Arquivos da Categoria: Biblioteca de Babel

Biblioteca de Babel (87): Dicionário Lagruz

Era considerado o dicionário mais antigo de que se tem registro, precedendo de alguns séculos o Urra=hubullu dos babilônios. Só recentemente se descobriu que não era um dicionário, e sim um livro de orações.

Era a crença dos lagruzes que a sua língua havia sido um presente dado pela Grande Mãe. Portanto, cada palavra era sagrada, cada fala uma oração, e o léxico, portanto, um guia espiritual. Isso explica a linguagem poética e pouco técnica de boa parte dos verbetes: trigo, por exemplo, é definido como “força da vida na terra que ouve-canta o fogo dentro das vísceras” (em tradução aproximada).

Biblioteca de Babel (86): Alice, uma biografia futura

Ainda não é possível classificar a obra como ficção ou não ficção. Tudo dependerá do sucesso ou fracasso do projeto.

A autora não apenas planejou e previu toda a vida de sua filha, como a publicou nesse livro. Estão lá as suas alegrias e frustrações, a forma como será criada,os lugares onde viverá, a sua alimentação, as informações a que será exposta e as suas prováveis reações a tudo isso. Inclusive o bilhete de suicida que escreverá aos 17 anos, quando descobrir como toda a sua vida foi traçada por uma mãe que lhe negou o carinho e a atenção que preferiu dedicar a sua obra.

Alice será concebida daqui a um ano, segundo a autora.

Biblioteca de Babel (85): O Bestiário de Adão

Segundo o cabalista Simeão Blumen (1833-1902), ao nomear todos os animais, seguindo a ordem de Yhwh, Adão fez mais que isso. Ele também elaborou um longo discurso, que poderia ser reconstruído se soubéssemos a ordem exata em que lhe foram apresentados os nomes dos animais do campo e das aves do céu para que as nomeasse.

Esse discurso foi, na verdade, a primeira prece. Pois ao ouvir Adão nomear as criaturas, Deus percebeu que faltara criar a mulher.

Repetir os nomes de todas as criaturas na ordem certa é, segundo Blumen, uma fórmula infalível para obter o amor de uma mulher, ainda que ela sequer exista.

Biblioteca de Babel (84): Hiperacróstico

Como romance, é no máximo medíocre. O enredo é previsível, os personagens são clichês, a escrita é linear e pouco imaginativa. Como se não bastasse, é longo demais, com seus 80 capítulos arrastando-se um atrás do outro, como se o objetivo fosse afastar o leitor . O fim, longe de ser compensador ou mesmo um alívio, gera apenas a sensação de frustração pela perda de tempo com uma leitura tão inútil.

Lendo-se apenas o primeiro parágrafo de cada capítulo, porém, o que se revela é um conto surpreendente. A alternância de ritmos, o jogo de repetições, a forma como tudo se encaminha para um final aberto e que no entanto confere sentido à narrativa: tudo mostra a precisão que se espera de contistas de primeira linha.

Se tomarmos porém apenas a primeira palavra de cada capítulo, o resultado é um poema que ainda supera em qualidade o conto.

As letras iniciais dos capítulos formam o verso mais perfeito já escrito.

Biblioteca de Babel (83): Mil Folhas

Ao contrário do que o nome indica, não foi impresso em mil folhas de papel. Aliás, não foi impresso em nenhuma. Inteiramente digital, foi lançado apenas no formato de livro eletrônico.

Até aí, nada de extraordinário. Mas como essa característica já fazia parte da sua concepção, acabou sendo determinante para toda a sua estrutura. Porque Mil Folhas não é apenas uma obra: é principalmente um processo. O texto final, se é que se pode chamá-lo assim, contém todas as marcas de revisões, esboços, comentários e outros registros que num livro normal são retirados da mesma forma que o desenho a lápis é apagado de uma arte-final.

Mais importante que a obra é o processo criativo nu. E a possibilidade de rejeitar alterações, recuperar versões alternativas, adaptar o texto à vontade de quem lê.

Biblioteca de Babel (82): Hiperpalimpsesto

Um dia o funcionário que operava a fotocopiadora se enganou e tirou uma cópia de um documento sobre uma folha que já havia sido utilizada. O resultado foi ilegível, é claro. Mas ele raciocinou, corretamente, que aquela folha passara a ter o dobro da informação.

Passou a usá-la em todas as operações. Cada vez que tirava uma cópia de qualquer coisa sobre uma folha em branco, fazia uma adicional sobre aquela que fora reutilizada por engano.

O resultado há muito já é um borrão negro. Mas seu autor continua adicionando informações várias vezes por dia sobre o seu livro de uma página só.

Biblioteca de Babel (81): Tratado de Geografia de Lengrâmia

O próprio rei da Ilha de Lengrâmia, geógrafo amador nas horas vagas, supervisionou a redação. O resultado foi que o texto refletiu as suas peculiares concepções geopolíticas.

A começar pela própria Lengrâmia, definida no Tratado não como uma ilha, mas como um continente, dada a sua importância, enquanto os continentes tradicionais são classificados como ilhas – por serem, afinal, pedaços de terra cercados de oceanos por todos os lados.

Igualmente, o meridiano zero é o que corta a capital.

Biblioteca de Babel (80): 53 começos e 2 fins

Vendo que jamais conseguiria concluir a contento sequer um dos 53 romances cujos primeiros capítulos havia escrito, preferiu reuni-los num só volume a corrompê-los com desenvolvimentos insatisfatórios.

A maioria é bem curta. Às vezes, apenas uma ou duas frases. Mas que começos! No nível de um Kafka, de um Melville.

Completam a coleção dois epílogos para histórias cujos inícios jamais conseguiu esboçar.

Biblioteca de Babel (79): Manuais de Desaprendizado

A coleção atualmente abrange 178 volumes, com guias passo a passo, detalhados e fartamente ilustrados, que ensinam como perder diversos conhecimentos e habilidades: de línguas (43 deles, incluindo inglês, aramaico e dinamarquês) a mecânica de foguetes, de lapidação de gemas a criptografia.

A ambição dos editores é publicar um volume definitivo, com a técnica para desaprender qualquer coisa. Tal livro, porém, ainda que seja possível, será inócuo: quem aprender a técnica que ele ensina irá esquecê-la imediatamente e não será capaz de utilizar o conhecimento para esquecer outras coisas.

Biblioteca de Babel (78): Luz Branca

Definido no subtítulo como “romance cromático”, é dividido em capítulos que, em vez de serem numerados, são coloridos. Assim, na ordem de leitura, começa-se pelo verde, vindo em seguida turquesa, ciano, celeste, azul, púrpura, magenta, rosa, vermelho, laranja, amarelo e oliva (note-se que não se trata de títulos dos capítulos, e sim de suas cores).

Note-se que a ordem estabelecida, além de permitir uma leitura fluida, estabelece contrastes entre os capítulos opostos. O texto do laranja é em tudo diferente do celeste, por exemplo.

 

Biblioteca de Babel (77): Malakemenwa

Em tradução livre, o título quer dizer “Noventa Peles”. O nome, porém, é impróprio, já que algumas das suas páginas não são escritas sobre peles, e sim sobre papiros, tábuas e outras superfícies.

O importante é que cada uma usa um material diferente. E, em cada uma, o estilo e o conteúdo do texto são diretamente influenciados pelo suporte em que está escrito. As peles de vaca e de carneiro trazem madrigais bucólicos; as de leões e tigres, poemas épicos; e assim por diante.

O livro deveria ter, como diz o nome, 90 páginas. Contudo, a única cópia existente soma apenas 89. Enquanto a teoria mais comum é de que uma página se perdeu (e sobram especulações sobre o seu material), alguns exegetas afirmam que a 90ª é feita de ar.

Biblioteca de Babel (76): Breviário dos Dez Mil Deuses

O Maharipustra contém todas as orações e hinos que devem ser entoados em honra dos dez mil deuses, bem como o dia e a hora exatos para cada um.

Se lidas e cantadas da forma certa, sem erros no ritmo e no andamento, e sem intervalo, as preces duram exatamente um ano. Assim, ao terminar-se a última, está na hora de voltar à primeira. É o que acontece no mosteiro de Amanishad, onde os monges se revezam na leitura ininterrupta do livro.

Muito apropriadamente, as páginas do Breviário dos Dez Mil Deuses, que não são numeradas, são presas por um anel. Desta forma, o livro não tem início nem fim, assim como o universo.

Acredita-se que o Maharipustra sempre existiu e sempre existirá.

Biblioteca de Babel (75): Carta de Juan de Castela

Quando Colombo voltou à Espanha, depois de descobrir a América, levou consigo seis índios nativos da ilha de Hispaniola (Haiti). Em Barcelona, aprenderam a língua espanhola e foram batizados. Um deles, parente do cacique Goacanagari, recebeu o nome de Fernando de Aragão, como o rei católico; outro, de Juan de Castela; e dos outros quatro não ficou registro¹.

Juan de Castela, o preferido do rei Fernando, morreria dois anos mais tarde. Havia conhecido Espanha e França, e aprendido tudo o que podia sobre a Europa e os cristãos. O suficiente para escrever uma carta a Goacanagari, com um relato pormenorizado de tudo o que viu e ouviu, bem como conselhos de como o chefe deveria proceder em relação aos homens de pele pálida e cabelos amarelos.

Vítima da gripe contra a qual seu corpo não tinha defesas, Juan confiou a carta a Patiño, mordomo do rei, a cujos cuidados havia sido deixado. Ouviu o espanhol jurar que o documento seria levado a Hispaniola, e então fechou os olhos.

A carta nunca foi enviada à América. Só recentemente foi publicada, revelando os alertas de Juan de Castela contra a malícia e perfídia dos homens brancos. Com cinco séculos de atraso.


¹ Segundo a “Historia general y natural de las Indias: islas y tierrafirme del mar oceano”, de Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés (1851)

Biblioteca de Babel (74): Dicionário Tautológico

Aliás, Flávio F., citado na postagem anterior, é também autor do Dicionário Tautológico, que se propõe não uma obra de referência, e sim de autorreferência. Assim, Triste aparece definido como “o contrário de alegre”, e Alegre como “antônimo de triste”. A definição de Canário é “ave diante da qual um conhecedor de canários afirma: ‘É um canário’”, ou ainda “tudo o que não é diferente de canário”.

Biblioteca de Babel (73): A Saga de Skadr

Logo de início vê-se que é um amontoado de clichês de fantasia. Lá estão os intrépidos heróis empenhados numa missão, atravessando terras selvagens; os diálogos grandiloquentes; os encontros em tavernas; os combates contra monstros terríveis; os feiticeiros com seus duelos de magia; até mesmo os mapas nas páginas finais, para o leitor acompanhar a aventura.

É justamente ao confrontar o texto com os mapas que o romance se revela mais do que parece.

Desenhados com uma riqueza de detalhes que quase permite ver o mundo encantado de Alinaua, os mapas logo expõem uma série de contradições na narrativa. É evidente que os Cavaleiros da Lua não poderiam ter chegado ao Planalto de Orien antes da primavera. Também fica claro que a descrição das Colinas Mortas só pode ter sido feita por alguém que sequer se deu ao trabalho de observá-las no mapa do continente setentrional.

Tantas falhas só permitem uma conclusão: Skadr, o narrador e protagonista, é um mentiroso. Alguém que forjou uma saga com o objetivo de parecer nmaior e melhor do que realmente é.

A essa altura, voltar à primeira página e reler a história como fraude – sempre com a ajuda dos mapas – torna-se irresistível. E a Saga passa a ser uma obra-prima de malícia.

Biblioteca de Babel (72): 40 Sonetos Pop

Da orelha do livro:

“Camões, Dante, Petrarca e Góngora escreviam poemas sobre figuras mitológicas ou bíblicas. Fazia todo o sentido numa época em que o aprendizado de um jovem culto passava necessariamente pela leitura das obras de Virgílio. Hoje, porém, a realidade é outra. Por isso os 40 sonetos aqui apresentados se baseiam noutra mitologia, a corrente neste início de século XXI. Os personagens são nossos deuses: heróis de histórias em quadrinhos, protagonistas de videogames, pornestrelas, celebridades de reality shows, DJs.”

Biblioteca de Babel (71): Hormônia (Memórias endócrinas)

Como o título sugere e o subtítulo confirma, trata-se de um histórico de exames de dosagens de hormônios no sangue da autora, coletados diariamente ao longo de seis décadas – dos 12 aos 73 anos de idade.

Ainda que a ideia tenha surgido apenas depois da menarca, todas as outras mudanças estão lá. Paixões, humores, cóleras, descritos de forma absolutamente objetiva pelas flutuações de adrenalina, estrogênio, testosterona e endorfinas.

Biblioteca de Babel (70): Névoa Concreta

Névoa Concreta é um longo poema escrito na linguagem dos sinais de fumaça dos Sioux.

Foi criado e interpretado simultaneamente ao longo de seis horas ininterruptas sob um céu imaculadamente azul num dia de verão, em 1976.

A Biblioteca de Babel guarda uma cópia.

Biblioteca de Babel (69): Terra

Depois do sucesso de suas séries anteriores (Maygara e Anantva, ambas batizadas com os nomes dos planetas fictícios que lhes serviam de cenário), R.H. Mass voltou a revolucionar a ficção-científica com o lançamento de Terra.

Logo no primeiro volume de Terra, o leitor assiste fascinado à descrição de um planeta exatamente igual ao nosso. Em tudo, nos mínimos detalhes: da formação geológica à biodiversidade, do surgimento da espécie humana na África à Revolução Industrial na Europa.

Como se não bastasse, os personagens de Terra são tão humanos quanto nós. Suas relações interpessoais e sociais, seus sonhos, desejos e defeitos, suas falas convencem o leitor, graças à verossimilhança que o cuidadoso trabalho demiúrgico lhes confere.

Biblioteca de Babel (68): Autólogon

O Autólogon escreveu-se a si mesmo.

O ato de contar sua própria história fundou sua consciência, que se materializou na narrativa.

Nas últimas páginas, percebe-se a sua angústia de saber que o ponto final trará sua morte. Talvez por isso o epílogo se arraste numa reflexão em que interroga-se se cadalivro não é, efetivamente, uma outra versão do Autólogon. Ou se cadaser humano não é ele mesmo também um Autólogon.