, por exemplo, teve seus momentos jornalísticos, e Art Spiegelman também experimentou o estilo. Mas, pelo menos que eu tenha visto, esta série foi a mais bem acabada tanto como jornalismo quanto como narrativa gráfica. O trabalho de repórter é irretocável – dando voz aos entrevistados, contexto aos leitores e ponto de vista pessoal quando necessário para pontuar a história.

A leitura de “Esquin de Floyrac: o fim do templo” (Record, 2007) me fez refletir sobre algumas questões. A mais importante delas: por que, POR QUE eu perdi meu tempo com um tijolo de 650 páginas tão ruim? Talvez pelo mesmo motivo que tenha me levado a começar a ler, apesar de o primeiro volume da trilogia ter sido medíocre, e o segundo, execrável. Eu queria acreditar que haveria alguma redenção possível. Não há. Na trama mais desinteressante da série, Rodrix repete os erros: diálogos e monólogos que vomitam clichês de auto-ajuda pseudoespiritualizados, repetidos por personagens caricatos (especialmente os vilões). O samba do maçom doido mistura templários, pedreiros e mendigos (estes, pintados como os maiores bon-vivants do mundo) na tentativa de escrever a História da maçonaria, com um proselitismo descarado. Ainda por cima, os heróis do Templo consideram a homossexualidade como a maior das vergonhas e veem as mulheres meramente como objetos sexuais ou reprodutoras. BÔNUS: Troféu Doutor Terror de uso mais tosco do tarô como recurso narrativo.

“Fazes-me falta” (Alfaguara, 2011) é uma dolorida sinfonia da perda. Melhor ainda, é uma cantata e fuga para duas vozes. Não sei se é como foi pensado pela @inespedrosa_pt, mas o romance começa como uma elaboração de luto pela morte de uma pessoa e se desenvolve (especialmente do meio para o fim) como terapia de ultrapassagem da morte de um amor, discutindo as possibilidades de se sobreviver a ele. É nessa hora, quando se percebe que os narradores estão falando de rompimentos e separações, que tudo faz sentido e os sentimentos desabam. Lindo, lindo, lindo.

Eu não vou me atrever a falar mal de “Rei Emir Saad – O monstro de Zazarov” (2011) porque prezo a minha vida. E os meus órgãos vitais, e os não vitais também. Aliás, eu nem quero saber qual foi o destino dos funcionários da LeYa e da Barba Negra que deixaram passar algumas tirinhas repetidas, além de (aparentemente) errar a sequência de publicação de outras. Repito: essas falhas não diminuem em nada minha admiração pelo bom Emir. Divertido como uma execução de rebeldes por esquartejamento.

O melhor de um romance tão multifacetado quanto “Minha querida Sputnik” (Objetiva, 2003) é a variedade de leituras que ele permite, conforme a chave de interpretação que se pretenda. Para mim, por exemplo, o fio condutor quase invisível do texto é a pergunta que Miu/Sputnik faz a Sumire e que mais tarde Sumire repete a K. – qual é a diferença entre um signo e um símbolo. Todo o jogo de replicações e inversões a partir daí serve apenas para responder à pergunta. Sim, isso foi um chute semiológico, sem um pingo de vergonha, só porque eu queria escrever alguma coisa inteligente. Mas até esse chute pode ser interpretado como uma camada a mais de interação signo-símbolo. Como queríamos demonstrar.

(Publicado também no skoob)

Meninos, eu li (21)

É difícil escrever um comentário de “Os duelistas” (L&PM Pocket, 2008) que não seja junguiano. Parece até que Joseph Conrad escreveu a história com um manual de Psicologia Analítica debaixo do braço. Os confrontos de D’Hubert (que nem por um instante deixa dúvidas quanto a quem é o personagem principal, o representante da razão contra os instintos animais, da civilização contra a barbárie) e Feraud são um caso clássico de conflito entre Persona e Sombra. Até mesmo a sucessão das armas (espada, sabre, habilidades de sobrevivência, pistolas – para não falar no outro duelo, o permanente, das manobras políticas) é uma forma de ilustrar a variação dos arquétipos. Vai assim até a resolução, com D’Hubert absorvendo Feraud e com isso tornando-se capaz de finalmente ser inteiro, casar-se com a mocinha, reconciliar-se consigo mesmo, ser feliz. Só faltou receber alta do terapeuta.

Não tenho muito o que dizer de “Mr. Punch” e “Sinal e Ruído” (Conrad, 2010 e 2011 respectivamente). Neil Gaiman e Dave McKean são como Lennon e MacCartney, Ginger e Fred, Bebeto e Romário. O que mais impressiona não é o talento imenso de cada um, que já não seria pouca coisa. É o fato de os dois se completarem em total harmonia e, ainda por cima, encontrarem jeitos diferentes de fazer isso. “Mr. Punch” é bizarro, sombrio. Como disse  a Ale, é para nos lembrar como a infância é macabra. “Sinal e Ruído” é poético, filosófico. Por um momento eu pensei como teria sido se eles realmente criassem uma história sobre o Milenarismo, mas depois vi que aquela era a história possível (e relevante) a ser contada. Não digam isso para Mr. Punch, mas preferi o conto do cineasta.

Quatro anos de serviço público, e eu só comecei a entender de fato o que faço depois de ler “Os donos do poder” (Folha, 2000). Raymundo Faoro foi buscar na Idade Média, praticamente na fundação do reino português, a origem do Estado patrimonialista e do estamento burocrático. Lá estava o João das Regras (esse nome é uma piada pronta) a encontrar o argumento jurídico para o país ser propriedade do rei e fundar uma casta de rábulas. A associação entre os dois surfa tranquilamente sobre as ondas das mudanças econômicas. Depois de 600, 700 anos de variações sobre o mesmo tema, reformas cosméticas para manter tudo como está, e uma fraude permanente no abismo que separa o país legal do país real, chega a dar um certo desespero. É como uma versão sociológica de “1984″: se você quer ver um retrato do passado, imagine uma máquina de manutenção do poder — para sempre.

Depois de “O senhor do lado esquerdo” (Record, 2011), não tenho medo de dizer: Alberto Mussa é o melhor escritor carioca hoje. O “Romance da Casa das Trocas” ameaça repetir o bom “O trono da rainha Jinga”, com uma trama policial com toques de misticismo ambientada no Rio Antigo, apenas com diferença de alguns séculos. Mas logo as histórias e anedotas paralelas (melhor: tangentes) começam a lembrar outro livro de Mussa, “O enigma de Qaf”. E, assim como “O movimento pendular”, flerta com teorias pseudocientíficas sobre amor e sexo. O resultado dessa mistura é uma obra que burla os falsos limites de gênero — e “gênero” aqui é tanto o literário quanto o masculino/feminino. Carioca, eu disse, e tão carioca que é universal. E o epílogo, okê okê!, arrepia dos pés à cabeça.

Existe coisa mais fofa e delicada do que “A Arca de Noé” (Cia. das Letras, 1991)? Nem um erro grosseiro da editora neste exemplar, com inversão da ordem das páginas no primeiro poema, foi capaz de estragar. Eu sou da geração que não consegue ler “O Pato”, “A Casa”, “São Francisco” sem cantar, pelo menos dentro da cabeça, as músicas de Toquinho. Viraram cantiga de roda, parecem ter sempre existido, serem domínio público. No papel, sempre se força um pouco mais a procura de outras camadas, que sempre existem em se tratando de Vinícius de Moraes. Mas nem precisa. Cantar já basta.

O último do mês foi “A orelha de Van Gogh” (Companhia das Letras, 1993). Moacyr Scliar era mestre do conto, e mais ainda do microconto. Subvertia as narrativas bíblicas e mitológicas, tirando o chão dos pés do leitor (que só então descobria que já estava de cabeça para baixo há muito tempo). No caso de um contista, é meio clichê elogiar a concisão, a economia de meios, mas nesse caso não tem como evitar. Cada conto é uma pequena preciosidade, e mais ainda quando se vê que só poderia existir daquela forma.

(Publicado também no skoob)

Meninos, eu li (20)

Seis álbuns do Robert Crumb (editora Conrad) de uma vez, para aproveitar uma promoção. Promoção também no Almanaque: seis resenhas no mesmo parágrafo. Porque a vantagem foi ler todos os seis livros como se fosse uma coisa só, uma grande antologia de Crumb. O suficiente para mostrar por que o cara é um dos melhores de todos os tempos. A exceção é Bob e Harv, o mais fraco do pacote, até por ser o único em que as histórias não são de Crumb e sim de Harvey Pekar. Pekar tem algumas coisas interessantes, mas a maior parte do tempo é tedioso. Tanto que o melhor momento é a história em que ele conta como conheceu Crumb. Aí a coisa se aproxima do que a gente vê nos outros livros: a rabugice do anti-herói, sempre pronto para reclamar de tudo o que vê na América. Mas Crumb mata a pau mesmo é quando fala de si mesmo, especialmente em Minha vida e Meus problemas com as mulheres – as vezes, eu me senti como se ele estivesse falando da minha vida e dos meus problemas com as mulheres. A maior diferença é que ele não tem o menor medo de expor as fraquezas, mostrar-se falho, humano, incoerente. O fato de dar a cara a tapa lhe dá o direito de reclamar de volta, criticando o próprio meio da contracultura que fez dele um ídolo. Isso acontece de forma primorosa em Mr. Natural, o mais bem resolvido nesse aspecto e, paradoxalmente, o menos autobiográfico (ao menos aparentemente). Também em Blues, ao falar de uma música que não existe mais e talvez só exista na cabeça de colecionadores nostálgicos, lendas melhores que os fatos e que por isso se sobrepõem a eles, expõe um desejo de beleza que é de certa forma o desejo de uma vida diferente. Às vezes dá vontade de esfregar isso na cara de Crumb; que ele mesmo é tão ridículo e mesquinho e decadente quanto aqueles (e aquelas!) que critica. Aí o espelho me olha de volta.

Não li as duas primeiras partes da trilogia A Saga dos Brutos, de Ana Paula Maia. Vou ter que ler, no mínimo para saber se estão no mesmo nível da terceira, Carvão animal (Record, 2011). É um romance incômodo. Primeiro achei que fosse por causa do naturalismo que marca todos os personagens – o bombeiro, o operador de forno crematório, os carvoeiros, todos com psiques que são uma extensão dos seus trabalhos ou das suas origens. Mas isso se justifica, e ganha credibilidade, à medida que o leitor se vê também capturado no círculo vicioso da cidade de Abalurdes. Quando isso acontece, basta mais um passo atrás para que o diálogo entre os funcionários do crematório (“- O que nós fazemos aqui? – Nós fazemos carvão”) se revele estruturante não só do romance mas também de uma cosmovisão.

Sequências são caça-níqueis, bobagens feitas para aproveitar o que for possível dos restos de um sucesso. Não é isso? Não é assim que funciona no cinema? Mas não é assim com Duas pessoas são muitas coisas (Memória Visual, 2011), uma espécie de prequel de Papel manteiga para embrulhar segredos. Já não basta ser bom. É melhor que o primeiro. É o melhor livro da Cristiane Lisbôa até hoje. Virgínia diz que aos 17 anos viveu mais que a maioria das pessoas numa vida inteira (melhor a vida larga do que longa, diz João). Pois o livro é isso: uma novelinha (melhor dizendo, um idílio) de 64 páginas, e quando termina é intenso, dizendo mais do que muitos romances em centenas de páginas. De brinde, o caderno de receitas, que dessa vez vai no fim, reesecreve a história, dialoga com a narradora e abre significados. Não conheço mais ninguém que consiga fazer isso com uma receita de macarrão.

(Publicado também no skoob)

Meninos, eu li (19)

Luca Torelli, o protagonista de “Torpedo 1936″ (Volumes 3 e 4, Futura, 1987-88), só poderia ter sido criado nos anos 80. Individualista, cínico, orgulhoso de sua esperteza e amoralidade mas com um toque de humanidade que, quando prevalece, surpreende sem perder a coerência. O grande mérito das histórias de Sanchez Abuli (aqui, já no traço de Jordi Bernet, depois de Alex Toth abandonar a série) é esse: criar um personagem verossímil, um anti-herói que ganha umas e perde outras, com viradas de roteiro que aumentam o sabor “noir” das aventuras.

“O bom príncipe” (Panini, 2012) me obrigou a constatar que “Fábulas” jumped the shark. Não que seja ruim, mas a frustração que eu vinha sentindo desde o fim de “A marcha dos soldados de madeira” se intensificou aqui. O maior atrativo da série, para mim, sempre tinha sido o conceito inicial de personagens de contos de fadas vivendo no mundo atual, adaptando-se a ele, convivendo com personagens de histórias diferentes num contexto estranho e muitas vezes adverso. Isso ficou para trás e a série agora se limita a mostrar o combate contra o Império. Ainda por cima, a incursão do Papa-Moscas praticamente repete a do Garoto Azul, alguns volumes antes: personagem secundário usa item mágico, revelando-se um herói invencível. Só não cansa mais porque Bill Willingham e Mark Buckingham continuam sendo tecnicamente muito bons.

Bastam dez páginas, talvez menos, para se perceber que o jacaré de “Mastigando humanos” (Nova Fronteira, 2006) não é jacaré coisa nenhuma. É ser humano, paulista, tem nome e sobrenome: Santiago Nazarian. Não sei o quanto há de realmente autobiografico no romance que se anuncia “psicodélico” no subtítulo. Mas todos os personagens – o rato, o esquilo, a lata de gasolina, as cobras do Butantã – soam tão verdadeiros quanto seriam se o narrador os descrevesse como homens e mulheres. Ponto para o autor, que facilita a identificação (especialmente, acho, na segunda parte, quando começa a carreira acadêmica do protagonista) e assim cria a empatia necesssária para avançar nessa mistura de romance de formação, roman à clef e sátira.

O maior mérito de Luiz Kobayashi em “Peregrinos do Sol – A arte da espada samurai” (Estação Liberdade, 2010) é o trabalho de pesquisa. Percebe-se o quanto ele estudou o tema. Infelizmente, não soube muito bem o que fazer com tanta pesquisa. Na tentativa de traçar um histórico do kendô, acabou se perdendo em citar o máximo possível de nomes de mestres e de diferentes estilos sem porém explicar o que era cada um deles, em que se diferenciava dos outros ou mesmo por que estava sendo citado ali. Valeu mais pelas páginas de contexto histórico, que foram mais eficazes na hora de fornecer ao menos uma vaga impressão de como a esgrima japonesa foi se desenvolvendo através dos séculos e se adaptando às condições materiais e culturais de cada época. Valeu também pelas anedotas, que o autor fez questão de destacar como acidentais à história mas que se mostraram mais interessantes do que, por exemplo, as listas de nomes de golpes e outras partes sem contexto que eu simplesmente pulei.

“King Kong” foi um engodo. Comprei achando que era o livro havia sido adaptado para o cinema, mas foi justamente o contário. O romance é que é uma novelização do filme de 1933 (republicada pela Ediouro em 2005 no embalo da refilmagem de Peter Jackson). O texto de Delos Lovelace não acrescenta nada ao argumento original de Merian Cooper e Edgar Wallace. Teria que rever para afirmar com certeza, mas acho que até os diálogos são todos tirados do filme. No fim, a única coisa que o autor revela são as cores de um pôr do sol que no cinema era visto em preto e branco (spoiler: vermelho, laranja e amarelo). No fim, Ann Darrow e King Kong got caught in a cellulose jam do mesmo jeito. Caça-níqueis, e pegou os meus.

Este volume de “Poesia” de T.S. Eliot (Nova Fronteira, 2006, reedição da tradução de Ivan Junqueira, 1981) tem alguns problemas. Seria melhor se fosse bilíngue, por exemplo: é um pouco de esnobismo mas num livro de poesia faz uma grande diferença. As notas de Junqueira também não são grande coisa. Explicam o que não carece de explicação e deixa de contextualizar o que está menos acessível para o leitor comum, por exemplo na “Terra Desolada” (exceto quando apenas traduz as notas de uma edição espanhola e outra francesa). O que tem de bom: é Eliot. E, mostrando a trajetória desde “A canção de amor de J. Alfred Prufrock” até os Quatro Quartetos, permite compreender melhor a sua evolução (não num sentido positivista, de progresso constante rumo a um fim, mas no de uma transformação que no entanto não muda a essência). Com isso, até os versos de tema explicitamente religioso fazem sentido. Mesmo que Eliot, conservador, convertido ao Catolicismo, use os seus versos como uma prece a Deus, o leitor ateu consegue abstrair e ler um culto à Poesia. Amém.

(Também no skoob).

Meninos, eu li (18)

Todas as resenhas que encontrei de “O centauro no jardim” (edição de 2011 da Cia. de Bolso), de Moacyr Scliar, viam a história de Guedali como uma fábula sobre o difícil equilíbrio entre integrar-se a uma cultura diferente e manter as tradições. E essa leitura vinha sempre, de forma mais ou menos explícita, com o carimbo de “literatura judaica”, uma estrela de Davi amarela pregada na lombada. É verdade que isso está lá. Mas, na minha opinião, as memórias do (ex-)centauro são principalmente um romance de formação, clássico, com o qual é muito fácil qualquer um se identificaro . A inadequação do personagem não vem somente do fato de ter nascido com torso e patas de cavalo. Ele sabe que nunca vai se encontrar, qualquer que seja o caminho que tome. E só uma aceitação de si mesmo permitirá fazer as pazes com o mundo.
Eu deveria ter gostado de “Gran Cabaret Demenzial” (Cosac Naify, 2007). As histórias curtas de Veronica Stigger, de certa forma, se parecem com o tipo de texto que eu escrevo aqui no Almanaque. O problema é uma tendência escatológica que depois de algum tempo perde totalmente a graça. Primeiro é o casal que vai se mudando em apartamentos cada vez menores até ter que ir morar no cu de um amigo. Depois é o verme que entra nos cus de todos os membros de uma família, que chamam a Baleia-sem-cu para resolver o problema. depois… chega, né? Só melhora um pouco no último texto, uma (falsa?) peça em um ato que, apesar de abusar um pouco dos personagens também nessa linha de exposição gratuita, consegue se resolver um pouco melhor.
Mesmo sabendo que vai sair uma versão mais barata, valeu a pena comprar a edição em capa dura de “Daytripper” (Panini, 2011) só para poder pegar autógrafo do Fábio Moon e do Gabriel Bá na Rio Comicon. Não preciso dizer muita coisa. Todo mundo já sabe que foi o melhor livro de quadrinhos brasileiro do ano. Os gêmeos mostram para todo mundo ver como se faz narrativa gráfica de primeira, com uma integração perfeita de imagem e texto. Nada sobra, nada falta. Se alguma coisa chega a incomodar um pouco, é justamente ser de certa forma “limpo” demais. Mas é claro que isso não atrapalha.
Se “A Dama-Morcega” (Landy, 2006) tivesse sido escrito por uma adolescente, seria um livro promissor. Vindo de uma adulta, apenas constrange. Nos melhores momentos, parece um argumento para episódio de “Além da Imaginação”. Nos piores, fanfiction de Crepúsculo, ou relato de sessão de RPG. Giulia Moon até encontra algumas boas ideias e visões originais em temas de horror e fantasia, mas desperdiça-as com um texto que não passa do pastiche. O último conto, misturando o Saci e o Menino Jesus, chega a dar pena justamente por isso: não adianta explorar temas folclóricos numa ficção fantástica brasileira se é para cair num diálogo piegas.
Foram duas revistas de “Hellblazer” nas bancas em dezembro. “Origens – volume 2″ misturou algumas histórias que eu já conhecia, mas que sempre merecem ser lidas de novo, com outras que são da mesma época mas eu não conhecia. O pacto com o demônio Nergal é para reler sempre. Já as aventuras com participação do Monstro do Pântano não são tão boas, mas tem o mérito de revelar um pouco mais do passado de John Constantine. “Passagens sombrias” é um achado em termos de premissa. O roteiro de Ian Rankim recupera o que sempre foi uma das melhores características de Constantine: usar o pretexto dos demônios para crítica político-social. A arte de Werther Dell Edera acompanha bem esse conceito, inclusive com uma boa sacada gráfica na virada de roteiro que acontece no meio do gibi.
O maior problema de “O bom Jesus e o infame Cristo” (Cia. das Letras, 2010) é ser mais longo do que devia. Esticado mesmo. A tese central é ótima: em vez de um filho, Maria teve gêmeos, os dois personagens-título. Mas Philip Pullman não precisava ter explorado praticamente cada episódio dos quatro Evangelhos, mostrando em cada caso o que Jesus realmente fez e o que Cristo transformou em versão oficial para criar uma religião. Um bom editor teria cortado metade do livro. De qualquer forma, vale como uma boa discussão sobre o que é a verdade, o que é o certo, o que é o bem. No fim, Cristo parece menos infame (scoundrel, no original) do que diz o título. É fácil entendê-lo – o que, afinal, não deixa de ser um mérito do autor.
Já na reta final da trama de “O Fantasma da Ópera” (edição da Ediouro, 2005), o Persa, que até ali parecia um personagem desnecessário, incluído apenas para dar um tempero exótico, explica o livro, ao dizer que veio de uma terra que preza demais a fantasia para se deixar confundir por um truque, o qual no entanto admira. A essa altura, Gaston Leroux já tinha revelado ao leitor que o Fantasma não passava de um homem, e que os eventos de aparência fantasmagórica eram todos passíveis de uma explicação que descartasse o sobrenatural. Contudo, isso não torna a aventura menos interssante. Pelo contrário. Leroux assume o truque como truque, mas ao fazer isso assume o ônus de criar um vilão de carne e osso mais terrível que um espírito. O ponto fraco do romance, em parte explicado pela forma de pseudorreportagem, é uma certa irregularidade narrativa, que fica flagrante, por exemplo, na indecisão do autor em utilizar os verbos no presente ou no passado.

(Resenhas publicadas também no Skoob.)

Meninos, eu li (17)

Confesso que esperava mais de “A Miniatura” (Objetiva, 2005). Elisa Palatnik faz tudo certinho, inclusive com a virada de enredo na altura recomendada pelos melhores manuais de narrativa. Mas ficou devendo justamente o que está fora do manual, aquilo que deveria fazer o leitor realmente se interessar pelos personagens. No fim, a autora acaba na mesma situação de seu personagem, criando reproduções da realidade em escala reduzida absolutamente fieis, porém sem vida e sem motivo aparente.

Patrícia Galvão, para mim, era a Carla Camuratti declamando “No meu quintal tem um pessegueiro/Com flores cor de rosa/Onde chupei-te a boca/Pensando que era fruto”. Também sabia da sua ação política, mas não fazia ideia do que ela tinha sido capaz até ler “Parque Industrial” (edição “cerejinha” da José Olympio, 2006). É literatura militante de primeira. Quase um manifesto. Você termina o livro e quer levantar uma bendeira, deflagrar uma revolução. Ainda mais porque, em diversos trechos, as relações entre a elite paulistana (inclusive seus intelectuais de esquerda) e a classe trabalhadora descritas por Pagu parecem não ter mudado nada, oitenta anos depois.

Assim é covardia. Roger Mello, além de ser um ilustrador de primeira, ainda mostrou que conhece o outro lado e escreveu “Zubair e os labirintos” (Companhia das Letrinhas, 2003). O resultado foi um livro-objeto, um livro-brinquedo que parte de uma realidade terrível (o caos de Bagdá ocupada) para criar uma pequena fábula, algo entre Borges e Xerazade, sobre o poder da imaginação. Altamente recomendável para crianças e adultos.

Mas a melhor leitura do mês foi mesmo “Os Malaquias” (Língua Geral, 2010). De arregalar os olhos. Andréa del Fuego começa cozinhando a sua história em fogo lento, num falso romance regionalista que aos poucos se revela outra coisa, completamente diferente. Quando você se dá conta, já está hipnotizado por um redemoinho que vai girando cadavez mais rápido e mais intenso, para arrematar deixando o leitor suspenso no ar, sem chão e sem paraquedas. Não foi á toa que venceu o Prêmio Saramago. Vou ficar na expectativa dos seus próximos livros.

(Resenhas publicadas também no Skoob.)

Meninos, eu li (16)

A primeira tentativa de ler “O jogo da amarelinha” tinha sido mais de vinte anos atrás. Na época não consegui por vários motivos. Um deles foi a incapacidade de entender tantas referências espalhadas. Mas esse problema nunca pode ser totalmente resolvido, no máximo atenuado. Não acredito que alguém consiga captar todas as piscadas de olho que Cortázar distribui pelas seiscentas e tantas páginas. O problema maior era a inadequação: não era o livro que eu esperava que fosse. Dessa vez, com uma atitude diferente, deu para, se não compartilhar, pelo menos entender a devoção de tanta gente por Rayuela. Além de ser um monumento do ponto de vista de forma, estrutura, e tal, tem o texto, que é impressionante. Nos primeiros capítulos, eu me peguei lembrando frases que tinham ficado guardadas no meu cérebro desde aquela tentativa anterior. E isso não é coisa que qualquer autor consegue.

No breve período em que eu assinei uma coluna no “Jornal dos Sports”, eu dizia com orgulho que era o mesmo jornal de João Saldanha, Nelson Rodrigues e o maior de todos, Mario Filho. Mas também José Lins do Rego, que eu sabia que tinha sido cronista esportivo mas não conhecia de fato. Esse “Flamengo é puro amor” (José Olympio, 2008) preencheu a lacuna. Verdade que não se tratava de um supercraque no nível dos outros três, mas era um tremendo cronista. Corajoso, bem-humorado, simples. Falta um Zelins no jornalismo esportivo de hoje. Aliás, falta um Zelins no jornalismo. Falta um Zelins.

Quando Will Eisner cria uma grande corporação que se chama simplesmente Multinational Corporation, você tem a confirmação de que está diante de uma fábula à mandiera clássica. Os personagens que vão se apresentando como arquétipos só reforçam a sensação. “Life on another planet” (Kitchen Sink, 1995) não envelheceu por isso. Mesmo que o cenário da Guerra Fria e da ameaça do confronto entre as superpotências tenha sido superado antes mesmo de a série original ter sido reunida num volume encadernado, a aventura do cientista lutando para evitar que o sinal vindo do espaço provoque a guerra em vez da paz continua fazendo sentido.

Depois da decepção do volume 8, “Lobos”, este “Filhos do Império” (Panini, 2011) foi um alívio, o suficiente para me motivar a continuar acompanhando “Fábulas”. Não tanto pelos rumos da trama principal, mas pelas pequenas histórias secundárias (a dos ratinhos cegos, por exemplo, é impagável), que no fim das contas acabam sendo o que Bill Willingham faz de melhor. Ou, no que vem a dar no mesmo, as microhistórias dentro da história principal, como é o caso da participação especial de Papai Noel e sua explicação de como consegue visitar todas as casas na noite de Natal.

Não conhecia Cees Nooteboom. Peguei “A seguinte história:” (Nova Fronteira, 2008) para ler porque era curtinho. Valeu a pena! A história do professor Mussert começa ameaçando uma fantasia/sci-fi em Lisboa, vira um drama em Amsterdã e depois, a bordo de um navio sobre o Amazonas, dá um nó nos gêneros e puxa o tapete do leitor. As referências e metáforas que pareciam simplórias de repente se embaralham da mesma forma que as constelações que o capitão do navio aponta. Deu vontade de ver o que mais ele fez. Dá para encarar um romance mais encorpado agora.

Bom… Já pode falar mal da Lúcia, Ale? Pode, Telinha? Porque “As aventuras do vampiro carioca” é ruim. Ruim de doer. A intenção era uma paródia, ou homenagem, ou coisa parecida, ao “Vampiro de Curitiba” do Dalton Trevisan. Só que a Lúcia Chataignier não passa nem perto disso. A autora não tem um pingo de respeito pelo seu protagonista, que parece so estar ali para ser caricaturado, ridicularizado. Nem de longe lembra a picardia do Trevisan. Ainda por cima, passei mal tentando (sem sucesso) descobrir qual era a lógica de colocação de vírgulas ao longo do texto, se é que existia alguma.

Eu confesso que não me lembro muito bem da animação do Miyazaki. Mas a leitura de “O castelo animado” (Record, 2007) me deu a impressão de que era outra história, apenas vagamente assemelhada (o verbete na Wikipedia confirma). Na verdade, o que me motivou a ler o livro não foi o filme, e sim o fato de que Diana Wynne Jones era uma das autoras preferidas (e uma influência assumida) do Neil Gaiman. É muito fácil entender por quê. Ela brinca com regras, expectativas e clichês de um jeito que faz o leitor chegar à última página achando que esse sim é, ou pelo menos deveria ser, o formato básico e universal de um conto de fadas.

(Publicado também no Skoob.)

Meninos, eu li (15)

Ninguém duvida de que Luiz Gonzaga Assis de Luca entende de cinema, e mais ainda do setor de exibição. Mas “Cinema digital: um novo cinema?” (Imprensa Oficial de São Paulo, 2004) sofre de alguns problemas sérios. O menor deles é o fato de já ter sido escrito há sete anos e  estar um pouco defasado em relação à evolução tecnológica. Assim, a descrição de projetores e aparelhagens de compressão e envio de arquivos acaba funcionando como curiosidade ou referência de época, mal levando em consideração, por exemplo, a revolução do 3D. Os problemas mais graves são o texto mal escrito a ponto de incomodar a compreensão, revelando a ausência completa de um revisor que transformasse a dissertação acadêmica num livro de fato, e a abstinência do autor em ir mais fundo nas implicações políticas trazidas pela digitalização das salas.

Elie Wiesel mostra “O Golem” (Imagem, 1997) como uma fábula judaica em que as perseguições funcioname como pano de fundo mas o que de fato importa é a consciência da justiça. Porque o Golem ganha a vida por meio da palavra do rabino, os seus extraordinários poderes são apenas uma extensão da extraordinária sabedoria do seu criador. Os judeus do gueto se salvam graças a essa sabedoria e esse senso de justiça que se encarna em ações.

Cristiane Dantas venceu o concurso Literatura para Todos com esse “Madalena” (Ministério da Educação, 2006). Merecido. Literatura para adolescentes com qualidade, respeito à inteligência do leitor, estímulo à leitura e à escrita. A trajetória de Madalena, ao longo de décadas e contada por diversos pontos de vista, é carregada de verossimilhança na personagem principal e nos secundários, mesmo que alguns deles sejam mal esboçados ou fiquem perigosamente próximos do estereótipo.

O nome de Clive Barker na capa é um chamariz que funciona. Só depois de abrir “O ladrão da eternidade” (PixelMedia, 2006) é que você descobre que a adaptação é assinada por Kris Oprisko e Daniel Hernandez. Mas não fiquei decepcionado. Pelo contrário. A versão em quadrinhos funciona muito bem numa história que tem pouca coisa de original: menino acha que sua vida é um lixo, menino vai parar num mundo encantado, menino descobre que mundo encantado é uma cilada, menino conta com a ajuda dos amigos verdadeiros para enfrentar seus medos e voltar para casa. Dentro desse esquema batido, Barker, seguido por seus adaptadores, consegue adicionar elementos suficientes para criar uma fábula atraente.

“Homem-Aranha Noir” (Panini, 2011), de Fabrice Sapolsky e David Hine, é de certa forma tudo aquilo que um gibi de super-heroi deveria ser. Mostra um personagem conhecido numa situação diferente, vivendo uma aventura de fato e não uma série de lutas sem sentido. A ambientação na Nova York dos anos 30 revitaliza o Aranha, seus aliados e seus inimigos. Foi uma forma inteligente de recontar sem ser repetitivo uma história já mil vezes repetida, do jovem Peter Parker adquirindo seus poderes após uma picada de aranha, e aprendendo a lidar com dilemas éticos. Deu vontade de ler o “X-Men Noir” também.

Eu me lembrava de muito pouca coisa do filme “O Mahabharata”. Basicamente, a história de Ganesha e a cena em que Arjuna reconhece Vixnu no alto da montanha. Mas lembrava bem da vontade que deixou de conhecer o épico. A adaptação de Jean-Claude Carrière (Brasiliense, 1994), lançada naquela época, cumpre bem a função. Carrière, autor do roteiro do filme, é honesto ao explicar como cortou violentamente o poema para apresentar a história central. Foi eficiente ao mostrar a luta dos Pandavas pelo trono como um pretexto para refletir sobre o dharma e suas peculiaridades, entre elas a de que às vezes é preciso esquecê-lo para cumpri-lo.

Depois que a Pixel me deixou na mão no meio da publicação seriada de “As Fúrias”, anos atrás, tive que comprar essa edição encadernada da Panini (2011) para saber o que aconteceria com Lyta Hall. Mike Carey não é nenhum Neil Gaiman, mas deu um prosseguimento decente à saga de Sandman. Ao lado do desenhista John Bolton, teve como ponto alto a subversão do conceito de deus ex-machina para resolver o conflito.

Meninos, eu li (14)

Acontecem coisas estranhas quando você encara, sem pausa, as 1400 páginas de “Sherlock Holmes – The complete stories”. Talvez a mais grave seja o fato de que o seu monólogo interior começa a ser em inglês vitoriano. Mas isso passa logo. Outro fenômeno é achar cada vez mais interessante o filme do Guy Ritchie. E finalmente, lá pela trigésima aventura solucionada, você se dá conta de que Conan Doyle pode até ter escrito contos policiais, mas de alguma forma ele também produziu reflexões sobre literatura extremamente sutis. Holmes é um gênio, mas as suas aventuras dependem do medíocre Watson para serem escritas. A relação entre os dois funciona como uma tensão narrativa que é pura metalinguagem. Mas o meu monólogo interior vitoriano consegue elaborar essa teoria bem melhor.

É impossível deixar de comparar “Nunca fui a garota papo-fime que o Roberto falou” (Memória Visual, 2011) com “Deles e quase o resto”, o outro volume de microcontos da Cristiane Lisboa. O estilo é muito semelhante, mas o livro novo é bem melhor. Como se o anterior fosse a procura da voz (disso que a Gisele de Santi chamou de poesia em prosa), e esse fosse a fala real para a qual essa voz estava se preparando. Cada bilhete de amor rasgado é um convite a viver intensamente, a não economizar no sentimento. Dá vontade de ser personagem dela.

Meninos, eu li (13)

“Fábulas” tem sido a melhor história em quadrinhos que encontro nas bancas, mas esse volume 8, “Lobos” (Panini, 2011) foi uma decepção. A narrativa continua ótima, inclusive superando alguns problemas de edições anteriores, a arte é sempre de alto nível. Só que Bill Willingham resolveu transformar a saga das Fábulas em peça de propaganda de direita. Bigby Lobo defendendo as ações de Israel contra os palestinos foi muito duro de engolir. Como se não bastasse, as Fábulas resolveram invocar a proteção de Deus. Foi como se uma pessoa muito legal e divertida de repente se revelasse uma completa cretina. Fico esperando o que virá no próximo arco de histórias. Criacionismo? Virgindade? Homofobia?
Três anos de Aliança Francesa me fizeram supor que o único livro de Jacques Prévert fosse o onipresente “Paroles”. Esse “la pluie et le bon temps” (em edição da Folio, 1975) não é tão bom. Alguns dos poemas mais longos são até cansativos, ou talvez seja o meu francês que anda enferrujado demais para apreciar. Mas é sempre Prévert. Tem os jogos de palavras, as aliterações, as sequências quase cinematográficas, o humor (como na pergunta sobre quantas árvores foram derrubadas para a impressão de panfletos contra o desmatamento). Acima de tudo, tem a postura radicalmente libertária. É o que basta.
Eu tenho uma teoria de que o talento literário diminui de pai para filho. Veja os Veríssimos, os Sant’annas, os Dumas, os dois Plínios. Até nas histórias em quadrinhos: Dick e Chris Browne, Laerte e Rafael Coutinho. Não sei se na linhagem matriarcal também funciona assim; se for, então Adriana Falcão deve ser uma grande escritora, porque a filha Tatiana Maciel teve uma estreia de cair o queixo com esse “O homem dos sonhos” (Agir, 2007). A estrutura não chega a ser exatamente inovadora, mas é incomum o bastante para deixar o leitor inquieto. Para contrastar, o texto flui suave, redondo. A identificação com o não-personagem F#23107 vai aumentando gradativamente, criando a consciência de sermos todos também “desprotagonistas”. Até mesmo o fim é necessariamente anticlimático, o que só melhora o resultado.

(Publicado simultaneamente no Skoob)

Meninos, eu li (12)

Uderzo bem que mereceu a homenagem que recebeu pelos seus 80 anos. Mas “Asterix e seus amigos” (Record, 2008) mostra como os últimos álbuns da série poderiam ter sido melhores. Bastava que o desenhista tivesse a humildade de, após a morte de Goscinny, encomendar roteiros a quem soubesse escrevê-los. Como Boucq, responsável por uma das melhores histórias da coletânea. É claro que outras são bem fracas, especialmente por dependerem da referência a personagens praticamente desconhecidos no Brasil. Mesmo assim, o já citado Boucq, Manara (infinitamente superior à sua versão para os X-Men), Vicar (num crossover brilhante com a Família Pato, da Disney) Turf (poético e comovente com o irmão gêmeo de Obelix) e a dupla Van Hamme/Vance (da série XIII) fazem o álbum valer a pena.

Normalmente, quando se atira para todos os lados o mais comum é errar quase tudo. Ainda mais atirando estacas de madeira. Porém, Raymond McNally e Radu Florescu acertam mais do que erram nesse “Em busca de Drácula e outros vampiros”. A pesquisa histórica é consistente o bastante para permitir uma compreensão do personagem Vlad Tepes, o Impalador (apesar de alguma ingenuidade em certas interpretações dos autores). A descrição dos lugares onde o príncipe viveu é saborosa e atiça a vontade de passar férias na Transilvânia. O capítulo sobre Bram Stoker é esclarecedor para quem já leu “Drácula”, e desperta a curiosidade de quem não leu. Finalemente, os anexos, com bibliografia e filmografia comentadas, apresenta um punhado de tesouros (concordando-se ou não com algumas avaliações dos autores). A única derrapagem séria é a tentativa de psicologia de botequim, forçando uma associação do comportamento de Dracul à impotência sexual.

A parte mais divertida de ler “Juízo” (7 Letras, 2005) foi verificar o que João Ximenes Braga acertou ou errou em suas previsões sobre o mundo de 2011. No varejo, errou quase tudo: travestis continuam usando silicone e fazendo ponto na Glória; a Casa da Suíça não virou templo; reality shows ainda são produzidos; não elegemos um presidente evangélico em 2010; não há um terceiro revival do pior dos anos 80 (na verdade, o primeiro nunca terminou); a internet se popularizou, inclusive entre religiosos. As duas previsões nas páginas finais eu não vou comentar: primeiro, porque seria um spoiler; depois, porque só aconteceriam em outubro de 2011. De qualquer forma, espero que erre de novo. No atacado, ele acertou: existe uma carolização da política, um avanço do conservadorismo religioso, aliado a outras forças reacionárias. Saindo da política e voltando à literatura, o grande problema do romance é a dificuldade de encontrar nele uma voz narrativa convincente, até porque o autor hesita o tempo todo entre ser ou não ser o seu protagonista-narrador.

O prêmio da Secretaria do Audiovisual para pesquisa teórica foi bem dado. “O filme nas telas” (Terceiro Nome, 2010) radiografa bem os problemas da distribuição cinematográfica no Brasil. Os casos analisados – de “2 filhos de Francisco” a “Cinema, aspirinas e urubus” – mostram em números a diferença de tratamento entre blockbusters e miúras. Faltou um acompanhamento da carreira dos filmes em outros mercados, mas para uma obra que nasceu como dissertação de mestrado está acima do esperado. A outra falha da autora é considerar que os filmes se “pagam” com recursos públicos, e que assim não há necessidade de se recuperar na bilheteria o investimento feito na produção. Por fim, magoa um pouco quando ela diz que precisou driblar a burocracia da Ancine para obter os dados necessários à pesquisa. A gente pode não ter toda a informação, mas não sonega o que tem.

Fazia tempo que eu não lia poesia, então resolvi recomeçar pegando leve. “Panacéia” (Nankin, 2000) foi o aquecimento de que eu precisava. Não é que Glauco Mattoso seja um poeta menor. Pelo contrário: nesse quarto livro de sonetos, ele mostra tanto domínio da técnica que se permite virar pelo avesso a estrutura clássica dos dois quartetos e dois tercetos. Subverte a métrica, a rima, e tudo o que pode, mostrando a mesma ousadia dos temas (inclusive seus fetiches) e do vocabulário. O que motivou mesmo a escolha foi a familiaridade que Glauco imprime à sua poesia, falando do banal sem ser banal ele mesmo, muito pelo contrário.

Fazia também muito tempo que eu não lia um romance tão ruim. Eu espero que Ana Maria Machado tenha feito coisa bem melhor, porque “Para sempre” (Record, 2001) é muito fraco. No meio da leitura, já irritado, tentei imaginar que era um problema apenas de inadequação, e que o livro não era destinado a leitores adultos, e sim a adolescentes. Não justifica: leitores adolescentes merecem coisa bem melhor que um amontoado de clichês (personagens, situações, diálogos, tudo é clichê). A autora ainda usa sua personagem professora de literatura para tentar empurrar citações e referências que nada acrescentam ao romance. Perda de tempo completa.

(Publicado simultaneamente no Skoob)

Meninos, eu li (11)

Em abril tive dengue pela primeira vez na vida. Foi assustador, me derrubou, e com aquela febre que não baixava de jeito nenhum achei que era um bom momento para ler a coletânea de histórias da Zap Comix publicada pela Conrad (São Paulo, 2005). Funcionou: só mesmo assim para algumas coisas fazerem sentido. Ou quase, talvez eu precisasse estar delirando. O melhor da antologia é, disparado, Crumb. Algumas histórias do Shelton são boas, o Moscoso é interessante visualmente (mesmo se eu não estivesse com dengue), o resto fica bem pra trás. Claro que foram importantes para a contracultura, o underground e tudo o mais, mas haja contextualização pra poder dar valor a algumas páginas.

Também foi por causa da dengue que tirei da estante O Sacy-Pererê: Resultado de um inquérito (Rio de Janeiro: Gráfica JB, 1998, fac-símile da edição original de 1918). A Alessandra, com febre, queria que eu lesse histórias pra ela, e eu achei que alguns relatos sobre o saci cairiam bem. Não deu muito certo. Os depoimentos enviados a Monteiro Lobato quase sempre oscilam entre a pretensão beletrista e a antropologia de botequim. Em geral, é a elite paulistana do início do século afetando nostalgia para disfarçar o seu desprezo (no máximo, condescendência) pelos empregados das fazendas. Mas gostei dos relatos que mencionam a mítica flor da samambaia, que faz o homem ser desejado por todas as mulheres, mas que ninguém consegue colher porque é guardada pelo saci.

Passou a dengue e eu pude terminar de ler o Chief Culture Officer (São Paulo: Aleph, 2011). Eu gostei muito da palestra do Grant MacCracken no Rio Content Market, mas fiquei decepcionado com o livro. Ele parece ter sido todo escrito como propaganda, um lobby para fazer as empresas contratarem antropólogos – e mesmo assim, só os convencionais, nada de pós-modernos. Até que de certa forma o autor justifica a pretensão, usando as suas habilidades acadêmicas para fazer o que um cientista social faz de melhor: traduzir em forma de conceito o que o leigo vê de maneira confusa.

Reaper man (Nova Iorque: HarperTorch, 2004) também decepcionou. Acho que foi porque eu tinha gostado muito dos outros livros do Terry Pratchett que eu tinha lido, especialmente O fabuloso Maurício, que aliás ganha uma referência no meio de Reaper man. Então, estava esperando mais. O problema desse está, por incrível que pareça, nas qualidades. Pratchett é um ótimo humorista, sem sombra de dúvida. Mas exagerou. Em vários trechos que já eram engraçados, ele ainda jogou mais uma piadinha, e um trocadilho por cima, e… passou do ponto. Em termos de sátira de costumes também fica bem abaixo da média do autor, beirando o pueril na descrição do shopping-center sugador de vida. Como narrativa, não chega a empolgar nem a provocar grande empatia pelos personagens. Diversão certa, mas limitada.

A melhor leitura do mês acabou sendo Pandemônio (São Paulo: Panini, 2011), a volta de Jamie Delano à série Hellblazer. Em primeiro lugar, pela satisfação de rever um John Constantine como o que eu conhecia, depois das versões fracas que andaram sendo publicadas pela Vertigo (como aquela série no presídio, que é melhor esquecer). Em segundo lugar, porque mesmo para quem não faz e menor idéia de quem é o personagem, esse é um gibi muito bom. A narrativa flui redonda, os diálogos estão afiados, e no meio dos confrontos entre deuses e demônios (com muita fumaça de cigarro mata-rato iraquiano) o leitor pecebe que o maior dos horrores é o provocado pelos seres humanos. O grande problema é que magia não é a solução para eles.

(Resenhas agora publicadas simultaneamente no meu perfil no Skoob)

Meninos, eu li (10)

Não chegou a ser uma conclusão. Foi mais uma rememoração. O fato: o mundo (pelo menos o mundo acadêmico) seria bem melhor se todos os teóricos escrevessem como Walter Benjamin. Eu não me lembro há quanto tempo não lia um volume de ensaios com tanto prazer quanto Magia e técnica, arte e política, volume I das obras escolhidas publicadas pela Brasiliense (São Paulo, 1994). Benjamin consegue tornar relevante até a crítica a obras totalmente desconhecidas do leitor. E, quando analisa o cinema no clássico A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica, é impossível não decalcar o seu raciocínio para as mudanças trazidas pela internet, pela digitalização, etc.

Já outros autores, não adianta, ficam datados. É o caso de Jules Renard, desse Histórias naturais (São Paulo: Landy, 2006). Nota para o futuro: só porque um livro custa R$ 5 na mesa de saldos da Beta de Aquarius não quer dizer que eu deva comprar. Porque os contos (fábulas? poesia em prosa?) de Renard, depois de mais de 100 anos, não parecem ter muito a dizer. Seus bichos tem sentimentos humanos, mas sentimentos superficiais, de personagens mal acabados. Pelo menos foi curtinho.

Um que não é datado, mas chegou atrasado para mim foi Emilio Salgari. O pirata Sandokan poderia ter sido um dos meus ídolos se eu tivesse lido Os tigres de Mompracem (São Paulo: Iluminuras, 2008) ali pelos 11 anos, junto com os romances de Jules Verne. Como adulto (e por mais que eu goste de aventura), o pirata romantizado me entediou. O personagem e o autor chegaram a me irritar às vezes, um pela repetição de lugares-comuns e o outro pela inépcia como herói de ação.

O único gibi do mês foi The voices of a distant star (São Paulo: Panini, 2010), título “em português” para o mangá “Hoshi no Koe”, de Makoto Shinkai e Mizu Sahara. Quando comecei a ler, achei que era um sub-Evangelion: adolescentes pilotando naves-robôs antropomórficas para enfrentar uma ameaça alienígena. Bem, talvez isso seja apenas mais uma convenção do gênero. O fato é que Shinkai usa essa premissa muito bem para contar uma história de amor à distância. Quem já ficou se torturando à espera de uma carta, um e-mail ou uma mensagem instantânea se identifica rapidamente. Ou seja, cumpre a função da ficção científica, de imagibar o futuro para falar do presente.

Meninos, eu li (9)

Quase nada em fevereiro, mas a ideia é manter o registro sempre. Então vamos começar pelo único livro que eu terminei de ler neste mês, Akhenaton: a história do homem contada por um gato, “traduzida do siamês” por Gérard Vincent (São Paulo: Siciliano, 1995). O gato narrador tenta passear filosoficamente pela história da Humanidade, mas fica muito aquém da proposta. Depois de umas dez ou doze páginas, a misantropia e o pessimismo do autor perdem a graça e ficam monótonos. Resta apenas uma demonstração de conhecimento enciclopédico, às vezes resvalando para o simples name-dropping (respaldado pelo índice de referências no fim do volume, para o caso de o leitor não identificá-las). Fica melhor quando Akhenaton conta suas próprias aventuras ou as de seu dono, mesmo assim não tão interessantes.
Normal. Franceses são pretensiosos mesmo. Enki Bilal, por exemplo, mesmo tendo nascido na Sérvia. O tom de A mulher enigma (São Paulo: Martins Fontes, 1989) é mais ou menos esse. Promete muito, mas não chega lá. Ainda assim, tem seus méritos: consegue escapar da verborragia, prende pelo mistério. Talvez funcionasse melhor se eu tivesse lido antes o primeiro volume da série, Os Imortais. De resto, é sempre divertido ver como se imaginava o futuro no passado (e um passado nem tão remoto, nesse caso).
Já Bill Willingham tem feito um bom trabalho em Fábulas. Esse volume 7, Noites (e Dias) da Arábia (São Paulo: panini Comics, 2011), consegue, de forma até melhor que alguns dos anteriores, avançar na trama principal e ao mesmo tempo contar pequenas histórias. Está equilibrando bem, deixando pontas soltas na medida certa para manter o interesse. O problema maior cpontinua sendo a incoerência de alguns personagens (Encantado, principalmente, e agora Cole), que sem razão aparente começam a se comportar de forma inteiramente diferente do esperado.

Meninos, eu li (8)

Com um bocado de atraso, aí vão as leituras do mês de janeiro. Comecei com quadrinhos: Histórias para não dormir (São Paulo: ARX/Saraiva, 2010), adaptação de Pedro Rodriguez para contos de terror de autores do século XIX. Pelo menos nas suas versões para “A mão” e “O gato preto” (os únicos que eu já conhecia), foi bem fiel à trama, se não ao clima e ao espírito do texto original. Mas é para isso afinal que serve uma adaptação – para servir como releitura, exploração de aspectos que tinham ficado apenas sugeridos, e para despertar a curiosidade pelo original. Muito bem sucedido nesse aspecto. Já é um forte candidato a melhor HQ do ano pra mim.

Em compensação, a pior deve ser Garotas em fuga (São Paulo: Panini, 2010), de Milo Manara e Chris Claremont. Chega a ser constrangedor mesmo para quem não é grande fã das personagens ver Ororo Munroe praticamente reduzida a objeto sexual, ou usando sedução como único meio ao seu alcance para resolução dos problemas, enquanto as outras integrantes dos X-men, seminuas, capricham nas caras e bocas. Recomendável apenas a quem tem fantasias muito específicas envolvendo Lince Negra e Vampira agarradas uma na outra numa cachoeira.

Felizmente teve mais uma boa HQ no mês: Bordados (São Paulo: Companhia das Letras, 2010), que parece mais uma coda de “Persépolis”, também da Marjane Satrapi. A autora manteve a mão na narrativa em que as fronteiras entre memória e delírio são tênues, tanto quanto as que existem entre os conflitos pessoais das mulheres que se reúnem para tomar chá e as questões políticas do Irã.

Enquanto pulava entre quadrinhos bons e ruins, encarei A sociedade em rede (São Paulo: Paz e Terra, 2008), primeiro volume do megaestudo de Manuel Castells sobre A Era da Informação. Foi um livro que me lembrou a definição de Estatística como a arte de torturar os números até que eles digam o que você quer. Porque é isso que Castells faz boa parte do tempo. Quando os dados não confirmam a sua tese, ele isola quantas variáveis for preciso, deriva euqações a não mais poder, até chegar perto do que se encaixe na teoria. Quando nem isso funciona, ele tem uma explicação sempre pronta: é contingência histórica e cultural. O problema é que você não pode fazer isso com o futuro: publicado originalmente em 1996 e revisado em 1999, antes do estouro da bolha, o livro defende que a hipervalorização das empresas “pontocom” muitas vezes acima de seu faturamento e patrimônio era algo perfeitamente racional. Mas o pior para mim está na análise sociológica mesmo. Depois de demonstrar de forma brilhante que a tecnologia de administração precede e de certa forma é independente da informatização, o autor parece se deslumbrar com o avanço tecnológico e apontá-lo como causa do surgimento de uma nova sociedade. Ele ignora qualquer influência da economia e da política sobre a ciuência e a tecnologia, acreditando que estas são independentes no seu desenvolvimento e condicionam todo o resto.
Pulei o prefácio de FHC, porque aí seria demais.

Para fechar, Em tom de conversa (Rio de Janeiro: Rocco, 1994), péssimo título em português para Talking it over, de Julian Barnes. Aliás, uma tradução cheia de erros, alguns bem irritantes. Mas não chega a comprometer. O que atrapalha mesmo é o fato de que Barnes é muito bom em metáforas. Muito bom mesmo. Foi o que mais me agradou na sua “História do mundo em 10½ capítulos”. Só que aqui ele se empolga tanto que começa a jogar uma em cima da outra, sem dar tempo ao leitor para digerir. Quem paga o preço são os personagens, que ficam mal construídos e incapazes de despertar um mínimo de empatia (com exceção de Val, talvez por ser justamente a que menos aparece). Não é que eu tenha achado ruim. Mas podia ser bem melhor.

Meninos, eu li (7)

Ler de que jeito, quando é verão no Rio e o ar condicionado pifou? Nessas condições, qualquer tentativa fracassa depois de duas páginas, quando bate aquela leseira. E aí, só tem um jeito: apelar para Salman Rushdie, que deve ser o meu autor vivo preferido (ou pelo menos um dos três preferidos). “Oriente, ocidente” (Cia. das Letras, 1995) tem a vantagem de ser uma coletânea de contos, que exigem bem menos fôelgo de um pobre leitor estival. Nos contos “ocidentais”, Rushdie parece preocupado demais com a tradição literária da Europa (mas sem ser reverente). Os “orientais” são mais soltos, ou pelo menos é o que parecem a um ocidental. Mas é na terceira parte, “Oriente, ocidente”, que ele mostra a que veio e mistura política, cultura pop, misticismo e autobiografia de um jeito único.

No fim do mês a frente fria deixou tentar um livro mais pesado, ainda que curto. E a escolha foi “Seduzidos pela memória” (Aeroplano, 2000) – também uma coletânea, de artigos de Andreas Huyssen. Não é da minha área. E o resultado é que cada vez que o autor criticava os museus e monumentos ao Holocausto da Alemanha pós-reunificação, dizendo que o chique é não ter monumentos, eu acabava me lembrando do Hipster Hitler. A única sacada realmente interessante ganha meia dúzia de linhas, quando o autor sugere que a Internet é o grande monumento da nossa época.

No recesso de Natal foi aquela correria em que só dava pra alguma coisa bem leve. E o escolhido foi “Encantos” (Conrad, 2005), segundo livro de Carla Jablonski contando as histórias de Timothy Hunter depois do que aconteceu em “Os Livros de Magia”, de Neil Gaiman. Boa literatura infanto-juvenil, apesar da preocupação em agradar aos leitores da HQ original, espalhando referências ao longo do livro. O curioso é que muita gente criticou J.K. Rowling porque Harry Potter seria um plágio de “Os Livros de Magia”, mas “Encantos” em alguns dos seus piores momentos parece pastiche de HP.

E no Natal ganhei do meu irmão um Kafka que eu nem sabia que existia, “Oportunidade para um pequeno desespero” (Martins Fontes, 2010), organização e ilustrações de Nikolaus Heidelbach. Contos fantásticos, que muitas vezes parecem transcrições de sonhos. Mas sonhos… kafkianos, não existe outra palavra. Personagens mesquinhos e irresistíveis, atmosferas de angústia, tensões insuportáveis. Ótimo.
E agora, que o calor fique longe ou que pelo menos a Consul devolva o ar condicionado.

Meninos, eu li (6)

Não é que eu estivesse desde maio sem ler. Mas veio a obra, depois a mudança, os meses sem estante, mais um período de muita complicação e nenhuma disposição pra registrar minhas leituras aqui. Então, retomo a seção com o que li em novembro.

Ozma de Oz (São Paulo: Hemus, s/ data) é o primeiro livro de L. Frank Baum que eu leio, e o terceiro da série (depois de O Mágico de Oz e O Mundo Encantado de Oz). Não creio que tenha feito muita falta ler os anteriores, até porque o primeiro já se encontra praticamente no domínio da tradição oral. Dedicado às crianças, também não traz grandes atrativos para leitores adultos. Boa parte dos novos personagens apenas recicla com pouca variação o Lenhador de Lata, o Espantalho e o Leão Covarde (que também voltam a dar as caras). Até mesmo a galinha Bilina é um Totó melhorado, inclusive salvando o dia. Pelo menos não traz aquele reacionarismo característico de outros autores infantis, de Lobato a Lewis e Dahl.

Sim, a capa da edição capa dura de Cybertypes: Race, Ethnicity, and Identity on the Internet (Oxford: Routledge, 2002) é toda preta mesmo. Talvez como uma forma de ressaltar a principal tese de Lisa Nakamura: negros (e índios, e pobres, e minorias em geral) não tem vez na internet, apesar das promessas de um ciberespaço pós-racial, em que as desigualdades de classe, gênero ou nacionalidade deixariam de existir. Pode estar um pouco datado, mas continua relevante no ponto principal, de chamar a atenção para a distância entre o discurso utópico e a realidade, a forma como o online reproduz o offline. Mas também aponta os caminhos para usar a internet efetivamente como meio de enfrentar preconceitos. Nesse sentido, é quase uma versão para o século XXI do clássico Apocalípticos e integrados.

Fechei o mês com A travessia dourada (São Paulo: Dervish, 1995), de Sirdar Ikbal Ali Shah. O grande mérito do autor foi conseguir, especialmente nos primeiros capítulos, integrar seus contos árabes e persas com a descrição de uma peregrinação a Meca e outros lugares sagrados. Mais à frente, a relação entre as viagens de Shah e as histórias que ouve fica mais frouxa. Mesmo assim, tem bons momentos, como o conto do guerreiro afegão em busca de vingança, que chega a lembrar Borges. A curiosidade é o capítulo “O deus serpente decide”, que reproduz quase nos mínimos detalhes (inclusive no comic relief dos guardas medrosos) a trama de “O Castelo de Otranto”, escrito 200 anos antes, mas que também pode muito bem ter se inspirado em alguma lenda oriental anterior. Fica a dúvida de quem copiou quem.

Meninos, eu li (5)

Pra começar abril, Regulation of audiovisual media in a convergent environment, de Ana Paula Bialer Ingham (Belo Horizonte: Fórum, 2007). A professora Bialer Ingham escorrega várias vezes no inglês (que chega a parecer português mal traduzido, em alguns trechos). Mas, apoiada numa repetição de argumentos que às vezes parece excessiva, consegue afirmar bem o seu ponto-chave: quanto mais livre um segmento (como é o caso da internet), menor a necessidade de intervenção estatal ou regulação. Foi uma leitura importante para mim.

A feiticeira de Florença, do ídolo Salman Rushdie (São Paulo: Companhia das Letras, 2008), parecia ideal para relaxar a cabeça depois dos estudos de convergência. E o começo do livro é realmente um delírio oriental, com as aventuras rocambolescas do Mogul d’Amore. A partir da segunda parte, a coisa começa a complicar, com a entrada em cena de Maquiavel. Cheguei a me perder um pouco nas subtramas, mas é impossível não se render a mais uma fábula do Rushdie sobre o poder das histórias. Parece que ele vem pra Flip. Seria um ótimo motivo pra tentar ir lá dessa vez.

E já que vou ser vizinho da Igreja Positivista do Brasil, fui ler o volume de Comte da coleção Os Pensadores (São Paulo: Nova Cultural, 2000, portanto dez anos de espera na estante). Primeiro, o problema típico de vários livros da série: são tres textos, dos quais os dois mais importantes (Curso de Filosofia Positiva, 1830-42, e Discurso Preliminar sobre o Conjunto do Positivismo, 1848, traduzido por Miguel Lemos antes de virar nome de rua) são fragmentos. Na íntegra, só o Catecismo Positivista (1852), justamente a obra em que Comte já é, vamos combinar, um porraloca diplomado. Tudo parece se explicar no trecho em que o filósofo define a loucura como excesso de pensamento sem o filtro da realidade objetiva. Foi o que lhe aconteceu, coitado.

Meninos, eu li (4)

Mês preguiçoso, apenas uma leitura: Cultura digital.br, organizado por Rodrigo Savazoni e Sérgio Cohn (Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009). O time de entrevistados é de alto nível: tem Gil, Manevy, Sergio Amadeu, Antônio Risério, Fernando Haddad. Mas o formato não ajuda. As conversas ficam num nível superficial e muito opinativo, servindo no máximo para apontar caminhos para quem estiver interessado em discussões mais substanciosas. Dá uma empolgação saber que existe muita gente fazendo coisas interessantes e inovadoras, dentro e fora da área pública. Mas especialmente a entrevista do Risério, já no fim, chama a atenção para o fato de que o digital sozinho não constroi utopia nenhuma, ainda mais num país com tanta exclusão social.

Meninos, eu li (3)

Atrasado, mais uma vez, o resumo das leituras do mês de fevereiro. Curtinho, porque afinal foram menos dias.

O primeiro livro sério do ano foi o Cultura da convergência, do Henry Jenkins (São Paulo: Aleph, 2008). Fundamental, mas com uma sensação de dejà-vu. Não porque careçam de originalidade, mas dois anos depois do lançamento as ideias expostas se difundiram de tal forma entre as pessoas que lidam com o tema que se tornaram quase verdades axiomáticas. Também não ajuda o fato de o livro se estruturar em torno de estudos de caso – e tome mais do mesmo: Matrix, transmídia, Lost, e por aí vai.

João Ubaldo Ribeiro, quando estava traduzindo Viva o povo brasileiro para o inglês, reclamou que um autor americano não precisa explicar a ninguém o que é hambúrguer, Boston, George Washington, Halloween; mas um brasileiro traduzido para outra língua não pode querer que o leitor saiba o que é acarajé, Salvador, José Bonifácio, São João. Lembrei disso lendo o volume duplo (São Paulo: Iluminuras, 2009) com as novelas A lenda do cavaleiro sem cabeça e Rip Van Winkle, de Washington Irving. A comparação foi porque as duas histórias (especialmente a segunda) já foram tão exploradas em filmes e desenhos animados que eu via desde criança que pareciam ser parte do folclore, tão comuns quanto as lendas gregas, sem que eu sequer soubesse quem era o autor. Ler finalmente as novelas, portanto, também foi uma espécie de dejà-vu. Achei apenas mediano. E me impressionei ao ver como o Ichabod Crane original é em tudo diferente do personagem recriado por Tim Burton e Johnny Depp.

No fim, os deuses que moram nos livros quiseram que eu começasse a ler em pleno carnaval A honra perdida de Katharina Blum, de Heinrich Böll (Artenova, 1974). Eu nem fazia ideia de que a história toda se enovelava em torno de um encontro acontecido durante um baile de carnaval na Alemanha em 1974. Não vou dizer que foi o terceiro dejà-vu do mês, mas 35 anos depois parece que Böll está falando do presente. A imprensa preconceituosa e a polícia irresponsável (troque a ordem dos adjetivos, se preferir) do Brasil de hoje certamente aprenderam muito com as congêneres alemãs no que diz respeito à arte de destruir vidas e reputações.

Meninos, eu li (2)

Bom. Com alguns dias de atraso, aí vai o resumão das leituras do mês de janeiro. Não que alguém estivesse esperando, já que a seção é nova, mas mesmo assim.

Macaco – Uma jornada para o oeste foi mais uma concessão ao meu vício em lendas, narrativas tradicionais, textos ancestrais. Esse nem é tão antigo assim: a gistória vem da China, século XVI, de um certo Wu Ch’eng-en, recontada pelo armênio-americano David Kherdian. Foi uma boa diversão conhecer as peripécias do Macaco enfrentando seres celestiais, passando a perna em Lao-Tsé, sendo enganado por Buda, e na segunda metade do livro acompanhando um peregrino à Índia (a tal jornada para o Oeste).

Mas de tantos deuses, demônios e bodisatvas, meu personagem preferido, pelo nome, é Devaraja Li, que ostenta o título de Rei Celestial Sustentador do Pagode. Imagino que ele ficava o tempo todo cantando: “Deixa comigo/eu seguro o pagode e não deixo cair…”

Mas o melhor trecho vem da introdução, escrita pela atriz budista Odete Lara: “As aventuras narradas no livro se prestariam também a um filme de animação. E, neste caso, por tratar-se de imagens, poderia atingir também crianças e até mesmo analfabetos”. Comentar o quê depois dessa?

A Oxford de Lyra é caça-níqueis. A começar pelo selinho malandro da editora Objetiva, que diz que é um novo episódio de “A bússola de ouro”. Mas vai: é um caça-níqueis dos bons.

A história em si parece um trailer, um capítulo inicial do que poderia ser de fato um novo romance logo após a trilogia Fronteiras do Universo. Nesse sentido, funciona para deixar os fãs (como eu) com gosto de quero-mais. Não é pouca coisa.

Philip Pullman complementa o livro com uma série de falsas (?) pistas sobre tramas paralelas. Dá a impressão de estar iniciando um ARG, ou algum tipo de narrativa transmídia. Mas não é o caso. É simplesmente uma afirmação de que, no fundo, mesmo que não tenhamos portas para outros universos, todas as histórias (e todas as vidas) são transversas, transmídias, complexas. Só isso vale a leitura.

Fico devendo um scan da capa de Assunção de Salviano, primeiro romance de Antonio Callado (Atualizado: taí a capa, com todas as deteriorações do tempo). Não chega a ser tão bom quanto um “Quarup”, um “Reflexos do baile”. Mas de certa forma tudo o que Callado se tornaria como escritor já está lá, de forma embrionária.Política, religião, amor. O homem simples que enfrenta os poderosos ao mesmo tempo que realiza sua jornada interior e com ela acaba descobrindo que mesmo sendo mais fraco pode vencer.

Ler Assunção depois de conhecer quase todos os romances posteriores dá uma satisfação estranha. É como se eu estivesse conhecendo agora o jovem escritor e pudesse dizer pra ele: continue assim que você vai longe, rapaz.

O volume com as Seis primeiras histórias de Thomas Mann causou exatamente o efeito oposto que o de Assunção de Salviano. O que não é de se estranhar, considerando que a situação também foi oposta.

Mann é um desses clássicos que eu nunca li. E continuo considerando como um desconhecido para mim, mesmo depois desses contos, que são apenas razoáveis.

O saldo positivo foi a constatação de que não é um autor impossível. Acho que já posso encarar a “Montanha mágica”.

Mais um romance de estreia, mas esse de uma escritora que eu não conhecia. Só sabia de Patricia Melo o que se diz: pastiche de Rubem Fonseca, coisa e tal.

Bem, pelo menos nesse Acqua toffana a acusação pareceu injusta. A autora não se limitou a imitar ninguém. Construiu duas narrativas em torno de personagens que, paradoxalmente, ficam mais vivos e reais quanto mais inverossímeis são as suas histórias.  Deu pelo menos a curiosidade de saber o que mais ela tem a dizer.

Meninos, eu li (1): A trilogia de Nova York

Paul Auster - A trilogia de Nova YorkDefeito meu: leio pouco ou quase nada de autores novos. E Paul Auster nem é tão novo assim. A Trilogia é de 1986, mais de 20 anos atrás. Mesmo assim, só li porque ganhei de presente. E valeu muito a pena.

Começa com um escritor bancando o detetive que aos poucos se transforma no homem que deveria seguir. A segunda história é sobre um detetive contratado para seguir um escritor e que acaba também se transformando nele. Na terceira, um escritor investiga o desaparecimento de um amigo até que… Nessa hora você se irrita com a repetição e previsibilidade das tramas. Mas leva um nó na sequência.

Porque desde as primeiras páginas de “Cidade de vidro” está na cara que Auster não quer contar historinhas policiais. E tome citação, referência cruzada, metalinguagem e o escambau pra demonstrar as teses (ou pelo menos propostas) do autor: a literatura é inútil como representação do mundo e deve ser tanto quanto possível auto-referente. Um bom livro deveria falar sobre nada. O ideal seria não ter trama, nem personagens.

Os escritores-detetives usados como alter-egos pelo autor, apesar de todo o seu esforço, não conseguem chegar a provar que seja assim. Mas, pelo menos, mostram que isso seria possível.