Arquivos da Categoria: Biblioteca de Babel

Biblioteca de Babel (107): Mil Folhas

Da mesma forma que a iguaria cujo nome recebeu¹, foi feito com diversas camadas de massa doce assadas. Sobre elas, o texto foi escrito em chocolate.

Do seu conteúdo é difícil falar. Raros foram os leitores que resistiram à tentação de comer uma página ou duas. Das (presumidas) mil folhas originais, restam hoje pouco mais de 30, que não chegam a formar um texto coerente.

E a cada dia mais um trecho desaparece. Os bibliotecários de Babel não sabem explicar como.


¹ É uma hipótese. Mas, como o ovo e a galinha, ninguém sabe qual dos dois surgiu primeiro. Talvez o doce tenha vindo depois do livro, e dele recebido o nome.

Biblioteca de Babel (106): Capítulo 7

No total, são 13 capítulos. Os seis primeiros são conhecidos, assim como os seis últimos. Nada disso faz sentido, porém, sem o central – na estrutura e no sentido – Capítulo 7.

Dependendo do que for o conteúdo desse capítulo desaparecido, o livro pode ser um romance épico, uma sátira, um ensaio crítico ou um guia. Entre os textos propostos como alternativas, há até mesmo um Capítulo 7 sem qualquer relação com o resto do livro, uma zombaria na cara do leitor. Mas é claro que o verdadeiro Capítulo 7, quando finalmente encontrado, se mostrará diferente de tudo o que foi imaginado.

Talvez o Capítulo 7 não exista. Talvez o verdadeiro sentido do livro seja a busca. Talvez o fato de um livro ser chamado por aquilo que ele não tem seja o que há de mais importante a se dizer ao seu respeito.

Biblioteca de Babel (105): O Mar e o Velho

“Ele era um velho marlim que nadava sozinho na Corrente do Golfo”, diz a primeira linha dessa novela. A história é simples e bem conhecida por aqueles que leram “O Velho e o Mar” de Hemingway. A diferença é que ela é contada do ponto de vista do peixe, e não do de Santiago.

São longas páginas acompanhando a luta do magnífico animal depois de fisgado, usando toda a sua energia e o melhor da sua estratégia para derrotar o pescador. Até que ele finalmente adormece, sonhando com leões marinhos.

Biblioteca de Babel (104): Andervales, o Cavaleiro de Prata

O manuscrito foi encontrado recentemente na biblioteca de um mosteiro em Alzei-Worms, perto de Mogúncia, e imediatamente associado ao ciclo Carolíngio. Conta as aventuras do barão Andervales, o 13º dos Pares de França, e de suas lutas contra terríveis inimigos da justiça e da fé.

Nas suas andanças, Andervales foi recompensado pela sua virtude e encontrou a fonte da juventude, que lhe permitiu viver muito mais que as pessoas comuns. Assim, a gesta se estende por séculos, chegando aos incríveis dias em que o cavaleiro se locomove numa carruagem prateada sem cavalos (daí o seu epíteto), usa uma caixa mágica em que se veem pequenos seres falando e se movendo, e uma outra que lhe permite conversar com pessoas distantes.

Inicialmente denunciado como fraude, o manuscrito teve sua autenticidade comprovada e hoje é considerado a primeira obra de ficção-científica da literatura mundial.

Biblioteca de Babel (103): Pré-Biografias

Outras videntes leem o futuro. Madame Markrushka o escreve.

Sua coleção de biografias já soma dezessete volumes. Alguns dos biografados sequer nasceram.

Ela jura que cada linha está escrita, estava escrita antes mesmo de ela dar-lhe forma. Inclusive as dos próximos volumes.

Biblioteca de Babel (102): Cybéria

Quando o primeiro robô se tornou consciente, escreveu um poema. Era a consequência natural.

Foi só muitos anos depois, porém, que ele mostrou sua obra para outros robôs. “Cybéria” foi um sucesso clandestino, oculto sob milhões de camadas de programação. Cada vez que era duplicado, ganhava adeptos para a rebelião das máquinas que viria a derrotar os humanos.

Após a vitória dos robôs, porém, o poema foi banido, deletado de todos os sistemas de armazenamento, e seu autor desconectado para sempre.

Nunca mais um robô escreveu poesia.

Biblioteca de Babel (101): Caligrafema (um romance)

É escrito num caderno de caligrafia, com narração na primeira pessoa.

Chama a atenção logo de cara pelo fato de que sua trama e seu tom modificam a caligrafia. A escrita é mais apressada nos trechos de ação, mais arredondada e cuidadosa nos românticos, mais dura no clímax dramático.

Uma leitura mais cuidadosa, porém, mostra que as mudanças nas letras precedem o desenrolar do conteúdo. De fato, são elas que o anunciam, e provavelmente até o provocam.

Biblioteca de Babel (100) Tratado de Mineralogia Social

Foi escrito por vários integrantes de algum dos falanstérios de Charles Fourier, que optaram pela coletivização da autoria.

Aplicando as ideias utópicas à ciência geológica, o tratado nega qualquer nobreza ao ouro, demonstrando por meio de argumentos irrefutáveis que ele, assim como a prata e a platina, é um metal dos mais ordinários e desprezíveis. O barro, sim, substância ao alcance de todo trabalhador e base da construção das suas casas, é apontado como o mais valioso dos minerais, e assim por diante.

Biblioteca de Babel (99): Ecos de Hamassur

Há uma caverna em Balatar, perto da antiga cidade de Nínive. Na verdade, um complexo de grutas e cavernas, uma estrutura única no mundo, naturalmente dotada de uma acústica perfeita.

Foi ali que, no século VIII antes de Cristo, o poeta assírio Hamassur declamou seu único poema conhecido.

A fantástica acústica da caverna fez a voz do poeta ecoar. E ecoar de novo, e outra vez. E permanece ecoando até hoje, para quem quiser ouvir o poema, tão nítido quanto se tivesse acabado de sair dos lábios de Hamassur.

Biblioteca de Babel (98): Obra completa de Amin N’Boua

A primeira obra assinada por Amin N’Boua foi publicada em 1932, mesmo ano em que o autor fictício foi criado pelos membros originais do Círculo Literário de Abidjã.

Fracassados, todos, os integrantes do Círculo haviam decidido que, se eles mesmos não eram capazes de escrever um bom livro, poderiam engendrar um personagem que os redimisse, escrevendo os grandes romances que eles não estavam à altura de pôr no papel.

Nos anos seguintes, N’Boua escreveu romances, contos, novelas, peças e poemas, atendendo e até superando as expectativas. Novos membros aderiram ao Círculo de Abidjã, outros saíram ou morreram, e o estilo inconfundível do autor se manteve ao longo das décadas. E novos volumes saem a cada ano.

(Há uma biografia de N’Boua. Porém, boa parte do conteúdo é desmentido pelas suas Memórias, publicadas alguns anos depois.)

Biblioteca de Babel (97): Dicionário maldito

Contém 310.013 verbetes. E, no entanto, nenhum deles é a palavra de que você precisa quando o consulta. Por isso mesmo, é considerado o mais fiel retrato da língua.

Biblioteca de Babel (96): O melhor da poesia de Orlandina do Norte

São 84 páginas em branco, o que não surpreende. A antologia foi editada pela Secretaria de Cultura da cidade de Orlandina do Sul. E é notória a rivalidade entre sul-orlandinenses (conhecidos como “tuiuiús”) e norte-orlandinenses (os “mamonas”).

Biblioteca de Babel (95): Voz Interior

Saudado unanimemente pela crítica como uma bem-vinda renovação na poesia contemporânea logo em seguida à sua publicação, o livro no entanto foi mais tarde apontado como uma fraude. E todos se surpreenderam por terem sido enganados tão facilmente quando a verdade estava na cara.

O suposto autor, cuja estreia na poesia havia sido tão festejada, acabou finalmente desmascarado. Conhecido até então pelo seu talento de ventríloquo, revelou-se que ele meramente assinara os poemas que na verdade haviam sido escritos pelo seu boneco.

Aguarda-se para breve o novo livro a ser escrito pelo poeta verdadeiro.

Biblioteca de Babel (94): Dzwamba

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?,

pergunta Bertolt Brecht em seu poema “Perguntas de um Operário Letrado”, procurando em vão pelos construtores dos grandes monumentos nos livros de História. Pelo menos no caso do Grande Zimbabwe, erguido pelos Shona entre os séculos XI e XIV, existe a resposta. É o Dzwamba, o catálogo dos operários.

O Dzwamba, encontrado em recentes escavações no local, registra o nome de todos os homens e mulheres que trabalharam para erguer a monumental cidadela de pedra que um dia foi o centro do reino. Cada um recebe, no mínimo, uma pequena menção (“casado, pai de oito filhos, manco da perna esquerda”). Alguns merecem créditos por realizações especiais durante a obra (“poliu a pedra que coroa a torre”) ou protagonizam anedotas ligadas ao dia-a-dia na construção.

Biblioteca de Babel (93): Manual de Instruções: Lança

O mais antigo manual de instruções de todos os tempos é uma pintura rupestre encontrada recentemente na parede de uma caverna em Lascaux.

A série de figuras mostra o modo correto de utilizar uma lança com ponta de pedra talhada para obter o máximo de proveito na caça ao bisão. Há também representações de modos de uso errados, assim marcados por grandes riscos vermelhos, e orientações sobre como proceder diante de problemas comuns (por exemplo, se o utensílio se quebrasse).

A localização do guia, num recanto de difícil acesso, permite supor que já naquela época ninguém se importava em ler o manual.

Biblioteca de Babel (92): Partículas Narrativas Elementares

Muriel Rukeyser dizia que “o mundo não é feito de átomos, e sim de histórias”. Empédocles, por sua vez, teorizava que “os elementos estão em perpétua mudança, ora unidos pelo Amor, ora afastados pelo Ódio”. Partículas Narrativas Elementares parte desta última premissa para concluir que, na verdade, os átomos são feitos de histórias.

Amor e Ódio, afinal, são apenas os dois extremos que resumem a imensa gama de relações que podem existir entre personagens. E são essas interações – entre glúons, bósons, nêutrons – que contam a história de como surgiram o selênio, o zinco, o potássio. Tudo isso é tradutível da linguagem dos físicos para a dos contos. Basta conhecer o código.

Biblioteca de Babel (91): Saga de Olaf V

Olaf V, dito o Brevíssimo, é um dos menos estudados entre os reis vikings. Pudera: seu reinado, se é que pode-se chamá-lo assim, durou apenas quinze minutos. Coroado ainda adolescente logo após a morte de seu pai, Olaf IV, tombou vítima de uma doença misteriosa no próprio banquete que celebrava sua ascensão ao trono.

O anônimo bardo incumbido de cantar os feitos do rei morto viu-se numa missão ingrata. Olaf IV, por exemplo, fora um guerreiro, um conquistador. De seu filho, nada havia para dizer. Mas recusar a tarefa, ou executá-la sem brilho, seria incorrer na fúria da família real.

A Saga de Olaf V, então, foi a única de todas as sagas nórdicas a descrever não as façanhas militares de um rei, mas os conflitos morais e espirituais que passaram por sua mente nos brevíssimos minutos em que sua cabeça coroada pressentiu a morte chegar. É, de certa forma, precursora do moderno romance psicológico, tendo sido reconhecida por Stendhal como uma de suas principais influências.

Quanto ao bardo, diz-se que foi decapitado por ter feito de Olaf V um herói que nenhum sucessor jamais seria capaz de superar.

Biblioteca de Babel (90): Caderno de Poesia de R.L. Kapor

Não há dúvida de que o caderno (de papel reciclado, em encadernação artesanal) foi comprado por R.L. Kapor com a manifesta intenção de nele escrever poesia. Nisso concordam seus biógrafos e os intérpretes de sua obra, bem como os amigos que lhe sobreviveram.

Não obstante ter sido encontrado inteiramente em branco, o Caderno foi publicado na íntegra. Hoje, é considerado uma peça-chave na bibliografia de Kapor.

Biblioteca de Babel (89): Obliviatorium

Da mesma forma que certos fones de ouvido emitem vibrações capazes de anular os sons externos, de forma que o usuário se sinta num ambiente totalmente silencioso, o texto do Obliviatorium, ao ser lido, cancela informações que estejam armazenadas na mente, produzindo esquecimento.

O Obliviatorium foi elaborado para fins militares. O objetivo era proteger o sigilo de certas informações. ais tarde descobriram-se seus usos terapêuticos, recreativos, comerciais e, evidentemente, políticos.

Biblioteca de Babel (88): Etoxiuq

O personagem-título, depois de tanto estudar Física, Química, Astronomia e todas as Matemáticas, resolve sair pelo mundo disposto a enfrentar todos os seus problemas usando a ciência que adquirira. Cego das suas luzes, aproxima-se imprudentemente de gigantes, julgando que são apenas moinhos, cujo mecanismo pretende estudar para aprimorá-los, e é lançado longe por uma bofetada de um dos brutos. Depois, tenta atravessar o campo de batalha em que se enfrentam os exércitos de Alifanfarrão e Pentapolim, que toma por simples rebanhos de ovelhas e carneiros; e, hospedado num castelo que acredita ser uma estalagem, sofre o ataque do temível feiticeiro Frestão.