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Meninos, eu li (34)

PEQUENO_IRMAOComo romancista, Cory Doctorow é um bom blogueiro. Metade do seu “Pequeno Irmão” (Record, 2011) é uma pregação panfletária sobre os males da vigilância governamental e a importância de preservar a privacidade, baseando-se quase sempre em informação despejada com a sutileza de um troll – num capítulo, uma professora resolve, do nada, dar uma aula sobre a história e as ideias dos yippies de San Francisco, convenientemente no momento em que o autor precisava dessa narrativa para contextualizar a ação. A outra metade mostra o heroi, Marcus/w1n5t0n/M1k3y, um adolescente branco heterossexual de classe média, praticamente um checklist de privilégios, vivendo uma fantasia de poder digna dos pulps mais simplórios, com a ajuda de uma galeria de personagens secundários estereotipados.

AS_CRONICAS_MARCIANASEu era criança quando li pela primeira vez, numa antologia de ficção científica, o conto-capítulo “Encontro Noturno”. Não entendi direito, mas fiquei com uma sensação de estranhamento que se repetiu agora, mais de 30 anos depois, lendo “As crônicas marcianas” (Francisco Alves, 1980) na íntegra. Ray Bradbury alterna humor, poesia, aventura e drama numa série de pequenas histórias interligadas, porém independentes, que ao fim são amarradas e transformadas num mosaico sobre a experiência humana.

CINEMA_E_MERCADOOs artigos reunidos por Alessandra Meleiro em “Cinema e Mercado” (Escrituras, 2010) acertam mais do que erram. Gonzaga de Luca, por exemplo, apresenta uma competente arqueologia das empresas exibidoras brasileiras, mas peca pela falta de documentação que deixa seu texto com jeito de testemunho oral. Antonio Leal e Tetê Mattos mapeiam bem os festivais de cinema, mas falham na hora de oferecer um mínimo de análise. Os textos mais inovadores, do ponto de vista de análise do mercado, são os de Arthur Autran e João da Matta. Além disso, a presença de dois artigos focalizados na economia digital valoriza o conjunto.

OLD_POSSUMS_BOOK_OF_PRACTICAL_CATSLer “Old Possum’s Book of Practical Cats” (Faber and Faber, 1985, desenhos de Edward Gorey) causa muitas emoções, mas sobretudo raiva. Raiva, é claro, de Andrew Lloyd Weber e daquele musical insuportavelmente tedioso em que ele transformou os poemas de T.S. Elliot. Desnecessário: os versos de Elliot já são musicais o suficiente. Seus gatos – Macvity, Mr. Mistoffelees, Jennyanydots – bailam de uma estrofe para outra, provocando risos, lágrimas ou uma piscada de olho de vez em quando. Assim como a “Arca de Noé” do Vinícius, esse é pra reler até decorar.

Y__O_ULTIMO_HOMEM“Rumo à extinção” (Opera Graphica, 2006), primeiro volume de “Y – O último homem”, é uma introdução competente às aventuras de Yorick. O protagonista, o único sobrevivente de um evento inexplicado que matou todos os mamíferos machos da Terra, tem justamente o nome do único personagem de “Hamlet” que só aparece em cena morto. Ora, um mundo em que Yorick está vivo e todos os outros (homens) estão mortos é um mundo fora do lugar. Tanto quanto o mundo que Brian K. Vaughan imagina, com as mulheres tendo que reconstruir tudo de que eram alijadas – política, finanças, governo, exércitos – e principalmente que decidir o que muda com isso.

A_LIGA_EXTRAORDINARIA__SECULO_1910Mesmo pulando o “Black Dossier”, deu para curtir e muito o volume “A Liga Extraordinária – Século: 1910″ (Devir, 2010). Atrapalhou mais o desconhecimento de dois dos novos integrantes – Arthur Raffles e Thomas Carnacki. Mas nenhum dos dois importa muito: o que se destaca mesmo é o esperto triângulo amoroso formado por Mina, Allan e Orlando. Alan Moore mantém o tom dos volumes anteriores, buscando a cumplicidade com o leitor, deixando pistas que aos poucos se encaixam. Foi assim que eu, por exemplo, ao descobrir quem era de fato a filha do Capitão Nemo, não sabia se ficava furioso comigo mesmo por ter demorado tanto ou se simplesmente sorria pela sacada genial de Moore.

O_INESCRITO_VOL_02“O Informante” (Panini, 2013), segundo volume de “O Inescrito”, manteve o bom nível do primeiro. Mike Carey e Peter Gross continuam aproveitando muito bem o recurso de mostrar blogs, forums, Twitter e outras ferramentas online como parte da história, que assim incorpora as mudanças na forma como nos comunicamos (ou seja, como contamos histórias) e ao mesmo tempo reflete sobre as suas consequências na sociedade. Na segunda parte do encadernado, “Jud Süss”, as cores de Chris Chuckry e Jeanne McGee ajudam a pintar o monstro do Nazismo como resultado da deformação de uma história, uma proposta que praticamente obriga ao diálogo com a discussão anterior sobre as distorções da verdade no mundo contemporâneo.

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Meninos, eu li (33)

No mês de março, só livros escritos por mulheres:

A_MAO_ESQUERDA_DA_ESCURIDAO Existem dois grandes incômodos na leitura de “A mão esquerda da escuridão” (Aleph, 2008). O primeiro é a visão de um mundo em que os valores ocidentais se impõem naturalmente como único caminho válido mesmo para as potências vagamente orientalizadas ou sociedades comunistas. O segundo é a afirmação do masculino como neutro, marcando o feminino como outro (e um outro quase sempre desvalorizado, apontado como falho) mesmo numa sociedade hermafrodita (e no entanto paradoxalmente heteronormativa) como a do planeta Gethen. Ursula K. LeGuin disse, na introdução escrita em 1976, que seu livro era sobre o presente, não sobre o futuro. Um presente frio como o inverno permanente de Gethen.

UMA_APRENDIZAGEM_OU_O_LIVRO_DOS_PRAZERES “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” (Francisco Alves, 1990) é Clarice Lispector em plena forma. No recorte da vida de Lóri, a aprendizagem do título atravessa bem mais de cinquenta tons de autoconhecimento. Ainda que a sereia Lorelei e o ardiloso Ulisses (em papeis apenas aparentemente opostos aos da lenda) só resolvam ir para a cama explicitamente nas suas últimas páginas, o livro inteiro é erótico na medida em que os dois personagens constroem uma relação amorosa entre si e consigo mesmos.

PO_DE_PAREDE “Pó de parede” (Não Editora, 2008) é um bom livro de estreia. O problema é que Carol Bensimon parece se envergonhar do que faz (e faz muito bem). Cada imagem, metáfora, símile ou o que seja vem acompanhada de um desnecessário pedido de desculpas, o que acaba travando um pouco o texto, principalmente nas duas primeiras histórias. Só no episódio final é que a autora se solta. Não por coincidência, a personagem principal desse epílogo é uma escritora em processo de autoflagelação. Somente para se torturar é que a autora consegue se libertar da censura que se impõe.

CINEMA_E_POLITICAS_DE_ESTADO “Cinema e Políticas de Estado” (Escrituras, 2010) é talvez a melhor análise já produzida — pelo menos, a melhor que já li — das relações entre o Estado brasileiro e o que Melina Izar Marson chama de “campo cinematográfico”, no período que vai da crise da Embrafilme até o surgimento da Ancine. Um dos maiores méritos da autora é, em cada um dos períodos no qual divide seu estudo, recuar um passo e observar, na leitura dos filmes mais representativos, um retrato dessas relações. Além disso, escapa do reducionismo comum a outros intérpretes, mostrando como a política cultural de FHC começou bem antes, ainda no governo Collor; na prática, os dois governos (mais o período Itamar) formam um continuum. Aborda ainda com propriedade a (falta de) integração entre o tal campo cinematográfico e os setores mais economicamente maduros da indústria audiovisual brasileira e aponta o fantasma do Cinema Novo pairando até hoje sobre a produção brasileira, que não consegue resolver seus dilemas internos e externos.

A empatia Denise Mina faz um bom trabalho com John Constantine em “A empatia é o inimigo” (Panini, 2013). Para o bruxo que sempre se esforçou para se mostrar mais cínico e indiferente do que realmente é, a seita da empatia representa um desafio. A trama é bem construída, revelando-se aos poucos, mantendo a consistência e provocando reflexões éticas. Só o desfecho é meio preguiçoso, apelando para elementos clássicos da série Hellblazer e deixando um fim aberto, na verdade um gancho para uma outra história.

SHUNKADEN“Shunkaden: A nova lenda de Chun Hyang” (New Pop, 2013) toma como base uma lenda coreana sobre um amor proibido (e, é claro, eterno). O grupo CLAMP, ao que parece, tomou várias liberdades ao adaptar a história, fazendo da protagonista Chun Hyang uma mestra das artes marciais. Isso permitiu que ela se tornasse uma heroína de ação, inserida em conflitos grandiosos, com boa tensão dramática. Em comepnsação, um pouco por isso e também por Hyang ser uma adolescente, a sua relação com o nobre Mong Ryong aparece infantilizada. Mesmo sendo um volume único, dá a impressão de que se trata apenas do início das aventuras, e que os dois teriam muito a aprender um com o outro.

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Meninos, eu li (32)

A_MAQUINA Existe uma falsa oralidade na narrativa de “A máquina” (Objetiva, 2006) que tenta convencer o leitor de estar dentro de uma fábula, ou parábola. Na verdade, porém, o cuidadoso jogo vocabular de Adriana Falcão trai essa ideia à medida que se revela uma tecnologia verbal, e assim se ientifica com o outro gênero que ela resolveu espelhar – o da novela de ficção científica. A máquina do tempo de Antonio, nesse sentido, é tão falsa (como macguffin propulsor da trama) quanto a voz do narrador. A máquina verdadeira, que se pretende com potencial transformador, é o próprio livro.

ELEGBARA Alberto Mussa ainda era Beto Mussa quando assinou “Elegbara” (Revan, 1997). A mudança no nome é significativa: o autor cresceu e muito desde esses contos, mas o embrião do que seriam seus ótimos romances já estava presente. Isso aparece tanto na temática (ficção histórica, tomando figuras como Zumbi, Dom Sebastião e até Exu como seus personagens) quanto no tratamento. O autor disseca as ações, analisando os motivos e as razões por trás deles, explicitando o desenvolvimento dos personagens, transformando as histórias em verdadeiros silogismos narrativos. Um pouco secos, mas bastante precisos.

TERRA_E_CINZAS Um menino ensurdecido acha que os bombardeios roubaram não a sua audição, e sim as vozes de todo o mundo. A perda da voz dos oprimidos grita logo nas primeiras páginas de “Terra e cinzas” (Estação da Liberdade, 2001). Mas o menino-metáfora fica para trás. Num cenário de aldeias devastadas por bombardeios e famílias destruídas, o mais incômodo em acaba sendo a narração em segunda pessoa (mais ainda porque o texto em português, traduzido da versão francesa e não do original em dari, deliberadamente mistura a segunda pessoa gramatical com a terceira, sem explicações). Com isso, Atiq Rahimi força o leitor na pele do protagonista Dastaguir na sua jornada inglória. Aos oprimidos não resta sequer a metáfora. Só o absurdo.

THE_BOOK_OF_FANTASY Um belo dia, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo conversavam sobre suas histórias preferidas e resolveram reuni-las num só volume. “The book of fantasy” (Carroll & Graf, 1990) é a tradução inglesa para a terceira edição da “Antología de la literatura fantástica”, aquela mesma mencionada por Borges no pós-escrito de seu conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Mistura alguns clássicos (“A pata do macaco”, “A casa tomada”) com histórias menos conhecidas de autores consagrados (Kafka, Hawthorne) e um punhado de garimpagens. No total, e relevando-se as idiossincrasias dos editores, uma ótima panorâmica do que se pode chamar de literatura fantástica desde Petrônio até o século XX.

ELEKTRA_VIVE Eu passei os anos 90 ouvindo falar que “Elektra vive” (Abril, 1991) era uma obra-prima, a grande prova do talento genial de Frank Miller. Se eu tivesse lido na época, talvez até achasse também. Hoje, achei apenas um gibi melhorzinho, mais pelo traço estiloso do que pelo roteiro. Metade da história é o Demolidor chorando seus traumas ou delirando, e o resto é pancadaria. O grande mérito é funcionar como uma obra quase independente, exigindo pouquíssimo conhecimento prévio dos personagens.

THE_LAST_KNIGHT “The Last Knight” (Nantier, 2000) ganhou o subtítulo de “An Introduction to Don Quixote”. Seria melhor se fosse chamado de “uma história vagamente inspirada em Dom Quixote”, pois foi o que Will Eisner fez. E nem é por ver nos moinhos um dragão em vez de gigantes. A versão em quadrinhos é exatamente o oposto do romance de Cervantes – que ainda aparece em participação especial nas páginas finais, visitando Don Alonso Quijano em seu leito de morte. No fim, “The Last Knight” serve como introdução ao Quixote tanto quanto uma paródia da Turma da Mônica serviria. Vale como passatempo, mas também está longe dos melhores trabalhos do autor.

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Meninos, eu li (31)

UM_ROMANCE_DE_GERACAO “Um romance de geração” (Civilização Brasileira, 1980) era o único livro do Sérgio Sant’anna nesse período dos anos 70-80 que eu ainda não conhecia. A crítica que se poderia fazer ao mestre era ter inspirado e influenciado tanta autoficção vagabunda que se vê por aí atualmente, mas a verdade é que ele não tem nada com isso: a falsa peça, escrita para não ser montada, quebra não só a quarta parede do teatro mas todas as paredes do edifício literário. O jogo entre autor, ator, personagem, leitor, público, forma, conteúdo, linguagem, texto, corpo e política é atordoante. Cumpre com folga a missão autoimposta de escrever o romance daquela geração, dos anos da Abertura. Ainda traz, de brinde, a declamação de Coração Subalterno, o melodrama celestino virado pelo avesso por Sebastião Nunes, poeta da mesma turminha mineira.

41_POETAS_DO_RIO Todos os autores de “41 poetas do Rio” (Funarte, 1998) foram participantes das Quintas de Poesia no Espaço Cultural Moacyr Félix, em 97. E o trocadilho é inevitável: tem uita poesia de quinta na antologia organizada pelo próprio Félix. Em compensação, tem Alexei Bueno, Antônio Cícero (muito melhor como poeta do que como letrista), Denise Emmer e mais um punhado de outros que justificam a edição. Da leitura de todos, ressalta-se a diversidade de origens. Os “poetas do Rio” são paulistas, goianos, gaúchos, mineiros, cearenses e até mesmo cariocas. De alguma forma, todos eles, inclusive os nativos, compartilham uma sensação de desterramento, talvez mais do tempo que propriamente do espaço.

PAISAGEM_COM_DROMEDARIO “Paisagem com dromedário” (Companhia das Letras, 2009) poderia ser apenas um exercício técnico. A estrutura composta pelas transcrições de 22 gravações deixadas pela protagonista Érika, porém, em nenhum momento ameaça virar um daqueles fogos de artifício narrativos que distraem da absoluta falta de conteúdo. Pelo contrário. Carola Saavedra usa o triângulo amoroso formado por Érika, Alex e Karen, bem como seus desdobramentos em outras relações, para questionar o papel da arte e do artista. Ao mesmo tempo, desenha um outro triângulo amoroso, formado por texto, história e subtexto.

CINEMA_E_ECONOMIA_POLITICA Dessa vez, a organizadora Alessandra Meleiro escalou mal o time. É erdade que não existe texto neutro nem desinteressado, mas a maioria dos autores reunidos em “Cinema e Economia Política – Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira Vol. II” (Escrituras, 2009) está longe de qualquer objetividade acadêmica. Então, o que fica é um bocado de wishful thinking e muita autopropaganda (nos casos flagrantes de Bitelli, competente como de hábito na arte de vender seu peixe por muito mais do que ele vale, e Teixeira). Sá Earp e Guimarães e Souza, nessa mesma linha, são convincentes na sua proposta de desoneração fiscal, mas sequer se dão ao trabalho de avaliar seus custos. Do ponto de vista econômico, a melhor contribuição fica sendo mesmo a de Brittos e Kalikoske sobre as barreiras de entrada no mercado. Já a pesquisa sociológica de Botelho, apesar de relevante, parece fora de lugar nesse volume.

SIMONS_CAT Sabe quando o filme é melhor do que o livro? “Simon’s Cat” (L&PM, 2012) inaugura a era do “gostei mais do canal no YouTube”. As animações de Simon Tofield são muito melhores que a adaptação para o papel. Tem um ou outro personagem carismático, como o porco-espinho. O problema é que, de forma geral, o gato de Simon perde a sua principal característica, o exagero catunístico em que no entanto qualquer um reconhecia o comportamento de um gato real. Em vez disso, os quadrinhos mostram um felino antropomorfizado, um sub-Garfield sem personalidade.

ESTORIAS_GERAIS Na linguagem e no tema, “Estórias Gerais” (Conrad, 2007) remete imediatamente a Guimarães Rosa, influência assumida pelo roteirista Wellington Sbrek. De fato existe uma toada rosiana ao longo de todo o álbum. Mas Srbek invoca outros patronos – Lobato, Suassuna, João Cabral – enquanto enovela um causo no outro, incorporando a oralidade sertaneja na narrativa gráfica. Flávio Colin traduz bem essa trama com um traço que remete á expressividade do cordel. A dupla ainda assina o bônus “Estória da Onça”.

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Meninos, eu li (30)

A_SOCIEDADE_DO_ESPETACULO “A sociedade do espetáculo”, com os “Comentários sobre a sociedade do espetáculo” (Contraponto, 1997) era uma leitura atrasada. Não apenas porque o texto original já tinha 45 anos, mas também porque eu deveria ter lido quando ia tentar o mestrado na ECO, ali por 2003. De qualquer forma, o texto de Guy Debord permanece atual não apenas como crítica da mídia mas principalmente como análise da economia pós-industrial. Alguns parágrafos parecem ter sido escritos hoje, em reação às explosões de consumo e à euforia diante do lançamento de um novo aparelhinho. Mais do que em 67, quando foi escrito, ou em 88, quando nasceram os Comentários, é possível ver a sociedade do espetáculo se manifestando em cada atividade da vida social. Só é preciso filtrar o tom de autoelogio, necessário num texto que é muito mais político (e militante) do que acadêmico.

O_SECULO_DO_VENTO Outra leitura atrasada foi “O século do vento” (Nova Fronteira, 1988). Mais de dez anos depois de ter lido os dois primeiros volumes de “Memórias do fogo”, a conclusão da trilogia confirma Eduardo Galeano como um mestre na arte de contar as histórias que formam a História. A América (especialmente a América Latina) de 1900 a 1986 surge como um palco da luta dos povos e também de sua arte, indissociadas, dois lados da mesma moeda. O maior mérito do autor, e isso mesmo quem discorde dele politicamente se verá na obrigação de admitir, está na capacidade inesgotável de transformar o cotidiano em drama, e o drama em significado. Termina-se a leitura com uma sensação de pertencimento a uma dinastia de heróis, conquanto anônimos alguns, que atravessa o tempo e se perpetua na eternidade.

CONTOS_SINISTROS O maior defeito de “Contos sinistros/No olho do Outro” (Max Limonad, 1987) é ter pouco do primeiro e muito do segundo. Ou seja: apenas dois contos de E.T.A. Hoffmann e um longo estudo de Oscar Cesarotto tentando atualizar as observações de Freud sobre o escritor. Ignorei os ensaios e li apenas os contos. “O homem de areia” e “Os autômatos” ainda arrepiam, e permitem uma leitura surpreendentemente moderna em tempos transumânicos, ciborguianos. Os personagens de Hoffmann se horrorizam com a possibilidade de máquinas capazes de igualar o ser humano nas suas duas áreas de excelência, o amor e a arte. Duzentos anos depois, é fácil substituir as engrenagens dos relojoeiros por microchips. Mas as histórias seriam as mesmas? Essa é a segunda pergunta mais importante. A primeira é: por quê?

SWEET_TOOTH__DEPOIS_DO_APOCALIPSE O_INESCRITO Dois lançamentos (Panini Comics, 2012), dois volumes iniciais de séries da Vertigo. “Sweet Tooth – Depois do Apocalipse” avança pouco no tema. Jeff Lemire consegue provocar compaixão pelo pequeno mutante criado longe dos humanos perversos e depois abandonado num mundo hostil em “Saindo da Mata”. Mas isso era o mínimo que se esperava, e é só. Mike Carey e Peter Gross foram mais felizes em “Tommy Taylor e a identidade falsa”, primeira parte de “O Inescrito”. O Harry Potter genérico que sai das páginas do romance e se faz carne como um messias literário (mesmo que relutante) insinua futuras questões mais interessantes sobre o poder das palavras e os limites da criação. Se for pra seguir mais um novelão, fico com o segundo.

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Resumão de 2012: 58 livros, 33 gibis.

Melhores (com destaque para os mais surpreendentes): “Duas pessoas são muitas coisas” (Lisbôa), “Minha vida” (Crumb), “O senhor do lado esquerdo” (Mussa), “Os donos do poder” (Faoro), “Sinal e Ruído” (Gaiman & McKean), “A rosa do povo” (Drummond), “a máquina de fazer espanhois” (mãe), “A condessa sangrenta” (Pizarnik), “Morte e vida severina e outros poemas em voz alta” (João Cabral), “Histórias de cronópios e de famas” (Cortázar), “Valentina 66-68″ (Crepax), “O cavaleiro inexistente” (Calvino), “Orlando” (Woolf), “O evangelho segundo a serpente” (Hayat), “Poesia completa” (Cruz e Sousa), “Mafalda 10 años” (Quino), “Claros sussurros de celestes ventos” (Santos).

Piores: “Fábulas – O bom príncipe” (Willingham), “King Kong” (Lovelace), “Esquin de Floyrac: o fim do templo” (Rodrix), “Mulher-Gato: Cidade eterna” (Loeb & Sale), “Termo de ajustamento de conduta” (Santos), “Pornopopéia” (Moraes).

Metas para 2013:  Mais teoria. Menos autores homens-brancos-heterossexuais-europeus/americanos. E, no entanto, alguns clássicos que estou me devendo.

Meninos, eu li (29)

A última quimera Claros sussurros de celestes ventos É estranho como “A última quimera” (Companhia das letras, 1995) e “Claros sussurros de celestes ventos” (Bertrand Brasil, 2012) são tão semelhantes e diferentes. Os dois partem de princípios muito próximos: Ana Miranda escolhe como protagonista o melhor amigo de Augusto dos Anjos, no momento em que recebe a notícia da morte do poeta e vai contar a novidade a Olavo Bilac; Joel Rufino dos Santos inicia seu romance mais ou menos na mesma época, imaginando uma visita de Cruz e Souza ao leito de morte de Lima Barreto. O desenvolvimento, porém, é bem diferente. Miranda opta por uma narrativa tradicional, apoiada na pesquisa e na historiografia, para chegar a uma conclusão algo melancólica sobre a inutilidade da poesia. Rufino mistura personagens históricos (como João Cândido, Lobato, Friedenreich) com outros tirados da obra de Lima Barreto (a Olga de “Policarpo Quaresma”), numa prosa delirante que atravessa o século XX para tentar explicar uma formação da nacionalidade brasileira um pouco mágica, um pouco trágica emuito poética. O primeiro é mais bem resolvido, amarradinho, mas o segundo leva vantagem por ser mais ambicioso.

Teogonia Desde que li a enciclopédia de Mitologia da Abril Cultural, ali por 85, que eu tinha vontade de ler a “Teogonia”. Essa edição (Iluminuras, 2007) justificou a espera. O ensaio introdutório de José Antônio Alves Torrano, que também assina a tradução, faz você quase virar pagão e sair sacrificando cabras para os deuses do Olimpo. Torrano apresenta a poesia como expressão da Memória (mãe das Musas) e portanto como garantia da Ordem (ou seja, do poder de Zeus) num mundo oral, aliás mais próximo do nosso mundo digital, cibernético, do que das sociedades da palavra escrita. Criar e cantar é decidir o que deve ser lembrado – ou, em termos contemporâneos, o que deve ser posto em relevo e não afundar no Tártaro da hiperabundância de informação.

Cinema no mundo - ÁfricaO volume I da coleção “Cinema no mundo” (Escrituras, 2005), dedicado à África, é bem inferior ao II, da América Latina. O problema principal é que a maioria dos artigos fala do cinema africano como um bloco homogêneo (mesmo quando nega que ele seja) e portanto acaba se repetindo. A história de sucessivas ondas e tendências é contada pelo menos três vezes ao longo dos ensaios selecionados por Alessandra Meleiro. Além disso, os textos citam poucos dados e se concentram na análise do conteúdo dos filmes, raramente comentando questões de economia do audiovisual. As exceções são justamente os dois artigos com foco em países específicos: África do Sul (uma interessante história da evolução do setor e suas relações com o Estado, antes, durante e depois do apartheid) e Nigéria (um bom estudo do fenômeno dos vídeos de Nollywood).

A guerra dos bastardosUm daqueles famosos mandamentos para uma boa história da Pixar diz que coincidências podem criar problemas para os personagens, nunca resolvê-los. “A guerra dos bastardos” (Língua Geral, 2007) subverte essa regra. Não é que as coincidências ajudem ou atrapalhem: elas arrastam o personagem num turbilhão que nega qualquer possibilidade de escrever o próprio destino. Não importa o que eles façam, todos estão condenados ao sofrimento, pelo mero fato de existirem. Não é o melhor romance de Ana Paula Maia: tem alguns problemas sérios de revisão que uma edição mais caprichada teria resolvido. Mas mesmo assim mostra personalidade e uma visão única.

Magnetar Lá pelo fim de “Astronauta – Magnetar” (Panini, 2012), Danilo Beyruth ameaça enveredar pelo discurso de auto-ajuda. Felizmente passa rápido. A primeira graphic novel do selo MSP cumpre o que promete: dá um tratamento adulto e sofisticado ao personagem de Maurício de Sousa (que, eu não sabia, se chama mesmo Astronauta, como mostra uma tirinha de 1963 publicada como extra). Alguns recursos utilizados parecem referencia à metalinguagem que foi característiuca dos quadrinhos de Maurício numa certa época. É assim, por exemplo, na fantástica página em que os quadros são reduzidos e replicados ao infinito para mostrar a passagem do tempo.

Mafalda 10 anosGente en su sitio Na introdução de “Mafalda 10 años” (Ediciones de la Flor, 1991), o jornalista Rodolfo Braceli lembra uma entrevista com Quino, em 1967, durante a qual, para vencer a timidez do entrevistado, pediu que ele respondesse às perguntas com desenhos. Cada resposta era uma pequena obra-prima de humor gráfico. A anedota serviria melhor ainda para apresentar “Gente en su sítio” (idem, 1993), uma coletânea de cartuns e historietas que mostra a facilidade do argentino para dizer tudo o que queria com imagens. A capacidade de explorar detalhes e de mostrar o absurdo presente no cotidiano mas que normalmente passa despercebido lembra a do conterrâneo Cortázar. De Mafalda, então, não há mais o que dizer. Falta uma ou outra tira inesquecível, mas seria impossível uma antologia que agradasse a todos e não deixasse muita coisa boa de fora.

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Meninos, eu li (28)

Os maiores méritos e os maiores defeitos de “A cidade e as ruas – Novelas cariocas” (Lidador, 1965) estão na sua concepção. São dez contos encomendados a diferentes autores para comemorar o IV Centenário do Rio de Janeiro, cada um tendo como tema um bairro da cidade (Barra, Botafogo, Catete, Centro, Copacabana, Glória, Ipanema, Laranjeiras, Mangueira e Tijuca). O resultado foi amplamente satisfatório como celebração de um Rio bossa-nova, que ainda não sentia tanto os impactos a transferência da capital para Brasília. Também executa muito bem aquilo que Beatriz Jaguaribe, nas aulas que dava na ECO, chamava de “cartografia simbólica”. A fraqueza é justamente essa tendência para a crônica que predomina ao longo dos dez textos, levando até um Marques Rebelo a se perder em descrições dos encantos e tradições de Laranjeiras. Só Guido Wilmar Sassi e Carmen da Silva (nenhum dos quais eu conhecia) conseguem voos um pouco mais amplos que o mero registro de personagens da cidade. Outra falha é ignorar o subúrbio carioca, que teria rendido bons retratos, aumentando a diversidade do painel.

Anne McCaffrey fez quase tudo certo em “A diversity of dragons”. Usou o pretexto da visita de um fazendeiro irlandês que tem um “problema com dragões” para oferecer um quadro de lendas e histórias de dragões desde os sumérios e hebreus até os romances de fantasia de Pratchett, LeGuin e dela própria, passando pelas diversas versões da luta de São Jorge. Só tropeça, em termos de texto, quando exagera nas longas transcrições de obras recentes – o que só se justifica como forma de abrir espaço para mais ilustrações de John Howe, que capricha na variação de estilos conforme o tipo de narrativa que acompanha. O livro também deixa a desejar em termos de amplitude: os dragões orientais são pouco explorados, e as tradições ameríndias, africanas (com exceção do Egito) e da Oceania completamente ignoradas.

Frederico de Santa-Anna Nery escreveu em 1887 o que é considerado o primeiro livro dedicado à cultura popular brasileira. Lido hoje, “Folclore brasileiro” (Massangana, 1992) sofre muito com o peso de mais de um século. Isso acontece, por exemplo, quando o autor atribui traços que considera predominantes no folclore nacional a uma tristeza característica das três matrizes étnicas – o índio expropriado, o português exilado e o negro escravizado. Abundam estereótipos desse tipo. Além disso, por ser originalmente uma série de palestras proferidas como apresentação do folk-lore brésilien ao público erudito de Paris, falta rigor teórico: informações são lançadas e amontoadas sem qualquer preocupação sistemática. Também transcreve sem a menor necessidade um longo conto baseado na lenda da Iara. Mas vale, principalmente, pelas histórias da tradição oral reunidas nos últimos capítulos.

Meu primeiro contato com Cruz e Sousa foi nas aulas de literatura no segundo grau. Eu, adolescente fã de rock progressivo, ouvinte de Marillion e Genesis, pirei com versos como os de “Pressago”, com os climas e cenários minuciosamente elaborados mas onde nada acontecia (e por isso mesmo tudo podia acontecer). Mais de vinte anos depois, a leitura da “Poesia completa” (Fundação Catarinense de Cultura, 1981) ainda me causou arrepios, mas diferentes. Porque ou eu não lembrava ou não tinha reparado no erotismo de “Broquéis”. É interessante ver como, nos “Faróis”, o poeta se solta na forma e se controla no conteúdo. A lamentar apenas a falta de uma revisão crítica mais caprichada, que contextualizasse a obra um pouquinho melhor do que faz a breve introdução escrita por aria Helena Camargo Régis.

O maior triunfo de Kyung-Sook Shin em “Por favor, cuide da mamãe” (Intrínseca, 2012) é a imersão que consegue provocar no leitor. Especialmente na primeira parte, com a sua incomum narrativa na segunda pessoa (você vai, você faz, você lembra): a identificação com a personagem que busca a mãe perdida no metrô de Seul é imediata. A mudança de ponto de vista quebra um pouco essa intimidade conquistada, mas transforma a busca pela velhinha numa busca por memórias, e o romance numa desesperada tentativa de estabelecer o quanto podemos conhecer do outro, portanto o próprio status das relações pessoais. No epílogo, o ponto de vista volta para a personagem da filha, e a autora consegue sustentar a emoção no limite das lágrimas.

Agora pare o que estiver fazendo e vá ler “O evangelo segundo a serpente” (Língua Geral, 2006), ou pelo menos as vinte e poucas páginas que a editora deixou abertas no site. Ainda que mais não seja, só pela ourivesaria verbal de Faíza Hayat, que elabora frases como “Um espelho é o retrato órfão de um gêmeo” ou “Sempre suspeitei nela, é certo, um destino de ave”. Não fica nisso: para além das observações que o olhar de cronista dispara, a romancista traça o seu caminho dentro de um labirinto borgiano onde questões metafísicas sobre Deus e o mal são parte de uma busca por um homem perdido (um arqueólogo carioca e rubro-negro!), equalizando amor e verdade, inclusive no quanto é ilusório encontrar uma e o outro, e no quanto a busca é necessária mesmo como ilusão.

Não conhecia nada da literatura iraniana contemporânea (sem contar os quadrinhos de Marjane Satrapi) até ler “Mulheres sem homens” (Martins Fontes, 2010), de Shahrnush Parsipur. E foi estranhamente familiar. Algumas personagens parecem saídas do realismo fantástico – por exemplo, a solteirona que decide virar árvore e cria raízes no jardim, ou a outra que passa a ler a mente das pessoas depois de morrer e ressuscitar duas vezes. Reunidas e depois separadas, numa estrutura quase cíclica, as mulheres de Parsipur formam uma espécie de mosaico da mulher iraniana (da mulher, simplesmente? do ser humano?) e das possibilidades de escrever seu próprio destino, sem homens ou com eles.

“Wolverine Noir” (Panini, 2012) me parece, até agora, a mais bem sucedida das edições “noir” dos personagens da Marvel. Logan convence como o detetive durão, porém como bom coração. É um clichê, mas o roteirista Stuart Moore explora bem as possibilidades de fundi-lo com o personagem, sem cair na armadilha de reproduzir os superpoderes dos quadrinhos originais, efetivamente criando uma nova versão de Wolverine. O ilustrador C.P. Smith também acerta mais que os outros da série na reprodução (atualizada e estilizada, evidentemente) de um clima noir.

William Messner-Loebs (roteiro) e Sam Kieth (arte) fazem um bom trabalho em “Epicuro, o sábio” (Conrad, 2007). A proposta meio anárquica (para usar uma palavra de origem helênica) de misturar personagens históricos sem qualquer rigor cronológico (idem) e fazê-los contracenar com figuras da mitologia funciona como artifício para apresentar os filósofos gregos de forma satírica e com algum espírito crítico — as participações de Sócrates e Platão, em especial, são excelentes. Não é nenhuma obra-prima, mas diverte.

O segundo volume de “Príncipe Valente na corte do Rei Artur” (Ebal, 1984) éuma boa mostra da extraordinária técnica de Harold Foster, tanto no texto quanto na narrativa gráfica. Personagens e cenários são deslumbrantes, a atenção aos detalhes torna cada uma das 96 pranchas um tesouro a ser lido e relido. Mas também é um retrato da visão simplória e até preconceituosa dos quadrinhos de jornal de 1939-40. O bem é identificado com o belo, o herói é um irretocável modelo de virtudes. Até o gigante do vale e seu exército de freaks, o personagem mais interessante da série, só é redimido quando a bondade de Val permite que ele se torne um servidor da sociedade.

O nome do roteirista Garth Ennis foi o maior chamariz na capa de “Jennifer Blood” (Panini, 2012). A arte ser de um brasileiro, Adriano Batista, também influenciou. Mas o resultado foi uma decepção. A premissa é boa: uma dona de casa que à noite dopa o marido e os filhos para sair caçando mafiosos nas ruas. Um “Sr. e Sra. Smith” sem o sr. Smith. O problema é que Ennis aos poucos revela que sua justiceira é apenas mais uma mafiosa em busca de uma vingança pessoal. Esvazia a heroína. Além disso, Jennifer não corre risco em momento algum. A tensão é zero. O que salva são alguns comentários da personagem, que às vezes parecem uma autocrítica do roteirista em relação aos clichês e ao sexismo das histórias em quadrinhos. Batista, por sua vez, é uma decpção total. Fica apenas um pouco acima daqueles garotos da escola que desenham super-heróis com mais músculos do que humanamente possível.

(Publicado também no skoob.)

Meninos, eu li (27)

“Orlando” (Nova Fronteira, 1978) é desconcertante. Não pela mudança de sexo do personagem, nem pela sua imortalidade, nem pela falta de explicação para as duas coisas. Nem mesmo pela grandiosa constatação feminista de que, o se tornar mulher, Orlando permanecia a mesma pessoa, e de que feminino e masculino não passam de construções sociais e tal. É a prosa de Virginia Woolf, aqui em tradução de Cecília Meirelles, que desnorteia e deixa o leitor equilibrando-se na ponta dos pés o tempo todo. Porque é essa prosa profunda, na sua revelação das transformações internas de Lord/Lady Orlando ao longo dos séculos nas suas relações com o amor e a arte, que obriga a constatar que contra todas as aparências se trata de um romance realista, retratando uma realidade incômoda que desperta nas doze badaladas de quinta-feira, 11 de outubro de 1928.

Não li o livro da moda mas peguei esse “S.M.” (Blanche, 2005). O romance epistolar de Joël Hespey (provavelmente um pseudônimo), censurado quando da publicação original em 1974, na coleção L’Or du Temps de Régine Deforges, tem alguns méritos. O primeiro é a verossimilhança dos personagens: a troca de cartas entre Sylvain e Marc parece real, cria uma cumplicidade voyeurista de quem observa o desenrolar de um relacionamento. O segundo é a franqueza: já na primeira carta, Sylvain deixa claro que “chama um cu de cu”, sem eufemismos. Isso, mais algumas espertezas – o título ser formado também pelas iniciais dos personagens, a conclusão cíclica inserindo a história dos dois numa longa trajetória que atravessa as gerações. O maior problema é ser longo demais. Na metade do livro praticamente todos os conflitos estão resolvidos e o que se segue é uma arrastada sequência de mais do mesmo, além do mais açucarada em excesso. Outra falha é o desequilíbrio entre o tratamento dos dois amantes. Sylvain surge pronto e acabado: o personagem da primeira página é exatamente igual ao da última, servindo apenas como referência para a transformação radical que Marc atravessa.

Um Borges menor ainda é um Borges. “O Fazedor” (Difel, 1984) chega a repetir alguns textos publicados em outros livros. Alguns dos microcontos parecem esboços deixados preguiçosamente do jeito que estavam. Mesmo assim, é ótimo. Jorge Luís Borges às vezes só precisa de um parágrafo ou de um soneto para fazer o leitor se perder em espelhos, labirintos, paradoxos, bibliotecas, tigres, pampas, tabuleiros de xadrez. Às vezes parece marcado pela chegada da cegueira, assim como pela ideia da morte. Por isso, talvez, a brevidade: é um livro sem tempo a perder, sem desperdícios de escritura.

Até agora não sei como classificar “Meu destino é ser onça” (Record, 2009). A ficha catalográfica diz que é um ensaio. O autor diz explicitamente na introdução que o seu objetivo era fazer literatura. Mitopoiese é a palavra mais correta para o meio-termo que saiu. Alberto Mussa assumiu a tarefa de ser um Hesíodo brasileiro, recolhendo as diversas fontes e dando uma forma final, literária, ao nosso mito de origem. “Nosso”, leia-se tupinambá: a premissa é de que, mesmo escondida das estatísticas, das genealogias e das políticas oficiais, a herança tupiniquim está presente na maioria da população brasileira, tanto na genética quanto na cultura. É aí que reside a importância da tarefa de Mussa. Se, como dizia Oswald, só a antropofagia nos une, é necessário reviver a mitologia que fundou esse nosso traço característico, definidor. Assumir a antropofagia é assumir também a sua origem metafísica, a história de Maíra e de Sumé.

Ítalo Calvino propõe uma série de jogos em “O cavaleiro inexistente” (Companhia das Letras, 1998). Para começar, é Calvino escrevendo um livro sobre uma monja que escreve uma história de uma armadura que não tem ninguém dentro. À primeira vista, é uma crítica da própria literatura, e em especial a do século XX, que de tanto elaborar discursos sobre si mesma acaba se perdendo no vazio. Enquanto isso, do outro lado, o de fora da armadura, as pessoas reais vivem, amam, sofrem, traem, se acovardam. Esse outro lado, porém, é também impotente sem a forma estruturante que a armadura proporciona. Sem ela, acaba ficando como o louco que acha que é pato quando está no meio dos patos, porco quando está no meio dos porcos e rei quando está diante de Carlos Magno. O final feliz depende da síntese bem sucedida, que depende de as duas partes abrirem mão do que são para se tornarem algo maior.

A edição de “O segredo da Flor de Ouro” (Vozes, 1983) com as notas de Richard Wilhelm e os comentários de Carl Gustav Jung mostram a psicologia analítica junguiana fazendo o que sabe de melhor: funcionar como ferramenta de crítica textual. O manuscrito chinês do século XVIII em si é praticamente ininteligível nas suas metáforas taoístas que não encontram referência para o leitor ocidental contemporâneo. Só faz sentido depois de depurado pelos conceitos do suíço, que teve a sacada genial de confrontar Lü Yen com os alquimistas europeus e mostrar que todos eles estavam falando dos mesmos processos psíquicos. E faz mais sentido ainda quando se percebe a imensa carga de preconceito presente na própria análise – por exemplo, na visão de um texto específico de determinados momento e local como retrato fiel de um “Oriente” homogêneo e idealizado, antítese de um “Ocidente” igualmente idealizado.

“O mestre de esgrima” (Companhia das Letras, 2003), de Arturo Pérez-Reverte, começa devagar. Mas, quando Don Jaime Astarloa começa a se mostrar de verdade, dá para perdoar tranquilamente os personagens secundários estereotipados. O que importa é acompanhar o duelo de lâminas, palavras e gestos entre o mestre e a misteriosa Adela de Otero. A trama cresce, envolve, e chega a um diálogo, pouco antes do clímax dramático, que parece amarrar todo o romance e dar a ele um significado ainda maior – a figura de Astarloa como antítese do real, com todas as implicações que isso traz para a história. A essa altura, o autor abre a guarda do adversário e fica com tudo pronto para a estocada final. O que estraga é o que vem em seguida. O último capítulo despenca para um clichê vagabundo de vilão explicando ao herói seu plano diabólico e rocambolesco, digno do folhetim mais barato.

Um mérito temos que reconhecer em Alan Moore: ele virou H.P. Lovecraft pelo avesso em “Neonomicon” (Panini, 2012, arte de Jacen Burrows). A história recupera diversos elementos do mito de Cthulhu e procura vê-los de uma forma diversa. Como se fossem algo real que o autor americano descreveu de forma imperfeita, e que se transforma quando visto por outros olhos. Com isso surgem algumas adaptações brilhantes, como a linguagem perdida Aklo sendo na verdade uma chave neurolinguística que abre portas para outros mundos, consumida como uma droga e levando à aparente demência. O que atrapalha é o tratamento da sexualidade. Se ela estava sublimada no original do pudico Lovecraft, em Moore ela é o motor da trama, mas apresentada na forma da violência sexual. Pior ainda é a reação da heroína da história a essa violência.

Eu conhecia apenas a figura de Valentina, meia dúzia de desenhos e uma ou outra página, quase sempre de conteúdo erótico, fora de contexto. Então, foi uma surpresa ler os dois álbuns reunindo as suas primeiras histórias (“Valentina 65-66″ e “Valentina 66-68″, Conrad, 2006-2007) e encontrar o universo de ficção científica criado por Guido Crepax, inicialmente para o herói paranormal Neutron e mais tarde para a coadjuvante que assumiu o papel principal. Melhor ainda foi entender como a Valentina fetichista se encaixava ali, de forma fluida. Crepax explora a atmosfera do fim dos anos 60 lançando mão de todos os recursos disponíveis na narrativa gráfica. A forma como os quadros ditam o ritmo da história, o uso dos detalhes, tudo isso faz de Valentina, a personagem e a série, muito mais que uma fantasia erótica.

(Publicado também no skoob).

Meninos, eu li (26)

Já dá para perceber que “Pornopopéia” (Objetiva, 2009) não vai ser coisa boa logo nas primeiras páginas, quando o narrador se revela como um cineasta. Daí até o fim, só piora. Reinaldo Moraes tenta ser um Henry Miller, um Bukowsky, sei lá. Mas só consegue ser um tiozinho daqueles que ficam contando proezas sexuais inventadas enquanto despeja preconceitos dignos de comentarista de portal de notícias. A virada da primeira para a segunda parte ameaça uma pequena melhora, mas só serve para confirmar o egocentrismo do protagonista, que logo retorna à cansativa rotina de beber e trepar.

Logo no começo, “Leite derramado” (Companhia das Letras, 2009) parece que vai ser uma versão remixada e estendida de “O velho Francisco”, do mesmo Chico Buarque (já gozei de boa vida, tinha até meu bangalô, vida veio e me levou). A diferença é que o romance serve como pano de fundo para uma discussão sobre a memória. Uma memória em crise, não só por causa da idade e da esclerose do narrador, mas porque ela é falha por natureza. E, da mesma forma que a memória, falham a percepção, a racionalidade, todas as ferramentas da mente. Resta a narrativa como refúgio, como maneira de dar sentido ao mundo.

O que há de melhor em “Histórias de cronópios e de famas” (Civilização Brasileira, 1998) é a capacidade de Julio Cortázar de não apenas desnaturalizar o cotidiano (como fazem questão de ressaltar quase todos os críticos), mas também de, ao forçar a repensar a realidade, perceber que ela é múltipla. Assim, as partes aparentemente desconexas do livro se completam: se é preciso pensar sobre a técnica de subir uma escada, então também é possível esbarrar em famas, cronópios e esperanças por aí, dançando trégua e catala.

A maioria dos ensaios de “O cinema e a invenção da vida moderna” (Cosac Naify, 2004) tem muito pouco de cinema. Às vezes, enfiado de qualquer jeito no fim, como se tivesse sido um enxerto para justificar a
inclusão na coletânea de Leo Charney e Vanessa Schwartz. Mesmo assim, vale pelo que mostra sobre a invenção dessa tal de vida moderna. Montagens que põem em xeque a credibilidade da fotografia? Ciência apresentada como espetáculo? Fascinação pelo mórbido? Fragmentação do conhecimento? Essa vida moderna na verdade é praticamente pós-moderna! A conclusão principal da leitura de todo o volume é de que a História, afinal, não mostra o passado, e sim a forma como o presente vê o passado, e que revela muito mais o que somos do que o que fomos.

A melhor coisa da coletânea da Granta com “Os melhores jovens escritores brasileiros” (Alfaguara, 2012) é saber que (alguns d)os melhores mesmo não estão lá. Porque o sabor que fica é de picolé de chuchu. Quase todos os autores selecionados, alguns deles bem fracos, escrevem sem um pingo de ousadia. Salvam-se, nesse aspecto, Cristhiano Aguiar (o que mais me impressionou), Michel Laub, Antonio Xerxenesky e até a Luisa Geisler, que errou muito mas pelo menos arriscou. Impressiona negativamente o fato de que, na média, o jovem escritor brasileiro (conforme os padrões da Granta), além de ser crítico, editor, ou alguém de certa forma ligado ao mundo editorial, também só sabe escrever sobre escritores, tradutores, jornalistas. Falta a capacidade de olhar para fora, de buscar o olhar do outro. Talvez isso tivesse aparecido se os editores não ficassem tão restritos a um universo de autores bem apresentáveis, “com cara de escritor”, como disse o Santiago Nazarian. Fica difícil acreditar que não haja bons escritores negros, e que tão poucos não sejam cariocas, paulistas ou gaúchos, e que quase todos sejam homens.

Temos que reconhecer as boas intenções de Augusto Emílio Zaluar, que em 1875 tentou repetir no Brasil o que Jules Verne vinha fazendo com sucesso na França. “Doutor Benignus” (Editora UFRJ, 1994), porém, fica
longe do modelo. O principal motivo é a falha de leitura do próprio autor, que achou que o mais importante num romance “científico” seria acumular informações sobre a fauna, a flora, a geologia e a etnografia do Brasil. Acabou deixando em segundo plano qualquer preocupação com um enredo minimamente interessante ou personagens capazes de despertar identificação. No fim, precisou de um deus-ex-machina (aliás, machina-ex-machina) para resolver o conflito. Ficou mais improvável que os habitantes do sol cuja existência o Doutor Benignus defende. Se alguém quiser uma boa aventura pelo Brasil do século XIX, é melhor ficar com o original e ler “A Jangada”, de Verne.

“Morte e vida severina” (José Olympio, 1980) deve ser lido como pede seu subtítulo (“e outros poemas em voz alta”). Em primeiro lugar, porque os versos de João Cabral de Melo Neto realmente ganham vida e força quando lidos mesmo que num sussurro. E depois, pela outra e menos explícita afirmação, de que o poema-título deve ser considerado em conjunto com os “outros”. Embora isoladamente já seja uma obra-prima, a história de Severino cresce se vista como clímax de um discurso construído pelas “Paisagens com figuras” e pelos “Dois parlamentos”, cada vez mais desumanizando os personagens até se contrapor à personalização do
Capibaribe em “O rio”.

A visão de Alejandra Pizarnik da história de Erszébet Bárthory, em “A condessa sangrenta” (Tordesilhas, 2011), é de início uma mistura de fascínio e repulsa. Depois, diante dos relatos históricos ou folclóricos sobre a figura da condessa, essa mistura se torna uma espécie de perplexidade, diante da dificuldade de estabelecer limites entre o fato e a ficção. O sangue das donzelas se mostra necessário não apenas para manter a juventude da condessa, mas para alimentar a lenda. Afinal, é preciso que seja uma lenda, porque a alternativa de que seja tudo verdade – de que a crueldade humana seja de fato tão intensa – é inaceitável. Assim, quanto mais terrível a história, mais o horror se sacia na ficção e se afasta da realidade. As ilustrações de Santiago Caruso acompanham a reflexão, com os vestidos impossivelmente brancos da protagonista pedindo para serem tingidos de vermelho numa explosão grotesca.

Eugenio Colonnese foi absolutamente fiel ao original na sua adaptação de “Drácula” (Escala, 2010). Fiel demais. Esse é o problema num álbum que, para condensar o livro de Bram Stoker em cem páginas de quadrinhos, recorre a artifícios como intercalar páginas de texto (as cartas de Lucy e Mina, o diário de bordo do Deméter). Uma opção por menos texto e mais narrativa gráfica, mesmo deixando de lado parte do conteúdo, teria melhorado a fluidez. Na arte, a predominância dos tons escuros foi uma escolha um pouco óbvia mas que funcionou bem. Os extras, com uma história dos quadrinhos de vampiro, foram uma boa surpresa.

Eu nunca tinha sequer ouvido falar do videogame em que “Pandora, a namorada do Death Jr.” é baseado antes de ver a revista na banca. Mas, pelo menos neste mangá, os personagens tem carisma. A história de Hai segue as regras básicas de qualquer grupo de aventureiros, juntando os nerds, o louquinho, etc. (alguns deles muito bem bolados), para depois jogá-los contra uma vilã e seus asseclas, exigindo um crescimento moral para obter a vitória. Nada de marcante, mas um entretenimento bem realizado. Funciona para os adolescentes a que é direcionado.

A primeira coisa a ser dita sobre “Erma Jaguar” (L&PM, 2012) é que a sua protagonista é um mulheraço. Com tudo. Alex Varenne convence porque as aventuras eróticas de Erma não parecem direcionadas à satisfação do olhar de um leitor-voyeur. Ao contrário, dão a impressão de que ela de fato é sujeito de seu desejo – embora no fim não seja exatamente isso.

Meninos, eu li (25)

A leitura de “a máquina de fazer espanhois” (Cosac Naify, 2011) demorou um pouco a engrenar, mas depois do segundo ou terceiro capítulo começou a fluir que foi uma beleza. Os velhinhos do valter hugo mãe recuperam os temas principais de Fernando Pessoa, especialmente partindo do “Tabacaria”, que serve de contraponto ao romance, e conduzem uma reflexão sobre a sociedade portuguesa, perdida entre uma saudade do salazarismo e uma perplexidade diante do mundo contemporâneo, que aos poucos transborda da lusitanidade para uma experiência universal. É aí que o tema da morte passa a predominar, deixando ainda mais direta a identificação com os personagens. Ainda mais porque o autor escapa daquela armadilha do sentimentalismo luso, fadista, anedótico; não que fuja da melancolia, mas torna a relação com a melancolia uma coisa diferente.

“A parábola do cágado velho” (Nova Fronteira, 2005) é justamente o que o título promete: uma parábola. Fiel a esse princípio, Pepetela batiza seu protagonista de Ulume (“o homem”) e sua personagem feminina principal de Munakazi (“a mulher”). Ulume atravessa as páginas do romance dividido entre a obediência à tradição e a necessidade de se adaptar às mudanças na sociedade angolana, seja na língua, nos costumes, nas relações sociais. Não é simplesmente uma questão de resistir à mudança: é que o mundo novo dos moradores da cidade grande também não entrega o que promete. Então, a solução tanto para Ulume quanto para Pepetela é tentar extrair de cada lado o que melhor se aproveite em cada situação.

Não precisava de Itabira, nem de pedra no caminho, nem de José, nem de quadrilha. Bastaria ter escrito “A rosa do povo” (Record, 20ª edição, 1999) para Drummond ser reconhecido como o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Está tudo ali. O funcionário do MEC que ao fim de uma noite na repartição descobre a possibilidade de “uma coisa bela” resume um percurso mais longo que começa com a reação à II Guerra Mundial (“este é um tempo de partidos/tempo de homens partidos”) e, quando recorre à poesia, o faz não porque ela traga beleza, porque afinal a rosa que brota do asfalto é feia, mas ela existe. E, existindo, seca e murcha que seja, é a vida possível.

O curioso em Almeida Fischer é que seus contemporâneos criticavam nele aquilo que hoje parece justamente seu ponto forte – o flerte com o fantástico e o surrealismo, que nesse “A ilha e outros contos” (MEC, 1954) dá as caras apenas no conto “O mastro”, sobre um perna-de-pau que se habitua a viver nas alturas e abandona o convívio com os homens comuns. Quando tenta ser sério e realista, fica preso a dramas da classe média dos anos JK, cujos conflitos existenciais não dizem quase nada ao leitor de hoje. Em resumo, envelheceu mal.

Eu tenho que deixar registrado o meu profundo respeito pelos amigos advogados e estudantes de Direito, que precisam enfrentar coisas como esse “Termo de ajustamento de conduta” (Editora Jurídica, 2006). Mas também é em parte culpa deles se autores como Jerônimo Jesus dos Santos acham que sabem escrever. O que se aproveita realmente são os anexos com modelos e exemplos, porque a parte teórica da obra poderia ser resumida à introdução. O resto ou é digressão sobre temas genéricos ou esmiuçamento de questões extremamente específicas.

Publicado, provavelmente, para aproveitar o sucesso da aventura do Homem-Aranha nos anos 30, “Homem de Ferro Noir” (Panini, 2012) não tem, entretanto, absolutamente nada de noir. O Tony Stark alternativo criado por Scott Snyder é muito mais um cyberpunk tardio. A mudança de cenário faz bem ao personagem – como acontece em geral com heróis de poderes diminuídos, em vez de aumentados como costumam fazer as editoras. A melhor personagem, porém, acaba sendo mesmo a Pepper Potts em versão ghost-writer.

Acho que foi Arnaldo Branco quem disse que gibi de super-herói é como filme pornô: tem um fiapo de história para justificar as cenas de sexo explícito, num caso, ou de pancadaria, no outro. “Mulher-Gato: Cidade eterna” (Panini, 2012) é quase um meio-termo, já que usa qualquer pretexto para mostrar Selina Kyle seminua ou em seus uniformes fetichistas, o que dá quase no mesmo. O argumento, em diversos momentos, leva o leitor a duvidar de que está entendendo direito, tamanha é a falta de coerência, que irrita ainda mais quando envelopada em alguma pretensão de quadrinho sofisticado.

Meninos, eu li (24)

Eu vou perder metade dos meus já poucos leitores. Mas a verdade é que finalmente fui ler O guia do mochileiro das galáxias (e mais o resto da série, O restaurante no fim do universo; A vida, o universo e tudo o mais; Até mais, e obrigado pelos peixes; e Praticamente inofensiva – todos em edição semidescartável da Arqueiro, 2010, comprados numa promoção no Dia da Toalha) e achei bem aquém do que eu esperava. Pode ter sido porque depois de tantos anos de cultura nerd eu já conhecia de segunda mão as melhores sacadas. Então, acabou ficando um gosto de piada requentada. Pior, piada esticada. Em vários momentos, a impressão que dá é de que Douglas Adams encheu linguiça para distribuir em cinco volumes o que caberia em no máximo dois. Talvez um e meio.Há capítulos inteiros que servem apenas para o autor mostrar como é imaginativo e engraçado – só que, ainda na metade do primeiro livro, a sua técnica básica de humor, de justapor alguma coisa épica, grandiosa, a outra trivial, banal, começa a se tornar previsível demais. Tanto é que o Guia já contém todos os temas e títulos dos quatro livros seguintes, que apenas os desenvolvem um pouco. Somente Obrigado pelos peixes retoma um pouco do frescor original.

Vilma Arêas é competente. É do ramo. Conhece a técnica do conto, e em especial do microconto. Isso fica bem claro nesse Trouxa frouxa (Companhia das Letras, 2000). As narrativas tem ritmo, tem graça, as palavras fluem redondas e as frases se encadeiam com precisão. Mas é só. Falta o principal, que é ter alguma coisa a dizer. Escrito em 2000, parece ter vindo de quatro ou cinco décadas antes, de uma literatura brasileira com um pé na psicologia e outro no realismo. Pouco inspirado, terra-a-terra, acaba esquecido logo depois da primeira leitura.

Quando vi na banca de revistas esse Assassin’s Creed: A queda (Panini, 2012) nem reparei que o personagem na capa estava carregando um rifle. Eu tinha visto algumas cenas do primeiro jogo da série e achava que era uma aventura medieval. Lendo o gibi é que fui entender que a trama envolve viagens no tempo, coisas assim. Então, tirando a parte do choque com a expectativa, achei a história (de Karl Kerschl, com arte de Cameron Stewart) interessante. Funciona direitinho dentro desse esquema de transmídia, revelando mais coisas para quem já era adepto e ao mesmo tempo funcionando como obra independente para quem não conhecia nada. Mas não foi boa o suficiente para me fisgar.

Meninos, eu li (23)

Perdi boa parte do impacto que “Lugar Nenhum” (Conrad, 2007) deveria ter me causado. Em primeiro lugar, já tinha lido boa parte da versão em quadrinhos publicada na Vertigo. Depois, porque não conheço Londres, e tanto o mapa quanto a história da cidade são elementos fundamentais da história. Mesmo assim, foi possível apreciar a aventura de Richard Mayhew e Lady Porta pelo mundo subterrâneo. O que me pareceu mais interessante foi identificar em “Lugar Nenhum” muitos dos personagens (ou pelo menos traços característicos), situações, tramas e outros elementos que Neil Gaiman desenvolveria de maneira bem mais satisfatória em “Deuses americanos”. Esse, talvez, foi o terceiro e mais importante redutor de impacto: foi como testemunhar o ensaio geral depois de já ter visto a obra acabada.

O que há de melhor nesse “O Romance de Amadis” (Martins Fontes, 2008) não é tanto o trabalho de reconstituição do original medieval de João de Lobeira, feito na medida do possível por Affonso Lopes Vieira. O romance vale mais pelo que reflete e pelo que não diz, no seu capítulo crucial. Amadis, depois de salvar a donzela Briolanja, é por ela obrigado a trair sua amada Oriana, a sem-par, segundo quis el-rei Dom Afonso que Lobeira narrasse; mas Lobeira chama a atenção para o fato de que na verdadeira história isso não aconteceu, e Amadis se manteve fiel. A traição que não houve (ou que pode ter havido, se acreditarmos mais no pragmatismo do rei do que no idealismo do trovador), e que desencadeia uma série de eventos e peripécias, é, quer Lobeira pretendesse dizer isso ou não, uma reflexão sobre as relações entre o poder, a arte e a verdade.

Eu boiei em mais de metade de “Desigualdade reexaminada” (Record, 2001). Faltou conhecimento de teoria econômica para acompanhar boa parte do raciocínio de Amartya Sen. Isso não impediu de aproveitar as perguntas iniciais, que orientam todo o livro e que basicamente terminam sem resposta: afinal, igualdade de quê? igualdade em quê? Além de bombardear certezas, como todo bom autor deve fazer, Sen aponta caminhos interessantes, por exemplo, quando identifica a defesa da liberdade como uma forma de defesa da igualdade (e vice-versa).

As três coleções de poesia reunidas nesse volume (Le Livre de Poche, 1980) são um dos casos em que a biografia explica a obra mas depois a obra explica melhor ainda a biografia. Verlaine bebia e batia em Mathilda. Verlaine traiu Mathilda – com Rimbaud! Mas Mathilda certamente só tomou a decisão de se separar de Verlaine e, principalmente, de nunca mais aceitá-lo de volta, depois de comparar os poemas escritos para ela (de “La bonne chanson”) com os inspirados pelo amante (“Romances sans paroles”). Verlaine sai de um idílio açucarado para uma torrente de paixão e verve que é para acabar com qualquer casamento mesmo. Depois disso, sem Rimbaud nem Mathilda, ele ainda tenta se refugiar no amor a Deus (“Sagesse”), mas nem Deus ganha poemas tão bons quanto os da fase pecaminosa. Eu apostaria que Verlaine foi para o inferno. E lá deve ter encontrado Rimbaud. Final feliz, dansons la gigue.

Mesmo para uma história em quadrinhos de super-heróis dos anos 70, “Superman vs. Muhammad Ali” (Panini, 2011) é tosca. Ridícula mesmo. Neal Adams força a credibilidade do leitor além de qualquer limite. Não falo aqui de bobagens como façanhas fisicamente impossíveis: isso vai de barato no que, repita-se, é um gibi do Super-Homem. Mas a total implausibilidade de todo o argumento (que já começa pelo pretexto criado para transformar Ali em personagem e fazê-lo exibir sua técnica ao longo de uma página de “treinamento”) parece se alimentar de si mesma, sem limites. No fim, a salvação da Terra é obtida convencendo-se os extraterrestres de todas as galáxias de que o ser humano não é violento e, quando luta, sempre o faz com honra. Isso logo depois de o Super-Homem se passar por outra pessoa para poder destruir uma frota inteira de alienígenas.

Gosto mais da Liga Extraordinária do que dos Vingadores. Ou da Liga da Justiça. Ou dos dois juntos. Isto posto, “The League of Extraordinary Gentlemen – volume 2″ (Wildstorm, 2004) é uma continuação estranha. O que tem de bom é justamente o que tem de pior: o fato de os heróis vitorianos estarem perdidos a maior parte do tempo, quase impotentes diante da Guerra dos Mundos. Enquanto eles são usados como peões pela inteligência britânica, o que sobra para agitar as páginas é justamente aquilo que Alan Moore sabe fazer melhor – explorar as relações entre os personagens, ou mais exatamente as relações de cada um com Mina.

“Astro City – Vida na cidade grande” (Pandora, 2002), assim como “The League”, também é um falso gibi de super-herói. Ou melhor, é o que deveria ser um bom gibi de super-herói. O Samaritano, Crackerjack, Vitória Alada e outros fazem o que se espera deles: capturam bandidos, protegem os inocentes, enfrentam o mal, salvam o mundo. Porém, Kurt Busiek subverte os cânones e dá não apenas a voz mas também o ponto de vista a pessoas comuns. Mesmo quando os heróis são os personagens principais, “Astro City” fala muito mais sobre pessoas do que sobre poderes. Sobra espaço até para reflexões sobre feminismo, no meio do diálogo entre Vitória Alada e Samaritano, na história que encerra a coletânea.

Outro engambelo, e dos bons. “Sandman apresenta: Destino” (Panini, 2012) quase não mostra o personagem-título. Em vez disso, conta a história do cavaleiro da Peste e da devatsação que ele traz, primeiro na Constantinopla de Justiniano, depois na Inglaterra medieval e por último nos Estados Unidos de 2000 (vistos de 1990, portanto um futuro do pretérito). Ninguém sente falta. John Ryder (apesar da excessiva “sacada” no nome) e principalmente a rancheira Ruth Knight (mais uma referência dispensável) são personagens que despertam o interesse do leitor. O fim pareceu mal resolvido, como se a autora tivesse ficado com medo de explorar os conflitos. A arte (de Kent Williams, Michael Zulli, Scott Hampton e Rebecca Guay, dando estilos diferentes a cada período da história) funciona muito bem.

(Publicado também no skoob).

Meninos, eu li (22)

A edição que li de “O gene egoísta” foi a de 2001, da Itatiaia, tradução do original de 1976. Parece que Richard Dawkins, numa edição recente, se desculpou pelas interpretações conservadoras dos seus conceitos. Mas, francamente, o que ele esperava? Na hora em que atribuiu uma atitude essencialmente moral (e portanto humana) aos genes, e a responsabilizou pelo sucesso evolutivo – em última análise, pelo fato de existirmos -, ele não apenas legitimou-a mas a transformou em virtude. Metaforicamente, é claro, mas é o que basta considerando-se que a batalha das ideias se dá sempre num plano simbólico. Existiam dúzias de outros adjetivos que poderiam caracterizar o gene bem-sucedido. A escolha da metáfora foi uma escolha política, por mais que o autor tenha se arrependido dela. Se você não quer que as pessoas sejam egoístas, não diga que o egoísmo é uma coisa boa para elas. Tudo isso acabou escondendo o que há de mais interessante no livro, que é a teoria dos memes no último capítulo, igualmente prejudicada pela infeliz caracterização deles como “egoístas”.

O que mais chama a atenção em “Palestina: uma nação ocupada” (Conrad, 2011) é o aspecto formal, ou seja, o uso de uma história em quadrinhos como forma de reportagem. Não que isso seja novidade: antes do Joe Sacco, já tinha sido feito algumas vezes. Robert Crumb, por exemplo, teve seus momentos jornalísticos, e Art Spiegelman também experimentou o estilo. Mas, pelo menos que eu tenha visto, esta série foi a mais bem acabada tanto como jornalismo quanto como narrativa gráfica. O trabalho de repórter é irretocável – dando voz aos entrevistados, contexto aos leitores e ponto de vista pessoal quando necessário para pontuar a história.

A leitura de “Esquin de Floyrac: o fim do templo” (Record, 2007) me fez refletir sobre algumas questões. A mais importante delas: por que, POR QUE eu perdi meu tempo com um tijolo de 650 páginas tão ruim? Talvez pelo mesmo motivo que tenha me levado a começar a ler, apesar de o primeiro volume da trilogia ter sido medíocre, e o segundo, execrável. Eu queria acreditar que haveria alguma redenção possível. Não há. Na trama mais desinteressante da série, Rodrix repete os erros: diálogos e monólogos que vomitam clichês de auto-ajuda pseudoespiritualizados, repetidos por personagens caricatos (especialmente os vilões). O samba do maçom doido mistura templários, pedreiros e mendigos (estes, pintados como os maiores bon-vivants do mundo) na tentativa de escrever a História da maçonaria, com um proselitismo descarado. Ainda por cima, os heróis do Templo consideram a homossexualidade como a maior das vergonhas e veem as mulheres meramente como objetos sexuais ou reprodutoras. BÔNUS: Troféu Doutor Terror de uso mais tosco do tarô como recurso narrativo.

“Fazes-me falta” (Alfaguara, 2011) é uma dolorida sinfonia da perda. Melhor ainda, é uma cantata e fuga para duas vozes. Não sei se é como foi pensado pela @inespedrosa_pt, mas o romance começa como uma elaboração de luto pela morte de uma pessoa e se desenvolve (especialmente do meio para o fim) como terapia de ultrapassagem da morte de um amor, discutindo as possibilidades de se sobreviver a ele. É nessa hora, quando se percebe que os narradores estão falando de rompimentos e separações, que tudo faz sentido e os sentimentos desabam. Lindo, lindo, lindo.

Eu não vou me atrever a falar mal de “Rei Emir Saad – O monstro de Zazarov” (2011) porque prezo a minha vida. E os meus órgãos vitais, e os não vitais também. Aliás, eu nem quero saber qual foi o destino dos funcionários da LeYa e da Barba Negra que deixaram passar algumas tirinhas repetidas, além de (aparentemente) errar a sequência de publicação de outras. Repito: essas falhas não diminuem em nada minha admiração pelo bom Emir. Divertido como uma execução de rebeldes por esquartejamento.

O melhor de um romance tão multifacetado quanto “Minha querida Sputnik” (Objetiva, 2003) é a variedade de leituras que ele permite, conforme a chave de interpretação que se pretenda. Para mim, por exemplo, o fio condutor quase invisível do texto é a pergunta que Miu/Sputnik faz a Sumire e que mais tarde Sumire repete a K. – qual é a diferença entre um signo e um símbolo. Todo o jogo de replicações e inversões a partir daí serve apenas para responder à pergunta. Sim, isso foi um chute semiológico, sem um pingo de vergonha, só porque eu queria escrever alguma coisa inteligente. Mas até esse chute pode ser interpretado como uma camada a mais de interação signo-símbolo. Como queríamos demonstrar.

(Publicado também no skoob)

Meninos, eu li (21)

É difícil escrever um comentário de “Os duelistas” (L&PM Pocket, 2008) que não seja junguiano. Parece até que Joseph Conrad escreveu a história com um manual de Psicologia Analítica debaixo do braço. Os confrontos de D’Hubert (que nem por um instante deixa dúvidas quanto a quem é o personagem principal, o representante da razão contra os instintos animais, da civilização contra a barbárie) e Feraud são um caso clássico de conflito entre Persona e Sombra. Até mesmo a sucessão das armas (espada, sabre, habilidades de sobrevivência, pistolas – para não falar no outro duelo, o permanente, das manobras políticas) é uma forma de ilustrar a variação dos arquétipos. Vai assim até a resolução, com D’Hubert absorvendo Feraud e com isso tornando-se capaz de finalmente ser inteiro, casar-se com a mocinha, reconciliar-se consigo mesmo, ser feliz. Só faltou receber alta do terapeuta.

Não tenho muito o que dizer de “Mr. Punch” e “Sinal e Ruído” (Conrad, 2010 e 2011 respectivamente). Neil Gaiman e Dave McKean são como Lennon e MacCartney, Ginger e Fred, Bebeto e Romário. O que mais impressiona não é o talento imenso de cada um, que já não seria pouca coisa. É o fato de os dois se completarem em total harmonia e, ainda por cima, encontrarem jeitos diferentes de fazer isso. “Mr. Punch” é bizarro, sombrio. Como disse  a Ale, é para nos lembrar como a infância é macabra. “Sinal e Ruído” é poético, filosófico. Por um momento eu pensei como teria sido se eles realmente criassem uma história sobre o Milenarismo, mas depois vi que aquela era a história possível (e relevante) a ser contada. Não digam isso para Mr. Punch, mas preferi o conto do cineasta.

Quatro anos de serviço público, e eu só comecei a entender de fato o que faço depois de ler “Os donos do poder” (Folha, 2000). Raymundo Faoro foi buscar na Idade Média, praticamente na fundação do reino português, a origem do Estado patrimonialista e do estamento burocrático. Lá estava o João das Regras (esse nome é uma piada pronta) a encontrar o argumento jurídico para o país ser propriedade do rei e fundar uma casta de rábulas. A associação entre os dois surfa tranquilamente sobre as ondas das mudanças econômicas. Depois de 600, 700 anos de variações sobre o mesmo tema, reformas cosméticas para manter tudo como está, e uma fraude permanente no abismo que separa o país legal do país real, chega a dar um certo desespero. É como uma versão sociológica de “1984″: se você quer ver um retrato do passado, imagine uma máquina de manutenção do poder — para sempre.

Depois de “O senhor do lado esquerdo” (Record, 2011), não tenho medo de dizer: Alberto Mussa é o melhor escritor carioca hoje. O “Romance da Casa das Trocas” ameaça repetir o bom “O trono da rainha Jinga”, com uma trama policial com toques de misticismo ambientada no Rio Antigo, apenas com diferença de alguns séculos. Mas logo as histórias e anedotas paralelas (melhor: tangentes) começam a lembrar outro livro de Mussa, “O enigma de Qaf”. E, assim como “O movimento pendular”, flerta com teorias pseudocientíficas sobre amor e sexo. O resultado dessa mistura é uma obra que burla os falsos limites de gênero — e “gênero” aqui é tanto o literário quanto o masculino/feminino. Carioca, eu disse, e tão carioca que é universal. E o epílogo, okê okê!, arrepia dos pés à cabeça.

Existe coisa mais fofa e delicada do que “A Arca de Noé” (Cia. das Letras, 1991)? Nem um erro grosseiro da editora neste exemplar, com inversão da ordem das páginas no primeiro poema, foi capaz de estragar. Eu sou da geração que não consegue ler “O Pato”, “A Casa”, “São Francisco” sem cantar, pelo menos dentro da cabeça, as músicas de Toquinho. Viraram cantiga de roda, parecem ter sempre existido, serem domínio público. No papel, sempre se força um pouco mais a procura de outras camadas, que sempre existem em se tratando de Vinícius de Moraes. Mas nem precisa. Cantar já basta.

O último do mês foi “A orelha de Van Gogh” (Companhia das Letras, 1993). Moacyr Scliar era mestre do conto, e mais ainda do microconto. Subvertia as narrativas bíblicas e mitológicas, tirando o chão dos pés do leitor (que só então descobria que já estava de cabeça para baixo há muito tempo). No caso de um contista, é meio clichê elogiar a concisão, a economia de meios, mas nesse caso não tem como evitar. Cada conto é uma pequena preciosidade, e mais ainda quando se vê que só poderia existir daquela forma.

(Publicado também no skoob)

Meninos, eu li (20)

Seis álbuns do Robert Crumb (editora Conrad) de uma vez, para aproveitar uma promoção. Promoção também no Almanaque: seis resenhas no mesmo parágrafo. Porque a vantagem foi ler todos os seis livros como se fosse uma coisa só, uma grande antologia de Crumb. O suficiente para mostrar por que o cara é um dos melhores de todos os tempos. A exceção é Bob e Harv, o mais fraco do pacote, até por ser o único em que as histórias não são de Crumb e sim de Harvey Pekar. Pekar tem algumas coisas interessantes, mas a maior parte do tempo é tedioso. Tanto que o melhor momento é a história em que ele conta como conheceu Crumb. Aí a coisa se aproxima do que a gente vê nos outros livros: a rabugice do anti-herói, sempre pronto para reclamar de tudo o que vê na América. Mas Crumb mata a pau mesmo é quando fala de si mesmo, especialmente em Minha vida e Meus problemas com as mulheres – as vezes, eu me senti como se ele estivesse falando da minha vida e dos meus problemas com as mulheres. A maior diferença é que ele não tem o menor medo de expor as fraquezas, mostrar-se falho, humano, incoerente. O fato de dar a cara a tapa lhe dá o direito de reclamar de volta, criticando o próprio meio da contracultura que fez dele um ídolo. Isso acontece de forma primorosa em Mr. Natural, o mais bem resolvido nesse aspecto e, paradoxalmente, o menos autobiográfico (ao menos aparentemente). Também em Blues, ao falar de uma música que não existe mais e talvez só exista na cabeça de colecionadores nostálgicos, lendas melhores que os fatos e que por isso se sobrepõem a eles, expõe um desejo de beleza que é de certa forma o desejo de uma vida diferente. Às vezes dá vontade de esfregar isso na cara de Crumb; que ele mesmo é tão ridículo e mesquinho e decadente quanto aqueles (e aquelas!) que critica. Aí o espelho me olha de volta.

Não li as duas primeiras partes da trilogia A Saga dos Brutos, de Ana Paula Maia. Vou ter que ler, no mínimo para saber se estão no mesmo nível da terceira, Carvão animal (Record, 2011). É um romance incômodo. Primeiro achei que fosse por causa do naturalismo que marca todos os personagens – o bombeiro, o operador de forno crematório, os carvoeiros, todos com psiques que são uma extensão dos seus trabalhos ou das suas origens. Mas isso se justifica, e ganha credibilidade, à medida que o leitor se vê também capturado no círculo vicioso da cidade de Abalurdes. Quando isso acontece, basta mais um passo atrás para que o diálogo entre os funcionários do crematório (“- O que nós fazemos aqui? – Nós fazemos carvão”) se revele estruturante não só do romance mas também de uma cosmovisão.

Sequências são caça-níqueis, bobagens feitas para aproveitar o que for possível dos restos de um sucesso. Não é isso? Não é assim que funciona no cinema? Mas não é assim com Duas pessoas são muitas coisas (Memória Visual, 2011), uma espécie de prequel de Papel manteiga para embrulhar segredos. Já não basta ser bom. É melhor que o primeiro. É o melhor livro da Cristiane Lisbôa até hoje. Virgínia diz que aos 17 anos viveu mais que a maioria das pessoas numa vida inteira (melhor a vida larga do que longa, diz João). Pois o livro é isso: uma novelinha (melhor dizendo, um idílio) de 64 páginas, e quando termina é intenso, dizendo mais do que muitos romances em centenas de páginas. De brinde, o caderno de receitas, que dessa vez vai no fim, reesecreve a história, dialoga com a narradora e abre significados. Não conheço mais ninguém que consiga fazer isso com uma receita de macarrão.

(Publicado também no skoob)

Meninos, eu li (19)

Luca Torelli, o protagonista de “Torpedo 1936″ (Volumes 3 e 4, Futura, 1987-88), só poderia ter sido criado nos anos 80. Individualista, cínico, orgulhoso de sua esperteza e amoralidade mas com um toque de humanidade que, quando prevalece, surpreende sem perder a coerência. O grande mérito das histórias de Sanchez Abuli (aqui, já no traço de Jordi Bernet, depois de Alex Toth abandonar a série) é esse: criar um personagem verossímil, um anti-herói que ganha umas e perde outras, com viradas de roteiro que aumentam o sabor “noir” das aventuras.

“O bom príncipe” (Panini, 2012) me obrigou a constatar que “Fábulas” jumped the shark. Não que seja ruim, mas a frustração que eu vinha sentindo desde o fim de “A marcha dos soldados de madeira” se intensificou aqui. O maior atrativo da série, para mim, sempre tinha sido o conceito inicial de personagens de contos de fadas vivendo no mundo atual, adaptando-se a ele, convivendo com personagens de histórias diferentes num contexto estranho e muitas vezes adverso. Isso ficou para trás e a série agora se limita a mostrar o combate contra o Império. Ainda por cima, a incursão do Papa-Moscas praticamente repete a do Garoto Azul, alguns volumes antes: personagem secundário usa item mágico, revelando-se um herói invencível. Só não cansa mais porque Bill Willingham e Mark Buckingham continuam sendo tecnicamente muito bons.

Bastam dez páginas, talvez menos, para se perceber que o jacaré de “Mastigando humanos” (Nova Fronteira, 2006) não é jacaré coisa nenhuma. É ser humano, paulista, tem nome e sobrenome: Santiago Nazarian. Não sei o quanto há de realmente autobiografico no romance que se anuncia “psicodélico” no subtítulo. Mas todos os personagens – o rato, o esquilo, a lata de gasolina, as cobras do Butantã – soam tão verdadeiros quanto seriam se o narrador os descrevesse como homens e mulheres. Ponto para o autor, que facilita a identificação (especialmente, acho, na segunda parte, quando começa a carreira acadêmica do protagonista) e assim cria a empatia necesssária para avançar nessa mistura de romance de formação, roman à clef e sátira.

O maior mérito de Luiz Kobayashi em “Peregrinos do Sol – A arte da espada samurai” (Estação Liberdade, 2010) é o trabalho de pesquisa. Percebe-se o quanto ele estudou o tema. Infelizmente, não soube muito bem o que fazer com tanta pesquisa. Na tentativa de traçar um histórico do kendô, acabou se perdendo em citar o máximo possível de nomes de mestres e de diferentes estilos sem porém explicar o que era cada um deles, em que se diferenciava dos outros ou mesmo por que estava sendo citado ali. Valeu mais pelas páginas de contexto histórico, que foram mais eficazes na hora de fornecer ao menos uma vaga impressão de como a esgrima japonesa foi se desenvolvendo através dos séculos e se adaptando às condições materiais e culturais de cada época. Valeu também pelas anedotas, que o autor fez questão de destacar como acidentais à história mas que se mostraram mais interessantes do que, por exemplo, as listas de nomes de golpes e outras partes sem contexto que eu simplesmente pulei.

“King Kong” foi um engodo. Comprei achando que era o livro havia sido adaptado para o cinema, mas foi justamente o contário. O romance é que é uma novelização do filme de 1933 (republicada pela Ediouro em 2005 no embalo da refilmagem de Peter Jackson). O texto de Delos Lovelace não acrescenta nada ao argumento original de Merian Cooper e Edgar Wallace. Teria que rever para afirmar com certeza, mas acho que até os diálogos são todos tirados do filme. No fim, a única coisa que o autor revela são as cores de um pôr do sol que no cinema era visto em preto e branco (spoiler: vermelho, laranja e amarelo). No fim, Ann Darrow e King Kong got caught in a cellulose jam do mesmo jeito. Caça-níqueis, e pegou os meus.

Este volume de “Poesia” de T.S. Eliot (Nova Fronteira, 2006, reedição da tradução de Ivan Junqueira, 1981) tem alguns problemas. Seria melhor se fosse bilíngue, por exemplo: é um pouco de esnobismo mas num livro de poesia faz uma grande diferença. As notas de Junqueira também não são grande coisa. Explicam o que não carece de explicação e deixa de contextualizar o que está menos acessível para o leitor comum, por exemplo na “Terra Desolada” (exceto quando apenas traduz as notas de uma edição espanhola e outra francesa). O que tem de bom: é Eliot. E, mostrando a trajetória desde “A canção de amor de J. Alfred Prufrock” até os Quatro Quartetos, permite compreender melhor a sua evolução (não num sentido positivista, de progresso constante rumo a um fim, mas no de uma transformação que no entanto não muda a essência). Com isso, até os versos de tema explicitamente religioso fazem sentido. Mesmo que Eliot, conservador, convertido ao Catolicismo, use os seus versos como uma prece a Deus, o leitor ateu consegue abstrair e ler um culto à Poesia. Amém.

(Também no skoob).

Meninos, eu li (18)

Todas as resenhas que encontrei de “O centauro no jardim” (edição de 2011 da Cia. de Bolso), de Moacyr Scliar, viam a história de Guedali como uma fábula sobre o difícil equilíbrio entre integrar-se a uma cultura diferente e manter as tradições. E essa leitura vinha sempre, de forma mais ou menos explícita, com o carimbo de “literatura judaica”, uma estrela de Davi amarela pregada na lombada. É verdade que isso está lá. Mas, na minha opinião, as memórias do (ex-)centauro são principalmente um romance de formação, clássico, com o qual é muito fácil qualquer um se identificaro . A inadequação do personagem não vem somente do fato de ter nascido com torso e patas de cavalo. Ele sabe que nunca vai se encontrar, qualquer que seja o caminho que tome. E só uma aceitação de si mesmo permitirá fazer as pazes com o mundo.
Eu deveria ter gostado de “Gran Cabaret Demenzial” (Cosac Naify, 2007). As histórias curtas de Veronica Stigger, de certa forma, se parecem com o tipo de texto que eu escrevo aqui no Almanaque. O problema é uma tendência escatológica que depois de algum tempo perde totalmente a graça. Primeiro é o casal que vai se mudando em apartamentos cada vez menores até ter que ir morar no cu de um amigo. Depois é o verme que entra nos cus de todos os membros de uma família, que chamam a Baleia-sem-cu para resolver o problema. depois… chega, né? Só melhora um pouco no último texto, uma (falsa?) peça em um ato que, apesar de abusar um pouco dos personagens também nessa linha de exposição gratuita, consegue se resolver um pouco melhor.
Mesmo sabendo que vai sair uma versão mais barata, valeu a pena comprar a edição em capa dura de “Daytripper” (Panini, 2011) só para poder pegar autógrafo do Fábio Moon e do Gabriel Bá na Rio Comicon. Não preciso dizer muita coisa. Todo mundo já sabe que foi o melhor livro de quadrinhos brasileiro do ano. Os gêmeos mostram para todo mundo ver como se faz narrativa gráfica de primeira, com uma integração perfeita de imagem e texto. Nada sobra, nada falta. Se alguma coisa chega a incomodar um pouco, é justamente ser de certa forma “limpo” demais. Mas é claro que isso não atrapalha.
Se “A Dama-Morcega” (Landy, 2006) tivesse sido escrito por uma adolescente, seria um livro promissor. Vindo de uma adulta, apenas constrange. Nos melhores momentos, parece um argumento para episódio de “Além da Imaginação”. Nos piores, fanfiction de Crepúsculo, ou relato de sessão de RPG. Giulia Moon até encontra algumas boas ideias e visões originais em temas de horror e fantasia, mas desperdiça-as com um texto que não passa do pastiche. O último conto, misturando o Saci e o Menino Jesus, chega a dar pena justamente por isso: não adianta explorar temas folclóricos numa ficção fantástica brasileira se é para cair num diálogo piegas.
Foram duas revistas de “Hellblazer” nas bancas em dezembro. “Origens – volume 2″ misturou algumas histórias que eu já conhecia, mas que sempre merecem ser lidas de novo, com outras que são da mesma época mas eu não conhecia. O pacto com o demônio Nergal é para reler sempre. Já as aventuras com participação do Monstro do Pântano não são tão boas, mas tem o mérito de revelar um pouco mais do passado de John Constantine. “Passagens sombrias” é um achado em termos de premissa. O roteiro de Ian Rankim recupera o que sempre foi uma das melhores características de Constantine: usar o pretexto dos demônios para crítica político-social. A arte de Werther Dell Edera acompanha bem esse conceito, inclusive com uma boa sacada gráfica na virada de roteiro que acontece no meio do gibi.
O maior problema de “O bom Jesus e o infame Cristo” (Cia. das Letras, 2010) é ser mais longo do que devia. Esticado mesmo. A tese central é ótima: em vez de um filho, Maria teve gêmeos, os dois personagens-título. Mas Philip Pullman não precisava ter explorado praticamente cada episódio dos quatro Evangelhos, mostrando em cada caso o que Jesus realmente fez e o que Cristo transformou em versão oficial para criar uma religião. Um bom editor teria cortado metade do livro. De qualquer forma, vale como uma boa discussão sobre o que é a verdade, o que é o certo, o que é o bem. No fim, Cristo parece menos infame (scoundrel, no original) do que diz o título. É fácil entendê-lo – o que, afinal, não deixa de ser um mérito do autor.
Já na reta final da trama de “O Fantasma da Ópera” (edição da Ediouro, 2005), o Persa, que até ali parecia um personagem desnecessário, incluído apenas para dar um tempero exótico, explica o livro, ao dizer que veio de uma terra que preza demais a fantasia para se deixar confundir por um truque, o qual no entanto admira. A essa altura, Gaston Leroux já tinha revelado ao leitor que o Fantasma não passava de um homem, e que os eventos de aparência fantasmagórica eram todos passíveis de uma explicação que descartasse o sobrenatural. Contudo, isso não torna a aventura menos interssante. Pelo contrário. Leroux assume o truque como truque, mas ao fazer isso assume o ônus de criar um vilão de carne e osso mais terrível que um espírito. O ponto fraco do romance, em parte explicado pela forma de pseudorreportagem, é uma certa irregularidade narrativa, que fica flagrante, por exemplo, na indecisão do autor em utilizar os verbos no presente ou no passado.

(Resenhas publicadas também no Skoob.)

Meninos, eu li (17)

Confesso que esperava mais de “A Miniatura” (Objetiva, 2005). Elisa Palatnik faz tudo certinho, inclusive com a virada de enredo na altura recomendada pelos melhores manuais de narrativa. Mas ficou devendo justamente o que está fora do manual, aquilo que deveria fazer o leitor realmente se interessar pelos personagens. No fim, a autora acaba na mesma situação de seu personagem, criando reproduções da realidade em escala reduzida absolutamente fieis, porém sem vida e sem motivo aparente.

Patrícia Galvão, para mim, era a Carla Camuratti declamando “No meu quintal tem um pessegueiro/Com flores cor de rosa/Onde chupei-te a boca/Pensando que era fruto”. Também sabia da sua ação política, mas não fazia ideia do que ela tinha sido capaz até ler “Parque Industrial” (edição “cerejinha” da José Olympio, 2006). É literatura militante de primeira. Quase um manifesto. Você termina o livro e quer levantar uma bendeira, deflagrar uma revolução. Ainda mais porque, em diversos trechos, as relações entre a elite paulistana (inclusive seus intelectuais de esquerda) e a classe trabalhadora descritas por Pagu parecem não ter mudado nada, oitenta anos depois.

Assim é covardia. Roger Mello, além de ser um ilustrador de primeira, ainda mostrou que conhece o outro lado e escreveu “Zubair e os labirintos” (Companhia das Letrinhas, 2003). O resultado foi um livro-objeto, um livro-brinquedo que parte de uma realidade terrível (o caos de Bagdá ocupada) para criar uma pequena fábula, algo entre Borges e Xerazade, sobre o poder da imaginação. Altamente recomendável para crianças e adultos.

Mas a melhor leitura do mês foi mesmo “Os Malaquias” (Língua Geral, 2010). De arregalar os olhos. Andréa del Fuego começa cozinhando a sua história em fogo lento, num falso romance regionalista que aos poucos se revela outra coisa, completamente diferente. Quando você se dá conta, já está hipnotizado por um redemoinho que vai girando cadavez mais rápido e mais intenso, para arrematar deixando o leitor suspenso no ar, sem chão e sem paraquedas. Não foi á toa que venceu o Prêmio Saramago. Vou ficar na expectativa dos seus próximos livros.

(Resenhas publicadas também no Skoob.)

Meninos, eu li (16)

A primeira tentativa de ler “O jogo da amarelinha” tinha sido mais de vinte anos atrás. Na época não consegui por vários motivos. Um deles foi a incapacidade de entender tantas referências espalhadas. Mas esse problema nunca pode ser totalmente resolvido, no máximo atenuado. Não acredito que alguém consiga captar todas as piscadas de olho que Cortázar distribui pelas seiscentas e tantas páginas. O problema maior era a inadequação: não era o livro que eu esperava que fosse. Dessa vez, com uma atitude diferente, deu para, se não compartilhar, pelo menos entender a devoção de tanta gente por Rayuela. Além de ser um monumento do ponto de vista de forma, estrutura, e tal, tem o texto, que é impressionante. Nos primeiros capítulos, eu me peguei lembrando frases que tinham ficado guardadas no meu cérebro desde aquela tentativa anterior. E isso não é coisa que qualquer autor consegue.

No breve período em que eu assinei uma coluna no “Jornal dos Sports”, eu dizia com orgulho que era o mesmo jornal de João Saldanha, Nelson Rodrigues e o maior de todos, Mario Filho. Mas também José Lins do Rego, que eu sabia que tinha sido cronista esportivo mas não conhecia de fato. Esse “Flamengo é puro amor” (José Olympio, 2008) preencheu a lacuna. Verdade que não se tratava de um supercraque no nível dos outros três, mas era um tremendo cronista. Corajoso, bem-humorado, simples. Falta um Zelins no jornalismo esportivo de hoje. Aliás, falta um Zelins no jornalismo. Falta um Zelins.

Quando Will Eisner cria uma grande corporação que se chama simplesmente Multinational Corporation, você tem a confirmação de que está diante de uma fábula à mandiera clássica. Os personagens que vão se apresentando como arquétipos só reforçam a sensação. “Life on another planet” (Kitchen Sink, 1995) não envelheceu por isso. Mesmo que o cenário da Guerra Fria e da ameaça do confronto entre as superpotências tenha sido superado antes mesmo de a série original ter sido reunida num volume encadernado, a aventura do cientista lutando para evitar que o sinal vindo do espaço provoque a guerra em vez da paz continua fazendo sentido.

Depois da decepção do volume 8, “Lobos”, este “Filhos do Império” (Panini, 2011) foi um alívio, o suficiente para me motivar a continuar acompanhando “Fábulas”. Não tanto pelos rumos da trama principal, mas pelas pequenas histórias secundárias (a dos ratinhos cegos, por exemplo, é impagável), que no fim das contas acabam sendo o que Bill Willingham faz de melhor. Ou, no que vem a dar no mesmo, as microhistórias dentro da história principal, como é o caso da participação especial de Papai Noel e sua explicação de como consegue visitar todas as casas na noite de Natal.

Não conhecia Cees Nooteboom. Peguei “A seguinte história:” (Nova Fronteira, 2008) para ler porque era curtinho. Valeu a pena! A história do professor Mussert começa ameaçando uma fantasia/sci-fi em Lisboa, vira um drama em Amsterdã e depois, a bordo de um navio sobre o Amazonas, dá um nó nos gêneros e puxa o tapete do leitor. As referências e metáforas que pareciam simplórias de repente se embaralham da mesma forma que as constelações que o capitão do navio aponta. Deu vontade de ver o que mais ele fez. Dá para encarar um romance mais encorpado agora.

Bom… Já pode falar mal da Lúcia, Ale? Pode, Telinha? Porque “As aventuras do vampiro carioca” é ruim. Ruim de doer. A intenção era uma paródia, ou homenagem, ou coisa parecida, ao “Vampiro de Curitiba” do Dalton Trevisan. Só que a Lúcia Chataignier não passa nem perto disso. A autora não tem um pingo de respeito pelo seu protagonista, que parece so estar ali para ser caricaturado, ridicularizado. Nem de longe lembra a picardia do Trevisan. Ainda por cima, passei mal tentando (sem sucesso) descobrir qual era a lógica de colocação de vírgulas ao longo do texto, se é que existia alguma.

Eu confesso que não me lembro muito bem da animação do Miyazaki. Mas a leitura de “O castelo animado” (Record, 2007) me deu a impressão de que era outra história, apenas vagamente assemelhada (o verbete na Wikipedia confirma). Na verdade, o que me motivou a ler o livro não foi o filme, e sim o fato de que Diana Wynne Jones era uma das autoras preferidas (e uma influência assumida) do Neil Gaiman. É muito fácil entender por quê. Ela brinca com regras, expectativas e clichês de um jeito que faz o leitor chegar à última página achando que esse sim é, ou pelo menos deveria ser, o formato básico e universal de um conto de fadas.

(Publicado também no Skoob.)

Meninos, eu li (15)

Ninguém duvida de que Luiz Gonzaga Assis de Luca entende de cinema, e mais ainda do setor de exibição. Mas “Cinema digital: um novo cinema?” (Imprensa Oficial de São Paulo, 2004) sofre de alguns problemas sérios. O menor deles é o fato de já ter sido escrito há sete anos e  estar um pouco defasado em relação à evolução tecnológica. Assim, a descrição de projetores e aparelhagens de compressão e envio de arquivos acaba funcionando como curiosidade ou referência de época, mal levando em consideração, por exemplo, a revolução do 3D. Os problemas mais graves são o texto mal escrito a ponto de incomodar a compreensão, revelando a ausência completa de um revisor que transformasse a dissertação acadêmica num livro de fato, e a abstinência do autor em ir mais fundo nas implicações políticas trazidas pela digitalização das salas.

Elie Wiesel mostra “O Golem” (Imagem, 1997) como uma fábula judaica em que as perseguições funcioname como pano de fundo mas o que de fato importa é a consciência da justiça. Porque o Golem ganha a vida por meio da palavra do rabino, os seus extraordinários poderes são apenas uma extensão da extraordinária sabedoria do seu criador. Os judeus do gueto se salvam graças a essa sabedoria e esse senso de justiça que se encarna em ações.

Cristiane Dantas venceu o concurso Literatura para Todos com esse “Madalena” (Ministério da Educação, 2006). Merecido. Literatura para adolescentes com qualidade, respeito à inteligência do leitor, estímulo à leitura e à escrita. A trajetória de Madalena, ao longo de décadas e contada por diversos pontos de vista, é carregada de verossimilhança na personagem principal e nos secundários, mesmo que alguns deles sejam mal esboçados ou fiquem perigosamente próximos do estereótipo.

O nome de Clive Barker na capa é um chamariz que funciona. Só depois de abrir “O ladrão da eternidade” (PixelMedia, 2006) é que você descobre que a adaptação é assinada por Kris Oprisko e Daniel Hernandez. Mas não fiquei decepcionado. Pelo contrário. A versão em quadrinhos funciona muito bem numa história que tem pouca coisa de original: menino acha que sua vida é um lixo, menino vai parar num mundo encantado, menino descobre que mundo encantado é uma cilada, menino conta com a ajuda dos amigos verdadeiros para enfrentar seus medos e voltar para casa. Dentro desse esquema batido, Barker, seguido por seus adaptadores, consegue adicionar elementos suficientes para criar uma fábula atraente.

“Homem-Aranha Noir” (Panini, 2011), de Fabrice Sapolsky e David Hine, é de certa forma tudo aquilo que um gibi de super-heroi deveria ser. Mostra um personagem conhecido numa situação diferente, vivendo uma aventura de fato e não uma série de lutas sem sentido. A ambientação na Nova York dos anos 30 revitaliza o Aranha, seus aliados e seus inimigos. Foi uma forma inteligente de recontar sem ser repetitivo uma história já mil vezes repetida, do jovem Peter Parker adquirindo seus poderes após uma picada de aranha, e aprendendo a lidar com dilemas éticos. Deu vontade de ler o “X-Men Noir” também.

Eu me lembrava de muito pouca coisa do filme “O Mahabharata”. Basicamente, a história de Ganesha e a cena em que Arjuna reconhece Vixnu no alto da montanha. Mas lembrava bem da vontade que deixou de conhecer o épico. A adaptação de Jean-Claude Carrière (Brasiliense, 1994), lançada naquela época, cumpre bem a função. Carrière, autor do roteiro do filme, é honesto ao explicar como cortou violentamente o poema para apresentar a história central. Foi eficiente ao mostrar a luta dos Pandavas pelo trono como um pretexto para refletir sobre o dharma e suas peculiaridades, entre elas a de que às vezes é preciso esquecê-lo para cumpri-lo.

Depois que a Pixel me deixou na mão no meio da publicação seriada de “As Fúrias”, anos atrás, tive que comprar essa edição encadernada da Panini (2011) para saber o que aconteceria com Lyta Hall. Mike Carey não é nenhum Neil Gaiman, mas deu um prosseguimento decente à saga de Sandman. Ao lado do desenhista John Bolton, teve como ponto alto a subversão do conceito de deus ex-machina para resolver o conflito.