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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Biografemas (3): Paul Gauguin

Boa parte do que o pintor viu e viveu na sua segunda viagem ao Taiti (1891-1897) está no seu diário publicado com o título de “Noa Noa”. Mas os poucos parágrafos dedicados ao jovem taitiano Nepeo não fazem jus à importância que ele teve na vida do artista.

“Nós éramos dois, dois amigos,, ele um jovem na flor da idade e eu quase um velho, no corpo e na alma, nos vícios civilizados: nas ilusões perdidas. O corpo dele, flexível como o de um animal, tinha graciosos contornos, e ele caminhava à minha frente sem qualquer definição de sexo.
Desta amizade tão bem cimentada pela mútua atração entre simples e composto, o amor criou forças para florescer em mim.
Tive uma espécie de pressentimento de crime, o desejo pelo desconhecido, o despertar do mal (…)
Cheguei mais perto, sentindo-me livre de barreiras, as têmporas palpitando.”¹

Aparentemente, Gauguin não chega a consumar o ato nessa excursão com o efebo (“Ele nada suspeitara. Eu carregava sozinho o peso de um mau pensamento”²). Mas ele se tornaria seu amante pelos meses seguintes. E mais do que isso.

Aprendendo a técnica da pintura e da escultura, Nepeo em troca daria a Gauguin o vigor artístico que o impressionista fora buscar na Polinésia. Foi sob a influência do jovem amante que o estilo do mestre se transformou completamente. E há quem julgue que boa parte das obras deste período atribuídas ao francês  tenham sido, na verdade, criadas pelo taitiano.

Gauguin romperia o relacionamento com Nepeo no ano seguinte, para se casar com a adolescente Tehaurana.


¹ “Noa noa”, trad. de Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1977. Págs. 26-27.
² Idem, pág. 27.

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Biografemas (2): Noel Rosa

Nos poucos meses durante os quais cursou a Faculdade de Medicina, em 1929, Noel Rosa foi apresentado por alguns de seus colegas ao pensamento positivista. E chegou a frequentar a Igreja Positivista do Brasil, com grande entusiasmo.

Nessa época, porém, a Religião da Humanidade não atravessava um de seus melhores períodos. O templo no bairro da Glória havia se tornado o centro de reuniões de uma comunidade muito mais próxima da Maçonaria e de outras sociedades secretas do que propriamente dos ideais que haviam inspirado a Miguel de Lemos a sua fundação, em 1881.

Talentoso, precoce, genial, Noel subiu degraus na estrutura secreta da igreja em tempo recorde. Mas sua ascenção ao círculo mais alto foi barrada. Em parte por sua idade, mas principalmente porque, àquela época, já compunha e gravava sambas e marchas, recusadas pela hierarquia pseudopositivista.

Entre a igreja e a música, Noel não hesitou. E pouco depois acabou compondo Positivismo (O amor vem por princípio, a ordem por base / O progresso é que deve vir por fim / Desprezaste esta lei de Augusto Comte / E foste ser feliz longe de mim), em parceria com o amigo Orestes Barbosa.

Os versos deste samba, aliás, teriam significados ocultos compreendidos somente pelos iniciados. Na mensagem cifrada, Noel teria denunciado a corrupção dos ideais positivistas, ajudando assim a derrubar a sociedade secreta e a restaurar o culto positivista na sua essência.

(Noel morreu em 1937, oficialmente de tuberculose. Há, porém, quem sustente que ele foi envenenado.)

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Biografemas (1): Machado de Assis

Duplamente meu colega (jornalista e funcionário público), Machado de Assis era apenas um bom escritor até 27 de dezembro de 1878. Foi quando uma grave doença exigiu que ele tirasse uma licença da Secretaria de Agricultura e interrompesse sua colaboração para a revista “O Cruzeiro”. E provocou a grande mudança da sua vida.

Em Nova Friburgo, onde se recuperava, o escritor mulato e canhoto conheceu o verdadeiro responsável não só pela sua cura mas pelo seu amadurecimento literário. Disse o milagre e digo o santo: Pai Nonato, o mesmo que menos de uma década antes havia inspirado José de Alencar a criar o feiticeiro Benedito de “O tronco do Ipꔹ.

Pois foi Pai Nonato que tirou a ziquezira do corpo de Machado. Na mesma sessão em seu terreiro, fez baixarem os espíritos que soltaram também as amarras de sua prosa. Em 15 de março do ano seguinte, o autor começava a publicar “Memórias póstumas de Brás Cubas” na “Revista da Semana”, inscrevendo seu nome entre os maiores gênios da literatura universal.

Machado trouxe Pai Nonato para morar nos fundos da sua casa. E era o preto velho que, originalmente, os amigos chamavam de Bruxo do Cosme Velho. Décadas mais tarde, quando o bruxo original já estava completamente esquecido, um poema de Drummond recuperou o apelido mas atribuiu-o erradamente ao romancista.


¹ Não foi por acaso que, ao fundar a Academia Brasileira de Letras, Machado escolheu Alencar como patrono para a sua cadeira, a de número 23.

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Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.