“Súbito, senti no rosto um sopro e divisei algo, rápido e fugaz, como se fosse um pássaro que cruzasse o caminho, na altura dos meus olhos, bem perto de mim. Num movimento instintivo, meu olhar procurou segui-lo e o que vi não foi um passarinho, mas uma flecha com a ponta cravada no chão. Errara o alvo! Embora muito rápido, o meu movimento não impediu que segunda flecha me viesse passar rente à nuca, roçando o capacete. E vi, bem próximo, dois nhambiquaras possantes, peito largo, cabeça grande, rosto de maçãs salientes”.
É assim que o então coronel Cândido Mariano da Silva Rondon relata o ataque dos nhambiquaras, em setembro de 1913, quando chegou a ser atingido por uma flecha envenenada. Diz a historiografia oficial que a ponta ficou cravada na sua bandoleira de couro, o que salvou a vida do explorador. Mas há outras versões.
Segundo relatos de militares de baixa patente que acompanharam a expedição, a flecha atingiu, sim, o coronel, que imediatamente perdeu os sentidos. O grupo se recolheu, temendo o pior e já pensando em como providenciar um enterro cristão para o comandante.
Porém não foi necessário. Rondon estava vivo, porém febril. E passou a noite inteira narrando as visões místicas que o veneno dos nhambiquaras produzia. Com o rosto afogueado, falou de criaturas vindas do espaço, rios que se transformavam em serpentes gigantes, um futuro em que todos seriam irmãos. Terminou o discurso bradando: “Morrer, se for preciso; matar um índio, nunca”!
Caiu em seguida num profundo e tranquilo sono, do qual despertou na manhã seguinte, completamente curado e sem qualquer lembrança da noite anterior. Desautorizou qualquer relato sobre seu delírio, mas adotou a frase final como seu lema dali em diante.
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