Arquivo da categoria: Jam

Jam (18): A Mulher do Mago

(para Maria Luiza)

O Mago era um rapaz
Dotado de talento
Mesmo sendo às vezes meio estranho
Mostrava ser capaz
De num encantamento
Mudar a sua forma e seu tamanho
O seu show em cartaz
Era o maior evento
Mas a Mulher do Mago simplesmente achou tacanho

O Mago vendo isso
Ficou até febril
E resolveu mudar o repertório
Achou outro feitiço
De sons e cores mil
Nas páginas do seu velho grimório
Causou um reboliço
O público aplaudiu
Mas a Mulher do Mago achou que era insatisfatório

O Mago tinha mais
O Mago foi além
O Mago não aceitou o fracasso
Criou cópias reais
Virou em dez, em cem
Se replicou no tempo e no espaço
Magia assim jamais
Foi vista por ninguém
Mas pra Mulher do Mago, mais do mesmo era um cansaço

O Mago dessa vez
Deu sua cara a tapa
Viu que não tinha mais truque nenhum
Perdeu a altivez
Despiu chapéu e capa
Queimou até seus livros um por um
De tudo se desfez
E quis sumir do mapa
Mas a Mulher do Mago adorou o homem comum

Jam (17): No mundo encantado do carnaval patrocinado

G.R.E.S. Acadêmicos do Largo do Machado tem o prazer de informar que seu departamento comercial conseguiu vender todas as cotas para o desfile do carnaval de 2013. Foi um esforço conjunto, que envolveu a criatividade na disponibilização de formatos inovadores, das baquetas à bandeira. Sendo assim, o samba deste ano tem tudo para levantar a passarela:

Nesse carnaval publicitário
Vou monetizar
(Vou monetizar!)
Meu desfile vai ser um grande negócio
Eu também quero ser sócio
Da grande festa popular

Desde os velhos tempos de Cabral
O merchan já era tradição
Tá na carta do Caminha:
“Essa comissão é minha”
E entrou na cultura da nação

Salve o grande patriarca
José, inventor do Patrocínio
Num brilhante raciocínio
Sua obra sem igual
Financiou o melhor do carnaval

Hoje faço meu plano de marquetingue
Com as cotas master, premium e top
É show no ibope:
Público segmentado,
Produto diferenciado
Fidelizam o cliente no mercado

Anuncie aqui
Nesse refrão
Sua marca para sempre
No meu coração

Jam (16): Samba tautológico

(depois de Bezerra da Silva)

Galinha é galinha, cachorro é cachorro
Angola é Angola, Guiné é Guiné
Asfalto é asfalto, o morro é o morro
Malandro é malandro, mané é mané

Dinheiro é dinheiro, fiado é fiado
Cartola é cartola, boné é boné
Latido é latido, miado é miado
Malandro é malandro, mané é mané

Baralho é baralho, roleta é roleta
Cecê é cecê, chulé é chulé
Parada é parada, mutreta é mutreta
Malandro é malandro, mané é mané

Paçoca é paçoca, cocada é cocada
Um índio é um índio, pajé é pajé
História é história, piada é piada
Malandro é malandro, mané é mané

Astronauta é astronauta, escafandro é escafandro
Cachaça é cachaça, café é café
Uma coisa é uma coisa, malandro é malandro
Outra coisa é outra coisa, mané é mané

Jam (15): Rede social e o melhor do Carnaval

(GRES Acadêmicos do Largo do Machado)

Vem curtir o Largo do Machado
Compartilhando o meu sonho na avenida
A minha escola
É uma rede social
Nessa festa genial
Orkutizando o país do carnaval

Meu samba é sucesso no MySpace
Conquistou milhões de fãs no Face
Na passarela eu já sou até prefeito
Vem comigo ser meu Par Perfeito

Me add aqui
Por favor
Que eu te sigo ali
Meu amor

Ah, quanta saudade
Das salas de chat no Zaz
Tinha blog no Exquisite
Yahoo!Groups, dei palpite
Bons tempos que não voltam atrás
Hoje posto no Reddit
E aceito o seu convite
Nos círculos do Google Mais

Tuíta, minha cuíca
Que o meme vai de lá pra cá
Tuíta, minha cuíca
Com a Luiza que foi pro Canadá

Jam (14): O Cabaré Número Um da Glória

(Correm por aí algumas histórias sobre como eu conheci a Alessandra. Quase todas quase falsas. Nego peremptoriamente, por exemplo, que eu estivesse dançando no poste quando ela me viu pela primeira vez. Mas que o primeiro encontro foi numa tradicional casa noturna do Rio de Janeiro – bem, isso eu não confirmo nem desminto.)

Tire os pés de cima da mesa
A espelunca merece respeito
Sente aqui e aprecie a beleza
Mande pra longe o preconceito

Mais de cem anos de história
De uma casa do cacete
Não há quem ignore-a
Entre a Lapa e o Catete
Tanto a elite quanto a escória
Cantam grosso e em falsete
No Cabaré Número Um da Glória

Pra falar das dançarinas do can-can
Primeiro lave a boca – com vodca!
Elas servem a sua dose no sutiã
É só pagar uma tarifa módica

Se achar que o povo aqui é esquisito
Suas lentes estão fora do grau
São mil maneiras de ser bonito
De perto todo mundo é normal

Mais de cem anos de história
De uma casa do cacete
Não há quem ignore-a
Entre a Lapa e o Catete
Tanto a elite quanto a escória
Cantam grosso e em falsete
No Cabaré Número Um da Glória

Jam (13): Julian Assange, a apoteose do Wikileaks

(G.R.E.S. Acadêmicos do Largo do Machado)

Raiou o sol de um novo dia
No mundo encantado da internet
Era uma explosão de euforia
No meu blog salpicado de confete
Porém, fizeram o maior drama – Que chilique!
Quando vazaram os telegramas no Wikileaks

Oi hackeia a Visa
E o Mastercard
Amazon e Paypal
Vou atacar
(bis)

Julian Assange
Herói do mundo da informática
No seu site genial
Denunciou geral
As armações da mala diplomática

Mas numa conquista de amor
A camisinha estourou
E ele virou criminoso procurado
Vem pro meu Brasil (ô ô ô)
Vem sambar no Largo do Machado
Canta a minha escola, e colabora
Nesse mundo novo que surgiu

Liberdade total
Pra informação
No meu carnaval
Vaza empolgação
(bis)

Oi raiou…

Jam (12): A Balada do Lobisomem

O Lobisomem é inevitável como a sucessão das luas e o medo do escuro
(Laerte)

Ele veio, noite alta,
Exalando feromônio
Eu me fiz de moça incauta
E cedi a tal demônio

Ele me cravou os dentes
Ele me marcou com as garras
Me beijou com a boca quente
Fez as coisas mais bizarras

Saiu sem raiar o dia
Como todos os amantes
Mas a ardência que eu sentia
Não sentira nunca antes

Procurei por toda a parte
Mas não encontrei seu rosto
Só achei amor sem arte
Só achei beijos sem gosto

Foi na outra lua cheia
Que ele me surgiu do nada
Não pensei nem vez e meia
Me agarrei, apaixonada

Ele me cravou os dentes
Ele me marcou com as garras
Me beijou com a boca quente
Fez as coisas mais bizarras

Dessa vez tomei cuidado
Tranquei portas e a janela
Mas de manhã do meu lado
Só vi um moço magrela

Ele confessou que era
Controlado pela lua
Que o fazia besta-fera
Predador de carne crua

Entendi a sua sina
Escutei todo o seu pranto
Na figura ali franzina
Descobri um outro encanto

Hoje eu lhe cravo os dentes
Hoje o marco com as garras
Com a minha boca quente
Faço as coisas mais bizarras

Na lua cheia ele me caça
E me arrasta pelo chão
Depois, quando o efeito passa
Sou sua loba, ele é meu cão