Arquivos da Categoria: Criptoetimologia

Criptoetimologia (68): Tambor

É cada vez mais desacreditada a hipótese de que a palavra seja originada do árabe ṭanbūr: este, afinal, é um tipo de alaúde, assim como a tambura indiana ou a tamburica espanhola, essas sim suas cognatas.

Tambor, porém, é percussão. Portanto, a história é outra.

O nome surgiu nos porões dos navios, das antigas birremes e trirremes romanas, onde o compasso dos remadores era marcado pelas batidas do contramestre num grande tímpano. A monótona marcação era acompanhada por um canto que reproduzia o som, primeiro da batida da baqueta, depois do couro sendo abafado com a mão: TAM-bor, TAM-bor, TAM-bor. E dessa onomatopeia veio o nome do instrumento.


Este foi o milésimo post do Almanaque. Obrigado por continuar vindo aqui.

Criptoetimologia (67): Elefante

Foi na Segunda Guerra Púnica, no fim do século III AC, que elefantes de guerra foram usados pela primeira vez em território europeu. Aníbal, o Cartaginês, partiu com eles da África, atravessou o Estreito de Gibraltar e adentrou a Península Ibérica, esmagando os exércitos romanos que ousavam enfrentar seus paquidermes.

A linha de frente era efetiva não apenas pela força bruta, mas pelo terror que causava em legionários que jamais haviam visto animais daquele porte. Ille phantasiae (“aqueles fantasmas”), gritavam, apavorados, julgando estarem diante de monstros infernais.

De ille phantasiae saiu illephanta, depois elefanta.

Criptoetimologia (66): Otário

Na Roma Antiga, vendedores ambulantes ou empregados de pequenos comércios recebiam como pagamento a sexta parte (sextavus) do produto de suas vendas. Quem trabalhava neste regime era conhecido como sextarium.

Alguns patrões mais inescrupulosos, aproveitando a chegada de bárbaros de diversas origens a partir do século III, começaram a renegociar o padrão tradicional. Passaram a oferecer não mais um sexto, e sim um oitavo (octavus) dos ganhos. Quem aceitava essa redução era chamado de octarium.

Por extensão, otário passou a ser todo aquele que se deixa enganar numa transação qualquer.

Criptoetimologia (65): Gambiarra

No ano de 1588, em pleno período da União Ibérica, D. Antônio de Portugal (chamado de Prior do Crato) tentou de todas as formas obter o apoio da Inglaterra às suas pretensões sobre o trono português. Prometeu a Isabel I todo tipo de facilidades no comércio com o Brasil e os Açores; ofereceu reforços  para a luta contra a Áustria; finalmente, cedeu os direitos sobre a rota de comércio na região do Rio Gâmbia (aproximadamente, a área onde hoje fica a República da Gâmbia).

A expectativa era de que, em troca de tantos favores, Isabel I ajudasse o nobre português a expulsar Filipe I de Lisboa. Mas Antônio do Crato ficou a ver os navios ingleses partindo e voltando, carregados de mercadorias, e morreu em 1595. Portugal só recuperaria sua autonomia em 1640.

Devido ao fracasso da negociação, o apoio recebido dos ingleses em troca do comércio na Gâmbia foi chamado de “gambiarra”, desde então sinônimo de coisa mal feita.

Criptoetimologia (64): Vedete

A palavra, evidentemente, vem do francês. E sua origem remonta aos tempos áureos do vaudeville. Naquela época, os esquetes de teatro, números circenses e apresentações musicais eram intercalados com atrações mais curtas, geralmente de dança, chamadas em conjunto de variétés et danses. A sigla V.D. virou substantivo, védé, e as dançarinas que se apresentavam nesses interlúdios eram as védettes.

No Brasil, quando o teatro de revista se estabeleceu como gênero, os números de maior sucesso eram justamente os das dançarinas ”vindas diretamente de Paris”, como anunciavam os promotores dos espetáculos. Nem sempre eram realmente francesas¹, mas todas eram védettes.


¹ Manon de la Roche, por exemplo, era na verdade polonesa. Não se sabe qual era o seu verdadeiro nome, e nem se ela o revelou aos seus admiradores, que incluíram vários poetas da Corte e pelo menos um primeiro-ministro.

Criptoetimologia (63): Malandro

Malandro é uma palavra híbrida. Vem do latim malus, “mau” e do grego ἀνδρός (andrós), “homem”. Portanto, “homem mau”, palavra criada nos gabinetes dos acadêmicos inicialmente como sinônimo de vilão, malfeitor, bandido.

Foi com esse sentido que começou a ser usada para designar os marginais que infestavam o porto do Rio de Janeiro no século XVIII: punguistas, vigaristas, salteadores. A convivência com os capoeiristas acabou dando a esses lumpen a ginga e a malícia que acabou se tornando requisito fundamental para ser um verdadeiro malandro.

Malandragem, afinal, acabou sendo, tanto quanto o étimo, algo híbrido: no limite entre a arte e o crime, entre o permitido e o proibido, entre o herói e o vilão.

Criptoetimologia (62): Iogurte

Da próxima vez que alguém lhe oferecer um iogurte grego, recuse e diga que isso é uma redundância. Todo iogurte é grego. Pelo menos no nome.

A história da palavra tem raízes mitológicas e começa com a aventura de Jasão e dos Argonautas em busca do Velocino de Ouro. A missão, na verdade, era um embuste do rei da cidade de Iolco, na Tessália, que esperava com isso causar a morte do herói e assim eliminar o legítimo pretendente à coroa.

Tamanha desonestidade do rei fez que os habitantes de Iolco ficassem conhecidos como mentirosos e trapaceiros. Nada de bom podia vir de lá. A exceção, claro, era o delicioso fermentado de leite produzido na região. Aquilo, diziam os gregos, era a única coisa correta ( ὀρθός, orthos) que vinha de Iolco (Ιωλκός). Ou seja, o Iolco-orthos, que derivou para iocorthos, origem do nosso iogurte.

Criptoetimologia (61): Albergue

Existem pelo menos duas hipóteses plausíveis para a origem da palavra.

A primeira surge da rápida associação de toda palavra portuguesa começada em al (alcachofra, almoxarife, alquimia) com alguma raiz árabe. No caso, com uma contribuição do turco-otomano beg, uma das variações de bei – líder, senhor, chefe de tribo. Assim, al-beg inicialmente era a casa destinada a hospedar o emir ou baronete. Após a expulsão dos árabes da Península Ibérica, a palavra passou a ser usada por qualquer hospedaria que assim quisesse gabar-se de oferecer serviços dignos de um grande senhor.

Outra teoria afirma que a palavra surgiu na Suíça, com as primeiras redes de hospedarias disseminadas por “todas as montanhas” (alle Berge, em alemão), que já ofereciam descontos aos associados desde o século XVIII.

E assim você já sabe como começar o papo com aquela pessoa que você vai conhecer num albergue nas próximas férias. Boa sorte.

Criptoetimologia (60): Orangotango

Em 1602, quando os primeiros navios da Companhia das Índias Orientais chegaram a Sumatra, os marinheiros intrigados perguntaram aos malaios qual era o nome daquele grande símio de pelo alaranjado que vivia no meio das árvores. “Orangoutan”, responderam, e os acadêmicos que acompanhavam a expedição logo perceberam a formação da palavra: era o habitante (“outan”) da floresta (“orang”).

Erraram. A verdadeira origem da palavra estava bem mais próxima deles do que poderiam imaginar.

Em 1595, Cornelis de Houtman (1565-1599) fora o primeiro holandês a chegar à atual Indonésia. Apaixonou-se pelo orangotango, não só pela sua bela cor laranja (em holandês, “orange”) como pelo seu caráter manso (“tam”). E juntou as duas palavras para dar ao animal um nome na sua língua.

Os malaios gostaram tanto do apelido “orangetam” que passaram a adotá-lo, esquecendo rapidamente o nome original do orangotango. E, quando a Companhia das Índias apareceu por ali, anos mais tarde, já depois da morte de Houtman, a corruptela “orangoutan” era a forma dominante na língua corrente.

Criptoetimologia (59): Itabira

A versão oficial é de que o nome da cidade natal de Carlos Drummond de Andrade tem origem indígena: pedra (ita) que brilha (bira). A localidade teria sido batizada por Manoel do Rosário e João Teixeira Ramos, que descobriram ouro de aluvião perto do Córrego da Penha.

A verdade, porém, é outra.

No fim do século XVII, ali já se estabelecera um grupo de peregrinos judeus, que fugiam da Inquisição portuguesa. As montanhas mineiras   fizeram-nos pensar no Tabor, o monte diante do qual, inflamado por Débora, o exército hebreu venceu os cananeus (Juízes, 4). E chamaram o local pelo nome hebraico do Tabor – Itabyriun. Ali pretendiam criar um abrigo e, se preciso, um ponto de resistência.

Quando Ramos e Rosário chegaram à região, já encontraram os colonos judeus. Temendo nova expulsão, e aproveitando a existência de ouro no córrego próximo, eles forjaram a etimologia tupi, que acabou consagrada.

(Ao descobrir a verdadeira origem do nome, o Cônego Raimundo Trindade, primeiro historiador da região, anotou em seu diário que o Tabor foi também o local da Transfiguração de Cristo, segundo os Evangelhos; que “pedra do brilho” também seria uma descrição  correta para a colina na Galiléia; e que, no fim, tudo concorrera para a maior glória do Senhor, não havendo motivo para perseguir os descendentes dos primeiros colonos.)

Criptoetimologia (58): Empacar

 Os cargueiros da Compahia de Navegação Paquet eram de uma regularidade tamanha que, em português, “paquete” se tornou não apenas sinônimo de um tipo de navio mas também um termo coloquial para “menstruação”. E não terminou por aí a contribuição da empresa francesa ao nosso vocabulário.

Sempre que um produto importado estava em falta no mercado carioca, os lojistas da Rua do Ouvidor apressavam-se em garantir aos clientes que a mercadoria já estava a caminho. Estava “en Paquet”, ou seja, a bordo do navio, aguardando a sua liberação pela alfândega.

Aqueles menos íntimos do idioma francês entendiam “enpaqué” e imaginavam que se tratasse de algum termo técnico na língua para se referir a algo que estivesse preso, embaraçado, atrapalhado. E aportuguesaram para “empacado”, derivando facilmente daí o verbo “empacar”.

Criptoetimologia (57): Mercado

De uso raro em português, a palavra cado vem do latim cadus, que era um tipo de ânfora ou vaso. Por extensão, significava o conteúdo do vaso, servindo como medida de capacidade: um cado de trigo, azeite ou vinho, por exemplo.

Nos primórdios do Império Romano, antes que o sestércio se impusesse como moeda oficial, era prática corrente que cidadãos comuns, numa evolução do escambo, pagassem por bens com “vales” que representavam seu compromisso de entregar ao vendedor um cado (no caso, de sal – lembrem-se que salarium era a paga de um trabalhador em sal) para saldar a dívida.

Esse antepassado remoto do cheque dizia que o portador merece (meris) um cado (cadus). A troca secundária entre os meris cadus se tornou o mercadum ou mercatum.

Criptoetimologia (56): Rabiscar

A palavra se origina do latim rabis, que quer dizer “raiva” – portanto, cognata de (anti)-rábico, rábido, rábidez.

O graffiti, como se sabe, era prática muito difundida no Império Romano. As mensagens de cunho político ou erótico, como se vê nas ruínas de Pompéia, certamente desagradavam a muitos. Por isso, era também comum tentar cobrir as inscrições, riscando-se qualquer coisa por cima delas. Como isso era quase sempre uma reação enraivecida, ganhou o nome de rabiscare.

Criptoetimologia (55): Planeta

A Terra era plana, acreditavam os antigos romanos. Portanto, todas as suas representações (o que hoje chamamos de mapa-mundi) eram pequenos planos – planetæ.

Mais tarde, com a revolução no pensamento trazida por Copérnico e Kepler, descobriu-se que a terra era redonda e movia-se como os outros astros, que assim, no latim que era a língua científica da época, passaram a também ser chamados de planetæ, ou seja, planetas.

Criptoetimologia (54): Bergamota

“Tangerina”, como se sabe, quer dizer “oriunda de Tânger”. As frutas vinham do Marrocos e foram chamadas inicialmente de “laranjas tangerinas”. Mas e “bergamota”, como se diz no Rio Grande do Sul?

A hipótese que deriva o nome da expressão turca “beg armúdi” (literalmente “pêra do príncipe”) exige um certo esforço de imaginação: que alguém, algum dia, tenha considerado a tangerina uma espécie de pêra. Um duplo twist carpado etimológico, digamos assim.

A verdade é que quem levou as primeiras tangerinas (vindas do Marrocos, decerto) ao sul do Brasil foram mercadores italianos, em sua maioria da cidade de Bérgamo. “Bergamotos” era como os gaúchos se referiam a esses comerciantes, de forma mezzo afetiva, mezzo pejorativa. E as tangerinas se tornaram bergamotas.

As restrições às importações trazidas pelos italianos, aliás, foram o principal motivo da Revolta da Bergamota, em 1836. Até então, no Rio Grande do Sul eram igualmente usados os dois nomes, “tangerina” e “bergamota”. Este, a partir do conflito, ficou tão associado à fruta que acabou prevalecendo.

Criptoetimologia (53): Relatar

Res, em Latim, é coisa: daí res publica, a coisa pública, a república. E lato quer dizer amplo – palavra que se manteve em Português, de uso praticamente restrito à expressão “sentido lato” mas também presente em palavras como latifúndio.

res lata, a “coisa ampla”, era a descrição que os oficiais do Império Romano deveriam apresentar ao Senado de todas as propriedades, recursos, gastos, conquistas e perdas do Estado a cada ano. Uma espécie de prestação de contas detalhada, diferente do res sumo, resumo, que se limitava aos pontos mais importantes (sumus).

A ação de apresentar a res lata era chamada de re(s)latare, origem de relatar, relato, relatório, relator.

Criptoetimologia (52): Mármore

Quando o almirante romano Catulo naufragou na costa de Ortonovo, próximo da região hoje conhecida como Carrara, e os corpos dos marinheiros foram trazidos pelas ondas até a praia, deu-se sepultura ali mesmo a todos os mortos. Para marcar o lugar, sobre cada cova foi posta uma pedra trazida das proximidades, das grutas de Luni.

Quem via o local admirava-se com o mare moris (mar dos mortos). E maremoris, depois marmoris, ficou sendo o nome das pedras que vinham de Ortonovo.

(Alguns criptoetimólogos defendem a tese de que a palavra vem de Mariæ Mors, Morte de Maria, nome em latim da festa em que algumas das primeiras comunidades cristãs lembravam a morte da Virgem Maria. Com a adoção do dogma da Assunção de Nossa Senhora, foram banidas as pedras de mármore que representavam a sua sepultura e que eram veneradas na comemoração, mas o nome já havia se difundido como sinonimo de lápide funerária e, por extensão, do material de que esta era feita.)

Criptoetimologia (51): Sertão

“No anno de 1674 se descobrio grandíssima Província do Piauhy, que está em altura de dez graos ao Norte alem do Rio de São Francisco, no Continente de Pernambuco, e não muy distante do Maranhão. Tomou o nome de hum Rio assim chamado. He regada dos rios Caninde e Itaim, São Victor, Puti, Longazes, e Piracuruca, que todos por diversas partes concorrem a enriquecer o rio Parnaiba, que com elles opulento sae ao mar na costa do Maranhão. Hum dos primeiros que entrarão por aquellas dilatadas terras foy Domingos Afonço Certão.”

Assim diz o livro terceiro (intitulado “Pernambuco renascido”) dos Anais da Biblioteca Nacional. Domingos Afonso Sertão (com a ortografia corrigida) se associou a Domingos Jorge Velho na bandeira que desbravou o Piauí; tornou-se donatário de grandes sesmarias; deixou em testamento a ordem de que uma missa cantada fosse celebrada por sua alma todas as semanas, “até o fim do mundo”; e seu nome virou o nome de toda aquela vastidão de terras distante do litoral e das grandes cidades.

Criptoetimologia (50): Alfavaca

O criptoetimologista Flávio F. sustenta a hipótese de que a erva aromática Ocimum basilicum, semelhante ao manjericão, é tão apreciada pelos bovinos quanto é rara nas pastagens comuns. Assim sendo, na natureza, só a líder de cada rebanho tem o privilégio de comê-la. Esta líder, por sua vez, é conhecida como a vaca-alfa; e da inversão dos termos surgiu o nome alfavaca.

Criptoetimologia (49): Joelho

O Houaiss ignora que “joelho”, no Rio de Janeiro, é também o nome de um salgado feito de massa de pão, recheado com presunto e queijo. Em São Paulo, é chamado de “bauruzinho” – não confundir com o sanduíche Bauru, do Ponto Chic, cuja história não vem ao caso.

O lanche em questão aqui tem sua origem ligada à extinta Casa Chantal, que nos dias de glória foi frequentada por Rui Barbosa e João do Rio. Hoje, no seu lugar, perto da Praça Tiradentes, existe uma drogaria.

Pois a Casa Chantal foi a primeira a oferecer o quitute, chamado inicialmente de “chantalet de queijo e presunto”. E arrumação dos quitutes na vitrine deixava-o sempre na prateleira logo abaixo da que recebia as coxinhas de galinha.

O poeta Emílio de Menezes, que gostou da novidade e que não deixava passar a oportunidade de um chiste, chamou o salgado de joelho: afinal, era o que estava logo abaixo da coxa. O apelido pegou, a receita se difundiu e hoje o joelho de queijo e presunto é encontrado em qualquer lanchonete do Rio. Menos na Chantal, é claro.