Arquivo da categoria: Biblioteca de Babel

Biblioteca de Babel (74): Dicionário Tautológico

Aliás, Flávio F., citado na postagem anterior, é também autor do Dicionário Tautológico, que se propõe não uma obra de referência, e sim de autorreferência. Assim, Triste aparece definido como “o contrário de alegre”, e Alegre como “antônimo de triste”. A definição de Canário é “ave diante da qual um conhecedor de canários afirma: ‘É um canário’”, ou ainda “tudo o que não é diferente de canário”.

Biblioteca de Babel (73): A Saga de Skadr

Logo de início vê-se que é um amontoado de clichês de fantasia. Lá estão os intrépidos heróis empenhados numa missão, atravessando terras selvagens; os diálogos grandiloquentes; os encontros em tavernas; os combates contra monstros terríveis; os feiticeiros com seus duelos de magia; até mesmo os mapas nas páginas finais, para o leitor acompanhar a aventura.

É justamente ao confrontar o texto com os mapas que o romance se revela mais do que parece.

Desenhados com uma riqueza de detalhes que quase permite ver o mundo encantado de Alinaua, os mapas logo expõem uma série de contradições na narrativa. É evidente que os Cavaleiros da Lua não poderiam ter chegado ao Planalto de Orien antes da primavera. Também fica claro que a descrição das Colinas Mortas só pode ter sido feita por alguém que sequer se deu ao trabalho de observá-las no mapa do continente setentrional.

Tantas falhas só permitem uma conclusão: Skadr, o narrador e protagonista, é um mentiroso. Alguém que forjou uma saga com o objetivo de parecer nmaior e melhor do que realmente é.

A essa altura, voltar à primeira página e reler a história como fraude – sempre com a ajuda dos mapas – torna-se irresistível. E a Saga passa a ser uma obra-prima de malícia.

Biblioteca de Babel (72): 40 Sonetos Pop

Da orelha do livro:

“Camões, Dante, Petrarca e Góngora escreviam poemas sobre figuras mitológicas ou bíblicas. Fazia todo o sentido numa época em que o aprendizado de um jovem culto passava necessariamente pela leitura das obras de Virgílio. Hoje, porém, a realidade é outra. Por isso os 40 sonetos aqui apresentados se baseiam noutra mitologia, a corrente neste início de século XXI. Os personagens são nossos deuses: heróis de histórias em quadrinhos, protagonistas de videogames, pornestrelas, celebridades de reality shows, DJs.”

Biblioteca de Babel (71): Hormônia (Memórias endócrinas)

Como o título sugere e o subtítulo confirma, trata-se de um histórico de exames de dosagens de hormônios no sangue da autora, coletados diariamente ao longo de seis décadas – dos 12 aos 73 anos de idade.

Ainda que a ideia tenha surgido apenas depois da menarca, todas as outras mudanças estão lá. Paixões, humores, cóleras, descritos de forma absolutamente objetiva pelas flutuações de adrenalina, estrogênio, testosterona e endorfinas.

Biblioteca de Babel (70): Névoa Concreta

Névoa Concreta é um longo poema escrito na linguagem dos sinais de fumaça dos Sioux.

Foi criado e interpretado simultaneamente ao longo de seis horas ininterruptas sob um céu imaculadamente azul num dia de verão, em 1976.

A Biblioteca de Babel guarda uma cópia.

Biblioteca de Babel (69): Terra

Depois do sucesso de suas séries anteriores (Maygara e Anantva, ambas batizadas com os nomes dos planetas fictícios que lhes serviam de cenário), R.H. Mass voltou a revolucionar a ficção-científica com o lançamento de Terra.

Logo no primeiro volume de Terra, o leitor assiste fascinado à descrição de um planeta exatamente igual ao nosso. Em tudo, nos mínimos detalhes: da formação geológica à biodiversidade, do surgimento da espécie humana na África à Revolução Industrial na Europa.

Como se não bastasse, os personagens de Terra são tão humanos quanto nós. Suas relações interpessoais e sociais, seus sonhos, desejos e defeitos, suas falas convencem o leitor, graças à verossimilhança que o cuidadoso trabalho demiúrgico lhes confere.

Biblioteca de Babel (68): Autólogon

O Autólogon escreveu-se a si mesmo.

O ato de contar sua própria história fundou sua consciência, que se materializou na narrativa.

Nas últimas páginas, percebe-se a sua angústia de saber que o ponto final trará sua morte. Talvez por isso o epílogo se arraste numa reflexão em que interroga-se se cadalivro não é, efetivamente, uma outra versão do Autólogon. Ou se cadaser humano não é ele mesmo também um Autólogon.

Biblioteca de Babel (67): Grimório Inócuo

Já em sua quinta edição, o Grimório Inócuo é uma compilação de feitiços, rituais e encantamentos de diversas origens e para os mais variados fins, todos testados pelos editores, que garantem que nenhum deles funciona.

Ainda que pareça inútil, a obra é de grande valia para os não-iniciados que pretendem praticar magia sem correr os riscos de seus efeitos. Também serve como guia: os feitiços que não estão no livro, em princípio, podem funcionar.

Esta quinta edição, pela primeira vez, foi reduzida em relação à anterior. Oito feitiços foram retirados porque alegadamente funcionaram, dois deles com consequências letais. Ainda que possa ter sido por coincidência ou efeito nocebo, os editores preferiram não comprometer a reputação do Grimório.

Biblioteca de Babel (66): Os contos de Jayme Quiroga

Depois de obter algum sucesso com Cartagena, seu romance de estreia, Quiroga nunca mais publicou. Numa entrevista, quexou-se do valor ínfimo que recebia por cada exemplar vendido, e ainda menor nas versões digitais. Previu que, com a popularização do livro eletonico, e sua fácil reprodução, não haveria mais remuneração para os autores.

Continuou escrevendo, no entanto. Agora se dedica aos contos, todos manuscritos. Cada caderno com uma nova história é leiloado e o comprador se torna também seu único e exclusivo leitor.

É claro que os cadernos podem ser passados adiante. Quiroga, porém, toma o cuidado de inserir em cada um deles uma fórmula aprendida com monges nepaleses¹, de forma que quem se desfaça do caderno esqueça para sempre do que leu. E ninguém abre mão da memória de um conto de Quiroga. Seria melhor perder um rim, ou o polegar direito.

Sem acesso às obras², os críticos apenas especulam a trajetória do autor. A única indicação que encontram para embasar suas teorias é a evolução dos valores atingidos nos leilões. Calle Luna, o conto mais recente, atingiu os dois milhões de euros. Contudo, as variáveis como a conjuntura econômica, o câmbio, as eleições, as estações do ano, o número de palavras da obra e a temperatura das águas na Corrente do Atlântico dificultam tais especulações, tornando-as mais próximas de uma arte do que da ciência que deveria ser a crítica.


¹ Aparentemente, cada texto é, ele mesmo, construído em torno da fórmula mágica, que varia de conto para conto.
² A fórmula também impede a reprodução. Da única vez que se tentou, a obra reproduzida se tornou um lixo tamanho que nem o mais severo dos desafetos admitiu que pudesse ser um texto de Quiroga.

Biblioteca de Babel (65): Guia Lafayette

Quando surgiu, era apenas um mapa comentado do cemitério de Père Lachaise, indicando os locais dos túmulos mais visitados. Ainda assim, pouco mais que os lugares-comuns: Piaf, Morrisson, Callas, Balzac.

Hoje, em sua 28ª edição, traz resenhas de mais de 10 mil túmulos, espalhados por 618 cemitérios de 39 países¹ em cinco continentes. Além disso, contém informações completas e atualizadas de serviço, inclusive hospedagem em locais próximos. Um apendice lista ainda 82 parques, praias, lagos, rios e outros lugares onde as cinzas de mortos ilustres foram dispersadas após a cremação.

O maior crescimento, porém, não foi o quantitativo. Ao longo de 28 edições, o Lafayette deixou de ser um mero catálogo de celebridades mortas e seus locais de repouso. Passou a destacar túmulos de desconhecidos, mas que chamam a atenção pela arquitetura, pelo pitoresco ou pelas histórias (algumas fantasmagóricas) que os cercam. Tornou-se, assim, obra de consulta obrigatória para o turista funerário mais sério.


¹ Nesta edição, foram incluídos cinco campos brasileiros: São João Batista e Cemitério dos Ingleses, no Rio; Consolação e Araçá, em São Paulo; e Santo Amaro, no Recife.

Biblioteca de Babel (64): O Oitavo Sermão

Quando Carl Jung publicou em Memórias, sonhos e reflexões (1962) o seu “pecado de juventude” intitulado Septem Sermones ad Mortuos (1916), não teve a coragem de publicar o Oitavo Sermão.

No capítulo final da obra, Basilides convoca os mortos que se haviam dispersado e lhes revela a verdadeira essência de Abraxas. O conhecimento desta formidável essência desintegra as almas dos mortos e o próprio mestre gnóstico; é algo tão luminoso e terrível que Jung só foi capaz de escrever num estado de consciência significativamente alterado. Ler as próprias (?) palavras depois disso provocou uma profunda depressão no psicólogo, que por isso manteve os Sermões inéditos por mais de 40 anos.

Além do autor, apenas sua colaboradora Marie-Louise von Franz teve acesso ao Oitavo Sermão. O manuscrito permanece fechado num cofre na sede da Fundação Philemon, em Carpinteria (Estados Unidos).

Biblioteca de Babel (63): Nós

Nós somos o romance politicamente mais radical deste século.

Concluímos que todos estamos interligados; que nada faremos sem que sejamos afetados; que só resolveremos nossos graves problemas se levarmos isto em conta ao agirmos. Por isso, em nosso livro conjugamos todos os verbos na terceira pessoa do plural.

Em nossas páginas acontecemos amores, intrigas, traições, aventuras. Mas os personagens nos confundimos, assim como os cenários e os enredos, pois somos sempre e ao mesmo tempo sujeito e objeto.

A esta altura, já descobrimos que fomos nós que escrevemos este livro.

Biblioteca de Babel (62): Leopoldeia

Provavelmente a obra literária mais ambiciosa do século XXI, a Leopoldeia é uma recriação do clássico romance Ulysses, de James Joyce.

Na nova versão, as andanças de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin são recontadas na forma de um poema épico de 12.110 versos, em que um herói grego, ao longo de vários anos, tenta voltar para casa, cruzando os mares e enfrentando diversos perigos.

Biblioteca de Babel (61): Desquadrinhos, 1964-1991

A antologia reúne as melhores tirinhas da série Desquadrinhos, a primeira (e, que eu saiba, a única) a adotar radicalmente o padrão texto puro.

Os quadrinhos das tiras, publicadas semanalmente na revista Eureka, eram todos vazios de qualquer desenho. Nada de personagens, nem de cenários. Apenas os espaços para os recordatórios (muitas vezes imensos, ocupando quase todo o espaço) e os balões.

Ainda que muitos críticos tenham se recusado a considerar Desquadrinhos como uma verdadeira HQ, o sucesso (especialmente no período mais turbulento dos anos 60) foi tanto que a série se manteve até a morte de seu autor (conhecido pelo pseudônimo PK), em 1991.

Biblioteca de Babel (60): Caneole

O processo de criação de Caneole começou quando o autor quis ambientar sua saga num passado alternativo, em que os incas tivessem derrotado os espanhóis, tomado seus navios e invadido a Europa.

Não quis, porém, que a hipótese fosse lançada sem bases. Debruçou-se sobre as obras de Diamond, Blaut, Ribeiro e outros estudiosos da colonização para concluir quais teriam sido as condições materiais necessáriasa uma vitória ameríndia. Desenhou uma civilização inca diferente, com poderosos animais de tração e uma siderurgia robusta.

Contudo, isso só ampliou o problema. Afinal, para que seus incas paralelos fossem possíveis seria preciso alterar boa parte da formação da América, incluindo clima, geologia, fauna, flora. E cada alteração que provocava num passado que já remontava a milhões de anos causava também reações na Europa e no resto do planeta. Porque, num mundo em que havia lhamas voadoras (essenciais à trama do romance), seria impossível haver atividade vulcânica em torno do Pacífico, por exemplo.

(Estamos falando, como parece ter ficado claro desde o início, de um autor que efetivamente se preocupou com cada detalhe de sua reconstrução histórica).

O resultado foi a criação de um planeta inteiramente diferente, que os incas fictícios chamam de Caneole. Um bom lugar para se viver, apesar do céu lilás nas noites de verão.

Biblioteca de Babel (59): Mangória

Considerada uma das peças mais importantes do teatro moderno, foi encenada apenas uma vez. Ao fim do monólogo, T.R., autora e atriz, sacou uma arma e disparou contra o próprio peito, matando-se no meio do palco e tombando sob os aplausos da plateia.

A autora foi taxativa nas instruções que deixou. Mangória só poderia ser montada novamente se terminasse com o suicídio – igualmente real – da intérprete. O texto permanece desde então restrito às estantes da Biblioteca de Babel.

Biblioteca de Babel (58): 835 garrafas ao mar

Em 1912, Vladimir Ivanovitch Murkov deixou o seu exílio em Paris. Não para voltar a Moscou, como desejava, mas para se exilar num lugar ainda mais distante. Usou todo o dinheiro que lhe restava para embarcar num navio rumo ao Pacífico Sul e garantir que o comandante não só o deixaria numa ilha deserta como também seguiria viagem sem anotar coordenadas ou qualquer indicação que permitisse encontrá-lo.

Levou consigo alguns mantimentos, velas, fósforos, tinta, papel e 835 garrafas vazias. E começou a escrever. Cada página (numerada) de seu último e definitivo romance foi inserida numa garrafa e lançada ao mar.

Muitas foram destruídas, especialmente durante os combates navais da Segunda Guerra Mundial. Até hoje foram recuperadas 322, nove delas trazidas às praias da Indonésia pelo maremoto de 2004. A garrafa-página número 1, com o título, nunca foi encontrada.

Aparentemente, o romance conta a história de Vladimir, um sonhador que tenta construir uma sociedade mais justa porém se vê sempre sozinho em seus esforços.

Biblioteca de Babel (57): Confessionalia

A coleção começou a ser formada no primeiro Concílio de Lyon, em 1245.

Trinta anos antes, o quarto Concílio de Latrão havia determinado a obrigatoriedade da confissão para os católicos.  Em Lyon, os bispos reunidos sob o Papa Inocêncio IV reafirmaram a proibição de que os padres revelassem os pecados confessados pelos fiéis, um tabu que vinha sendo contestado por alguns setores, em especial pelos monges cistercienses.

E foi a ordem dos cistercienses que, no último dia do Concílio, propôs que, embora protegidas pelo sigilo, as confissões pudessem ser transcritas em livros a serem guardados até o dia do Juízo Final. A proposta foi aceita, e desde aquele dia os subterrâneos do Vaticano abrigam uma coleção secreta, ampliada a cada ano por relatos de todo tipo de pecado enviados por padres de todo o mundo.

Biblioteca de Babel (56): Hiramalicon

Existem vários diferentes Hiramalicons. A primeira versão, ou pelo menos a mais antiga que se conhece, foi gravada em placas de argila e conta uma lenda mesopotâmica sobre o surgimento da fala entre os homens. Cerca de mil anos antes de Cristo, aconteceu a primeira tentativa de transcrição, para um pergaminho – e nele o Hiramalicon se transformou num código civil. Ao longo dos séculos, outras cópias para diferentes suportes resultaram em versões cada vez mais diferentes do original. Há um Hiramalicon medieval em pergaminho, que constitui um hinário herético; outro manuscrito em papel por chineses, ensinando as diferentes rotas para a América; e ainda um impresso bávaro do século XIV, que conta uma história de amor.

A primeira versão do Hiramalicon para e-book está sendo ansiosamente aguardada.

Biblioteca de Babel (55): Manuália

Esta antologia de manuais de instruções reúne alguns dos melhores já publicados, com seleção, notas e comentários de especialistas em cada área.

Num gênero muitas vezes dominado pelo clichê e pelo hipertecnicismo, o volume mostra que é possível ser claro, elegante e inovador. Alguns dos textos selecionados até hoje encantam pela maestria com que descrevem o funcionamento de aparelhos já caídos em desuso.

Como em toda antologia, foi impossível agradar a todos, e foi necessário estabelecer critérios. A regra de escolher apenas um de cada tipo de aparelho e um de cada marca foi a que trouxe mais complicações. Como optar, por exemplo, entre os manuais do G-53 da Telefunken e do Nova da Imdall? O alemão acabou ganhando apenas por ter sido lançado um mês antes. Também foi difícil decidir qual das várias obras primas da Manchetti representaria a fábrica italiana. Mesmo assim, o resultado agrada aos fãs do gênero e é um bom ponto de partida para iniciantes.

Biblioteca de Babel (54): Código de Ch’Wang

Durante o reinado de Shao Kang, o sexto rei da dinastia Shia, viveu na China o legislador Ch’wang. Dois séculos antes de Hamurabi, ele compilou um conjunto de leis cuja influência na cultura chinesa se estendeu pelos séculos e ainda hoje, em algumas províncias do sudoeste, chega a sobrepujar as normas do Estado comunista.

Ch’wang, que também era astrólogo, afirma no preâmbulo ao seu código que “todo crime cometido na Terra é antes cometido no Céu”. Com base nesse axioma, prescreve as regras para relacionar as condutas criminosas com a posição e o movimento dos astros, de forma a poder prever quando elas acontecerão e prender os culpados antecipadamente.

No Código de Ch’wang, as penas também são determinadas pela conveniência astrológica, e não pela gravidade dos crimes.

Biblioteca de Babel (53): Antianuário RS&W

Todo mês de janeiro, a grande agência de publicidade RS&W publica um luxuoso álbum sobre suas campanhas mais bem sucedidas do ano anterior. Mas também edita uma outra versão. É o Antianuário.

O livro reúne da mesma forma as grandes campanhas criadas pelos publicitários da agência. A diferença é que elas são mostradas desde o primeiro briefing do cliente, e analisadas de forma crítica e impiedosa. Cada estratégia para ludibriar o público-alvo é dissecada, asarmadilhas semânticas desconstruídas, as engambelações inerentes ao ofício reveladas. O resultado é um autêntico tratado de como a publicidade engana o consumidor (e eleitor).

Apenas um exemplar de cada Antianuário é impresso, e sorteado entre os senhores R., S. e W., de forma que nenhum dos não contemplados fica sabendo qual dos outros dois sócios ficou com o livro. Como é proibido voltar a falar no assunto, nenhum dos três sabe quantas edições cada um tem. E muito menos como todas elas, mais cedo ou mais tarde, acabam vindo parar nas estantes da Biblioteca de Babel.

Biblioteca de Babel (52): Manual de aparelhos inexistentes

Contém todas as instruções necessárias para desembalar, montar, instalar e usar com segurança equipamentos como o descaroçador de bananas, o detector de violinos desafinados, o pentaciclo e a câmera desfotográfica.

Completam cada capítulo as especificações técnicas e um guia de problemas comuns com as suas possíveis soluções.

Infelizmente, ninguém lê o manual.

Biblioteca de Babel (51): Amardiano completo

Os 37 volumes que ocupam uma prateleira e meia da estante contêm todas as obras que podem ser escritas em Amardiano.

Com poucos fonemas, regras rígidas para a formação de vocábulos e uma gramática restritiva, o Amardiano não permite mais do que isso. Assim, “Cmazordy ot snäw” é ao mesmo tempo a tradução de “O velho e o mar”, “A gaia ciência” e um relatório anual de vendas de azeite.

Considerada por muito tempo como  a mais simples da Humanidade, a língua amardiana foi recentemente redescoberta e se tornou motivo de diversos estudos por ter se revelado, de fato, extremamente complexa em sua impressionante capacidade de síntese.

A ironia é que todos os estudos já estão contidos naqueles 37 volumes. Resta interpretá-los corretamente.

Biblioteca de Babel (50): A Bíblia dos demônios de Santo Antão

A origem deste manuscrito está ligada às tradições sobre a vida de Santo Antão no deserto.

Alvo de constantes tentações para que abandonasse a sua vida de santidade e mortificações, o eremita resistiu a todas. E fez mais: chegou a aprisionar alguns dos demônios enviados por Satã para tentá-lo. Acorrentou-os no fundo da caverna onde vivia e obrigou-os a copiar a Bíblia, letra por letra.

As poderosas orações do santo forçavam os diabretes a realizar a tarefa. Copiar fielmente a Sagrada Escritura era, evidentemente, uma tortura insuportável para os espíritos imundos.

(Pouco antes de morrer, orientado pelo arcanjo Miguel, Santo Antão libertou os demônios para que voltassem ao inferno em vez de ficarem vagando pela terra. Com isso, impediu também que eles conspurcassem o Livro após a sua morte.)

No entanto, Atanásio de Siracusa afirmou que do mal só pode vir o mal. Mesmo subjugados pelo santo, os demônios encarregados da tarefa teriam instilado sua perversidade nas páginas do Livro. Assim, quem o lê sempre interpreta erradamente as palavras divinas. No Concílio de Trento, houve mesmo quem afirmasse que foi a Bíblia dos demônios que inspirou a Reforma a Lutero.

Biblioteca de Babel (49): Descionário

O Descionário é um dicionário composto de verbetes com definições erradas, mas que de alguma forma parecem corretas. Cantochão é um adorno arquitetônico; Gandulo é  uma projeção da margem de um rio ou lago; Tentame é uma estrutura usada na sustentação de obras.

Curiosamente, algumas definições presentes no Descionário eram falsas quando da sua primeira edição, em 1923, mas hoje são verdadeiras. É o caso da palavra Pistoleira, que então ainda não tinha o significado de “prostituta” mas assim está definida.

Alguns dizem que o Descionário na verdade é um dicionário futuro, e que um dia todas as suas definições estarão corretas.

Biblioteca de Babel (48): O livro futuro de H.G. Wells

Por incrível que pareça, ainda existe uma obra inédita do autor britânico H.G. Wells. Em 1900, ele escreveu um romance, cujo título jamais revelou, e guardou-o num envelope lacrado. O volume foi encontrado junto ao testamento do escritor, que continha instruções expressas.

Este é um livro que ainda será escrito. Algum dia, no futuro, alguém escreverá esta mesma história, com estas mesmas palavras e este mesmo título, diz o testamento.

Temendo que o teor do livro fosse conhecido antes do momento certo, influenciando outros escritores e assim  invalidando a sua previsão, Wells acrescentou que o enevelope só deveria ser aberto em 23 de março de 2050, exatamente 150 anos após a data de conclusão do manuscrito. Só então será possível saber se ele estava com a razão.

Biblioteca de Babel (47): Rolo de máquina

O autor, que ainda possuía uma máquina de escrever, guardada há anos no fundo do armário, pôs um rolo de fita novinho e começou a datilografar. E então escreveu do início ao fim, sem sequer um erro ou hesitação, o seu melhor romance. Sem pôr papel na máquina.

Retirou da máquina o rolo de fita eentregou-o à editora:

– O livro está aí. Basta ler as marcas feitas pelos tipos na fita, na ordem em que foram deixadas.

Biblioteca de Babel (46): ___

Quando os críticos afirmaram em coro que o Grande Escritor estava próximo do auge e que sua próxima obra seria provavelmente o romance definitivo da sua geração (pelo menos), ele não teve dúvidas. Publicou um livro sem título e com todas as páginas em branco.

As resenhas foram empolgadas, e “___” foi o seu maior sucesso de vendas.

Biblioteca de Babel (45): Orelhas completas

Aliás, o autor de “Cabeça” (ver a postagem anterior, Biblioteca de Babel 44) era conhecido justamente pela qualidade das orelhas que escrevia. Enquanto outros escritores eram constantemente requisitados para redigir introduções e prefácios para obras de terceiros, ele se especializava nos sucintos parágrafos que acompanhavam as capas. Em muitos casos, criando obras superiores às que recomendava.

Foi questão de tempo para que um editor um pouco mais inteligente propusesse uma coletânea de sua obra auricular. Mas eram tão bons os textos que não foi possível selecionar os melhores. Impôs-se a publicação das Orelhas completas.

Biblioteca de Babel (44): Cabeça

A maioria das avaliações negativas que recebeu veio de críticos que, erradamente, leram apenas as páginas do livro. E, dessa leitura apressada, concluíram que se tratava de uma obra superficial, confusa e redundante.

De fato, é isso mesmo. A não ser quando lida completa — ou seja, incluindo as orelhas.

A leitura dos dois pequenos textos acrescentam contexto e perspectiva ao livro, que assim se revela como uma autêntica obra-prima.

Biblioteca de Babel (43): Heindeniana

Frans van Heinden (1651-1692) pode ser o menos conhecido pintor da Era de Ouro holandesa, e talvez até o pior deles. Certamente, ficou muito aquém de Rembrandt, Vermeer ou mesmo Ruisdael. Mas só recentemente se descobriu que sua grande obra não foi a pintura, e sim o romance.

Em todas as telas de Van Heinden aparece alguém lendo um livro. Nada demais para alguém que tinha como amigos intelectuais do porte de Baruch Spinoza. Nos últimos anos, porém, técnicas avançadas de digitalização de imagens permitiram ler o que pareciam ser apenas borrões nas páginas pintadas. E o que surgiu foi um romance inédito, ao que tudo indica escrito pelo próprio pintor.

Na falta de título, a obra é chamada de “Heindeniana” pelos estudiosos. O romance trata da vida na Delft do século XVII com riqueza de detalhes e uma aguda crítica social. Infelizmente, Heinden não chegou a concluir seu livro, tendo morrido antes de pintar as páginas finais. Além disso, várias telas com trechos fundamentais se perderam, especialmente no incêndio do Museu de Utrecht.

Especula-se com a possibilidade de que haja um manuscrito com os originais da Heindeniana. Mas a maioria dos críticos acredita que o autor escreveu diretamente nas telas.

Biblioteca de Babel (42): Teleológica Universal

O argumento central da obra é que a História não é movida por causas eficientes, e sim por causas finais. Tudo o que existe conspira para um objetivo. Assim, por exemplo, não foi porque os otomanos tomaram Constantinopla que os ibéricos se lançaram às grandes navegações: foi o sultão Maomé II que lançou suas tropas sobre a cidade para que mais tarde Colombo e Vasco da Gama se fizessem ao mar.

A abordagem causal, dizem os teleologistas, tem se mostrado falha não apenas para explicar o passado mas principalmente para prever o futuro. Se este fosse consequência de nossos atos, poderia ser facilmente planejado. mas todas as tentativas de usar a História como ciência exata resultaram em vexame ou tragédia.

Assim, a única abordagem histórica viável seria a inversa: descobrir qual o fim a que vem servindo toda a evolução da Humanidade (e, em consequência, os nossos atos de hoje).

Biblioteca de Babel (41): Semi

No primeiro capítulo, só as linhas ímpares foram escritas. As pares estão em branco.

No segundo, só a metade esqurda da páginaestá escrita. As linhas são interrompidas no meio.

No terceiro, cada frase é escrita palavra sim, palavra não.

No quarto e último, só as páginas pares foram impressas.

Pelo pouco que se pode entender da meia introdução, o autor descobriu que, ao nascer, foi separado de seu irmão gêmeo. Decidiu então escrever um romance pela metade, certo de que, por um processo de criptofasia, seu irmão desaparecido escreveria a outra metade. Quem um dia encontrar as duas partes poderá juntá-las e enfim ler a obra inteira.

Biblioteca de Babel (40): O Anuário Heijden

O catálogo traz as mais preciosas obras de arte roubadas em cada ano, bem como o seu valor estimado no mercado negro e o contato para a compra. Apenas quarenta exemplares de cada edição são impressos, e distribuídos sempre no dia 1 de março aos maiores colecionadores de arte roubada do mundo.

Ninguém sabe quem edita e distribui o anuário. Mas também ninguém contesta suas informações. E muito menos a lista de leitores.

Mais de um milionário excêntrico já entrou em depressão profunda ao contatar, no dia da distribuição, que havia perdido seu lugar na lista.

A simples posse de um Anuário Heijden é considerada pela Interpol prova suficiente de crime de receptação.

Biblioteca de Babel (39): O Livro dos Amores

O Sanwar, ou Livro dos Amores, contém as histórias de 64 casais felizes. São homens e mulheres jovens, velhos, de diferentes raças, credos e class es sociais. O seu apêndice, o Sanwar-viz, narra as desventuras de 64 casais infelizes.

Todo casal que se forma repete, de algum jeito, uma das 128 histórias do livro. Quem souber identificar claramente qual capítulo está repetindo saberá se está destinado a viver um casamento repleto de alegrias ou a iniciar um tormento que só terminará com a separação, ou coisa pior.

O maior problema é que os 64 casais infelizes são, em quase tudo, exatamente iguais aos infelizes.

Biblioteca de Babel (38): O Código Beethoven

Do Inferno brotam duas fogueiras gêmeas
Consumindo num segundo milhões de almas
De suas cinzas ergue-se a bandeira branca
Que a Guerra hasteia, na outra mão a espada

Esta é a transcrição para língua corrente dos acordes finais da quinta sinfonia de Ludwig van Beethoven, dita “do Destino”, composta em 1808. A obra é, na verdade, uma profecia cifrada da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que só recentemente pôde ser revelada, com a descoberta do código para sua tradução. Os versos finais se referem, evidentemente, às bombas sobre Hiroxima e Nagasaki, e já anunciam a Guerra Fria (“na outra mão, a espada”) que se seguiria.

O Código não se resume à quinta sinfonia. Todas as outras integram um arco de visões do futuro, que passa pela já citada Guerra Fria, indo até a queda do Muro de Berlim (a sexta sinfonia, Pastoral), o choque de civilizações e a crise atual (a sétima), a Grande Revolução (a oitava) e o fim da História (a Ode à Alegria da nona).

Biblioteca de Babel (37): Aliscor

O Aliscor é o único livro que se conhece escrito em idioma taruche. Provavelmente nunca haverá outro, já que se trata de uma língua morta, cujos últimos falantes morreram quando sua aldeia foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas não se trata de uma literatura tão pobre quanto parece, graças às características mutantes da língua taruche. Nela, não só as letras constantemente passam a representar sons diferentes, mas o significado das palavras se altera periodicamente. Assim, o Aliscor se transformava a cada vez que era lido.

Compreender as mudanças sempre foi a grande dificuldade para se aprender o tartuche, e que motivou a sua extinção.

Arlak “Unha-de-Tigre”, um falante nativo do tartuche que viveu durante vinte anos em Pequim no início do século passado, chegou a fazer treze traduções diferentes do Aliscor para o mandarim: seis romances, quatro estudos de História, dois manuais agrícolas e uma coletânea de provérbios.

Biblioteca de Babel (36): Elementos de Química Imaginária

A obra do professor Edmund Strölsen, PhD, descreve como seria o mundo se os arranjos atômicos e subatômicos fossem ligeiramente diferentes. Analisando as consequências de uma alteração nas camadas de elétrons, ele chega a conclusões surpreendentes.

No universo de Strölsen, o elemento químico mais abundante é o molibdênio, quase sempre encontrado em compostos com hélio (que perde o status de gás nobre), cálcio e fósforo. A combinação de hidrogênio e oxigênio formando a água é altamente instável e, em certas condições, até mesmo explosiva. E o ferro é sempre magnético.

O tratado é considerado fantasioso pela maioria dos cientistas e árido pelos leitores de ficção científica, enfrentando rejeições dos dois lados. Mesmo assim, muitos acreditam que Strölsen pode se tornar o primeiro homem a receber dois prêmios Nobel simultâneos: o de Química e o de Literatura.

Biblioteca de Babel (35): Submazarinos

Uma das cadeiras da Académie Française é ocupada por uma mentira há séculos, desde a sua fundação.

Seu titular é sempre alguém que um dia foi um jovem de grande charme e nenhum talento, mas que foi eleito secretamente pelos imortais para tornar-se um membro da academia. Foram eles que lhe ofereceram, prontos, os livros que assinou e publicou.

Construiu assim uma brilhante carreira literária às custas das obras alheias, até finalmente ser eleito para a Académie e ocupar a cadeira falsa.

É obrigação de todo acadêmico escrever pelo menos um livro que será mais tarde atribuído ao escolhido para ser o novo falso escritor. Os originais destas obras ficam guardados numa sala secreta, nos porões da Biblioteca Mazarine, no Institut de France. Por isso, são conhecidos como os sous-mazarins, submazarinos.

Houve pelo menos um submazarino que, após publicado, revelou-se melhor que toda a obra oficial de seu verdadeiro autor. Este, ao ver o sucesso do falsário e compreender que jamais escreveria algo do mesmo nível, cometeu suicídio em Notre Dame. O caso, evidentemente, foi abafado.

Biblioteca de Babel (34): Uaclanast

Livros sagrados existem aos montes. Toda religião que se preza tem o(s) seu(s), além de hagiografias, teologias e exegeses à la carte. Mas só os antigos arandeus optaram pelo oposto: um livro maldito.

O Uaclanast era uma coletânea de impropérios, pecados, vícios e corrupções. Ensinava e recomendava a prática de todo tipo de mal. Nas suas páginas, os arandeus aprendiam tudo o que não deveriam fazer. A virtude suprema era não fazer nada do que estivesse no livro.

Biblioteca de Babel (33): O melhor de Sá Costa

O talento de Sá Costa como organizador já era uma unanimidade. Mas faltava uma obra deste porte, para dar ao leitor uma visão ampla da sua trajetória. Aqui estão reunidas as suas mais significativas antologias, desde o início da carreira, com “Poetas sergipanos do século XIX” até a definitiva “Nova coletânea do conto brasileiro”, que a Academia premiou com o Tutano de Ouro da categoria em 2007.

É claro que algum leitor poderá reclamar que faltou isto ou aquilo. Natural. Para ser de fato uma antologia perfeita, teria que ser organizada pelo próprio Sá Costa, que já não está entre nós.

Biblioteca de Babel (32): A Forca

Quando o exército sufocou a Revolução dos Poetas, todos os conspiradores foram condenados à morte. Mas o governador concedeu indulto a cada um deles. Em troca de um poema.

Não havia imposição de tema nem estilo. Quase todos foram panfletários (e francamente ruins), com ataques ao Estado e ao próprio governador (incluindo ataques à honra de sua mãe, sua mulher e sua filha). Houve os arrependidos, que aderiram ao regime e o elogiaram. Houve os escapistas com suas fantasias góticas nuas de qualquer conotação política. Houve, como sempre, versos de amor para todos os gostos.

E houve A Forca. Foi o último poema que o governador leu. E ficou tão revoltado que mandou enforcar sua autora, uma revolucionária cujo nome não ficou guardado.

O manuscrito de A Forca foi enterrado junto com sua autora. O governador morreu de uma doença misteriosa e fulminante no mesmo dia.

O povo não tomou o poder. Mas o novo governo de coalizão incluiu os romancistas e filósofos, que tinham se mantido afastados da Revolução. Eles assumiram o compromisso de jamais exumar A Forca ou rebilitar sua autora.

Biblioteca de Babel (31): Abe

Gustav Nachod (1881-1933), primo e admirador do compositor Arnold Schönberg, resolveu adaptar o dodecafonismo para a poesia. Como o parente havia feito na música, com a série de 12 tons, estabeleceu elementos poéticos que nunca deveriam se repetir no texto antes que toda a escala fosse usada.

Foi assim que escreveu “Abe” (1927), um poema de 144 estrofes. Mas sua poesia dodecafônica foi mal recebida pela crítica. Apenas Walter Benjamin escreveu uma resenha favorável.

Nachod pensou então em passar da poesia para a prosa, escrevendo um romance também baseado numa série de 12 “tons” lingüísticos. Mas, enquanto ainda trabalhava na estrutura da obra, morreu durante um ataque nazista a uma sinagoga, em Leopoldstadt.

Biblioteca de Babel (30): Hipergênera

No ano de 2938, surgiu um vírus que matava implacavelmente os homens com mais de 23 anos, causando uma falência de diversos órgãos. Mas a técnica de transplante permitia que muitas vítimas sobrevivessem, tendo seus cérebros transplantados para corpos femininos anencefálicos especialmente clonados com esta finalidade.

É claro que isso gerou polêmica. E uma aliança inesperada.

O Partido Feminista Mundial, que não vencia as eleições universais desde 2886, vira na praga a chance de finalmente tornar-se hegemônico. E protestou contra as operações por considerá-las uma tentativa de retomada da opressão masculina.

Em seu apoio veio a Liga Espiritual, que reunia as três maiores religiões (cristãos neoneopentecostais, muçulmanos transxiitas e cavaleiros Jedi). Tradicionais inimigos das feministas, os líderes religiosos se posicionaram contra os transplantes por não conseguirem chegar a um consenso¹ sobre que tipo de relação sexual um homem seria autorizado a manter depois de ganhar um corpo de mulher.


¹ Nem mesmo depois do XXVIII Congresso Ecumênico de Bizâncio.

Biblioteca de Babel (29): Graffiti, Caruaru

À primeira vista as pichações nos muros de Caruaru parecem iguais às de qualquer outra grande cidade. Mas existe algo mais. Se lidas na ordem certa, formam um romance de estrutura inovadora e linguagem desconcertante, escrito coletivamente por vários grafiteiros pernambucanos.

O problema está justamente em encontrar a ordem correta. Quem ler o livro compreenderá o sentido que existe em sair de uma mureta na ponte sobre o Rio Ipojuca, na Vila da Cohab, ir para o muro do estádio do Central e depois para um armazém no Bairro Agamenon. Mas, sem conhecer o enredo, o itinerário é aparentemente desconexo.

(Na Biblioteca de Babel existe apenas um álbum com as fotos das pichações. Infelizmente, um bibliotecário descuidado deixou que elas caíssem no chão e perdessem a ordem.)

Biblioteca de Babel (28): Nulleon

O Nulleon é o único livro sagrado de que já se tenha ouvido falar inteiramente em branco. Sua autoria é atribuída a Apolônio de Tiana, Nicômaco e até mesmo ao galo-romano Gatien de Tours, durante uma crise de fé.

A simplicidade do texto conquistou muitas almas para o Nulismo e influenciou até mesmo Santo Agostinho — “Ama e faze o que quiseres” seria uma interpretação do Nulleon, entre as muitas que circulavam pelo Império Romano.

Infelizmente, nenhuma cópia confiável do Nulleon sobreviveu às perseguições e queimas de livros considerados heréticos. Há apenas um fragmento de 43 páginas na Biblioteca do Vaticano.

Biblioteca de Babel (27): Guia dos mascotes extintos

Do press-release da editora:

“Rações apropriadas para um filhote de tiranossauro. Os cuidados para a criação de dodôs em cativeiro. Como adestrar um Eohippus. O aquário ideal para um celacanto.

O fato de uma espécie estar extinta não impede que ela proporcione, ao menos teoricamente, bons animais de estimação. Assim, o Guia dos mascotes extintos preenche uma carência ao tirar todas as dúvidas sobre os melhores amigos do homem pré-histórico.”

Biblioteca de Babel (25): Visões

Jules Verne previu as viagens espaciais, Monteiro Lobato errou por meros 20 anos a chegada da internet e a disputa entre Obama e Hillary, Arthur C. Clarke antecipou o princípio dos satélites geoestacionários. Mas nenhum deles se compara a Nunálvares de Castro, escritor português do início do século XVI.

Em Visões (1512), Nunálvares de Castro escreve sobre os autores do futuro. E nas suas páginas figuram como personagens os supracitados Verne, Lobato e Clarke, entre muitos outros. Já começa prevendo o próprio conceito de romance, ainda inexistente à época. E narra com impressionante exatidão o desenvolvimento de uma literatura futura, que anteciparia as descobertas da ciência.

Segundo Nunálvares, nas primeiras décadas do século XXI um autor africano escreverá o último dos romances.

Biblioteca de Babel (24): A Bíblia Poiesófica

A seita poiesófica (do grego ποιέω, criação, e Σoφíα, verdade) se alimenta dos gnósticos do início da Era Cristã e do Evangelho de São João (“e o Verbo era Deus”). Para eles, dizer que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança era uma forma de dizer que só Deus (o Verbo) e o homem são capazes de falar.

A prova disso, argumentavam, estava no fato de que Deus criou o mundo pelo poder da palavra; e o homem, da mesma forma, é capaz de criar quando usa a linguagem.

Assim, para a Poiesofia, todo texto é sagrado. E mais ainda se for poesia, ou prosa de ficção. Todos os livros já escritos e por escrever formam a Bíblia poiesófica. Por isso, segundo um dos poucos escritos conhecidos de seus adeptos, provavelmente redigido durante a perseguição que sofreram no século VI, o seu culto nunca deixará de existir. Até mesmo este verbete é uma prova de que eles estavam certos.