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Fricção científica (7): A fala dos golfinhos

O espanhol Ramon Ferrer i Cancho, um especialista em sistemas, estudou o comportamento dos golfinhos na superfície da água. E descobriu que os seus padrões obedecem à mesma lei de economia dos sinais que rege a linguagem humana.

Ferrer i Cancho, ao lado do britânico David Lusseau, percebeu que os movimentos mais comuns dos golfinhos são os que utilizam menos elementos. Analogamente, nas línguas humanas as palavras mais usadas são as mais curtas, enquanto as mais longas são raramente empregadas.

Os dois cientistas não afirmaram que os golfinhos falam com suas batidas de nadadeira e movimentos de cabeça. Mas registraram sistemas compostos de padrões, que seguem os mesmos princípios usados pelos primeiros humanos a esboçar uma língua.

Se de fato isso for uma constante, podemos supor que seres com um número de sinais ainda mais reduzido, como anêmonas e esponjas, apenas falam uma língua mais simples que a nossa. Talvez até estejam o tempo todo se comunicando em linguagem binária.

Fricção científica (6): PQP!

O psicólogo Richard Stephens, da Universidade de Keele, descobriu que xingar diminui a sensação de dor. Ou melhor, comprovou o que já se sabia. Os 64 voluntários que participaram da experiência mergulharam suas mãos em água gelada. Orientados a gritar palavrões, eles suportaram a dor por um tempo superior ao aguentado gritando palavras mais neutras.

Stephens acredita que os palavrões, que existem em qualquer língua, exercem um papel primordial, ativando funções cerebrais que mascaram a dor. O que nos leva a formular duas hipóteses:

1 – O aumento da permissividade, com maior tolerância a palavras que antes eram tabus, diminui o poder analgésico do xingamento e portanto cria mal-estar social;
2 – Outras ocasiões que levam as pessoas a gritar palavrões (como gols perdidos e quedas na conexão) provavelmente são também experiências de dor.

Fricção científica (5): Quebra-cabeças

Ben Atkinson-Willes é um estudante de Design de 22 anos. Seu projeto de conclusão de curso na Universidade de Kent, no Reino Unido, foi um quebra-cabeças especial para pacientes de Alzheimer. E funcionou.

O quebra-cabeças de Willes tem peças grandes, é fácil de montar e, o que é mais importante, utiliza fotos que estimulam as memórias dos jogadores. Assim, um homem voltou a falar depois de muito tempo, logo após montar a última peça de um avião Spitfire e lembrar-se dos seus tempos de piloto. A lembrança e a sensação de realização, combinadas, melhoraram o estado do paciente.

Portanto, devem existir outros jogos que possam ser usados para estimular pessoas com outros problemas neurológicos. E o que funciona para o cérebro pode muito bem servir também para os demais órgãos. No futuro, laboratórios e editores de jogos poderão oferecer formas diversas de ludoterapia. Drogas que façam as células jogar entre si para combater doenças. Todo um sistema de auto-imunização baseado no prazer da vitória.

Mens sana in corpore sano.

Fricção científica (4): Eletrodrogas

Morten L. Kringelbach pesquisa como o prazer e o desejo atuam no cérebro humano.

Segundo o neurocientista, lutar contra o desejo é um desperdício de energia. Afinal, todas as nossas decisões e experiências são pautadas por uma expectativa de recompensa. A depressão, na sua análise, é um bloqueio nos mecanismos de prazer do cérebro.

Kringelbach também estuda o fenômeno mais semelhante ao prazer, que é a dor. Suas experiências mostram como estímulos elétricos no cérebro podem aliviar as dores de pacientes com doenças crônicas.

Se, como o pesquisador afirma, 1) Estímulos elétricos reduzem a dor; 2) O alívio da dor causa prazer, então as experiências com eletrodos podem conduzir à droga definitiva.

Pense numa droga que provoca prazer imediato, bastando apertar um botão. Nenhum efeito colateral. nenhuma dependencia química. Nenhuma necessidade de comprar mais doses – no máximo, uma recarga na tomada. Esse é o futuro.

Fricção científica (3): Cores

O que os olhos vêem o coração não sente, porque o cérebro faz vista grossa. É essa a conclusão do psicólogo Robert Kentridge, da Universidade de Durham, na Inglaterra. Ele descobriu que, assim como muitos animais, o ser humano detecta as cores logo na primeira camada do córtex cerebral, a primeira a receber a informação dos nervos ópticos.

“A cor é um produto do sistema nervoso, um ‘pigmento’ da nossa imaginação. As cores que vemos têm mais a ver com o material de que as coisas são feitas do que propriamente com a luz refletida por elas”, diz Kentridge.

Ele comandou uma série de experiências com um paciente que sofreu danos na região do cérebro responsável pela operação. E descobriu que um passo fundamental para reconhecer as cores é identificar o contraste com objetos próximos.

“Se alguém, por causa de um dano cerebral, perder a capacidade de identificar o contraste, passará a achar que as cores mudam o tempo todo. Qualquer mudança de luz causa um efeito drástico”, explica o cientista.

Existem duas conclusões importantes. A primeira é que nós estamos programados para ver o mundo não como ele é, mas como uma redução, uma simplificação grosseira. É como se passássemos a vida inteira sendo informados sobre a realidade apenas pelo “Jornal Nacional”. E se não fosse assim, talvez não fôssemos capazes de elaborar conceitos, estabelecer definições, pensar.

Isso justifica a tendência geral a querer transformar os assuntos mais complexos num simples contraste entre vermelhos e azuis, um Fla-Flu cromático que molda a percepção e com ela a consciência.

A segunda conclusão é que, se dano cerebral faz as cores mudarem o tempo todo, os anos 70 finalmente fazem sentido. 

Fricção científica (2): A Física segundo Chantilly

Lei da Gravidade: Se não está no chão, no chão estará.

Axioma anti-atomístico: Nada é tão pequeno que não possa ser partido em pedaços ainda menores. Principalmente se for de papel.

Princípio da incerteza: É impossível determinar ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma bolinha de papel quando um gato está brincando com ela.

Paradoxo de Schrödinger: Se um gato for fechado numa caixa com um dispositivo com 50% de chances de liberar um veneno mortal, antes de se abrir o dispositivo está ao mesmo tempo inteiro e quebrado, a não ser que o gato tenha conseguido pular para fora antes de fecharmos a tampa.

Fricção científica (1): O veneno do néctar

Danny Kessler e Ian T. Baldwin estavam intrigados com as substâncias encontradas no néctar — vitaminas, aminoácidos e alcalóides — e principalmente com os altos traços de nicotina nas flores de tabaco selvagem. Os dois desenvolveram uma variedade transgênica que produzia néctar sem tabaco, e descobriram que mariposas e beija-flores preferiam a bebida “careta”.

Então, por que a planta oferece um néctar menos agradável e que ainda pode ser nocivo para os polinizadores?

A hipótese mais provável é de que o objetivo seja justamente evitar que o primeiro inseto ou colibri chegue, beba tudo e vá embora. Quanto menor o consumo individual, mais polinizadores virão e maior a eficiência em termos reprodutivos.


A estratégia da Nicotiana attenuata é ser doce e venenosa. Como muitos seres humanos.