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Folhinha (33): O não-dia

O dia 16 de outubro não existe no calendário dos campuches. Entre a meia-noite do dia 15 e a 0h do dia 17, eles não contam o tempo. Aliás, ignoram qualquer coisa que aconteça nesse período.

Crianças que nascem no não-dia são consideradas como nascidas em 17 de outubro (anos atrás, persistia o costume, abandonado após muito esforço, pelo qual esses bebês eram simplesmente abandonados para morrer). Os mortos são tratados como se continuassem vivos. Nada de fato acontece no dia 16.

A tradição campuche explica que esse foi o dia anterior ao surgimento do Universo, quando portanto o tempo ainda não existia. Portanto, é um dia que nunca existiu.

Folhinha (32): Noite das Fogueiras

Na noite de 16 de setembro, todos devem jogar alguma coisa na fogueira dos Santos Cornélio e Cipriano.

A devoção, ainda observada hoje em alguns povoados da região de Calisto, onde Cipriano foi sepultado, se origina da admiração que os dois receberam ao renunciar a todos os bens para se manterem fieis à fé cristã. Queimar coisas em homenagem aos dois é uma prova de abnegação e desapego. Quanto mais precioso o bem ofertado, maiores as graças obtidas no próximo ano.

A cerimônia chegou a ser proibida em 1739, quando três pessoas foram queimadas vivas. As fogueiras clandestinas arderam ano após ano até 1762, quando foram novamente autorizadas, porém sob vigilância.

O que quer que sobre intocado pelo fogo na manhã seguinte pode ser apropriado por qualquer pessoa. Dizem que traz boa sorte.

Folhinha (31): Dia da Coroação

É o feriado mais importante no calendário da Ilha de Armina. Neste dia se realiza o sorteio pelo qual qualquer pessoa, de toda a população arminense, pode se tornar Maioral por um ano.

Na aleocracia de Armina, maiorais gozam de poderes quase absolutos. Por apenas um ano: no dia 7 de junho do ano seguinte, a coroa deve ser passada a quem vencer o próximo sorteio.

A data, é claro, foi determinada também por sorteio, quando a Constituição do reino foi escrita.

Folhinha (30): Independência de Cerro Verde

Em Cerro Verde, a notícia do Grito do Ipiranga só chegou uma semana depois do fato, em 14 de setembro de 1822.

Desde então, e nos últimos 190 anos, a Independência é comemorada com sete dias de atraso na localidade. O feriado municipal tem parada pela rua da Matriz, salva de tiros, hasteamento da bandeira e malhação de um boneco representando o mensageiro preguiçoso que demorou tanto para chegar lá.

Folhinha (29): Dia das Cócegas

O Dia das Cócegas, aparentemente, surgiu em 24 de janeiro de 1782. Diz a maioria dos relatos que o alcaide de Nova Flandres, titilado por sua esposa, caiu na risada quando anunciava em praça pública a execução dos líderes de uma rebelião. O povo, revoltado com a zombaria, atacou a guarda com plumas e penas,  fazendo os soldados contorcerem-se de riso e largarem as armas, para em seguida libertar os condenados e tomar o poder.

Causa estranheza, é verdade, a atitude da alcaidessa, e mais ainda o fato de toda a população estar armada com tais apetrechos. Por isso, muitos historiadores dão crédito à versão de que na mesma data, um ano antes, o bispo havia sido vítima da mesma peça, pregada por um coroinha, e desatado a rir no meio da homilia, no que foi seguido por todos os fiéis.

Na igreja ou na praça, portanto, surgiu a tradição dos novaflandrinos fazerem cócegas uns nos outros no dia 24 de janeiro. Os mais sensíveis não se arriscam a sair de casa, embora em mais de dois séculos jamais tenha havido um incidente fatal.

Folhinha (28): Noite dos Mascarados

Na noite de 13 de janeiro, os habitantes de Pontavecchia, no Piemonte, perto da fronteira com a França, organizam uma pantomima. Fantasiados e mascarados, improvisam suas representações, quase sempre baseadas em histórias bíblicas ou contos folclóricos. Atores sobem ao palco e descem dele, misturam-se com a plateia, voltam a atuar.  A maior parte do tempo, incógnitos.

Um dos atores, diz a tradição, é um demônio disfarçado que a cada ano recebe permissão para sair do inferno. Se alguém vaiar a atuação do demônio, será por ele perseguido e azarado até a próxima Noite dos Mascarados.

Folhinha (27): Ungeziefertag

Joyceanos perambulam pelas ruas de Dublin no Bloomsday. Nerds preparam-se para atravessar as galáxias no Dia da Toalha. Leitores de poesia reciatm versos de Drummond no Dia D¹. Mas nenhum feriado literário se assemelha ao Ungeziefertag, conhecido popularmente pela tradução (errônea) Dia da Barata. O dia em que Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos e encontrou-se em sua cama metamorfoseado num monstruoso inseto.

Embora a vontade de celebrar a obra de Kafka fosse antiga, não havia no texto de A Metamorfose qualquer referência à data em que ocorreu a transformação. O céu estava cinzento, o que permitia especular que se tratava de um dia de outono. Recentemente, a descoberta de uma carta do escritor para seu amigo e editor Max Brod, datada de 10 de novembro de 1914, relatando de maneira angustiada o início da redação de uma novela, autorizou a instituição do Dia da Barata. Inicialmente, a comemoração se dava apenas em Praga, mas já se espalha por todo o mundo.

Nos últimos anos, todo dia 10 de novembro os leitores de Kafka andam com antenas em suas cabeças. Alguns se empolgam e criam fantasias completas de insetos, aproveitando a liberdade advinda da falta de uma descrição detalhada no texto para dar asas (e outros apêndices entomológicos) à imaginação. No fim do dia, reúnem-se em bares para comer queijos (quanto mais podres, melhor) e pedir copos de leite adoçado que depois rejeitam com cara de asco.

Atualização: Este ano, devido à publicação de Meowmorphosis, surgiram dissidentes na comemoração. Além de usar orelhinhas, rabos e fantasias de gatos, eles — horror! sacrilégio! — bebem o leite. Temem-se confrontos entre os dois grupos.


¹ Respectivamente: 16 de junho, 25 de maio e 31 de outubro.