Arquivo da categoria: Dramatis Personæ

Dramatis Personæ (200): Cordélia

Dizem alguns críticos que ela já não sonha mais como antes. De fato, já vão longe os dias (e especialmente as noites) em que lotava teatros e auditórios, reunindo multidões para vê-la deitar-se numa cama, adormecer e sonhar.

Segundo os mesmos críticos, o problema foi que os sonhos de Cordélia começaram a ficar repetitivos. O da queda no abismo de rabanadas, por exemplo. Embora continue sendo impressionante, já perdeu boa parte do impacto para o público. E os mais jovens parecem não se interessar tanto pela sua arte, agora que novas tecnologias permitem programar sonhos e compartilhá-los online.

A melhor resposta, porém, Cordélia continua dando no palco. Mês passado, por exemplo, teve um pesadelo que todos consideraram um dos três mais aterrorizantes da sua carreira, para dizer o mínimo. Prova de que não está acabada, garantem os fãs: apenas mais cuidadosa, como qualquer artista na maturidade.

Dramatis Personæ (199): O Grande Carelli

Era contorcionista no Grande Circo de Vladivostok.

Um dia dobrou-se tanto que foi encolhendo até desaparecer. E nunca mais foi visto.

Deixou, porém, um recado. Uma espécie de estamento, que só não o é por não ser o de cujo efetivamente um morto. Disse que um dia vai se desdobrar e surgir do nada, como se fosse matéria e antimatéria. Talvez já tenha feito isso em algum quadrante longínquo do universo.

Dramatis Personæ (198): Eriberto, o Moço

Foi o último fundibulário do batalhão dos Jizores.

Era uma tradição. Em qualquer batalha, os Jizores tinham sempre à frente um menino armado de uma funda. Sua missão era inspirar moral aos soldados, disparando sempre o primeiro tiro contra as tropas inimigas. Um tiro simbólico, sempre a uma distância segura e de onde sua pedra sequer seria capaz de causar algum estrago, mas sempre o bastante para provocar gritos de entusiasmo ao lembrar a lenda de Davi e Golias. Atirada a pedra, o menino era levado à tenda dos comandantes e o real conflito se iniciava.

Em maio de 1643, porém, um rapaz chamado Eriberto, recrutado entre os faz-tudo do exército como seus antecessores, armou sua funda por ordem do comandante. Estava ainda a girar a correia quando foi atingido pelos estilhaços de um morteiro inimigo e morreu ali mesmo, diante de um pelotão perplexo.

Não houve batalha. O exército inimigo se recolheu e entregou aos Jizores o artilheiro assassino, cujo nome foi relegado ao esquecimento. E a funda foi definitivamente abandonada.

Alguns historiadores consideram a morte de Eriberto o marco de nascimento da guerra moderna.

Dramatis Personæ (197): Ecnodes

Passa as noites vasculhando o céu com a ajuda do seu telescópio, procurando por sinais de vida inteligente no espaço sideral.

Somente uma vez chegou próximo de obter sucesso. Captou sinais vindos de uma galáxia distante, de um pequeno planeta azul, sem saber que ele é chamado de “Terra” por seus habitantes. Mas um rápido cálculo, com base no conteúdo da mensagem, permitiu-lhe verificar que a civilização que a emitiu já terá deixado de existir quando sua resposta chegar, e portanto sequer se deu ao trabalho de tentar.

Dramatis Personæ (196): Laurinda

Como tantas velhinhas solitárias e um tanto loucas, começou a acumular gatos. A diferença é que os seus são imaginários.

De início, preocupava-se com o fato de os potinhos de comida espalhados pela casa nunca se esvaziarem. Depois passou a simplesmente trocar a ração velha por outra mais nova regularmente.

Suspeita-se que os bichanos imaginários sejam na verdade fantasma de gatos que morreram no bairro. Houve até mesmo uma acusação de que Laurinda teria envenenado Asmodeu, o persa preto da vizinha, apenas para aumentar sua coleção. É claro que ninguém acreditou que a bondosa senhora fosse capaz disso.

Dramatis Personæ (195): Fantasma de Corniach

Durante séculos, as aparições fantasmagóricas de Corniach foram um mistério. Especialistas em eventos paranormais, tanto da própria Escócia quanto da Inglaterra e até da Irlanda, não compreendiam como, a cada vez que um fantasma era exorcizado, outro aparecia em seu lugar para assombrar as torres e os corredores do castelo.

Era verdade que, na maioria dos casos, os fantasmas de Corniach eram benignos.E, descobrindo-se o que prendia aquelas almas no nosso plano de existência, era quase sempre relativamente simples mandá-las para o além. Mas sempre surgia outra. Algumas almas penadas mais simpáticas eram até mantidas como parte da família, por medo de que um obsessor maligno as sucedesse.

Foi só recentemente, após uma série de estudos comparativos entre todos os fantasmas catalogados, que descobriu-se que todos eram na verdade o mesmo. Um fantasma esquizofrênico, que repetidamente inventava histórias sobre si mesmo e suas maldições. Atualmente, ele diz que é uma criada que foi maltratada pelos senhores de Corniach no século XIV e que seu corpo, enterrado entre as paredes do porão, aguarda uma sepultura cristã para que possa repousar em paz. Ninguém lhe dá ouvidos.

Dramatis Personæ (194): Dóris

Trabalha com extermínio de pragas. No entanto, não usa venenos,. armadilhas, raios sônicos ou outras técnicas adotadas pela concorrência. Chegou a experimentar com o controle biológico, mas desistiu.

Em vez disso, optou pela abordagem psicológica. Conversar com clientes é a sua principal ferramenta. Aos poucos, mostra que os animais indesejados não são o problema, e sim a forma como a pessoa reage a eles. Nem sempre é possível resolver com apenas uma sessão, mas depois das doses de reforço fica claro que é possível não apenas aceitar mas conviver harmoniosamente com baratas, ratos, formigas e cupins.