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Bestiário (155): Tartaruga sem cabeça

É incrível, mas muita gente ainda duvida da existência da tartaruga-sem-cabeça. Por mais espécimes que sejam apresentados, os acefaloqueloniocéticos insistem que são apenas tartarugas comuns, que apenas estão com a cabeça escondida dentro da carapaça, admitindo no máximo que sejam tartarugas tímidas. Como se a tartaruga-tímida não fosse uma espécie inteiramente diferente, aliás.

É verdade que algumas vezes houve fraudes, com tartarugas comuns sendo apresentadas como acéfalas. Fica na conta da precipitação em se comprovar a existência deste animal tão raro. Ainda mais porque, em muitos casos, a tartaruga-sem-cabeça também não tem patas, o que torna ainda mais difícil encontrá-la.

Bestiário (154): Hurminto

Papagaios e corvos reproduzem sons. Certos insetos e peixes conseguem imitar a aparência de animais maiores. Mas só o hurminto consegue copiar aromas. Suas glândulas conseguem expelir hormônios com o mesmo cheiro de suas presas, quando deseja atraí-las, ou o de grandes predadores, quando quer afastar os inimigos.

Em cativeiro, já puderam ser adestrados para cheirar como flores diversas, frutas maduras, livros velhos e o suor de um mentiroso.

Hurmintos só não conseguem imitar o cheiro de outro da sua espécie.

Bestiário (153): Preguiça Satori

Ao contrário das outras preguiças, esta espécie não apresenta as características de metabolismo lento, baixo percentual de massa muscular e membros adaptados para permanecer a maior parte do dia agarrados a uma árvore. A Preguiça Satori, de fato, poderia teoricamente correr tanto quanto um veado ou uma onça.

Apenas acha que não vale a pena.

Bestiário (152): Coala do Espaço

Foi a única criatura inteligente vinda do espaço sideral a visitar a Terra. Aqui chegando, descobriu a boa vida que levava por aqui o coala, tranquilamente mastigando seus eucaliptos na Austrália, e decidiu substituí-lo.

Foi uma operação discreta. As naves chegaram sem serem notadas, e se autodestruíram sem deixar vestígios. Os alienígenas se estabeleceram e rapidamente eliminaram os coalas verdadeiros, ocupando seus lugares.

Ninguém jamais suspeitou.

Bestiário (151): Criptossauro

De todos os animais pré-históricos, este é o que mais intriga os paleontologistas, que até agora nada sabem dizer sobre ele.

Pode ter sido um gigante herbívoro, um predador terrível, um fantástico lagarto voador, um colosso dos oceanos. Talvez até tudo isso ao mesmo tempo. Porque os restos fossilizados de criptossauro simplesmente não se encaixam. Enquanto alguns ossos sugerem certas características anatômicas, outros sugerem coisa completamente distinta. A única coisa certa é que todos pertenceram a essa mesma e elusiva espécie.

Bestiário (150): Tigre polar

O urso polar, como se sabe, quando vai á caça precisa cobrir com a pata o focinho escuro, única parte do seu corpo que pode denunciar sua presença, destoando da camuflagem natural.

O tigre polar não enfrenta esse problema. Seu corpo é inteiramente branco. Invisível sobre a calota polar, seus passos macios sobre a neve só são percebidos quando já é tarde demais.

É por isso que ninguém jamais viu o tigre polar. Ninguém que tenha voltado para contar.

Bestiário (149): Prakanchit

É o único pássaro cuja dança de acasalamento precisa ser praticada junto com outra espécie. Infelizmente, com humanos.

As prakanchiti fêmeas só se sentem atraídas pelos machos quando estes conseguem executar uma série de circunvoluções sobre a cabeça de pessoas, que por sua vez devem se mover de forma perfeitamente simétrica, além de imitar o canto das aves. Aparentemente, o prakanchit desta forma consegue se fazer passar por uma criatura tão poderosa que é capaz de controlar uma outra que tem várias vezes o seu tamanho. Humanos, por sua vez, em geral se divertiam com a brincadeira, e durante milênios conviveram em harmonia com este ritual reprodutivo.

Nos últimos anos, porém, desde que o ritmo do chaka-chaka, sucesso nas grandes cidades, começou a se espalhar também pela região, ninguém mais quer dançar e cantar como os prakanchiti. Estes, sem sucesso em suas danças, estão condenados à extinção.