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Era uma vez (7): Picolina

(Do baú. Escrito em 17 de junho de 2002, no extinto SATVRNALIA. O certo seria reescrever e mudar um monte de coisas. Não. O certo é publicar de novo do jeito que está.)

Era uma vez uma sopradora de vidro. De sua oficina, modelados com graça e habilidade, saíam esculturas de peixes, aves, flores e todas as outras formas imagináveis, brilhando em reflexos de mil cores à luz do sol. Sua arte era inigualável. Não só porque Piccolina (assim era chamada) era dotada de um talento natural, mas principalmente porque amava o que fazia. Sim, amava suas criaturas de vidro mais do que qualquer outra coisa.

Bem, qualquer outra coisa pode ser exagero. Porém sem dúvida mais do que os homens. A estes Piccolina evitava. E, quando lhe perguntavam o motivo, ela sempre os comparava com as suas obras. “Se os homens fossem transparentes como o vidro”, dizia, “eu os admiraria. Mas são opacos, e escondem o que lhes vai no íntimo”.

Um dia expôs ese pensamento a uma bruxa que constantemente a visitava para encomendar bolas de cristal – pois ninguém as fazia com mais perfeição. Depois de ouvir com atenção, ao mesmo tempo que avaliava cuidadosamente as últimas peças que Piccolina havia produzido, a bruxa lhe sugeriu:

— E porque não modela um homem de vidro?

A sopradora de vidro ficou com a pergunta na cabeça. Durante dias e dias pensou no assunto, até que resolveu aceitar a sugestão da bruxa. E, com um cuidado que nunca antes dedicara a trabalho algum, começou a fazer um homem de vidro. Procurou a perfeição em cada detalhe, e tanto se esmerou que ao vê-lo pronto chegou a espantar-se de sua beleza.

Assim foi que Piccolina, como tantas vezes acontece com artistas, apaixonou-se pela sua obra.

Quando a bruxa voltou a procurá-la, dias depois, encontrou-a embevecida na contemplação do homem de vidro — de suas formas, de seus brilhos, da maneira como ele refletia o seu olhar.

— Você caprichou, menina! — disse.

Mas Piccolina não estava interessada em elogios. Pediu, implorou à bruxa que desse vida ao homem de vidro.

— Isso não vai ser fácil. Tem certeza de que quer mesmo? — perguntou, enquanto pitava seu cachimbo.

— Sim, sim! Diga o que devo fazer!

Ofereceu-lhe então o cachimbo.

— Fume, mas não trague. Beije a boca do moço bonito, soltando a fumaça. Quando você fizer isso, ele vai se tornar translúcido. Eu sinto muito, mas é a única forma. Os homens não podem ser transparentes. Não completamente. Você pode enxergar algumas coisas, mas não tudo.

Piccolina ficou ligeiramente desapontada. Mesmo assim, aspirou a fumaça e aproximou sua boca da estátua de vidro. Beijou-a, deixando sair a fumaça. “Só um pouquinho”, desejou, “só um pouquinho transparente”.

E foi assim que a fumaça mágica penetrou na estátua de vidro; e misturou-se aos seus brilhos e reflexos, e lhe deu novas cores, e a tornou translúcida. E lhe deu vida.

A sopradora de vidro ficou maravilhada. Mas a bruxa, tomando de volta o cachimbo e dirigindo um olhar de aprovação ao homem que sua amiga criara, fez uma última advertência antes de partir:

— Agora, lembre-se: daqui a três dias, você deverá matá-lo com as próprias mãos. Se não fizer isso, morrerá. O que você lhe deu não é o bastante para dois.

A frase gelou o coração de Piccolina; mas apenas por um instante, pois em seguida o homem de vidro — parecendo ser de carne — a envolveu num abraço caloroso, fazendo-a esquecer de tudo, olhando-a como se fosse impossível ela estar ali. E durante três dias ela permaneceu assim, vivendo puramente da magia que encontrara. Estava apaixonada: não mais pela estátua de vidro, mas por um homem. Que parecia transparente em alguns momentos, e opaco em outros; como se a fumaça que lhe dera vida por vezes se tornasse mais densa e por outras deixasse à mostra o cristal de que ele fora feito.

Passados os três dias, porém, o aviso da bruxa voltou à sua mente. E Piccolina não soube o que fazer. Não se sentia no direito de matar; não se sentia capaz de viver se o fizesse. Queria viver, mas com o homem. Queria-o, fosse de que forma lhe pudesse ser concedida. Pediu então a ele que a abraçasse, e abraçada com ele adormeceu. Se fosse para morrer, pelo menos morreria num abraço quente e agradável.

No dia seguinte, acordou. Estava viva, portanto; foi a primeira coisa que lhe ocorreu; procurou o homem, e ele estava ao seu lado, e igualmente vivo. Mas feito agora de carne.

Ela havia lhe dado mais do que desejo. Dera-lhe confiança. E amor. Isso seria o bastante para dois.

(Para ela, é claro.)

Era uma vez (6): Um conto de Natal

(Reciclagem: esse é de 2006, originalmente postado no extinto Saturnália)

Era uma vez uma frondosa mangueira que ficava bem no meio da praça central de uma cidade. Todos os moradores de lá tinham orgulho dela, pois haviam crescido vendo seus ramos darem sombra nos dias quentes e também as mais deliciosas mangas.

Um dia, e era véspera de Natal, a árvore viu algo muito estranho na cidade. Bem, você vai me perguntar como uma árvore pode ver se ela não tem olhos; e eu respondo: quem disse a você que não? Eles podem muito bem estar escondidos. Portanto, da próxima vez que estiver perto de uma árvore, principalmente se for uma mangueira, procure bem. E de qualquer forma isso não vem ao caso, porque saber ver é muito mais importante do que ter olhos.

Então, como eu dizia, a árvore viu uma movimentação estranha. E percebeu, olhando através das janelas, que todas as famílias enfeitavam outras árvores — árvores que, veja só!, estavam dentro das casas. Curiosa, perguntou a um passarinho que passava por ali o que estava acontecendo.

— São árvores de Natal — disse ele.

— O que é isso? — quis saber a mangueira.

— Ora, você não sabe? Nessa época do ano, para comemorar o Natal, as pessoas enfeitam pinheiros com bolas coloridas, luzes e estrelas. E, no dia de Natal, ele amanhece com um monte de presentes para as crianças.

— E só pinheiros podem ser árvores?

— Bem, acho que sim. Na verdade, não entendo muito disso, mas nunca vi uma árvore de Natal de outro tipo.

A mangueira, que sempre se orgulhara de ser mangueira, mesmo quando a Estação Primeira de Mangueira não ganhava o Carnaval, nesse momento não chegou a desejar ser um pinheiro, mas ficou morrendo de vontade de ser também uma árvore de Natal. Ficou tão triste que chorou, ao seu modo: deixou cair uma folha, e o outono já tinha passado há muito tempo. A folha foi caindo de leve até bater num anjo que dormia junto à sua raiz.

— Nossa! Que horas são? Já devo estar atrasado! — disse ele, acordando de repente.

— Atrasado para quê? — perguntou a mangueira, que, como você já deve ter percebido, era muito curiosa.

— Para o ensaio do coro de Natal dos anjos. Se bem que não sei por que ensaiamos, já que todo ano cantamos as mesmas músicas: “Noite feliz”, “Jesus, alegria dos homens”…

— Puxa! Você, como anjo, deve entender muito de Natal. Será que poderia me ajudar? — pediu a árvore, que lhe revelou seu desejo. O anjo pensou um bocado e disse:

— Ora, eu não posso transformar você numa árvore de Natal. Você vive para dar frutas e sombra e beleza o ano inteiro. Se entrar dentro de uma casa como aqueles pinheiros, depois vai ser guardada num armário o resto do ano — explicou.

A árvore entendeu. Mas isso não diminuiu a sua tristeza. O anjo cantor, percebendo isso, teve uma idéia. Começou a voar em torno dela, dizendo:

— Mas você é uma árvore de Natal completa! Veja só como seus ramos estão cheios de frutos, que são os mais lindos enfeites! Os seus galhos guardam os risos das crianças que brincaram de se pendurar neles, ressoando como sinos! E no seu tronco estão gravados corações, que brilham com a luz das declarações de amor!

Lembra de quando eu disse que o importante é saber ver? Pois é: a mangueira nunca tinha visto que ela era na verdade uma autêntica árvore de Natal, e o que é melhor: o ano inteiro. Nesse instante, um coro de passarinhos se reuniu sobre a sua copa, numa cantata cheia de alegria. E, no dia seguinte, todas as crianças foram para a praça com seus brinquedos novos, para brincar ao pé da mangueira de Natal.

Era uma vez (5a): O vaqueiro e o Diabo

(Continuando da semana passada)

O vaqueiro estava desesperado, e sem pensar no que fazia aceitou a proposta.

O Diabo desapareceu de novo numa nuvem preta, e no lugar onde ele estava apareceram vivas as nove reses que tinham caído no barranco, mais a que a onça matou, e mais a que tinha ficado para trás no atoleiro, todas mais bonitas e gordas do que nunca. Ainda por cima apareceu a pele da onça, que o vaqueiro jogou por cima dos ombros antes de seguir viagem.

Levou a boiada toda até seu destino, então tomou sozinho o caminho de volta. O tempo todo matutava como ia fazer, porque o primeiro vivente a lhe saudar quando chegasse na certa ia ser sua filhinha. Por isso mesmo se arrastava pelo caminho, encompridando as léguas, andando sem querer chegar, parando em cada arraial.

Foi numa dessas paradas que o dono de um armazém perguntou ao homem de onde vinha e pra onde ia, e por que tinha aquela cara de desgraçado da vida. Ouviu a história toda da boiada perdida e do trato com o Diabo, e então botou no balcão uma garrafa e um copo.

- Pois então tome dessa pinga. Dizem que ela é tão forte que faz um homem esquecer até do caminho de casa – ofereceu.

O vaqueiro aceitou. Tomou um copo, depois outro, e mais um, e num instante tinha entornado a garrafa inteira, e caiu duro pra trás. Só acordou no dia seguinte, quando o Diabo lhe apareceu outra vez para apressar o retorno.

- Pois olhe, agora eu não posso mais voltar para casa, que não lembro mais onde ela fica – disse o vaqueiro. O Diabo se irritou e respondeu:

- Ah, é? Então vai bater de porta em porta em toda casa que encontrar pelo caminho, e onde lhe abrirem a porta e lhe oferecerem guarida é porque é a sua casa e o primeiro vivente que lhe saudar há de ser meu.

O vaqueiro nunca mais encontrou de novo o caminho de casa. Mas até hoje o Diabo lhe faz bater numa porta toda noite pedindo abrigo. Se um dia alguém bater na sua porta, com uma pele de onça jogada nos ombros, não abra nem lhe saúde, ou senão o Diabo virá atrás para lhe levar.

E cuidado também para nunca tomar daquela cachaça, se quiser encontrar o caminho de casa.

Era uma vez (5): O vaqueiro e o Diabo

No tempo em que Dão Pedro era imperador, havia um vaqueiro que certa vez estava tangendo uma boiada de um canto a outro do sertão. Pois atravessava ele a vau de um rio quando um dos bois se desencaminhou e caiu num atoleiro. Por mais que ele tentasse e empurrasse e puxasse e cutucasse a rês, ela não saía de lá.

O vaqueiro não encontrou jeito e teve que deixar o boi para trás. Então disse:

- Ô, diabo! O que é que eu vou dizer pro meu patrão?

Uma voz que vinha do fundo da terra respondeu:

- Diga que eu livro o boi se me pagar bem.

Mas o boiadeiro, assustado, fez o pelo-sinal e seguiu viagem.

Naquela noite, veio uma onça roubar uma vaca. O vaqueiro, quando viu, armou a espingarda reiúna e atirou. Não acertou a fera, mas assustou. De qualquer jeito, era tarde: a vaca já estava prostrada no chão, ferida de morte pelos dentes da pintada.

- Ô, diabo! O que é que eu vou dizer pro meu patrão? – queixou-se outra vez. E outra vez a resposta veio de debaixo do chão:

- Diga que eu trago de volta a vaca se me pagar bem.

Mas o vaqueiro não deu trela.

No dia seguinte, já faltando pouco para chegar na fazenda, veio o pior. Um boi pisou em falso na beira de um barranco e despencou lá de cima; o que vinha atrás se assustou e debandou a correr, e até o vaqueiro amansar de novo os bichos, já se haviam perdido mais oito que caíram da ribanceira e se quebraram nos pedregulhos lá de baixo.

- Ô, diabo! E agora, o que é que eu vou dizer pro meu patrão? – desesperou-se. Apareceu então uma nuvem preta e do meio dela saiu o Diabo, vestido de grande senhor mas com os pés de cabra aparecendo pra fora das calças. E respondeu:

- Não diga nada que não precisa. Eu trago a boiada toda de volta, se você me der em troca o primeiro vivente que lhe saudar quando você entrar em casa.

E na semana que vem vamos saber se o vaqueiro aceitou.

Era uma vez (4b): O fio de ouro

(Continuando da semana passada)

Nasir tirou do bolso um pequeno pedaço de fio de ouro, que desenrolou diante do olhar atônito do grão-vizir. Este imaginou, imediatamente, que se tratasse de uma parte da encomenda que lhe deveria ter sido entregue.

— Como ousa? Então fui roubado? — vociferou.

— De modo algum — respondeu o ourives. — Mas devo confessar que, quando recebi aquela demanda, quis me certificar de que saberia atende-la a contento. Então, peguei um anel que fora de meu pai, e antes dele de meu avô, e antes dele de meu bisavô, e antes dele do avô de meu avô, e fundi o ouro para fazer este modesto ensaio. Só então passei a trabalhar na pepita que recebi.

Ele enrolou mais uma vez o fio, voltou a guardá-lo no bolso e continuou a contar a sua história:

— Desde então guardo sempre este fio comigo. E lembrei-me dele esta noite, quando me vi sozinho na escuridão do palácio. Como não havia o que fazer, para ajudar a passar o tempo armei um laço e lancei-o no vazio, imaginando como seria capturar um gênio. Para minha grande surpresa, porém, foi exatamente o que aconteceu.

— Fale mais! — exigiu o vizir, arregalando os olhos.

— O gênio tentou resistir, mas apertei o laço com firmeza e mandei que se submetesse em nome de Salomão, que Alá o tenha em sua glória. Só depois de fazê-lo jurar pelos sete céus que me serviria pelo resto de minha vida foi que soltei-o, com ordens de ir aguardar-me em casa. Mal posso esperar, portanto, para ir usufruir do tesouro que conquistei.

— Maravilhoso! Vai então, Nasir, porque eu logo terei também um gênio, ou até mesmo uma hoste deles.

— Ah, poderoso senhor! Lamento, mas não será assim. Pois o gênio, enquanto se debatia no laço, afirmou que era ele o último dos que vagavam livres por este mundo, e todos os seus irmãos já haviam sido capturados.

O grão-vizir, que em tão pouco tempo havia passado da alegria à cólera e depois à euforia, foi tomado pela frustração. Esta, no entanto, também durou pouco, cedendo seu lugar à inveja e à perfídia.

— Ora, Nasir, não há justiça nesse acordo. O gênio não era tesouro meu, portanto não podia entrar na barganha. Sendo assim, proponho uma troca: dê-me o seu cativo, e eu pagarei com uma pepita duas vezes maior do que aquela que lhe entreguei para fazer o fio.

— Ai de mim! — ele respondeu. — De bom grado aceitaria proposta tão generosa, mas não posso dar o gênio de presente, uma vez que ele só serve e só se torna visível àquele que o capturou. O máximo que posso fazer é soltá-lo outra vez neste palácio.

Cego de ambição, o vizir aceitou que assim fosse.

Nasir voltou para casa e de lá vio novamente ao palácio, trazendo o fio de ouro em que pretensamente prendia o gênio. “Eu te liberto”, proclamou, enquanto desfazia o laço diante de seu empolgado cliente.

O ourives recebeu a pepita de ouro, que fez dele um homem rico. Já o vizir expulsou todos de seu palácio e fechou as portas, temendo que alguém capturasse o gênio antes dele, e começou a sua caçada. Se ainda não morreu, está até hoje lançando seus laços no vazio em vão.

Era uma vez (4a): O fio de ouro

(Continuando da semana passada)

Ao ouvir um pedido tão inusitado, o grão-vizir hesitou. O fio de ouro, e com ele a esperança de riquezas sem conta, bem que valia o pedido. Ao mesmo tempo, não queria abrir mão de coisa alguma em seu palácio, até porque também não havia certeza absoluta de que seria capaz de capturar um gênio.

Assim, depois de longos minutos alisando a barba, respondeu:

— Concedido. Volte daqui a três dias.

Nasir agradeceu pela generosidade do cliente e se retirou fazendo mil mesuras e reverências. Três dias depois, conforme fora combinado, dirigiu-se ao palácio, ao anoitecer. Um criado abriu a porta e mandou que entrasse.

Foi uma decepção. Os salões que antes se mostravam forrados de luxuosos tapetes, cortinas, móveis, baixelas, luminárias e diversos outros itens, agora estavam nus. O palácio era um deserto.

— O que é isso? Onde estão os tesouros do grão-vizir? — perguntou.

— Ele mandou que tudo fosse retirado para um depósito na entrada da cidade. Os carregadores levaram três dias para esvaziar tudo. A última arca com os trajes de gala acabou de ser levada — respondeu o criado, enquanto fechava as portas. — Tenha uma boa noite — acrescentou, trancando Nasir no interior do palácio vazio.

Nosso herói sentou-se no chão de mármore. Sentiu-se traído e abandonado, na escuridão dos salões iluminados apenas pelo luar que atravessava as janelas. Apoiou-se numa coluna e adormeceu.

No dia seguinte, acordou com os primeiros raios do sol. E estava de pé, aprumado, quando o vizir entrou à frente dos carregadores que traziam de volta os seus tesouros.

— Então, ourives? Está satisfeito com a barganha?

Nasir abriu o maior sorriso que pôde, deu duas piruetas e uma cambalhota e exclamou:

— Que Alá o abençoe, luz dos povos! Consegui o maior bem que poderia almejar. Volto para casa mais rico do que jamais sonhei.

— O que escolheu, afinal? — perguntou o avarento grão-vizir, já supondo que alguma jóia poderia ter ficado esquecida no palácio. Imaginava as prisões e torturas reservadas para o pobre coitado que fosse responsável pela distração.

E na próxima semana saberemos qual foi a recompensa do ourives.

Era uma vez (4): O fio de ouro

Era uma vez, na cidade de Bagdá, na época do califa Harum al-Rachid, um ourives chamado Nasir. Um dia, ele viu entrar em sua modesta oficina ninguém menos que o grão-vizir.

- Em nome de Alá! – disse o ilustre visitante. Já consultei os melhores ourives de Bagdá, e nenhum deles se considerou capaz da tarefa que lhes encomendei. Será que tu, Nasir, ousarás aceitá-la?

O artesão sequer piscou. Podia não ser o mais afamado entre seus colegas de profissão, mas confiava em suas habilidades. Por isso, mostrando-se muito seguro, respondeu:

- Diga o que deseja, senhor. Eu o farei ou morrerei tentando.

O grão-vizir então depositou sobre o balcão uma barra de ouro do tamanho da sua cabeça.

- Desejo – explicou – que esta barra seja transformada em um fio de ouro, mas que seja tão fino que somente possa ser visto quando brilhar à luz do sol.

- Assim será – prometeu Nasir. – Mas, se não for excesso de impertinência deste humilde trabalhador, posso perguntar para que será usado esse fio tão excelso, a fim de que meus esforços possam ser direcionados ao fim desejado?

O grão-vizir olhou para os lados, certificando-se de que ninguém o ouviria. Aproximou os lábios do ouvido de Nasir e sussurou-lhe:

- Sabe, ó ourives, que segundo os sábios e os alquimistas foi com um fio assim que Salomão capturou e subjugou à sua vontade os gênios que vagavam então pela terra fazendo toda espécie de mal aos filhos de Alá. É minha intenção eu mesmo caçar também um deles para me servir.

Dizendo isso, deu as costas e deixou a oficina. No mesmo instante, Nasir fechou as portas. Trabalhou sozinho durante três dias e três noites, e então dirigiu-se ao palácio.

Informado da chegada de Nasir, o grão-vizir mandou que ele entrasse. Recebeu-o em seu salão, onde o ourives abriu o fardo que trazia e revelou a barra de ouro inteiramente transformada num fio finíssimo, tal como fora encomendado.

- Magnífico! – elogiou o vizir. – Chego a duvidar de que o próprio Salomão, que Alá o tenha em sua glória, jamais haja usado material tão delicado. Diz o teu preço, ourives, e será pago.

O ourives baixou a cabeça e respondeu:

- Tamanho elogio já seria pagamento bastante, para não falar da alegria de trazer satisfação a meu senhor. No entanto, sou obrigado por força das regras da minha profissão a cobrar um preço pelo serviço. O que desejo é pouco, farol da sabedoria: quero apenas passar uma noite em vosso palácio, e ao fim escolher um tesouro para levar comigo.

E na próxima semana saberemos qual foi a resposta do grão-vizir.

Era uma vez (3): Ivan e a Sultana de Orfil

A cidade de Garz vivia em tranqüilidade e opulência, até os dias em que sua calma foi perturbada pela chegada da Armada de Orfil, com todos os seus vasos de guerra. Eles chegaram de surpresa e incendiaram todos os navios ancorados no porto.

Em seguida, um mensageiro foi ao palácio do Governador com uma mensagem da Sultana de Orfil. Ela dizia que, se a cidade não se rendesse em três dias, destruiria cada casa, fonte e jardim, até não restar pedra sobre pedra.

Um sábio, porém, se apresentou ao Governador no dia seguinte e disse que poderia salvar a cidade. Pediu um bote que o levasse à nau-capitânia e, subindo a bordo, desafiou a sultana para uma partida de xadrez. Se ela vencesse, poderia ter Garz sem luta; se perdesse, deveria ir embora com todos os seus navios.

A sultana, que certa vez em Orfil vencera dezoito grandes mestres em partidas simultâneas, aceitou o desafio. E, jogando com as pretas, derrotou o sábio em vinte e dois lances.

Mandou decapitar o desafiante e pendurar sua cabeça no mastro do navio. Em seguida, os arqueiros de Orfil dispararam suas flechas, cobrindo o céu e matando todos que estavam nas ruas naquele momento. Um novo emissário foi enviado, lembrando que o prazo era de dois dias, mas que a sultana estava disposta a enfrentar outro desafiante, se houvesse algum.

No dia seguinte, então, um soldado se apresentou ao Governador prometendo salvar a cidade. Foi levado ao navio da sultana, a quem desafiou para um duelo com espadas. Ela, que fora treinada pelo grande Ieremia Bocskay até que ele admitiu nada mais ter a lhe ensinar, aceitou. E decapitou o espadachim de um só golpe, antes que ele pudesse sequer perceber que estava sendo ferido, mandando em seguida pendurar a cabeça dele junto à do enxadrista.

Os canhões da Armada então dispararam contra Garz, e derrubaram o muro do palácio, e mais uma vez um mensageiro foi enviado mandando que a cidade no dia seguinte se rendesse, já que certamente ninguém mais ousaria desafiar a sultana. E o Governador estava prestes a capitular, mas um menino chamado Ivan aparece, dizendo que tinha a solução.

Todos riram, e não houve sequer quem lhe cedesse um bote. Não desistiu, porém: foi a nado até o navio, subiu a bordo e apostou o destino da cidade num torneio de charadas.

A sultana, que se gabava da vivacidade do seu espírito, aceitou. E, decidindo começar por uma pergunta fácil, disse ao garoto:

— O que está no céu, mas é maior que o céu; está na terra, mas é maior que a terra; está no homem, mas é maior que o homem?

— Deus — respondeu Ivan —, pois está em toda parte e é maior do que tudo. E agora, me responda: quem derrota um exército com apenas dois dedos e um herói com uma mão armada, mas nem com a ajuda de Deus consegue derrotar um menino?

A sultana percebeu que a resposta era ela mesma: com dois dedos movera as peças para vencer um jogo de xadrez, com a espada matara o soldado, mas suacharada sobre Deus fora respondida. Entretanto, se desse a resposta certa, perderia o desafio, pois confessaria ser incapaz de vencer Ivan mesmo com ajuda divina.

Seu orgulho não seria capaz de suportar a confissão; mandou então que Ivan fosse levado de volta à terra, com dois barris cheios de ouro e jóias, e logo depois seu navio levantou âncora, retornando paraOrfil à frente da Armada, para nunca mais perturbar a cidade de Garz.

Ivan tornou-se rico e admirado. E foi Governador, reconstruindo a cidade.

Era uma vez (2a): João das Mortes e os sete mil diamantes

(Continuando daqui)

João das Mortes, que em três dias só havia comido urtigas e espinhos, primeiro pensou em pedir a comida. Mas se fizesse isso perderia os diamantes. Se os escolhesse, porém, mesmo rico, morreria de fome antes de poder gozar a fortuna conquistada com tanto esforço. Então, respondeu:

“Minha senhora, agradeço muito. Mas há dois dias que me empanturro com o que a sua generosidade me concede, enquanto a senhora nada come. Sendo assim, ficarei satisfeito com o que sobrar do seu prato”.

A dona da casa resmungou. Havia muitos e muitos anos que ela renunciara a comer comida de gente, alimentando-se apenas da carne dos incautos que chegavam lá como João e, gananciosos, escolhiam os diamantes para morrer antes de poder gastá-los. Olhou para as batatas, que recusou, com nojo; pegou então uma daspedras e pôs na boca. Incapaz de mastigar, engoliu de uma vez só. Mas engasgou e morreu ali mesmo.

João, vendo que a vampira estava morta, alimentou-se para recuperar as forças, depois pegou o saco de diamantes e foi-se embora o mais rápido que pôde. Tornou-se um homem rico e admirado, até o fim dos seus dias, embora ninguém possa dizer com certeza se foide fato feliz.

Um dia, levou um dos sete mil diamantes para o túmulo do Mau Ladrão, para enefitá-lo, como agradecimento. Mas não achou mais a sepultura. Dizem que ela mudou-se dali para outro cemitério, e de cem em cem anos diz a alguém onde encontrar uma fortuna.

Era uma vez (2): João das Mortes e os sete mil diamantes

Era uma vez um coveiro, que todos conheciam como João das Mortes. Um dia, cuidando do cemitério, ele estava limpando uma tumba tão velha que nem mais se via um nome na lápide, quando ouviu uma voz. Prestando atenção, notou que a voz vinha de baixo da terra, e falava com ele.

Ali estava enterrado o Mau Ladrão, que zombou de Cristo na cruz. Para expiar sua culpa, ele a cada cem anos devia ajudar alguém. E então revelou a João que num lugar muito longe dali vivia uma pobre mulher, que no entanto tinha enterrado em seu terreno um saco com sete mil diamantes.

João agradeceu e pegou a estrada, seguindo as indicações da voz. Depois de muito caminhar, encontrou uma casa conforme a descrição que tinha ouvido, cercada de espinheiros e urtigas. Bateu na porta e se ofereceu para trabalhar ali como jardineiro.

“Sou pobre e não tenho como pagar”, disse a mulher.

“Viverei do que a terra me der”, ele respondeu.

Ela aceitou. E no primeiro dia mandou que João das Mortes limpasse toda a urtiga que havia coberto a frente da casa. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, ficou com a pele toda ardida, mas à noite o terreno estava limpo.

Na hora do jantar, a mulher pegou um punhado da urtiga que havia sido capinada e ofereceu num prato. João aceitou, comeu tudo sem reclamar e dormiu.

No segundo dia, a patroa mandou que João limpasse todos os espinheiros que haviam coberto os fundos da casa. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, ficou com a pele toda arranhada, mas à noite o terreno estava limpo.

Na hora do jantar, ela pegou um punhado dos espinhos que haviam sido arrancados e ofereceu num prato. João aceitou, comeu tudo sem reclamar e dormiu.

No terceiro dia, mandou que João preparasse a terra, para plantar um jardim. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, mas à noite o terreno estava preparado. E, enquanto revolvia o solo, encontrou na frente da casa um bom bocado de tubérculos e raízes — batatas, inhames, carás, cenouras e batatas-doces — que amontoou num canto. E, nos fundos, desenterrou um saco fechado, que deixou junto dos tubérculos.

Na hora do jantar, a mulher cozinhou os vegetais e ofereceu num prato. Depois abriu o saco que havia sido desenterrado, tirou dele um punhado de diamantes e com eles encheu outro prato, dizendo a João, que em três dias só havia comido urtigas e espinhos, que ele devia escolher seu pagamento: o monte de hortaliças ou o saco de pedras preciosas.

E a escolha do coveiro nós ficaremos sabendo na próxima semana.

Era uma vez (1a): A torre de cristal – continuação

(Continuando daqui)

O rapaz, que se chamava Fernando, montou em seu cavalo decidido a buscar o herói predestinado, onde quer que ele estivesse. Nas suas viagens, encontrou uma velhinha à beira da estrada e a ajudou a carregar um feixe de lenha para sua cabana. Contou em seguida o que buscava, e ela lhe disse que numa casa, no meio de uma floresta, viviam três irmãos, e um deles certamente poderia resolver o seu problema.

Ele conseguiu encontrar a casa e contou aos irmãos a história da jovem na torre de cristal. Um dos três, então, disse:

— Eu posso libertar a moça, mas o preço para isso é você me deixar furar seus olhos.

Fernando achou que perder os olhos era um preço pequeno a ser pago, e concordou. Deixou-se cegar e despediu-se do candidato a herói.

O primeiro irmão, seguindo as instruções de Fernando, partiu em seu cavalo. Mas voltou dias depois.

— Fracassei. Consegui escalar a torre, queimando minhas mãos e meus pés no cristal, mas quando cheguei ao topo a jovem não quis abrir a janela — contou.

Um dos que tinham ficado, então, disse a Fernando:

— Eu sei o que deu errado e posso fazer melhor. Mas você terá que me deixar cortar a sua língua.

Fernando achou que perder a língua era um preço pequeno a ser pago, e concordou, para depois se despedir do segundo irmão, que também montou no cavalo e foi procurar a torre. Dias depois, voltou, também desanimado.

— Falhei. Consegui escalar, queimando minhas mãos e meus pés. Bati na janela e a jovem a abriu, mas não quis falar comigo.

O terceiro irmão, então, achou que era sua vez.

— Mas para ter sucesso vou precisar que você me deixe cortar sua cabeça — disse ele a Fernando.

Era um prçeo alto, mas Fernando aceitou. E deitou o pescoço no cepo para ser decapitado. O terceiro irmão cortou-lhe a cabeça, guardou-a num saco e montou no cavalo.

Chegando à cidade, ele apeou junto à torre. E a escalou sem dificuldade, chegando rapidamente até o topo. Tocou a janela e ela se abriu. E então jogou no seu interior a cabeça de Fernando, dizendo à jovem:

— Este é o seu libertador.

Ela argumentou que Fernando era dali mesmo, daquela cidade.

— Mas você não é — respondeu o moço. — Você é de uma torre distante de todo o mundo. Por isso não envelhece e sua beleza nunca termina. Só será livre se aceitar a vida, o tempo e a morte.

E, dizendo isso, desceu, para montar no cavalo e voltar para sua casa. A moça, depois de muito pensar, desceu as longas escadarias que havia dentro da torre e pela primeira vez saiu dela, pondo os pés na cidade. Foi alegre e triste, jovem e velha, bela e feia, feliz e infeliz, por muitos e muitos anos, até morrer e ser enterrada junto da cabeça mutilada de Fernando, que guardou consigo até o último dia da sua vida.

Era uma vez (1): A torre de cristal

Era uma vez uma cidade onde havia uma alta torre de cristal. Não havia portas e nem entrada alguma, a não ser uma janela quase no topo, que só se abria uma vez por ano. Uma bela moça então mostrava o rosto, sempre chorando, e dizia:

— Ai de mim, porque o jovem que vai me libertar ainda não nasceu.

Fechava então a janela, e todos choravam por ela. E esperavam ansiosamente o nascimento do seu libertador.

Houve uma ocasião, porém, em que ela, ainda chorando, disse:

— Ai de mim, porque o jovem que vai me libertar já nasceu, mas vive numa terra muito distante.

Os habitantes da cidade, então, organizaram grupos de busca que partiram em todas as direções, procurando os meninos que haviam nascido naquele ano. Convidaram muitas famílias estrangeiras a se mudarem para perto da torre de cristal, e chegaram a seqüestrar algumas crianças cujos pais não aceitavam a idéia.

Ainda assim, a cada ano a janela se abria e a donzela repetia seu lamento. E os meninos rejeitados eram enviados de volta para as suas terras. Novos emissários procuravam mais candidatos, mas todos os anos a frase se repetia:

— Ai de mim, porque o jovem que vai me libertar já nasceu, mas vive numa terra muito distante.

Dezesseis anos depois, as esperanças já haviam definhado e morrido, ao contrário da prisioneira, que permanecia bela e jovem como sempre fora. Foi quando um rapaz, nascido naquela cidade, resolveu fazer alguma coisa. Na semana que vem eu conto o que aconteceu.