Sábado, 12/12/2009 • 21:12
Os 37 volumes que ocupam uma prateleira e meia da estante contêm todas as obras que podem ser escritas em Amardiano.
Com poucos fonemas, regras rígidas para a formação de vocábulos e uma gramática restritiva, o Amardiano não permite mais do que isso. Assim, “Cmazordy ot snäw” é ao mesmo tempo a tradução de “O velho e o mar”, “A gaia ciência” e um relatório anual de vendas de azeite.
Considerada por muito tempo como a mais simples da Humanidade, a língua amardiana foi recentemente redescoberta e se tornou motivo de diversos estudos por ter se revelado, de fato, extremamente complexa em sua impressionante capacidade de síntese.
A ironia é que todos os estudos já estão contidos naqueles 37 volumes. Resta interpretá-los corretamente.
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Domingo, 18/10/2009 • 11:10
A origem deste manuscrito está ligada às tradições sobre a vida de Santo Antão no deserto.
Alvo de constantes tentações para que abandonasse a sua vida de santidade e mortificações, o eremita resistiu a todas. E fez mais: chegou a aprisionar alguns dos demônios enviados por Satã para tentá-lo. Acorrentou-os no fundo da caverna onde vivia e obrigou-os a copiar a Bíblia, letra por letra.
As poderosas orações do santo forçavam os diabretes a realizar a tarefa. Copiar fielmente a Sagrada Escritura era, evidentemente, uma tortura insuportável para os espíritos imundos.
(Pouco antes de morrer, orientado pelo arcanjo Miguel, Santo Antão libertou os demônios para que voltassem ao inferno em vez de ficarem vagando pela terra. Com isso, impediu também que eles conspurcassem o Livro após a sua morte.)
No entanto, Atanásio de Siracusa afirmou que do mal só pode vir o mal. Mesmo subjugados pelo santo, os demônios encarregados da tarefa teriam instilado sua perversidade nas páginas do Livro. Assim, quem o lê sempre interpreta erradamente as palavras divinas. No Concílio de Trento, houve mesmo quem afirmasse que foi a Bíblia dos demônios que inspirou a Reforma a Lutero.
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Sábado, 12/9/2009 • 19:09
O Descionário é um dicionário composto de verbetes com definições erradas, mas que de alguma forma parecem corretas. Cantochão é um adorno arquitetônico; Gandulo é uma projeção da margem de um rio ou lago; Tentame é uma estrutura usada na sustentação de obras.
Curiosamente, algumas definições presentes no Descionário eram falsas quando da sua primeira edição, em 1923, mas hoje são verdadeiras. É o caso da palavra Pistoleira, que então ainda não tinha o significado de “prostituta” mas assim está definida.
Alguns dizem que o Descionário na verdade é um dicionário futuro, e que um dia todas as suas definições estarão corretas.
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Quinta-feira, 3/9/2009 • 20:09
Por incrível que pareça, ainda existe uma obra inédita do autor britânico H.G. Wells. Em 1900, ele escreveu um romance, cujo título jamais revelou, e guardou-o num envelope lacrado. O volume foi encontrado junto ao testamento do escritor, que continha instruções expressas.
Este é um livro que ainda será escrito. Algum dia, no futuro, alguém escreverá esta mesma história, com estas mesmas palavras e este mesmo título, diz o testamento.
Temendo que o teor do livro fosse conhecido antes do momento certo, influenciando outros escritores e assim invalidando a sua previsão, Wells acrescentou que o enevelope só deveria ser aberto em 23 de março de 2050, exatamente 150 anos após a data de conclusão do manuscrito. Só então será possível saber se ele estava com a razão.
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O autor, que ainda possuía uma máquina de escrever, guardada há anos no fundo do armário, pôs um rolo de fita novinho e começou a datilografar. E então escreveu do início ao fim, sem sequer um erro ou hesitação, o seu melhor romance. Sem pôr papel na máquina.
Retirou da máquina o rolo de fita eentregou-o à editora:
– O livro está aí. Basta ler as marcas feitas pelos tipos na fita, na ordem em que foram deixadas.
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Sábado, 25/7/2009 • 15:07
Quando os críticos afirmaram em coro que o Grande Escritor estava próximo do auge e que sua próxima obra seria provavelmente o romance definitivo da sua geração (pelo menos), ele não teve dúvidas. Publicou um livro sem título e com todas as páginas em branco.
As resenhas foram empolgadas, e “___” foi o seu maior sucesso de vendas.
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Quarta-feira, 8/7/2009 • 23:07
Aliás, o autor de “Cabeça” (ver a postagem anterior, Biblioteca de Babel 44) era conhecido justamente pela qualidade das orelhas que escrevia. nquanto outros escritores eram constantemente requisitados para redigir introduções e prefácios para obras de terceiros, ele se especializava nos sucintos parágrafos que acompanhavam as capas. Em muitos casos, criando obras superiores às que recomendava.
Foi questão de tempo para que um editor um pouco mais inteligente propusesse uma coletânea de sua obra auricular. Mas eram tão bons os textos que não foi possível selecionar os melhores. Impôs-se a publicação das Orelhas completas.
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Terça-feira, 7/7/2009 • 20:07
A maioria das avaliações negativas que recebeu veio de críticos que, erradamente, leram apenas as páginas do livro. E, dessa leitura apressada, concluíram que se tratava de uma obra superficial, confusa e redundante.
De fato, é isso mesmo. A não ser quando lida completa — ou seja, incluindo as orelhas.
A leitura dos dois pequenos textos acrescentam contexto e perspectiva ao livro, que assim se revela como uma autêntica obra-prima.
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Domingo, 28/6/2009 • 22:06
Frans van Heinden (1651-1692) pode ser o menos conhecido pintor da Era de Ouro holandesa, e talvez até o pior deles. Certamente, ficou muito aquém de Rembrandt, Vermeer ou mesmo Ruisdael. Mas só recentemente se descobriu que sua grande obra não foi a pintura, e sim o romance.
Em todas as telas de Van Heinden aparece alguém lendo um livro. Nada demais para alguém que tinha como amigos intelectuais do porte de Baruch Spinoza. Nos últimos anos, porém, técnicas avançadas de digitalização de imagens permitiram ler o que pareciam ser apenas borrões nas páginas pintadas. E o que surgiu foi um romance inédito, ao que tudo indica escrito pelo próprio pintor.
Na falta de título, a obra é chamada de “Heindeniana” pelos estudiosos. O romance trata da vida na Delft do século XVII com riqueza de detalhes e uma aguda crítica social. Infelizmente, Heinden não chegou a concluir seu livro, tendo morrido antes de pintar as páginas finais. Além disso, várias telas com trechos fundamentais se perderam, especialmente no incêndio do Museu de Utrecht.
Especula-se com a possibilidade de que haja um manuscrito com os originais da Heindeniana. Mas a maioria dos críticos acredita que o autor escreveu diretamente nas telas.
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Domingo, 21/6/2009 • 21:06
O argumento central da obra é que a História não é movida por causas eficientes, e sim por causas finais. Tudo o que existe conspira para um objetivo. Assim, por exemplo, não foi porque os otomanos tomaram Constantinopla que os ibéricos se lançaram às grandes navegações: foi o sultão Maomé II que lançou suas tropas sobre a cidade para que mais tarde Colombo e Vasco da Gama se fizessem ao mar.
A abordagem causal, dizem os teleologistas, tem se mostrado falha não apenas para explicar o passado mas principalmente para prever o futuro. Se este fosse consequência de nossos atos, poderia ser facilmente planejado. mas todas as tentativas de usar a História como ciência exata resultaram em vexame ou tragédia.
Assim, a única abordagem histórica viável seria a inversa: descobrir qual o fim a que vem servindo toda a evolução da Humanidade (e, em consequência, os nossos atos de hoje).
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Sábado, 16/5/2009 • 12:05
No primeiro capítulo, só as linhas ímpares foram escritas. As pares estão em branco.
No segundo, só a metade esqurda da páginaestá escrita. As linhas são interrompidas no meio.
No terceiro, cada frase é escrita palavra sim, palavra não.
No quarto e último, só as páginas pares foram impressas.
Pelo pouco que se pode entender da meia introdução, o autor descobriu que, ao nascer, foi separado de seu irmão gêmeo. Decidiu então escrever um romance pela metade, certo de que, por um processo de criptofasia, seu irmão desaparecido escreveria a outra metade. Quem um dia encontrar as duas partes poderá juntá-las e enfim ler a obra inteira.
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Terça-feira, 12/5/2009 • 07:05
O catálogo traz as mais preciosas obras de arte roubadas em cada ano, bem como o seu valor estimado no mercado negro e o contato para a compra. Apenas quarenta exemplares de cada edição são impressos, e distribuídos sempre no dia 1 de março aos maiores colecionadores de arte roubada do mundo.
Ninguém sabe quem edita e distribui o anuário. Mas também ninguém contesta suas informações. E muito menos a lista de leitores.
Mais de um milionário excêntrico já entrou em depressão profunda ao contatar, no dia da distribuição, que havia perdido seu lugar na lista.
A simples posse de um Anuário Heijden é considerada pela Interpol prova suficiente de crime de receptação.
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Segunda-feira, 20/4/2009 • 21:04
O Sanwar, ou Livro dos Amores, contém as histórias de 64 casais felizes. São homens e mulheres jovens, velhos, de diferentes raças, credos e class es sociais. O seu apêndice, o Sanwar-viz, narra as desventuras de 64 casais infelizes.
Todo casal que se forma repete, de algum jeito, uma das 128 histórias do livro. Quem souber identificar claramente qual capítulo está repetindo saberá se está destinado a viver um casamento repleto de alegrias ou a iniciar um tormento que só terminará com a separação, ou coisa pior.
O maior problema é que os 64 casais infelizes são, em quase tudo, exatamente iguais aos infelizes.
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Quarta-feira, 8/4/2009 • 19:04
Do Inferno brotam duas fogueiras gêmeas
Consumindo num segundo milhões de almas
De suas cinzas ergue-se a bandeira branca
Que a Guerra hasteia, na outra mão a espada
Esta é a transcrição para língua corrente dos acordes finais da quinta sinfonia de Ludwig van Beethoven, dita “do Destino”, composta em 1808. A obra é, na verdade, uma profecia cifrada da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que só recentemente pôde ser revelada, com a descoberta do código para sua tradução. Os versos finais se referem, evidentemente, às bombas sobre Hiroxima e Nagasaki, e já anunciam a Guerra Fria (“na outra mão, a espada”) que se seguiria.
O Código não se resume à quinta sinfonia. Todas as outras integram um arco de visões do futuro, que passa pela já citada Guerra Fria, indo até a queda do Muro de Berlim (a sexta sinfonia, Pastoral), o choque de civilizações e a crise atual (a sétima), a Grande Revolução (a oitava) e o fim da História (a Ode à Alegria da nona).
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Terça-feira, 10/3/2009 • 20:03
O Aliscor é o único livro que se conhece escrito em idioma taruche. Provavelmente nunca haverá outro, já que se trata de uma língua morta, cujos últimos falantes morreram quando sua aldeia foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial.
Mas não se trata de uma literatura tão pobre quanto parece, graças às características mutantes da língua taruche. Nela, não só as letras constantemente passam a representar sons diferentes, mas o significado das palavras se altera periodicamente. Assim, o Aliscor se transformava a cada vez que era lido.
Compreender as mudanças sempre foi a grande dificuldade para se aprender o tartuche, e que motivou a sua extinção.
Arlak “Unha-de-Tigre”, um falante nativo do tartuche que viveu durante vinte anos em Pequim no início do século passado, chegou a fazer treze traduções diferentes do Aliscor para o mandarim: seis romances, quatro estudos de História, dois manuais agrícolas e uma coletânea de provérbios.
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A obra do professor Edmund Strölsen, PhD, descreve como seria o mundo se os arranjos atômicos e subatômicos fossem ligeiramente diferentes. Analisando as consequências de uma alteração nas camadas de elétrons, ele chega a conclusões surpreendentes.
No universo de Strölsen, o elemento químico mais abundante é o molibdênio, quase sempre encontrado em compostos com hélio (que perde o status de gás nobre), cálcio e fósforo. A combinação de hidrogênio e oxigênio formando a água é altamente instável e, em certas condições, até mesmo explosiva. E o ferro é sempre magnético.
O tratado é considerado fantasioso pela maioria dos cientistas e árido pelos leitores de ficção científica, enfrentando rejeições dos dois lados. Mesmo assim, muitos acreditam que Strölsen pode se tornar o primeiro homem a receber dois prêmios Nobel simultâneos: o de Química e o de Literatura.
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Quinta-feira, 15/1/2009 • 06:01
Uma das cadeiras da Académie Française é ocupada por uma mentira há séculos, desde a sua fundação.
Seu titular é sempre alguém que um dia foi um jovem de grande charme e nenhum talento, mas que foi eleito secretamente pelos imortais para tornar-se um membro da academia. Foram eles que lhe ofereceram, prontos, os livros que assinou e publicou.
Construiu assim uma brilhante carreira literária às custas das obras alheias, até finalmente ser eleito para a Académie e ocupar a cadeira falsa.
É obrigação de todo acadêmico escrever pelo menos um livro que será mais tarde atribuído ao escolhido para ser o novo falso escritor. Os originais destas obras ficam guardados numa sala secreta, nos porões da Biblioteca Mazarine, no Institut de France. Por isso, são conhecidos como os sous-mazarins, submazarinos.
Houve pelo menos um submazarino que, após publicado, revelou-se melhor que toda a obra oficial de seu verdadeiro autor. Este, ao ver o sucesso do falsário e compreender que jamais escreveria algo do mesmo nível, cometeu suicídio em Notre Dame. O caso, evidentemente, foi abafado.
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Sexta-Feira, 3/10/2008 • 20:10
Livros sagrados existem aos montes. Toda religião que se preza tem o(s) seu(s), além de hagiografias, teologias e exegeses à la carte. Mas só os antigos arandeus optaram pelo oposto: um livro maldito.
O Uaclanast era uma coletânea de impropérios, pecados, vícios e corrupções. Ensinava e recomendava a prática de todo tipo de mal. Nas suas páginas, os arandeus aprendiam tudo o que não deveriam fazer. A virtude suprema era não fazer nada do que estivesse no livro.
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Sexta-Feira, 26/9/2008 • 07:09
O talento de Sá Costa como organizador já era uma unanimidade. Mas faltava uma obra deste porte, para dar ao leitor uma visão ampla da sua trajetória. Aqui estão reunidas as suas mais significativas antologias, desde o início da carreira, com “Poetas sergipanos do século XIX” até a definitiva “Nova coletânea do conto brasileiro”, que a Academia premiou com o Tutano de Ouro da categoria em 2007.
É claro que algum leitor poderá reclamar que faltou isto ou aquilo. Natural. Para ser de fato uma antologia perfeita, teria que ser organizada pelo próprio Sá Costa, que já não está entre nós.
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Sexta-Feira, 19/9/2008 • 07:09
Quando o exército sufocou a Revolução dos Poetas, todos os conspiradores foram condenados à morte. Mas o governador concedeu indulto a cada um deles. Em troca de um poema.
Não havia imposição de tema nem estilo. Quase todos foram panfletários (e francamente ruins), com ataques ao Estado e ao próprio governador (incluindo ataques à honra de sua mãe, sua mulher e sua filha). Houve os arrependidos, que aderiram ao regime e o elogiaram. Houve os escapistas com suas fantasias góticas nuas de qualquer conotação política. Houve, como sempre, versos de amor para todos os gostos.
E houve A Forca. Foi o último poema que o governador leu. E ficou tão revoltado que mandou enforcar sua autora, uma revolucionária cujo nome não ficou guardado.
O manuscrito de A Forca foi enterrado junto com sua autora. O governador morreu de uma doença misteriosa e fulminante no mesmo dia.
O povo não tomou o poder. Mas o novo governo de coalizão incluiu os romancistas e filósofos, que tinham se mantido afastados da Revolução. Eles assumiram o compromisso de jamais exumar A Forca ou rebilitar sua autora.
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