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Folhinha (33): O não-dia

O dia 16 de outubro não existe no calendário dos campuches. Entre a meia-noite do dia 15 e a 0h do dia 17, eles não contam o tempo. Aliás, ignoram qualquer coisa que aconteça nesse período.

Crianças que nascem no não-dia são consideradas como nascidas em 17 de outubro (anos atrás, persistia o costume, abandonado após muito esforço, pelo qual esses bebês eram simplesmente abandonados para morrer). Os mortos são tratados como se continuassem vivos. Nada de fato acontece no dia 16.

A tradição campuche explica que esse foi o dia anterior ao surgimento do Universo, quando portanto o tempo ainda não existia. Portanto, é um dia que nunca existiu.

Folhinha (32): Noite das Fogueiras

Na noite de 16 de setembro, todos devem jogar alguma coisa na fogueira dos Santos Cornélio e Cipriano.

A devoção, ainda observada hoje em alguns povoados da região de Calisto, onde Cipriano foi sepultado, se origina da admiração que os dois receberam ao renunciar a todos os bens para se manterem fieis à fé cristã. Queimar coisas em homenagem aos dois é uma prova de abnegação e desapego. Quanto mais precioso o bem ofertado, maiores as graças obtidas no próximo ano.

A cerimônia chegou a ser proibida em 1739, quando três pessoas foram queimadas vivas. As fogueiras clandestinas arderam ano após ano até 1762, quando foram novamente autorizadas, porém sob vigilância.

O que quer que sobre intocado pelo fogo na manhã seguinte pode ser apropriado por qualquer pessoa. Dizem que traz boa sorte.

Folhinha (31): Dia da Coroação

É o feriado mais importante no calendário da Ilha de Armina. Neste dia se realiza o sorteio pelo qual qualquer pessoa, de toda a população arminense, pode se tornar Maioral por um ano.

Na aleocracia de Armina, maiorais gozam de poderes quase absolutos. Por apenas um ano: no dia 7 de junho do ano seguinte, a coroa deve ser passada a quem vencer o próximo sorteio.

A data, é claro, foi determinada também por sorteio, quando a Constituição do reino foi escrita.

Folhinha (30): Independência de Cerro Verde

Em Cerro Verde, a notícia do Grito do Ipiranga só chegou uma semana depois do fato, em 14 de setembro de 1822.

Desde então, e nos últimos 190 anos, a Independência é comemorada com sete dias de atraso na localidade. O feriado municipal tem parada pela rua da Matriz, salva de tiros, hasteamento da bandeira e malhação de um boneco representando o mensageiro preguiçoso que demorou tanto para chegar lá.

Folhinha (29): Dia das Cócegas

O Dia das Cócegas, aparentemente, surgiu em 24 de janeiro de 1782. Diz a maioria dos relatos que o alcaide de Nova Flandres, titilado por sua esposa, caiu na risada quando anunciava em praça pública a execução dos líderes de uma rebelião. O povo, revoltado com a zombaria, atacou a guarda com plumas e penas,  fazendo os soldados contorcerem-se de riso e largarem as armas, para em seguida libertar os condenados e tomar o poder.

Causa estranheza, é verdade, a atitude da alcaidessa, e mais ainda o fato de toda a população estar armada com tais apetrechos. Por isso, muitos historiadores dão crédito à versão de que na mesma data, um ano antes, o bispo havia sido vítima da mesma peça, pregada por um coroinha, e desatado a rir no meio da homilia, no que foi seguido por todos os fiéis.

Na igreja ou na praça, portanto, surgiu a tradição dos novaflandrinos fazerem cócegas uns nos outros no dia 24 de janeiro. Os mais sensíveis não se arriscam a sair de casa, embora em mais de dois séculos jamais tenha havido um incidente fatal.

Folhinha (28): Noite dos Mascarados

Na noite de 13 de janeiro, os habitantes de Pontavecchia, no Piemonte, perto da fronteira com a França, organizam uma pantomima. Fantasiados e mascarados, improvisam suas representações, quase sempre baseadas em histórias bíblicas ou contos folclóricos. Atores sobem ao palco e descem dele, misturam-se com a plateia, voltam a atuar.  A maior parte do tempo, incógnitos.

Um dos atores, diz a tradição, é um demônio disfarçado que a cada ano recebe permissão para sair do inferno. Se alguém vaiar a atuação do demônio, será por ele perseguido e azarado até a próxima Noite dos Mascarados.

Folhinha (27): Ungeziefertag

Joyceanos perambulam pelas ruas de Dublin no Bloomsday. Nerds preparam-se para atravessar as galáxias no Dia da Toalha. Leitores de poesia reciatm versos de Drummond no Dia D¹. Mas nenhum feriado literário se assemelha ao Ungeziefertag, conhecido popularmente pela tradução (errônea) Dia da Barata. O dia em que Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos e encontrou-se em sua cama metamorfoseado num monstruoso inseto.

Embora a vontade de celebrar a obra de Kafka fosse antiga, não havia no texto de A Metamorfose qualquer referência à data em que ocorreu a transformação. O céu estava cinzento, o que permitia especular que se tratava de um dia de outono. Recentemente, a descoberta de uma carta do escritor para seu amigo e editor Max Brod, datada de 10 de novembro de 1914, relatando de maneira angustiada o início da redação de uma novela, autorizou a instituição do Dia da Barata. Inicialmente, a comemoração se dava apenas em Praga, mas já se espalha por todo o mundo.

Nos últimos anos, todo dia 10 de novembro os leitores de Kafka andam com antenas em suas cabeças. Alguns se empolgam e criam fantasias completas de insetos, aproveitando a liberdade advinda da falta de uma descrição detalhada no texto para dar asas (e outros apêndices entomológicos) à imaginação. No fim do dia, reúnem-se em bares para comer queijos (quanto mais podres, melhor) e pedir copos de leite adoçado que depois rejeitam com cara de asco.

Atualização: Este ano, devido à publicação de Meowmorphosis, surgiram dissidentes na comemoração. Além de usar orelhinhas, rabos e fantasias de gatos, eles — horror! sacrilégio! — bebem o leite. Temem-se confrontos entre os dois grupos.


¹ Respectivamente: 16 de junho, 25 de maio e 31 de outubro.

Folhinha (26): Aniversário Zehar

Na civilização zehar não existe o conceito de um aniversário pessoal. Os pais sequer lembram o dia em que nasceram seus filhos. Apenas o ano é importante.

A mudança de idade, para todo zehar, é no primeiro dia do mês Tau (equivalente a 5 de setembro), que marca o meio do ano. Nessa data toda a população comemora seu aniversário.

Alguns jovens que imigram para lugares onde vigoram outros calendários e costumes acabam adotando um dia qualquer (normalmente, o da sua migração) como a sua data de nascimento. Passam a ter dois aniversários: o civil e o zehar.

Hoje, portanto, feliz aniversário zehar para você também.

Folhinha (25): A Libertação dos Cães

Entre várias outras coisas, era proibido ter cães em Laburre. Os poucos que existiam eram clandestinos, criados em porões, sem poder latir.

A Revolução dos Latidos derrubou o regime ditatorial e acabou com a proibição. Por isso, em 19 de agosto, aniversário da tomada do poder, é celebrado o Dia da Libertação dos Cães. Todos levam seus animais para passear pelas ruas e, no fim da tarde, são servidos deliciosos pedaços de tutano aos presentes.

É costume também as pessoas usarem coleiras nesse dia. E conversar latindo.

Folhinha (24): Quarta-feira de Cinzas

A origem do Carnaval, como se sabe, está nas Saturnálias – as festas em que os romanos honravam o deus Saturno (e, entre os muitos do seu cortejo, Momo, o Sarcasmo). As brincadeiras, fantasias, dança e música terminaram, porém, no ano de 392. Foi quando Teodósio, sucessor do imperador Constantino, transformou o Cristianismo em religião oficial do império.

A Saturnália daquele ano foi proibida. É claro, porém, que ainda havia foliões decididos a manter a tradição. E a festa se transformou em tragédia.

O último desfile pela Via Apia foi reprimido com violência. Pelo menos 250 pessoas morreram naquele Dies Mercurii (quarta-feira), e seus corpos foram queimados junto com os restos dos carros alegóricos destruídos. Em lembrança do castigo destinado aos pecadores, foi instituída a Quarta-Feira de Cinzas.

Folhinha (23): Mehnufarrej

Em Cambala, no dia 28 de fevereiro é comemorado o Mehnufarrej¹, o Festival dos Goles de Água. A origem da festa é uma lenda sobre uma seca que devastou o país, até que a deusa Legana (a Distribuidora de Dádivas) trouxe de volta a chuva.

Mas foi por pouco. Legana se disfarçou de mendiga e bateu de porta em porta, pedindo um pouco de água. Um por um, todos recusaram. Ela estava prestes a voltar para seu palácio, deixando Cambala na seca por mais sete anos, quando uma viúva lhe ofereceu metade da sua última caneca de água.

A deusa fez chover naquele mesmo instante, e cobriu de riquezas a viúva generosa. Desde aquele dia, todos os anos, no Mehnufarrej, as pessoas oferecem copos de água umas às outras, mesmo a desconhecidos, já que Legana pode estar novamente disfarçada entre os mortais.


¹ Na verdade, no 70° dia depois do solstício de verão.

Folhinha (22): Natal

A uma semana da noite de Natal, convém desconstruir alguns mitos que cercam a celebração e resgatar importantes elementos natalinos de matriz africana que foram apropriados e deturpados pelos europeus.

A Árvore de Natal, por exemplo. Originalmente, não era o pinheiro, e sim o baobá. Por toda a África Central, crianças pintavam decorações na casca dos baobás para celebrar o solstício. Normalmente, os desenhos eram geométricos, mas também incluíam figuras zoomórficas e antropomórficas, às vezes até pequenas cenas.

Há quem sustente que foi uma dessas cenas pintadas em cascas de baobá, representando o nascimento de uma criança, que deu a São Francisco de Assis a ideia de criar o primeiro presépio da Europa, em 1223. A peça, de origem etíope, teria chegado a suas mãos por meio de missionários lusitanos.

Finalmente, é preciso notar que a figura do boneco de neve, tão comum nas decorações natalinas mesmo em países tropicais como o Brasil, também é de origem africana. Nessa época do ano, caçadores tanzanianos subiam o Kilimanjaro para moldar estátuas de neve, num ritual destinado a garantir a boa sorte na temporada de caça.

Folhinha (21): Dia do Umbigo

Hoje é o Dia do Umbigo em Nova Macrameia. Seguindo a tradição, todas as pessoas andam com suas camisas amarradas no peito, de forma a deixar os umbigos à mostra.

Neste dia, acredita-se, os demônios andam à solta pelo mundo, em forma de humanos. Como demônios nascem de ovos, e portanto não têm umbigos, a melhor forma de provar que você é uma pessoa de verdade e não um demõnio infiltrado é deixando a barriga à mostra.

Folhinha (20): Dia do Vampiro

Parte dos adeptos comemora a data em 26 de maio, aniversário da publicação de “Drácula” (1897) e do nascimento de Peter Cushing (1913). Mas outros preferem o 27 de maio, quando nasceram tanto Vincent Price (1911) quanto Christopher Lee (1922). Devido ao intenso debate, a maior parte das comemorações acontece à meia-noite, entre os dias 26 e 27. É a hora em que se deve morder um pescoço.

Não se deve consumir nada temperado com alho.

Folhinha (19): Dia da Abundância

Mesmo depois de conquistados por Wiracocha e integrados ao império inca, inclusive adotando seu calendário, os nlutis mantiveram as suas tradições. Entre elas o Dia da Abundância, comemorado no último dia do mês equivalente ao nosso abril.

É preciso lembrar que os nlutis habitavam uma região pobre do altiplano, com terras pouco férteis e escassos recursos. Estavam habituados a uma existência frugal. Para piorar, impunham-se ainda maiores sacrifícios, guardando num silo a maior parte do que produziam durante todo o ano. Até chegar o Dia da Abundância.

Nesse dia, que antecedia o início da colheita, eles esbanjavam. Esvaziavam o depósito e fartavam-se de bolos, queijos, vinhos e carnes. Segundo os relatos que sobreviveram, neste dia o mais humilde dos nlutis tinha um banquete digno do próprio Inca.

Folhinha (18): Naufrágio de São Paulo

Os Atos dos Apóstolos não informam a data precisa. No entanto, é em 10 de fevereiro que os católicos malteses celebram o naufrágio do navio em que São Paulo viajava em direção a Roma. O santo foi parar na ilha de Malta, onde fundou uma comunidade cristã e converteu o governador.

Nos primeiros séculos de Cristianismo, a festa era celebrada afundando-se um navio, geralmente algum que já estivesse bem velho. Ainda hoje há quem faça pequenos barcos de papel ou madeira para naufragá-los, porém o costume praticamente desapareceu. Na Idade Média era comum escolher um “paulo” para jogar no mar, o que porém foi proibido pelas autoridades civis e eclesiásticas em 1536.

Finalmente, no século XVII, surgiu a ideia de comemorar o naufrágio “afundando” um copo de aguardente em outro de cerveja. A novidade fez sucesso mesmo fora da data comemorativa. Foi assim que, nas tavernas dos portos de Malta, em homenagem à chegada de São Paulo, foi inventada a bebida que no século XX se tornaria popular com o nome de “submarino”.

Em La Valletta, o “submarino” ainda é chamado de Pawl, mesmo nome da baía onde o navio afundou.

Folhinha (17): Um dia comum

O calendário murgol tem 364 dias dedicados a festas, deuses, heróis e efemérides. Somente o 7 de outubro é um dia comum. Ou melhor, o Dia Comum.

Hoje não há comidas especiais, jejuns, preces, trajes cerimoniais, tradições, brincadeiras, reuniões. Apenas vive-se. Do jeito que convém a cada um.

O peso da liberdade de escolha faz que a maioria das pessoas evite sair de casa e se encontrar com alguém, por absoluta incerteza em relação a o que fazer.

Folhinha (16): Festa do Estrume

A independência de Kanuk foi resultado da guerra pelo controle de suas reservas de estrume de focas. Depois de séculos ignorando a existência da ilha e de seus habitantes, que viviam abandonados à própria sorte, as duas potências rivais passaram a considerar o território uma jóia a ser cobiçada quando os excrementos alcançaram altos valores no mercado de fertilizantes.

Veio então a guerra, cada lado pretendendo a soberania sobre a ilha. Mas depois de muitos anos de morte e destruição os kanukianos mostraram sua sabedoria política ao negociar a paz, comprometendo-se a fornecer o estrume para os dois lados em troca do reconhecimento da independência.

Assim, o dia do armistício é uma festa cívica em Kanuk. E os kanukianos, principalmente as crianças, comemoram recolhendo bolas de estrume seco para guerrear com elas nas ruas da capital.

Folhinha (15): Dia do Malabarista de Rua

Pouca gente conhece a comemoração, mas ela foi instituída há dois anos no Rio de Janeiro pelo vereador Miltão da Serra (PLR). Na sua exposição de motivos, o edil argumentou que o malabarismo de rua “conssubstancia (sic) a criatividade carioca e a solidariedade do povo”.

O dia 7 de julho foi escolhido por ter sido a data em que, no ano de 1999, o mochileiro argentino Jaime Herrera foi visto pela primeira vez fazendo malabarismo num cruzamento de Copacabana para tentar ganhar uns trocados e garantir mais alguns dias de permanência no Rio. Os meninos que o observaram aprenderam rapidamente.

Também é de Miltão da Serra o projeto (ainda em tramitação na Câmara) que institui os malabares como disciplina obrigatória no currículo das escolas de Primeiro Grau da rede municipal de ensino.

Folhinha (14): Dia dos Potros

Em Balacan, o mais tradicional local de disputas de turfe do mundo¹, hoje é o dia de uma prova muito especial. O único páreo da noite é uma carreira de 100 metros. E nela os humanos é que carregam os cavalos².

A tradição começou no século XII, quando o bispo da cidade quis erradicar as corridas. Como o édito eclesiástico proibia apenas aquelas em que jóqueis montassem “cavalos, éguas, mulas, asnos, jumentos, touros ou qualquer outro animal”, os aficionados mais radicais encontraram assim uma forma de contornar a proibição.

A lei que proibia as corridas foi suspensa em 25 de junho de 1139. Mas a diversão alternativa se manteve e virou tradição, servindo também como forma de comemorar a vitória dos turfistas.

O vencedor do Dia do Potro ganha o privilégio de nunca poder ser usado como montaria em corridas e passa o resto da sua vida como reprodutor.


¹ Há indícios de que as apostas em corridas na cidade começaram ainda nos tempos do Império Romano.
² Sempre potros machos de um ano.

Folhinha (13): Noite proibida

Hoje, ao pôr do sol, os juízes são trancafiados nas cadeias da ilha de Mankatiri. E durante a noite inteira todas as leis são suspensas. Os habitantes não apenas podem fazer tudo o que nos dias normais é proibido, como são até obrigados a descumprir pelo menos uma lei.

Amanhã, logo cedo, os juízes saem de suas celas. Tudo volta ao normal, e é proibido falar de qualquer coisa que tenha acontecido durante a noite.

Folhinha (12): Santa Anastácia

Dez de março, dia de Santa Anastácia, padroeira dos amantes rejeitados (*), é comemorado com cantadas agressivas, presentes indesejados e ocasionais encoxadas em transportes urbanos.

(*) Anastácia era dama-de-honra da imperatriz bizantina Teodora. Para evitar as cantadas do imperador Justiniano, maridão da patroa, fugiu da corte e se refugiou num convento em Alexandria, mais tarde disfarçando-se de homem para viver como eremita até o ano de 576, quando morreu.

Folhinha (11): A noite sem máscaras

Na primeira sexta-feira da Quaresma, grandes fogueiras são acesas nas aldeias do Vale de Tlocoalixatlan. E nelas a população queima as máscaras e fantasias que foram usadas durante o carnaval. O objetivo é afugentar — com uma demonstração inequívoca de renúncia à festa da carne — os últimos demônios carnavalescos que ainda possam estar no ar.

Aquele que nao queimar a fantasia, diz a tradição, será perseguido pelos demônios durante todo o ano, até o carnaval seguinte, quando ficará doente e não poderá participar da folia. Por isso, os mais atrevidos na festa são também os mais fervorosos na fogueira. Nem que seja só para garantir o direito de pecar no ano seguinte.

Folhinha (9): Ooladag

A tradução mais próxima seria “Dia do Grito”. E é justamente isso o que se faz no Ooladag: grita-se do amanhecer até a noite, enquanto houver pulmões.

Há uma lenda em torno de um personagem que teria afugentado o demônio aos gritos, e a sua história é representada — por atores que se esgoelam no palco, e evidentemente vestidos de cores berrantes. E bebe-se muito nut, um aguardente de gengibre que, em tese, ajuda a preservar a voz.

Mesmo com todo o nut, o dia seguinte ao Ooladag, embora não tenha um nome específico, é o mais silencioso do ano.

Folhinha (9): Revolução das Cebolas

Os marmoules celebram no dia 27 de outubro o aniversário da revolta em que conquistaram a sua emancipação. Mas até hoje não existe um acordo sobre as origens da festa.

A versão tradicional é de que os antigos marmoules, na falta de outras armas, expulsaram os invasores a ceboladas, usando fundas e atiradeiras ou mesmo arremessando as cebolas com as próprias mãos. Há quem diga ainda que a revolução propriamente dita aconteceu no dia 28; a festa lembra a véspera, em que todos os habitantes se empanturraram com a safra de cebolas daquele ano, à noite, para no dia seguinte afugentar os inimigos com seu hálito.

Historiadores rejeitam as duas lendas e garantem que a cebola, ou melhor, o imposto sobre ela, foi apenas o pretexto que fez explodir uma revolta popular contra os ocupantes da Marmoulia.

De qualquer forma, hoje os marmoules comem apenas cebola. Frita, cozida, assada ou recheada, ela é a estrela da festa de independência.

Folhinha (8): Dia Sem Pegadas

O Alagatan lembra a fuga dos ancestrais dos malagares. Segundo a tradição malagar, as Oito Famílias deixaram a escravidão embrenhando-se pela floresta pela sétima vez. Mas apagaram seus rastros para evitar que os maus espíritos viessem em perseguição, como ocorrera nas seis ocasiões anteriores.

Por isso, em 15 de outubro é proibido deixar pegadas.

Todos andam levando vassourinhas de palha, varrendo a terra por onde passam. Se alguém deixar rastros no chão nesse dia, será levado pelos demônios de volta para o cativeiro.

Quando chove na véspera e o chão fica lamacento, ninguém arrisca sair de casa.

Folhinha (7): Nhã-morawa

Ao contrário do que diz a versão corrente, o 12 de junho não foi escolhido como Dia dos Namorados por ser véspera da festa de Santo Antônio. A tradição é bem mais antiga: vem do tempo dos jesuítas, do período colonial.

Todos sabem como a festa pagã de solstício de verão foi apropriada pelos cristãos e transformou-se no Natal. Com o Dia dos Namorados foi praticamente a mesma coisa. Em 12 de junho os tupis celebravam o Nhã-morawa, uma data especial em que as índias solteiras escolhiam seus maridos. Uma espécie de Dia de Maria Cebola.

Os jesuítas, porém, acharam aquilo muito vergonhoso. Mas não conseguiam combater a tradição. Ao mesmo tempo, as portuguesas vindas para cá (e algumas das suas primeiras filhas brasileiras) começaram a se interessar pela idéia.

Sem outro remédio, os catequistas procuraram ao menos suavizar a atitude “agressiva” das caboclas e fazer de Santo Antônio o verdadeiro responsável pelos matrimônios. Nãoi hesitaram em adaptar boa parte dos feitiços indígenas, para dar origem às simpatias que hoje conhecemos. Até o nome de Dia dos Namorados é uma corruptela do tupi Nhã-morawa.

Isso explica por que aqui o Dia dos Namorados não é celebrado em 14 de fevereiro, como em outros países. E o que só tem no Brasil e não é jabuticaba, como diz a frase atribuída a Sérgio Porto, deve ser besteira.

Folhinha (6): Quarta-Feira de Trevas

Segundo os evangelhos de Mateus e Marcos*, na véspera da última ceia Jesus foi à casa de Simão, o leproso, onde uma mulher lavou seus pés com bálsamo de nardo, enxugando-os com seus cabelos — para desespero de Judas Iscariotes, que reclamou do desperdício. Jesus, porém, disse que a mulher estava já preparando seu corpo para a sepultura.

Cristãs alitorianas recordavam a data perfumando seus cabelos com as essências mais caras que tivessem em suas casas, preferencialmente nardo. Muitas guardavam dinheiro o ano inteiro para comprar o melhor perfume que pudessem no dia santo.

Na Turquia e Armênia sassânidas, onde a seita se refugiou após a condenação pelo concílio de Nicéia, o hábito se fundiu com antigos ritos de prostituição sagrada. As alitorianas iam às ruas nesta noite e usavam o que obtivessem pelos seus serviços para comprar o nardo.

O costume deu origem à crença, não sustentada pelos evangelhos, de que a mulher que lavou os cabelos de Jesus era Madalena, a pecadora.

* João situa o relato alguns dias antes, na casa de Lázaro, e diz que a mulher era Maria, irmã do morto ressuscitado.

Folhinha (5): A fuga do alcaide

Bernália celebra hoje o Dia da Fuga. A tradição vem de 1763, quando os moradores revoltados expulsaram da cidade o alcaide imposto pelo rei, que oprimia a população com impostos escorchantes e leis injustas e foi posto a correr pelos amotinados.

A festa, na verdade, foi criada vinte anos depois, para lembrar a façanha. E desde então, todos os anos, no dia 28 de março o prefeito deve ser coberto de lama e palha e escorraçado até os limites da cidade. Em seu lugar, durante um dia, governa um cidadão escolhido por um sorteio de que todos — exceto o prefeito verdadeiro, é claro — podem participar.

Conta-se que, em 1869, o vencedor foi um mendigo. E administrou tão bem que o prefeito renunciou de forma que ele pudesse permanecer no cargo, o que fez por um ano. Em 28 de março de 1870, fugiu e nunca mais foi visto.

Folhinha (4): Quaresma

Hoje, como em todas as sextas-feiras da Quaresma, as mulheres de Beira-dos-Ventos (e, ao que parece, também as de Alañeta, do outro lado da fronteira) evitam todo contato com o sexo masculino. Não gostam sequer de ver os homens do povoado.

Nem as lactantes quebram a regra. Às quintas, elas tiram dos seios o leite que os pais dos pequenos darão a eles no dia seguinte.

Para que as beatas possam receber os sacramentos, porém, os padres são considerados uma exceção. Inclusive com os privilégios negados aos bebês.

Folhinha (3): O Ano do Porco

O Ano Novo lunar começa hoje em algumas aldeias do norte da Malásia, às margens do rio Kelantan, do Galas e do Levir. Ali o costume é de inscrever símbolos de boa sorte no estrume seco do animal que rege o ano (no caso de 2007, o porco), criando assim talismãs que são usados durante uma semana, antes de serem lançados aos rios.

Quando é Ano do Dragão, o material usado é a argila vermelha das margens.

Folhinha (2): Lassa Enorea

Pelo antigo calendário etrusco, hoje é o dia de celebrar a Deusa do Olvido.

Na festa de Enorea, dívidas eram canceladas, velhas mágoas perdoadas e todos acabavam deixando de comparecer a pelo menos um compromisso. Uma ótima forma de se evitar fazer alguma coisa era prometê-la para o dia de Enorea.

A tradição mandava preparar seis pratos em honra da deusa — o primeiro, com miúdos de cabra; o segundo, com frutas e mel; o terceiro, um pão com ervas; o quarto, um bolo; o quinto, ovos de codorna; e o sexto, queijo com figos. Um deles necessariamente teria que ser esquecido sobre a mesa e deixado intocado.

Poucos ainda se lembram de comemorar a data.

Folhinha (1): Santa Margarida da Hungria

Em Szigetvár, no sul da Hungria, a festa da padroeira é comemorada de forma peculiar. E a única forma de compreendê-la é pela biografia da santa.

Nascida na família real, no século XIII, ela abandonou os palácios para viver como monja, adotando uma vida de pobreza e sacrifícios. Sua única tristeza era não poder deixar o convento e partir em longas peregrinações a lugares sagrados. Resolveu o problema calculando a distância de sua cidade até o santuário desejado e transformando o total em milhas numa cota de ave-marias que devia rezar.

A técnica passou às outras freiras e em seguida aos leigos. Em Szigetvár, acredita-se que quem fizer um pedido a Santa Margarida hoje rezando todas as ave-marias correspondentes será atendido. 

É claro que quando o pedido não pode ser medido em milhas fica o cálculo fica mais difícil. Por isso mesmo existem os megszámozie, os “contadores de graças”, especialistas em transformar anseios em números. Quanto mais específico o desejo (“casar-me com Gyula, ter dois meninos e uma menina e morrer dormindo numa manhã de outono”), mais complexa a conta. Alguns profissionais (sim, pois o serviço é bem pago, e não em rezas) chegam a incluir frações decimais em sua cabala.