Arquivo da categoria: Biblioteca de Babel

Biblioteca de Babel (124): Cântico de Bálquis

Enquanto o Cântico de Salomão (também conhecido como Cântico dos Cânticos, ou Cantar dos Cantares, ou simplesmente o Cantar) goza de reputação até exagerada, a sua resposta, escrita pela Rainha de sabá, permaneceu ignorada até recentemente, quando foi descoberta a sua última cópia autêntica.

Mais explícito sexualmente e portanto mais poético que o texto bíblico, o Cântico de Bálquis troca as metáforas do amor para usar o amor como metáfora.

Embora tenha permanecido oculto por séculos, é evidente que ao menos  partes dele chegaram à Europa na Antiguidade, provavelmente perdidas no incêndio da Biblioteca de Alexandria. Alguns versos certamente foram parafraseados por Safo.

Biblioteca de Babel (123): Um plano viário

Isso foi na época em que nossa cidade teve um péssimo secretário de Urbanismo. Foi uma gestão em que o trânsito, que já era ruim, ficou completamente inviável. Em parte por causa da confusa sinalização nas ruas.

Poucos perceberam, entretanto, que o péssimo urbanista era um poeta genial. E que havia escrevido um poema formado pelas placas, bastando seguir um determinado trajeto pelas ruas da cidade, lendo-as na ordem correta, para compreendê-lo.

Infelizmente, ninguém jamais conseguiu ler o poema viário, devido aos constantes engarrafamentos.

Biblioteca de Babel (122): A Poça

Neste romance, todos os personagens são protozoários que vivem numa poça d’água deixada pela chuva. Todos aparentemente iguais, sem traços físicos ou psicológicos que permitam ao leitor diferenciá-los, sequer nomes próprios. Até a forma como se relacionam entre si parece inteiramente aleatória.

No entanto, a leitura deixa claro que essa indiferenciação só existe por sermos nós incapazes de perceber as sutilezas dos protozoários. Tanto quanto gigantes facilmente confundiriam um Ahab com uma Emma Bovary.

Biblioteca de Babel (121): Poesia Líquida

Neste século tacanho
À poesia antipático
Só um estro homeopático
Só versos deste tamanho!
(Péthion de Villar)

Poesia Líquida é uma série constituída por diversas garrafas cheias de água.

Não de qualquer água, evidentemente. Água do mar, especificamente de uma praia onde, certo dia, poetas de várias gerações, estilos e escolas se reuniram para escrever seus versos na areia. A maré alta logo apagou a poesia, mas – conforme ensinam os preceitos homeopáticos de Samuel Hahnemann – a sua memória ficou impregnada no líquido que ela agitou.

Cada garrafa é, assim, mais que uma antologia: é uma síntese, uma expressão pura do que seja a essência da poesia. Imperceptível, como não poderia deixar de ser.

Biblioteca de Babel (120): Capelli e Saint-Jacques

Dois dos mais antigos tratados de esgrima, os livros de Vicenzo Capelli (1396-1441) e Honoré de Saint-Jacques (1410-1442) desapareceram, ao que parece, para sempre.

A perda é lamentável não apenas pelo valor histórico dos manuscritos, mas também pelas técnicas neles descritas. Por exemplo: Capelli, mestre de armas com serviços prestados aos Médici e outras famílias poderosas, era conhecido por sua capacidade de deter qualquer golpe adversário, o que certamente explicava em seu livro. Saint-Jacques, por sua vez, dominara uma estratégia de ataque (uma manobra complexa, iniciada com uma batida de contra de terça e sucessivos coupés) que, se executada corretamente, era sempre fatal.

Acredita-se que, quando finalmente foram postos lado a lado, o manual da defesa intransponível e o guia do ataque indefensável simplesmente se anularam e desapareceram, como um par de partículas de matéria e antimatéria no espaço. E assim nunca mais existirão, a não ser na Biblioteca de Babel.

Biblioteca de Babel (119): Ulogia

Existe um poema tão subversivo que foi censurado antes mesmo de ter sido escrito.

É (será) uma obra coletiva, composta por versos de centenas, talvez milhares de poetas. No dia em que todos os versos e todas as vozes se unirem, o resultado será algo tão intenso que atingirá toda a humanidade. Até quem sempre torceu o nariz para a poesia terá sua alma virada pelo avesso, as entranhas da dia consciência iluminadas, e ninguém mais descansará enquanto o planeta não for um espelho perfeito de tamanha beleza.

Por isso é tão vital manter a horda de poetas espalhada por todo o mundo, sem que possam entrar em contato e somar seus versos.

Biblioteca de Babel (118): Diário de Abdera

Registra detalhadamente cada dia da expedição de Abdera, enviada em 940 AC pelo rei fenício Hirão I para explorar a Lua.

Ao que parece, o navio saiu de Tiro com a missão de buscar pedras lunares que, por orientação dos astrólogos fenícios, seriam cedidas para a construção do Templo de Salomão. O diário mostra como Abdera cruzou o Mediterrâneo, atravessou as Colunas de Hércules e seguiu para o Norte, para o atual Golfo de Cádiz.

A partir daí a história fica confusa.

Não há consenso sobre a rota tomada pelos fenícios. Alguns intérpretes afirmam que a descrição é consistente com uma navegação em torno da Península Ibérica e depois subindo rumo às Ilhas Britânicas. Estranhas Ilhas Britânicas de clima tropical! Outros dizem que a terra encontrada por Abdera é na verdade a América – mas não explicam a omissão de várias semanas de travessia do Atlântico. Uma descida para a África também não explica boa parte do relato.

Na verdade, existem apenas duas explicações possíveis: ou Abdera chegou de fato à Lua em seu navio, e de lá trouxe as pedras encomendadas por Hirão, ou tirou férias no Norte da África, voltou com pedras comuns e mentiu no seu diário. Sabe-se, porém, que os marinheiros fenícios jamais mentiam. Não sobre viagens, pelo menos.