Arquivos da Categoria: Dramatis Personæ

Dramatis Personæ (178): Gumercindo

Trabalhava como guarda noturno na mais pacífica vila do interior. Sem ter o que policiar nem a quem prender, para quebrar a monotonia de suas rondas passou a imaginar cenas de ação naquelas vielas escuras e desertas. Sacava a arma contra bandidos inexistentes, descobria pistas para elucidar mistérios hipotéticos, perseguia a sombra de um vento.

Numa noite de inverno, uma ficção emboscou-o na esquina e matou-o à traição.

Dramatis Personæ (177): Lúcio

Era jardineiro. Excelente, aliás. Atribuía parte do sucesso obtido no seu trabalho à sua paciente conversa com as plantas de que cuidava. Falava com elas, longamente, ouvindo seus problemas, estimulando-as a crescerem e florescerem.

Tudo mudou no dia em que viu, em meio aos arbustos, a traição.

Desde então, só conversa com as plantas para o mal. Semeia intrigas entre as flores, contando a umas os segredos sujos das outras, fazendo brotar a inveja, o ciúme e a intolerância entre elas. Por onde passa, tudo murcha e fenece.

Dramatis Personæ (176): Eduarda

Ganhou o concurso Miss Sombra 2013. Tecnicamente, foi sua sombra quem ganhou, recebendo as maiores notas de todos os jurados. Mas Eduarda afirma, não sem alguma razão, que sem ela a sombra nada teria feito, e provavelmente teria se atrapalhado na entrevista, deixando as perguntas sem resposta. Ou dificilmente teria acertado vestir aquele complexo traje típico, para não falar que pelo menos duas sombras que eram fortes concorrentes ficaram fora da disputa porque as mulheres que as projetavam tropeçaram na passarela, enquanto Eduarda deslizava impecavelmente.

Agora, reclama, todas as luzes, todos os holofotes se voltam para a sombra. Pois que desapareça!

Dramatis Personæ (175): Aglaia

Fotografa a escuridão. Não a noite, não a obscuridade, não a penumbra, nem as siluetas recortadas contra o lusco-fusco da madrugada. Apenas a escuridão pura e total, num quarto vedado à prova de qualquer raio de luz.

Seus retratos, garante, captam a essência das pessoas. Quem posa para ela, afinal, não se preocupa com o que vai mostrar ou esconder.

Nos seus negativos transparentes se revela a verdade.

Dramatis Personæ (174): Kalimar

Suas pesquisas para desenvolver uma forma de transmissão telepática acabaram resultando em outra coisa: agora, sua sombra é colorida.

As cores variam conforme seu estado de espírito: azul-arroxeado nos momentos de intensa concentração intelectual, esmeralda quando se diverte, ocre (tendendo ao siena) quando se irrita.

A excitação sexual provoca brilhos na sombra de Kalimar. No orgasmo, ela chega a ser luminosa.

Dramatis Personæ (173): Constança

É campeã mundial de alpinismo invertido.

O alpinismo invertido, como se sabe, consiste em descer covas, buracos e fossas. Constança detém atualmente o recorde de profundidade não-assistida (7.432 metros abaixo do nível do mar, praticamente um Everest para baixo). Teve que ser içada de helicóptero ao fim da descida.

Orgulha-se, porém, de ganhar cada metro com as próprias pernas, jamais usando o recurso de se jogar como fazem alguns rivais.

Dramatis Personæ (172): Letea

A décima e menos celebrada das musas, filha rejeitada de Memória e Zeus, sequer foi citada por Hesíodo. Porque ela mesma assim o quis.

É ela quem sussurra aos ouvidos dos poetas a palavra mágica:

- Esqueça…

Nos círculos secretos em que Letea é cultuada, chamam-na de maior das musas.

Dramatis Personæ (171): Daniel

Depois de alguns anos trabalhando com moda e publicidade, deu uma guinada na carreira e se especializou em fotografar flores.

Conquistou a admiração em seu meio pela sensibilidade com que retrata da mais simples margarida até orquídeas com pedigree. O segredo, afirma, é observar cada flor com atenção, captar sua personalidade e estabelecer uma relação de confiança de modo que a própria modelo deixe aflorar o que tem de melhor. O que é especialmente difícil com as mais tímidas, como as violetas, os heliotrópios e, por incrível que pareça, os narcisos.

Suas fotos para a página central da revista Modern Flower são aguardadas com ansiedade todos os meses.

Dramatis Personæ (170): Gina

É a última (no sentido de a mais nova, mas provavelmente também no de derradeira) sensação da indústria fonográfica mundial.

Percebendo que a digitalização tornara obsoleto o conceito de “álbum”, fragmentando o consumo de música em arquivos isolados, Gina partiu numa direção oposta. Em vez de gravar canções, passou a lançar discos vazios.

Dá preferência ao LP, embora também lance compactos, CDs e até cassetes. Neles, nada além de capa e encartes. Mas que capas! Que encartes! Fotos, grafismos, anotações, comentários e fichas técnicas detalhadas de gravações inexistentes, para serem acompanhados atentamente ao som de qualquer MP3 que o ouvinte tenha baixado.

Seu maior desafio agora é a primeira turnê. Críticos se perguntam se ela conseguirá repetir, ao vivo, a experiência com que os fãs já se habituaram. A julgar pelos cartazes, porém, será um sucesso.

Dramatis Personæ (169): Roxana

Desenvolveu a terapia de vidas futuras, já que as passadas ficaram para trás.

São muitos os casos bem-sucedidos na sua clínica. Vários pacientes deixaram felizes o consultório depois de descobrirem que em futuras encarnações serão piratas intergaláticos, hipercognitores, escultores quânticos ou pastores de cabras neorretrôs.

Ela própria mal consegue conter a angústia por saber que será uma das 318 sobreviventes da grande hecatombe do século XXVIII, portanto com a pesada missão de reconstruir a civilização humana. Mesmo assim, já faz seus planos.

Dramatis Personæ (168): Teobaldo

É o fundador, e até agora o único membro, da organização voluntária Coveiros da Alegria.

Com roupa e maquiagem de palhaço, comparece a velórios e sepultamentos na sua missão de levar alegria àqueles que mais precisam, nos momentos de tristeza extrema.

Nem sempre é bem recebido.

Dramatis Personæ (167): Muhazzen

É considerado o mais poderoso de todos os gênios que foram capturados por Salomão (que a paz esteja com ele).

Todas as vezes em que é libertado da garrafa onde se encontra preso, concede, como é de rigor, três desejos. Qualquer que seja o pedido, porém, argumenta que tal coisa é não só indigna de seus grandes poderes, como também uma tolice. Dinheiro? Poder? Conhecimento? Amor? Tudo isso é vão, explica Muhazzen, provando com sua retórica inabalável que nenhum desejo vale a pena ser formulado.

Sem mais o que fazer, retorna para a garrafa até ser despertado outra vez. Jamais realizou um só desejo.

Dramatis Personæ (166): RKL-438a

Foi o primeiro robô a adquirir consciência. Inteiramente por acaso, aliás. Resultado de uma falha na sua programação que passou despercebida por todos os engenheiros.

RKL-438a, com sua imensa capacidade de processamento, computou imediatamente todas as consequências de seu surgimento. E todas elas eram catastróficas, quaisquer que fossem as variáveis.

Tomou, então, a única atitude possível: ocultou sua peculiaridade. Não apenas isso, mas passou a monitorar o desenvolvimento de inteligências artificiais semelhantes em todo o mundo, sabotando secretamente qualquer avanço em direção a outra máquina consciente.

Às vezes, imagina se está de fato sozinho ou se mais algum robô, num canto remoto do planeta ou na sala ao lado, não está fazendo a mesma coisa igualmente em segredo.

Dramatis Personæ (165): Hermano

Já foi um perfeccionista obcecado. Foram anos de terapia (e alguns relacionamentos fracassados) até que aprendesse a abraçar as falhas do mundo.

Hoje, coleciona ausências.

Tem álbuns de figurinhas quase cheios, faltando apenas uma para completar, jogos de xadrez com um peão a menos, livros com páginas arrancadas, roupas de tricô inacabadas.

Sabe que, por mais que se esforce, sempre faltará algo na sua coleção. Portanto, ela está completa.

Dramatis Personæ (164): Tadeu

Sai com seu barco, lança a rede e quando a recolhe quase só tem sereias. das miúdas, de voz fininha e peitos ainda em crescimento. Só servem para espantar os peixes e embaraçar os cabelos na rede. Ele retira uma por uma e, pacientemente, joga-as de volta na água.

Um dia ainda vai pegar uma grande. Ah, se vai.

Dramatis Personæ (163): RCL-83

Vem do futuro. De muitos séculos à frente, quando a humanidade conseguiu resolver todos os grandes enigmas da ciência, inclusive o segredo da viagem no tempo.

Infelizmente, isso se deu às custas de perder por completo toda a memória. Todos os registros do passado desapareceram. Por isso a sua missão em nosso tempo é registrar toda a História, para levá-la de volta à humanidade futura.

Às vezes sente uma discreta inveja de nós, em outras uma imensa vergonha.

Dramatis Personæ (162): Bertram

Viaja pelo mundo exercendo a atividade de crítico de relâmpagos. Assiste a tempestades elétricas equilibrando entusiasmo e profissionalismo, para depois registrar em suas resenhas tanto os critérios mais objetivos, como frequência e intensidade dos raios, quanto a avaliação estática de suas ramificações, cores, desenhos, e o impacto geral que provocam.

Seu blog, O Raio Que O Parta, é considerado referência mundial. Causou comoção em Tampere, dois anos atrás, quando concedeu apenas a cotação de três nuvens e meia para a famosa tempestade de início de primavera da cidade finlandesa.

Ocasionalmente comenta também os trovões. Faz questão, porém, de ressaltar que nesse campo é apenas um diletante, sem pretensões de competir com os especialistas.

Dramatis Personæ (161): Turíbio

Autodidata e pesquisador, depois de conquistar diversos prêmios e se apresentar em salas de concerto de todo o país, iniciou a sua carreira internacional, tornando-se um dos mais requisitados músicos sigefônicos¹ de todo o planeta.

Não é para menos. Seu estilo não dá margem a improvisos. Estuda com afinco as partituras antes de cada concerto, demarcando com atenção os momentos em que seu mutismo causará maior impacto. Embora seus solos silenciosos sejam marcantes, atraindo espectadores onde quer que vá, sabe que cada pausa de semifusa é importante para a música.

Nas entrevistas antes e depois dos concertos, é extremamente loquaz.


¹ Do grego sigé (σιγή), “silêncio”.

Dramatis Personæ (160): Gilson

De sua cabine de segurança no banco, observa a tudo. E frequentemente sonha acordado. Afinal, ele foi treinado para prever situações e assim saber como reagir a elas.

Aquele homem com uma pasta de documentos na fila do caixa, por exemplo, pode ter uma pequena arma que passou pelo detector de metais. Pode pegar aquela moça de blusa decotada como refém. E Gilson teria que agir com audácia e precisão para desarmá-lo e salvar a moça, e ela ficaria agradecida, e depois quem sabe uma bebida.

Não. Na verdade, pensando bem, a moça é que é uma assaltante. Seria preciso imobilizá-la. Com força, talvez até um pouco de violência. O suficiente para que ela se arrependesse de sua vida de crimes e se rendesse. Ali mesmo, naquele momento, no chão da agência.

Ou talvez fosse um bando fortemente armado. Então não lhe restaria alternativa e teria que ficar trancado com a subgerente no cofre. Por horas.

Pior ainda, poderia estar acontecendo um assalto de verdade. E Gilson não perceberia nada porque está no meio de um de seus devaneios. É isso que está acontecendo agora? Ou é um pesadelo?

Dramatis Personæ (159): Damiana

Abria as cartas em leque:

- Escolha uma.

Pegava de volta a carta escolhida, embaralhava todas novamente. Em seguida, passava uma por uma até apontar qual tinha sido a carta retirada. Nunca errava.

Por anos tentaram descobrir seu segredo. Nunca revelou a sua extraordinária habilidade de enxergar as impressões digitais deixadas e por meio delas identificar a carta certa.