Tatuou sobre o seu rosto o rosto de outra pessoa. E ficou tão igual que não sabia mais quem era.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Terça-feira, 6/10/2009 • 09:10 0
Tatuou sobre o seu rosto o rosto de outra pessoa. E ficou tão igual que não sabia mais quem era.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 17/9/2009 • 22:09 0
Das mãos de Han Su saíram as mais finas e delicadas peças de seda já vistas em todos os tempos.
Eram tão leves e macias que escorregavam entre os dedos. Por isso a imperatriz Guang Xi decidiu que o Trono deveria ter os produtos de Han Su com exclusividade. As sedas saíam da tecelagem do artesão diretamente para o vestuário dos concubinos da imperatriz. Diz a lenda que ela precisava apenas olhar para eles para fazer a seda deslizar e deixar seus corpos nus¹.
Mas Han Su ainda não estava satisfeito. E se aperfeiçoou de tal modo que teceu uma seda tão delicada que ninguém conseguia segurá-la. Ela simplesmente deslizava como água entre os dedos².
A imperatriz mandou que Han Su voltasse a produzir sedas não-tão-perfeitas, mas ele se mostrou incapaz de regredir. Preferiu o suicídio.
²Andersen atribuiu a ideia original de seu conto “A roupa nova do imperador” ao príncipe espanhol Don Juan Manoel (1277-1347). Contudo, a lenda espanhola já era influenciada por relatos de viajantes sobre a seda intocável de Han Su.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Segunda-feira, 24/8/2009 • 19:08 1
Continua escrevendo cartas aos jornais, diariamente. Cartas, mesmo: escritas à mão, com sua caligrafia estudada, colocadas em envelopes e enviadas pelos Correios. Os principais alvos de suas críticas, porém, há muito deixaram de ser os políticos e a degradação da moral. Hoje em dia, dirige sua bile contra os outros leitores. Com variações em torno disto:
Sr. Redator
Mais uma vez, a seção de cartas de vosso prestigioso matutino foi tomada, na edição desta segunda-feira, por mensagens enviadas por e-mail. Homessa! Achava eu que a seção era destinada a cartas, como esta que ora tendes em mãos.
Os parágrafos seguintes em regra criticam a forma irrefletida com que os leitores comentam os assuntos do dia, sem o raciocínio e o aprofundamento que só um missivista à antiga pode atingir nas suas cartas.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 13/8/2009 • 21:08 1
Gumercindo sabota diligentemente os arqueólogos do futuro. Retira objetos dos lugares onde deveriam estar e esconde-os em outra parte, onde só serão descobertos daqui a séculos, ou mesmo milênios. Por exemplo, já guardou pistolas sob o piso de igrejas, línguas-de-sogra em cemitérios e bolas de gude numa fábrica de autopeças.
Sua esperança é de que um dia as pistas falsas levem a conclusões inteiramente disparatadas sobre o modo de vida dos seres humanos do século XXI. Sua motivação é a certeza de que integra uma confraria antquíssima, e que tudo o que supomos saber a respeito dos nossos ancestrais foi deduzido de farsas montadas ao longo da História por sabotadores como ele.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 30/7/2009 • 08:07 0
Começou usando o tarô de Marselha. Estudou com afinco os arcanos maiores e menores, decifrou os complexos símbolos das ilustrações. Atingiu um nível de compreensão tal que, quando punha as cartas, era como se estivesse assistindo a uma narrativa sendo representadapor 78 atores mudos (porém altamente expressivos) diante de seus olhos.
Passou a consultar outros tarôs. O egípcio, o de Crowley, o de Rider-Waite, o italiano, o de Etteilla, o da Aurora Dourada. Até mesmo o baralho cigano. E concluiu que o resultado era o mesmo, bastando que conhecesse as cartas o suficiente para deixar que elas lhe contassem uma história.
Hoje, lê o futuro usando Super Trunfo.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Sexta-Feira, 17/7/2009 • 08:07 0
Preocupa-se muito com a higiene das estátuas.
Não sai de casa sem um frasco de desodorante na bolsa. Aplica o spray nas axilas de todo general, maestro ou político de bronze que encontra nas praças por onde anda.
Dedica especial atenção ao monumento a Oswaldo Diniz de Magalhães, na Praça Saens Peña. Abomina os bustos, por motivos óbvios.
Acredita que os pombos só se acumulam em torno de estátuas malcheirosas, como fazem as moscas com as pessoas de carne e osso.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Sexta-Feira, 12/6/2009 • 23:06 0
Foram muitos anos operando uma mesa de edição. Impossível contar quantas horas avançando e recuando fitas de vídeo, localizando o ponto exato do corte. Um dia, Severiano estava trabalhando quando percebeu que conseguia compreender as palavras ditas pelo entrevistado, mesmo em fast-forward.
Achou que deveria ser impressão sua. Afinal, já tinha ouvido aquele trecho da gravação antes, provavelmente estava apenas recordando. Mas pegou uma entrevista nova e viu que era verdade. O som acelerado era tão nítido para os seus ouvidos quanto uma pessoa falando.
Passou a assistir a filmes sempre na velocidade mais alta do aparelho de DVD. Tirou do porão o velho toca-discos e começou a ouvir (em 78 rotações por minuto) os seus LPs. Tudo não apenas fazia sentido, mas parecia até mais agradável que do jeito normal.
Desde então, começou a se queixar cada vez mais da falta de conteúdo nas músicas e nos filmes. Todos só ficam engambelando e enchendo o tempo com bobagens, reclama. Aliás, já acredita que isso acontece também quando outras pessoas conversam com ele.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Segunda-feira, 1/6/2009 • 20:06 0
Assiste apenas aos canais de compras da TV por assinatura. Sem som.
Anos atrás, via os programas dos canais japonês e árabe, inventando traduções. Gostou da diversão e passou a tirar o som dos outros programas, para criar suas próprias histórias sobre as imagens que apareciam na tela. Em breve chegou à conclusão de que o melhor material estava nos intermináveis comerciais de jóias, eletrodomésticos e aparelhos de ginástica.
A canastrice do elenco apenas aumenta a sua motivação.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 21/5/2009 • 15:05 0
Chegou a Brasília na sua fundação, chamado para trabalhar num Ministério. Hospedou-se num dos hotéis recém-inaugurados da nova capital federal, já que não pretendia passar muito tempo naquele trabalho.
De fato, não chegou a fazer carreira no Ministério. Dali passou para uma autarquia, e em seguida para uma estatal, na qual trabalhou por muitos anos. Trocou a estatal por uma assessoria parlamentar, que acabou levando a um emprego na gráfica do Senado.
Chegou a tentar a iniciativa privada, com relativo sucesso, num grande empreendimento no Distrito Federal. Saiu por não compactuar com certas práticas (em todo esse período, diga-se de passagem, jamais cometeu qualquer deslize). Atualmente trabalha por conta própria, comno lobista, atendendo a diversos clientes.
Mora no mesmo quarto do mesmo hotel onde se hospedou quando chegou a Brasília. Porque, afinal, está na cidade apenas de passagem, não é um lugar para se morar.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Segunda-feira, 18/5/2009 • 20:05 0
Coleciona efêmeros.
Entre as peças cuidadosamente guardadas e catalogadas encontram-se bolhas de sabão, castelos de areia, anéis de fumaça, uma chama, castelos de cartas e duas paixões de adolescente.
A inspiração para iniciar uma coleção tão bizarra surgiu, fugaz, num fim de tarde de outono. Ismênia agarrou-a e começou ali mesmo a sua carreira de colecionadora.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 7/5/2009 • 20:05 1
Nos seus tempos de católico, jamais pediu graças a Santo Antônio, Santo Expedito ou Santa Edviges. Seguia a tese de que é melhor buscar a ajuda dos santos menos populares, aqueles a quem ninguém jamais acende uma vela, e que se comoveriam mais com suas preces. Assim, recorria frequentemente a Santa Anísia, São Nepociano ou São Guevrock.
Mais tarde, passou a rezar apenas para os que ainda estavam em processo de canonização, e precisavam de milagres para serem levados aos altares. Consultava periodicamente L’Osservatore Romano para estar sempre atualizado com os candidatos a santo.
O último passo foi radical, porém previsível: a apostasia. Abandonou a religião católica e passou a cultuar os deuses esquecidos da Antiguidade. Quanto mais obscuro, melhor. E passou a dirigir seus pedidos a Adsalluta, Drunemeton, Borvo, Resheph e Huitizilopochtli.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 30/4/2009 • 07:04 0
Nasceu mudo, devido a uma má-foração nas cordas vocais. Isso não o impediu de se dedicar à maior das suas paixões: a política.
Aprendeu a linguagem de sinais. Mas aprendeu também algo mais importante: que precisava se comunicar com todos os eleitores. Então desenvolveu sua própria técnica de discursar por mímica.
Foi tão bem sucedido que a maioria das pessoas sequer percebia sua mudez. Ao fim dos comícios, era sempre cumprimentado pela oratória eloquente, pela clareza com que expunha suas propostas e pela credibilidade do seu discurso. Elegeu-se vereador, depois deputado por quatro mandatos consecutivos.
Abandonou a tribuna decepcionado com o baixo nível dos debates parlamentares.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 16/4/2009 • 19:04 1
Não traz a pessoa amada em três dias, como prometem as concorrentes. Mas garante mandar embora aquele(a) chato(a) em 24 horas.
(Nossa, essa foi tão curta que caberia no Twitter.)
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quarta-feira, 15/4/2009 • 15:04 1
No início dos anos 90, especializou-se em design de bandeiras. Parecia uma profissão de futuro, com a queda do bloco soviético e a onda de nacionalismo fizeram novos Estados pipocarem no Leste Europeu e na Ásia Menor. Ganhou alguns concursos e logo conseguiu contratos para criar as bandeiras de países como a Malvânia, a Nerkázia e o Endroquistão.
Contudo, a onda durou pouco. E logo a bolha do design de bandeiras estourou, deixando Renan sem emprego. Tentou sobreviver atendendo a partidos políticos e outros clientes, mas não conseguia se realizar pessoal nem profissionalmente.
Decidiu então que, se não havia novos países, ele os criaria. Tornou-se um guerrilheiro sem pátria, uma espécie de Che mercenário armado de fuzis e lápis, lutando pela independência onde quer que houvesse um povo a emancipar e uma bandeira a ser criada. Foi visto pela última vez no litoral da Somália.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quarta-feira, 25/3/2009 • 20:03 0
Deprimido com o desemprego, diante de uma crise que não oferecia boas perspectivas, optou pelo suicídio. Em parte como vingança, porém, resolveu usar a sua decisão de forma a aproveitar ao máximo o tempo de vida que lhe restava. E ofereceu sua causa mortis em leilão na internet.
As regras eram simples: o comprador ganhava o direito de assistir ao suicídio, que aconteceria na forma combinada, um ano depois de fechado o negócio. O valor teria que ser suficiente para sustentar Damien até a data marcada, além, naturalmente, das despesas operacionais que fossem necessárias – armas, venenos, o que mais fosse acertado.
O leilão, porém, foi mais bem sucedido do que se previa. E começaram a oferecer compradores oferecendo não só valores maiores mas também prazos de entrega mais amplos – dois, três, cinco anos de sobrevida. Começou a exigir dos interessados um depósito inicial para poder manter-se vivo enquanto não bate o martelo.
Atualmente, está com o suicídio marcado para 17 de outubro de 2017, numa arena de felinos selvagens em Kinshasa. Até lá, mora numa suíte no Marriott. Mas está aberto a novos lances.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Terça-feira, 17/3/2009 • 21:03 0
Na juventude, militou pela democracia e principalmente contra a corrida armamentista. A paz mundial tornou-se, mais do que um sonho, uma obsessão. Participou de todas as campanhas e mobilizações contra guerras onde quer que elas existissem.
Então concluiu que seu trabalho era inútil.
Guerras existem porque são lucrativas. E quem mais lucra com elas são os traficantes de armas. Foi por isso que Bojana, hoje conhecida como “Senhora Uzi”, decidiu tornar-se a maior deles.
Usou de todas as estratégias válidas ou não. Uniu a competência de mulher de negócios à paixão de militante, criou quase tantos inimigos quanto destruiu, e hoje é a maior traficante de armas do planeta.
Não é o bastante. Só vai descansar quando obtiver o monopólio global. E então, finalmente, poderá realizar o sonho de acabar de uma só vez com todas as guerras.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 5/3/2009 • 22:03 0
Todos os dias, senta-se na cadeira junto à janela e fica olhando para o leste. “É para ver o mar”, explica a quem pergunta. O mar está a centenas de quilômetros, as pessoas respondiam no início, quando ainda tentavam entender. “Não faz mal’, eu sei que está lá”, era a justificativa.
Recentemente, Etelvina veio ao Rio de Janeiro, pela primeira vez na vida, para ver o bisneto. Tentaram levá-la a Copacabana. Não quis: “Na minha idade, prefiro não sofrer decepção”.
Voltou para siua cidade e retomou o hábito de passar as tardes olhando para o mar distante. O mar que ela, e só ela, conhece.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Terça-feira, 3/2/2009 • 06:02 0
A placa na porta diz apenas “Dra. Noêmia Sanches, Psicóloga”. Poderia acrescentar a sua especialidade — Psicologia angelical.
Há anos Noêmia vem recebendo anjos em seu consultório. Trata as depressões de anjos da guarda, as paranóias de querubins e as neuroses de arcanjos. Trafega por uma ampla variedade de métodos e escolas, porém aprendeu com a experiência que abordagens freudianas tradicionais raramente dão resultado. Nenhum de seus pacientes jamais demonstrou resquícios do Complexo de Édipo.
Nunca revelou quanto cobra.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Segunda-feira, 5/1/2009 • 06:01 0
Foi no cemitério de Inhaúma, como residente, que iniciou a sua carreira de redator de epitáfios. O reconhecimento ao seu talento não demorou. Os agradecimentos comovidos viraram elogios, os elogios deram origem às recomendações, as recomendações criaram fama. Logo era convidado para trabalhos no Caju, no São João Batista, no Jardim da Saudade. Foi a São Paulo, São Luís, Manaus. Chegou a exercer sua arte em Lisboa.
Não era para menos. Suas frases lapidares (e entenda-se o adjetivo tanto no sentido figurado quanto no literal) exprimiam aquilo que viúvos e órfãos queriam dizer mas a emoção não permitia expressar em palavras. Sucinto, sempre, como convém a um poeta da pedra, mas sempre dizendo todo o necessário. Seus textos eram quase hai-kais fúnebres.
Certa vez, quando um homem foi morto em mais uma escaramuça de uma longa rixa entre duas famílias, temia-se por uma carnificina no enterro. Os parentes estavam sedentos de vingança. Os rivais foram ao cemitério prontos para o conflito. Mas a leitura da lápide escrita por Marcílio bastou para reconciliar os inimigos, que saíram dali abraçados.
Sua candidatura à Academia foi recusada, sob o pretexto de que jamais publicara um livro. “Minhas obras permanecerão eternamente gravadas”, respondeu, desdenhoso. Em represália, nunca mais escreveu o epitáfio de um imortal.
Chegou a ficar rico graças ao seu trabalho. Seu testamento dispõe que toda a fortuna irá para o autor do seu epitáfio, a ser escolhido num concurso.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Terça-feira, 30/9/2008 • 06:09 1
Ganha a vida como eliminador de pessoas infelizes.
Desde que o Índice de Felicidade per Capita (IFC) passou a ser decisivo para determinar o progresso de uma nação, desbancando indicadores como renda, industrialização e escolaridade, ser infeliz tornou-se praticamente uma ameaça à segurança nacional. Foi assim que Atanahiro ganhou sua profissão. Procura pessoas infelizes, que com seu baixo-astral elevam o risco-país, e elimina uma por uma.
Já cometeu erros. Matou pessoas equlibradas e perfeitamente felizes, que deram o azar de serem entrevistadas num dia de úlcera ou de derrota do seu time de bocha. Hoje, sabe que a análise deve ser mais sutil e precisa.
Atanahiro gosta do seu trabalho. Só teme ficar, algum dia, insatisfeito e infeliz. Porque sabe o que deverá fazer nesse caso. Gasta boa parte do salário com terapia.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Comentários