Arquivos da Categoria: Bestiário

Bestiário (142): O unicórnio e a quimera

Como é do conhecimento geral, o unicórnio e a quimera se encontravam regularmente para procriar. Quando a cria era macho, era um novo unicórnio; quando fêmea, uma nova quimera.

Assim foi durante séculos, até o dia em que, atendendo ao chamado para que todas as criaturas escapassem ao dilúvio universal, dirigiram-se à Arca. Noé, porém, foi inflexível: a ordem clara de Deus era de deixar entrar um casal de cada espécie, e aqueles dois não formavam um casal nem eram da mesma espécie.

E foi por isso que ambos desapareceram da face da terra.


Wilfredo Machado, é claro, oferece outra explicação.

Bestiário (141): Tricórnio

Resulta do improvável, porém efetivo, cruzamento do unicórnio com o minotauro.

Dos seus três cornos, dois matam e um cura. O saldo é negativo, verdade; mas, como em todas as criaturas, o que vale é a intenção.

Rabo, tem apenas um. Nem cura, nem mata.

Bestiário (140): Verme da Serpente Marinha

Ao contrário da sua hospedeira, que é uma criatura fantástica e portanto nunca existiu, o verme da serpente marinha é real.

Na impossibilidade de infestar os tubos digestivos mitológicos que seriam seu habitat natural, parasita animais menos formidáveis. Neles, porém, jamais alcança o tamanho que poderia desenvolver dentro de uma legítima serpente marinha, se tal houvesse.

(Felizmente para o verme, as amebas que o parasitam são, essas sim, tão mitológicas quanto a serpente.)

Bestiário (139): Tiole

O tiole é verbívoro.

Instala-se na garganta e consome todas as palavras que o hospedeiro tenta dizer.

A mudez causada pelo tiole é tão terrível quanto o fato de que o silêncio não leva à introspecção ou a estados meditabundos. Pelo contrário, provoca ânsias de falar mais e mais, sempre frustradas. A palavra presa na garganta vira um grito, mas do grito não sai nem um sussurro.

Bestiário (138): Traça de Woolf

Ao contrário das traças comuns, que devoram qualquer papel que esteja na sua frente, esta variedade se mostra exigente na sua dieta, comendo apenas obras literárias de alta qualidade. Demonstra especial predileção pelos livros da autora de Orlando, daí seu nome.

Quando uma estante é infestada por traças de Woolf, a única solução é encher as prateleiras com best-sellers de autoajuda, para que elas morram de inanição. Algumas pessoas consideram, porém, que neste caso o tratamento é pior que a doença.

Bestiário (137): Golfinho de Bougainville

Leva o nome de Louis de Bougainville, o primeiro europeu a avistar a Grande Barreira de Coral australiana, em 1768. Foi ele também quem primeiro identificou esta espécie de golfinho, que vive apenas naquela região.

O motivo para essa exclusividade, porém, só seria descoberto 150 anos depois, quando naturalistas se renderam à evidência de que os Bougainvilles são os únicos animais, além do homem, a manter bichos de estimação.

Peixes, naturalmente. O golfinhos cercam pequenos aquários feitos de coral, onde criam diversas variedades de peixinhos ornamentais, alimentando-os e protegendo-os. Alguns, às vezes, aventuram-se em regiões um pouco mais distante para trazer espécimes exóticos e assim valorizar seus nichos.

Um aquário vasto e diversificado funciona como signo de status, garantindo ao seu dono a liderança sobre os demais golfinhos.


Com agradecimento especial à bestiarógrafa Alessandra, por me chamar a atenção para esta espécie pouco conhecida.

Bestiário (136): Dragão

Dragões eram comuns em histórias e relatos até a Idade Média, quando a proliferação de heróis, cavaleiros andantes, caçadores e outros profissionais (ou amadores) da dracomaquia praticamente levaram a espécie à extinção.

Praticamente.

Porque, como não é do conhecimento geral, dragões são metamorfos. Assim, para evitar o pior, muitos deles assumiram a forma de seres com maior chance de sucesso na convivência com a cada vez mais numerosa espécie humana – cães, gatos, papagaios, jabutis, para ficar nos exemplos mais comuns.

Só assumiam sua forma verdadeira quando percebiam que alguém poderia revelar essa estratégia, ameaçando sua sobrevivência. Nesses casos, era mais prudente matar o menestrel ou naturalista atrevido. Por isso são tão poucos os relatos que nos chegaram sobre as metamorfoses draconianas.

Este Almanaque, portanto, está sob sério risco.

Bestiário (135): Cão das Neves

É o melhor amigo do abominável homem das neves (doravante chamado AHN, para facilitar). E, assim como ele, é abominável.

Atribui-se aliás à ação do abominável cão das neves (ACN) o fato de até hoje não terem sido encontradas provas irrefutáveis da existência do yeti. Tão diligente quanto abominável, o cão esmera-se em apagar todos os rastros deixados por seu dono, além de deixar pistas falsas que confundem os criptozoólogos, exploradores e jornalistas.

A teoria mais recente é de que na verdade o ACN é o dono do AHN, e não o contrário. E que isso seria o que há de mais abominável nos dois.

Bestiário (134): Pulga vegetariana

Tem horror a sangue. Esconde-se na pelagem dos animais apenas em busca de proteção, já que a vida no meio dos matagais é sempre incerta, com tantos predadores à espreita.

Nem por isso é inofensiva. Para evitar ter que abandonar o hospedeiro, ainda que temporariamente, em busca de comida, muitas vezes cultiva fungos – dentro do ouvido do cão ou gato, por exemplo. Torna-se dessa forma um terrível fator de propagação de doenças.

Sofre assédio por parte das pulgas comuns.

Bestiário (133): Mucuiú

O canto do mucuiú prevê as condições climáticas com absoluta precisão.

Qualquer pessoa que conheça bem o mucuiú pode dizer, ao ouvi-lo cantar, que o dia seguinte será, por exemplo, de céu limpo passando a levemente encoberto, com rajadas de vento no fim da tarde, e temperatura entre 33 e 36 graus. E que dois dias depois haverá pancadas de chuva.

O mucuiú, infelizmente, está em extinção. Seu desaparecimento gradual coincide, segundo as estatísticas, com o crescimento em abrangência e precisão da atividade de meteorologistas profissionais. Há quem veja nisso simples coincidência, mas há quem enxergue algum complô.

Bestiário (132): Pingúcio

Come apenas frutinhas fermentadas. Da mesma árvore em que faz seu ninho, por comodidade e para não se perder na volta. Depois de algum tempo comendo começa a piar, primeiro com empolgação mas logo depois melancólico.

A dança do acasalamento é confusa e espalhafatosa. Acabam procriando apenas os poucos que continuam de pé ao fim de horas e horas, produzindo uma geração ainda mais resistente.

Os ovos de pingúcio são deliciosos, especialmente quando misturados com cerveja preta.

Bestiário (131): Uaramuchi

O uaramuchi é o ancestral mítico do povo oguay. Era um pássaro com cabeça de homem, corpo de homem, pernas de homem, braços de homem. Mas um pássaro.

Por isso os oguay até hoje não sabem se são homens ou se são pássaros. E nunca desistiram de voar.

Bestiário (130): Galinha

As primeiras menções à galinha são encontradas em lendas pré-semíticas, provavelmente derivadas de algum mito mesopotâmico. Dali a crença teria se espalhado tanto em direção ao Oriente quanto para o Egito e o resto da África, mais tarde chegando à Europa via Grécia.

As características estranhas e ambivalentes (é uma ave, mas não voa; põe ovos, mas muitos deles não dão filhotes, servindo de alimento ao homem) explicam por que a crença na galinha tenha se tornado tão popular, chegando até os nossos dias.

Ainda hoje, milhões de pessoas não só acreditam na existência da galinha como discutem a melhor maneira de cozinhá-la, e agem como se ela fosse um prato comum no seu dia a dia. Há toda uma indústria em torno da galinha, movimentando imensas somas e influenciando a economia.

Tal é a força de um mito.

Bestiário (129): Chororão

Ninguém tem um choro mais triste, mais sentido, mais melancólico que o chororão. Tanto que quem ouve imediatamente se comove, a ponto de ficar também tristonho, macambúzio, jururu. Encolhe-se num canto, choramingando, sem querer saber de mais nada, vai definhando.

Então o chororão aproveita e ataca. Depois, sai rindo.

Bestiário (128): Tonilha

Camaleões mudam de cor, corvos reproduzem a voz humana e outros sons. Mas só a tonilha é capaz de imitar cheiros.

Com um faro refinado e glândulas que se ajustam em segundos, a tonilha é capaz tanto de atrair as presas simulando o cheiro de alimentos ou parceiros sexuais quanto de espantar possíveis predadores fazendo-os acreditar que um animal de maior porte anda por ali.

Tonilhas nunca confiam uma na outra, já que não podem identificar pelo faro as intenções uma da outra.

Bestiário (127): Tapiribé

Difícil é dizer que gosto tem a carne do tapiribé. Porque ela pode ter qualquer gosto. Às vezes parece vaca, às vezes porco, ou galinha, ou milho, às vezes até gosto de capim molhado de sereno em manhã de inverno.

Dizem que isso não depende tanto do animal, nem do jeito como é preparado, e sim da pessoa que o come. O gosto do tapiribé diz o futuro. Então, conforme o caso, ele também sabe a viagem longa, amor verdadeiro ou sorte grande.

Por isso muita gente evita comer tapiribé. De medo de sentir o gosto da morte.

Bestiário (126): Jacutinga mestre-sala

Costuma acompanhar o tamanduá-bandeira, comendo as formigas que ficam espalhadas pelo chão quando ele ataca um formigueiro.

Sua dança, voando em rodeios em torno da cauda aberta do tamanduá, inspirou os movimentos dos mestre-salas das escolas de samba.

Bestiário (125): Corvorino

Enquanto os corvos – sejam criados ou não – arrancam olhos de forma até proverbial, os mais sutis corvorinos – sejam criados ou não – arrancam olhares. De surpresa, de admiração, de ternura, de ódio.

À medida que o corvorino vai bicando, a pessoa vai ficando sem expressões, limitada a um rosto baço e anódino. Até que só lhe reste aquele olhar que mal é um olhar, olho de peixe morto.

É então que chegam os corvos.

Bestiário (124): Tatu-icosaedro

Assim como o tatu-bola, é capaz de se enrolar sobre si mesmo, deixando exposta apenas sua carapaça. No entanto, a forma que assume é a de um sólido de 20 faces, como indica o seu nome.

Ao contrário do seu congênere esférico, porém, não se fecha apenas por proteção ou quando está com medo. Na verdade, seu comportamento é completamente aleatório.

Bestiário (123): Elefante-sem-cabeça

Quando Shiva partiu em viagem, Parvati ficou sozinha e criou Ganesha do barro, para ficar como guarda de seus aposentos. Shiva retornou e tentou entrar na casa, mas Ganesha o impediu. Irritado, Shiva decapitou-o. Quando Parvati viu o corpo morto, ordenou que Shiva lhe devolvesse a vida. Shiva então cortou a cabeça de um elefante e a colocou no deus.

Essa é a história de Ganesha e de como ele recebeu sua cabeça de elefante. E também de como surgiu o elefante-sem-cabeça.

O elefante-sem-cabeça vaga pelas florestas indianas à procura de uma cabeça. Ao contrário da congênere mula, ele não solta fogo pelas ventas inexistentes. Nem por isso é menos temível: sem a sabedoria que foi dada a Ganesha, ele é pura fúria, tão intensa que contamina tudo ao seu redor.

Quando alguém age de forma descontrolada e passional, é porque encontrou o elefante-sem-cabeça.