Quinta-feira, 8/10/2009 • 00:10
A palavra vem da língua francesa e, mais precisamente, do vocabulário dos suíços que habitam o cantão de Vaud. Naqueles lados era famoso, desde o século XVIII, o Mercado das Pulgas de Chéseaux. Era o mercado de Bas-du-lac (abaixo do lago), uma referência à posição geográfica da cidade, ao sul do lago Neuchâtel.
No Marché aux puces de Bas-du-lac era possível encontrar de tudo: desde antiguidades preciosas e objetos raros que atraíam mercadores de toda a Europa até tralhas sem valor algum. Mas foram estes que fizeram a fama do mercado. E choses du bas-du-lac passou a ser uma expressão que designava qualquer coleção de objetos aleatórios. Foi com esse sentido que badulaque chegou à língua portuguesa.
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Sábado, 26/9/2009 • 17:09
O verbo latino manducare deu origem ao francês manger e ao italiano mangiare. Em Português, nós preferimos comer, mas também temos o manjar, da mesma raiz latina. E o manjericão.
A erva trazida da Pérsia chegou à América na bagagem de cozinheiros italianos. Embora ela já fosse chamada de basilico (do grego basileus, “rei”, por ser o maior dos temperos), acabou conhecida aqui pela forma como se indicava que servia para mangiare con vários pratos. A corruptela mangerecon pegou com mais facilidade que o nome original. E derivou na forma usada hoje.
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Quarta-feira, 23/9/2009 • 23:09
Pistola era, originalmente, qualquer arma de fogo de cano curto. E o nome significa exatamente isto.
Quando surgiram as primeiras armas leves, menores e mais práticas do que os velhos arcabuzes e mosquetes, chamaram a atenção pelo cano curto. Enquanto o mais longo era chamado de pistão ou pisto, a versão menor ganhou um diminutivo: pistola.
O nome, portanto, designava toda uma classe de armas. Só depois, no século XIX, passou a ser usado apenas para um tipo específico.
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Quarta-feira, 5/8/2009 • 02:08
Ainda hoje se usa a palavra “tratamento” para se referir a cada versão intermediária de uma obra. Assim, um romance passa por vários tratamentos antes de ser considerado pronto para publicação. O mesmo acontece com músicas e outras criações artísticas.
No Renascimento, o “tratto” era o primeiro esboço desenhado por um artista encarregado de pintar este ou aquele nobre. Depois, aquela obra passava por sucessivos “re-trattos”, até aquele que seria considerado o definitivo. O que o artista apresentava, portanto, era o “último re-tratto”. E daí veio “retrato”.
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Terça-feira, 14/7/2009 • 19:07
Quem estudou um mínimo de História Antiga, ou pelo menos leu os álbuns de Asterix, sabe que a instituição do Senado, com todos os seus defeitos, remonta aos tempos do Império Romano. E foi do latim que a palavra chegou ao português e a diversas outras línguas.
O Senado, então, era visto como uma espécie de teatro. Assim como os artistas representavam conflitos no palco, os tribunos representavam os diversos interesses em jogo na política romana. A diferença estava no fato de que o drama era apresentado por seus verdadeiros componentes. era, portanto, um teatro “sem ator” (sin actor). E dessa expressão surgiu o termo senator.
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Quarta-feira, 1/7/2009 • 21:07
Já houve protestos de associações de defesas dos animais contra a fabricação dos cadernos Moleskine, pela suposição errada de que eram feitos de mole skin (pele de toupeira, em inglês). Não são: nem de couro e nem de moleskin, nome de um tecido rústico e resistente, de algodão.
O primeiro Moleskine, na verdade, deve o nome a seu criador, o artesão Andrea Moleschini (1832-1903). Seus cadernos feitos à mão eram os preferidos de escritores como Alfred Jarry e Max Jacob, além de receberem rascunhos de Henri Rivière. Camille Saint-Saëns não chegou a compor num caderno de Moleschini, mas usou diversos deles como diários.
Com a morte do artesão italiano, a produção dos cadernos também se extinguiu. Só décadas mais tarde o nome seria adaptado pela companhia italiana que hoje manufatura os moleskines.
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Cibus, em latim, significava “alimento” ou “pasto”. Em português, deu o verbo cevar e também o substantivo cevada. E também, por engano, percevejo.
A história da palavra começa com o relato bíblico de como São João Batista vivia no deserto, alimentando-se de mel e gafanhotos (ou, mais precisamente, insetos). Daí passamos para o século XV, em Portugal, uma época em que levas de percevejos vindos do norte da África costumavam infestar as plantações. Alguns padres começaram a dizer que aqueles eram os insetos que o santo havia tomado per cibus (“por alimento”). E percebo foi como ele passou a ser chamado pela população.
Como em várias outras palavras da língua, o b acabou virando um v. E depois o sufixo -ejo, diminutivo, terminou de formar percevejo.
Ainda hoje, há aldeias de Portugal onde percevejos são torrados e comidos na festa de São João.
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Terça-feira, 31/3/2009 • 00:03
Do latim tempora, plural de tempus, “tempo” (O tempora! O mores!). Isso é o que qualquer dicionário etimológico de razoável para baixo pode dizer. Mas o que tem uma região da testa a ver com o tempo?
A resposta está nos templos de Jano, o deus romano de duas caras. Antes de abrir as portas da paz ou da guerra, os sacerdotes (que não têm nada a ver com os janízaros, diga-se de passagem) deviam contar até cem. Ao fim da contagem, perguntavam ao imperador se a sua decisão se mantivera ou mudara. Era uma forma, ainda que simbólica, de evitar que uma decisão tão apressada fosse tomada sem reflexão.
Contar até cem rápido ou devagar? A medida era a pulsação da veia temporal, que os sacerdotes sentiam com os dedos pousados sobre a testa. Os pontos da cabeça usados para marcar a passagem dos tempos ganharam então o nome de tempora.
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Sábado, 28/3/2009 • 13:03
Em italiano, a palavra inicialmente designava os mosteiros, conventos e outros edifícios onde viviam os religiosos. Quem fazia o voto de castidade era chamado de “castello”, num tom entre carinhoso e pejorativo.
“Castello” passou a ser o lugar onde viviam os “castelli”, e mais tarde qualquer construção fortificada. E foi já com esse significado que a palavra chegou ao espanhol e ao português.
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Quarta-feira, 21/1/2009 • 18:01
Caius Pallatius Tullus era um senador romano mas ao contrário de outros seus colegas de tribuna não se destacou pela atuação política. Sua fama se deve, em primeiro lugar, à fortuna que acumulou com o comércio de escravos, vinhos e azeite. E, em segundo lugar, ao desejo de ostentação.
Pallatius não se interessava pelos grandes debates no Senado. Usou o cargo apenas para facilitar algumas de suas transações comerciais. E, como forma de demonstrar seu absoluto desdém pela política, mandou construir uma casa maior e mais rica que a do próprio imperador. Era sua forma de dizer que, se desejasse ser César, seria; mas preferia os negócios particulares.
A casa do senador ficou conhecida como o Pallatium. E a ostentação transformou o nome próprio em comum, dando origem à palavra “palácio”.
Quando Nero incendiou Roma, no ano 64, o Pallatium foi completamente destruído, reduzido a cinzas. Aparentemente, o ciúme foi um dos motivos do imperador.
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Terça-feira, 23/9/2008 • 18:09
- Il s’habille bien…
- Et les gants! ¹
O diálogo é do teatro de marionetes francês e sempre acompanhava o personagem Tichou, um mau-caráter de hábito refinado. O povo reconhecia no vilão o retrato da aristocracia corrupta e sempre atenta às aparências, despida de escrúpulos mas que não se descuidava das luvas.
Com o tempo, o bordão “et les gants“, que provocava gargalhadas entre os espectadores, passou a ser usado, a princípio pejorativamente, para indicar que alguém estava sempre bem vestido.
A expressão perdeu o sentido crítico quando foi promovida aos próprios salões que pretendia ridicularizar. E virou “élégant“, que em português deu “elegante”.
¹ — Ele se veste bem…
— E as luvas!
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Quarta-feira, 23/7/2008 • 19:07
A análise é quase… instintiva. O ins significa “dentro”, como em inserir e ínsito. E tinto é a forma sintética de “tingido”, como se diz dos vinhos. Instinto, assim, é o que parece ter sido tingido no âmago do indivíduo.
O antônimo, arcaico, é existinto, ou seja, “pintado por fora”, aquilo que foi adquirido pelo aprendizado e pela experiência. O vocábulo caiu em desuso por causa da confusão com extinto.
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Quarta-feira, 2/7/2008 • 20:07
A anedota que atribui o nome e o prato a John Montagu (1718-1792), o Conde de Sandwich, acabou “pegando” e convencendo a maioria das pessoas. Mas o sanduíche original é francês.
Na Idade Média, o monge São Duílio se destacou por criticar duramente aqueles que não davam nada mais que sobras de pão duro — muitas vezes, bolorento — aos mendicantes. Dizia o santo que não havia virtude em dar apenas o que ninguém quer. Foi ele quem passou a pegar os pães dados aos pobres, cortá-los ao meio e pôr uma fatia de presunto ou rodelas de salame entre as duas metades.
Anos depois da sua morte, o “lanchinho de São Duílio” (Saint Douiche, como era chamado no languedoc) continuou sendo popular. E só decaiu após a Guerra dos Cem Anos, durante a fome que se seguiu ao conflito.
Mas foi justamente a guerra que permitiu a sobrevivência do saint-douiche. Porque os soldados ingleses gostaram da idéia — não tanto a parte de reforçar a merenda dos mendigos, e sim a de rechear o pão. E foi na Inglaterra que o sanduíche chegou aos tempos modernos, já com a grafia devidamente anglicizada.
A pretensa ligação com o Conde de Sandwich nasceu provavelmente nos Estados Unidos, durante a Guerra de Independência. Montagu era o almirante da Armada britânica e, no conflito, ganhou fama de incompetente. Espalhar que a maior conquista do comandante inimigo era preparar lanches produziu um efeito moral considerável.
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Segunda-feira, 23/6/2008 • 18:06
Pintores medievais não dispunham da facilidade de hoje em dia para comprar telas prontas, no tamanho e na medida que quisessem. Normalmente trabalhavam em pedaços de tecido, abertos sobre uma mesa ou mesmo sobre o chão. O resultado da pintura era a ars mol(lis), ou “arte mole”.
Se estivesse satisfeito com o resultado, o artista tratava de apresentá-lo de uma forma mais bem acabada, em que o ondulado do tecido não prejudicasse a apreciação do seu trabalho. A tela era então presa em qualquer suporte disponível, tornando-se ars dura, “arte dura”.
Os primeiros quadros de madeira feitos especialmente para este fim foram chamados de mol dura factor, ou seja, o que transformava a arte mole, tornando-a fixa. E daí saiu a palavra moldura.
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Segunda-feira, 7/4/2008 • 19:04
Essa é fácil: a palavra já evoca imediatamente o intelectual Sherlock Holmes ou o durão Columbo. Tinha que ter saído do inglês.
Elementar: os primeiros detetives eram encarregados principalmente dos crimes contra a propriedade, numa Inglaterra onde o capitalismo avançava a passos rápidos. Sua principal função era descobrir (“detect”, de raiz latina, via francês) os ladrões (“thieves”).
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Quarta-feira, 26/3/2008 • 19:03
Nada de óinc: para os mercadores da Liga Hanseática que habitavam a região de Flandres por volta do século XIV, a onomatopéia para o som do porco era koeffr. E assim eram chamados, pejorativamente, os primeiros banqueiros que, enfrentando a oposição da Igreja, emprestavam dinheiro cobrando juros. O apelido pegou.
Também foi por ali, em Bruges e outras cidades, que as pessoas começaram a guardar pequenas economias em porquinhos de cerâmica, que tinham uma fenda para se depositar as moedas. O objeto ganhou também o nome de koeffr; o que era brinquedo virou coisa séria e passou a designar também os lugares onde os banqueiros, já então respeitáveis, guardavam o seu dinheiro e o dos outros.
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Sexta-Feira, 21/3/2008 • 11:03
O latim “sabulum” (areia) deu origem, entre outras, a ”saibro”. Também é a raiz de “saburra”, que originalmente era um tipo de areia usado como lastro mas depois também passou a significar um sedimento na mucosa — o “sarro”, que tem a mesma origem latina.
Os antigos navios mercantes no Mediterrâneo usavam dois tipos de lastro: o “sarro” e o cascalho. Mas marinheiros inexperientes embarcavam apenas com o lastro mais fino, tornando-se motivo de pilhéria entre os velhos lobos-do-mar. Dizer que um navio levava duas cargas de sarro (um navio bisarro) era uma forma de zombar da sua tripulação e principalmente do seu capitão.
Do “bisarro” dos genoveses para o “bizarre” francês, já com significado de coisa estranha, foi uma passagem rápida. E do francês a palavra chegou ao português.
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Sexta-Feira, 18/1/2008 • 03:01
Em inglês é blue, am francês é bleu e a forma hoje reduzida aos domínios da heráldica é blau. Então, de onde veio o azul? Do céu e do mar. E, é claro, do árabe, como quase tudo na nossa língua que não tenha saído do latim nem do grego.
Aliás, de um árabe específico: Nasrallah Ibrahim Al-Zur, comerciante de tecidos que conquistou um quase monopólio na Península Ibérica durante décadas. O segredo de seu sucesso era o controle de um corante extraído das montanhas do Marrocos e que proporcionava um tom único, profundo, brilhante e inimitável.
(O Museu da Reconquista, em Salamanca, exibe dois mantos provavelmente de Al-Zur; as cores esmaeceram com o tempo, mas ainda é possível constatar o seu luxo.)
Alzur logo se tornou o nome da cor, como mais tarde o mundo capitalista transformaria marcas comerciais em substantivos comuns. E, por metátese (o mesmo fenômeno que cria corruptelas como vrido e tauba), virou arzul, que originou a forma atual.
(O provençal manteve uma versão mais próxima do original, azur, hoje usada praticamente apenas para se referir à Côte d’Azur francesa.)
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Sexta-Feira, 21/12/2007 • 10:12
Algumas famílias mantêm a tradição de montar o seu presépio sem a figura do Menino Jesus, que só é colocada no seu lugar na noite de Natal. Podem não saber, mas com isso tornam os seus presépios realmente apropriados ao nome.
Sepium (originalmente se pium, pio em si) era um dos nomes ou atributos dados ao Menino Jesus pelos diáconos cristãos que primeiro celebraram a festa de Natal. Com isso queriam dizer que ele fora o primeiro a já nascer carregando intrinsecamente a suprema santidade dentro de si. O termo caiu em desuso por conta de disputas teológicas, mas não antes de gerar a palavra presepium, redução de scena presepium, ou seja, “cena* antes (do surgimento) do sepium“.
Como se pode ver, a scena presepium era formada por Maria, José e pelos animais do estábulo. A manjedoura com o menino só era colocada na noite de Natal.
* E scena, em latim, vem do grego skénê, “cabana”, “tenda”, “abrigo”, recuperando nessa expressão o seu significado original.
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Quarta-feira, 31/10/2007 • 09:10
Antigamente, todo restaurante de alto nível contava com um profissional encarregado de experimentar todos os pratos que constavam do cardápio. Aqueles que não passavam pelo seu crivo eram sumariamente retirados.
De delir (apagar) e cioso (cuidadoso) criou-se o nome dado ao encarregado de zelar pela qualidade dos pratos. As receitas que ele aprovava levavam uma espécie de visto, a marca de “delicioso”, que num processo de inversão de sentido passou a significar “gostoso”, “saboroso”.
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