Arquivo da categoria: Biblioteca de Babel

Biblioteca de Babel (117): Voo Cego

É a primeira graphic novel já publicada com todos os quadrinhos em branco. Sem cenário, sem personagens (visíveis), sem texto.

Quem lê (lê?) encontra apenas as páginas diagramadas, com a grade de quadros partindo do padrão clássico americano, de duas colunas com tres paineis em cada, para aos poucos introduzir variações, aumentando alguns deles, reduzindo outros, explorando formatos diferentes. As vezes um quadro invade outro, às vezes um formato inusitado se repete por páginas a fio em diferentes posições.

Voo Cego já foi considerada não uma história em quadrinhos, mas uma partitura: sua aventura gráfica seria apenas uma forma de notação de uma complexa estrutura rítmica. Mas isso é apenas para quem não consegue enxergar a história.

Biblioteca de Babel (116): Passa Boiada

Mais do que um livro, Passa Boiada é um projeto translinguístico.

A sua primeira versão foi escrita em chamorro, que como se sabe é uma língua falada na ilha de Guam. Mas esse foi apenas um ponto de partida. Do chamorro foi traduzido para o suaíli, do suaíli (ignorando-se propositadamente a versão original) para o aimoré, daí para o finlandês, em seguida para o cantonês e o armênio. O objetivo é que o texto passe pelas quase sete mil línguas existentes (segundo o Ethnologue) no planeta, antes de voltar a ser vertido para o chamorro. Somente então se terá a versão definitiva do livro, que será uma soma das peculiaridades de cada idioma.

Há duas vertentes entre os linguistas envolvidos no processo. Metade acredita que a versão final será igual à original, ipsis litteris. A outra metade acha que será irreconhecivelmente diferente.

Biblioteca de Babel (115): Fábulas Imorais

Foram compostas por Artemidoro de Tebas, um contemporâneo e rival de Esopo. São histórias que exaltam a mentira, a traição, a injustiça, a pusilanimidade e a mesquinhez. Em todas elas, os vilões e canalhas sempre terminam com seus objetivos alcançados (frequentemente, até superados).

Levado aos tribunais por desvirtuar os jovens (mesma acusação que seria apresentada um século depois contra Sócrates), Artemidoro defendeu-se jurando que todas as suas fábulas eram, na verdade, histórias reais, tendo ele apenas disfarçado nomes e alterado outros detalhes.

Foi condenado então por fraude, uma vez que vendia histórias reais como se fossem criação da sua imaginação. Seu fim foi considerado uma contraprova perfeita das suas teses e por isso sua obra caiu no esquecimento.

Biblioteca de Babel (114): As Prefecias

Reúne as principais visões dos místicos que conseguiram ver o passado.

São descrições pormenorizadas de eventos como a chegada de Colombo á América, a vitória de Ciro na batalha de Hirba e o encontro de Joana d’Arc com o delfim Carlos.

(Prefetas, diga-se de passagem, desprezam os profetas de maneira às vezes clara e outras velada, geralmente observando que a Física moderna considera impossível ver o futuro uma vez que este não aconteceu ainda.)

Biblioteca de Babel (113): A Divina Assembleia

Inspirada na Divina Comédia, a obra transpõe o Inferno de Dante para uma reunião de condomínio. Cada andar do edifício é associado a um dos nove círculos.

O térreo, também chamado de Limbo, é onde moram os inocentes. Os recém-mudados, que mal sabem ainda o no,me dos porteiros. O segundo andar, dos luxuriosos, é dos que começam a se pegar ainda no elevador e perturbam alguns vizinhos com seus gritos de êxtase. No terceiro, os gulosos deixam migalhas, papeis de bala e farelos de bolo pelos corredores. Nas Colinas de Rocha do quarto andar, os avarentos reclamam eternamente dos salários pagos aos funcionários.

O Rio Estige atravessa o quinto andar, lar dos iracundos que gritam pela janela trocando ofensas. No sexto vivem os heréticos, que se recusam a acreditar no regimento. O sétimo, claro, é o dos violentos, que saem no tapa uns com os outros por causa de cachorros, vagas na garagem ou por mera vontade de brigar. No oitavo andar, o Malebolge, moram os fraudulentos: aqueles que nunca pagam o condomínio. Finalmente o nono andar é reservado aos traidores: o síndico, o conselho fiscal e o administrador, que nunca cumprem suas promessas.

Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate.

(Após sugestão dela.)

Biblioteca de Babel (112): Mutações

“Trinta e dois contos dessemelhantes” é o subtítulo, e é disso que se trata. Cada um é exatamente igual ao precedente, com exceção de uma única palavra (acrescentada, suprimida ou trocada). A mudança, quase sempre imperceptível, causa no entanto alterações às vezes radicais, mudando o desfecho, o tom, às vezes até o gênero.

Biblioteca de Babel (111): Lendas do Futuro

O livro reúne as mais importantes narrativas da tradição oral do século 80.

Daqui a seis mil anos, afinal, a verdade factual sobre eventos como a Segunda Guerra Mundial, a Revolução Russa e o Maracanazo de 50 terá sido confundida, soterrada sob o peso das hipernarrativas. Embora ainda haja quem considere todas essas histórias reais (igualmente às andanças de Quixote), a maioria das pessoas desse futuro distante prefere acreditar que estes eventos, se é que realmente aconteceram, foram tão modificados pelas falhas de reprodução memética ao longo dos milênios que é melhor tratá-los como lendas.

Como lendas, porém, estarão vivos no inconsciente coletivo, e arrebatando ouvintes.