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Criptoetimologia (77): Trauma

Quando os visigodos comandados pelo rei Alarico I saquearam Roma, no ano 410, a palavra mais ouvida nas ruas da grande cidade era draumaz. Eram os gritos dos bárbaros, proclamando sua alegria pela conquista. A palavra significava “festa” (e também “sonho”, tendo originado dream em inglês e Traum em alemão).

Para os romanos, porém, o sonho era pesadelo e a festa era destruição. E, nos anos que se seguiram, trauma ficou sendo o nome de tudo o que fratura o corpo e o espírito.

Criptoetimologia (76): Fezes

Fēcī, fēcistī, fēcit, fēcimus, fēcistis, fēcērunt. É a conjugação do verbo latino faciō (fazer) no pretérito perfeito ativo. De um processo meio eufemístico, meio metonímico, o que alguém fez (fēcit) virou sinônimo de excreção. Ou seja: em Roma, bastava dizer-se que “fez”, sem precisar completar com o quê.

Criptoetimologia (75): Vesgo

Rodrigo (687? – 714) entrou para a História como o último rei dos godos. Antes mesmo de morrer nas mãos dos muçulmanos que lhe tomaram Toledo, viu o antigo reino gótico na Hispânia se esfacelar, com usurpadores assumindo o controle das províncias Tarrasconense, Narbonense, Galécia e Bética. Sobrou-lhe a Lusitânia, onde segundo a lenda foi enterrado.

Foram os usurpadores que passaram a se referir ao antigo rei apenas como “le visigoth” (“o visigodo”). E, além disso, a atribuir o fracasso político e militar à sua “visão torta”: Rodrigo era, de fato, estrábico. E “visigoth”, depois “vizgot”, deu origem a “vesgo” em português.

Criptoetimologia (74): P.I.P.O.C.A.

A essa altura todo mundo já conhece o caso da prova para crianças da quarta série em que uma tirinha da Turma da Mônica foi adulterada e saiu assim:

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Até aí, tudo bem. Quer dizer, não. Mas sempre pode piorar. E a coordenadora pedagógica se saiu com essa:

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A Gabriela, do Quinas e Cantos, sempre atenta a esses meandros da linguagem acadêmica, ficou sem entender o que a educadora quis dizer. E lançou um pedido de socorro no Twitter.

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Hoje, portanto, usamos a ciência da Criptoetimologia para desvendar o mistério: qual será o significado da sigla PIPOCA?

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Partícula Induzida Pela Oclusão de Cereal Aquecido
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Alguém mais?

Criptoetimologia (73): Fanfarra

Na ilha de Pharos havia um templo.

Só aí já existe material para horas de conversa sobre a origem das palavras. Porque em Pharos também ficava o Farol de Alexandria, e “farol” vem do nome da ilha. Templo, por sua vez, em latim era fanum, e os sacerdotes que entravam em transe eram chamados de fanaticus, de onde vieram “fanático” e, por redução, “fã”.

Mas esse templo específico tinha outras características.

Dedicado a Apolo, era onde celebrava-se o deus na qualidade de protetor dos músicos. Ali sempre havia música. Todos, fossem fieis e sacerdotes, estavam sempre cantando ou tocando instrumentos, nem sempre em harmonia. O local tornou-se conhecido, portanto, pela algazarra sonora em que estava sempre envolvido, e todo conjunto que tocava da mesma maneira alegre passou a ser chamado também de Fanus Pharos, expressão que originou “fanfarra”.

E mais tarde “fanfarrão”, que já é uma outra história.

Criptoetimologia (72): Tônico

Concorrente do Intrakol (produzido pelos Laboratórios asteur da Bahia), da Maravilha Curativa Humphreys, do Elixir Paregórico e do Vinho Fortificante Adams, entre outras panaceias do século retrasado, a Fórmula de Bonnet pode ter sido esquecida mas deixou sua marca.

Uma das formas encontradas pelo seu criador, o farmacêutico André de Bonnet, para diferenciar o produto da concorrência foi uma embalagem diferente. Uma miniatura de tonel, em cujo rótulo se via a representação de um atlas carregando um barril gigantesco. Sob a ilustração, o slogan: “A força de um tonel… num tonico“. Sim, nessa época os farmacêuticos se consideravam ótimos publicitários.

“Tonico”, portanto, era um diminutivo de tonel. Vendo o produto anunciado nas gazetas e exposto nas vitrines das pharmacias, a freguesia ignorava o nome oficial do produto e de seu criador, pedindo simplesmente um Tonico. E os farmacêuticos, por sua vez, para evitar confusões (já que invariavelmente havia na loja algum funcionário de nome Antônio, alcunhado Tonico), passaram a corrigir a freguesia: “Não é tonico, é tônico“. Outros concorrentes (dos quais o mais famoso sem dúvida foi Cândido Fontoura) gostaram da palavra e passaram a usá-la em seus próprios produtos, especialmente depois da morte de Bonnet, em 1893.

Criptoetimologia (71): Álibi

Em Andaluzia, na época do Califado de Córdova, viveu o emir Muhamad al-Ibn al-Mahad, conhecido como Al-Ibn. Temente a Deus e fiel seguidor do Corão, era porém um homem sempre propenso a sobrepor a misericórdia à Lei.

Era assim que, quando um réu era levado à corte, Al-Ibn frequentemente vinha em seu socorro, com seu testemunho: “Este homem não pode ter roubado o mercado ontem, pois esteve comigo todo o dia”; “Não é possível que o acusem de assassinato, já que na noite do crime estávamos jogando xadrez”; e assim por diante. Al-Ibn gozava de imenso prestígio, e jamais foi contestado pelos juízes cordoveses.

Do nome do emir veio a palavra álibi, inicialmente significando a pessoa cujo testemunho comprovava a presença de um réu em outro lugar no momento do crime, e em seguida o próprio argumento.