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Bestiário (155): Tartaruga sem cabeça

É incrível, mas muita gente ainda duvida da existência da tartaruga-sem-cabeça. Por mais espécimes que sejam apresentados, os acefaloqueloniocéticos insistem que são apenas tartarugas comuns, que apenas estão com a cabeça escondida dentro da carapaça, admitindo no máximo que sejam tartarugas tímidas. Como se a tartaruga-tímida não fosse uma espécie inteiramente diferente, aliás.

É verdade que algumas vezes houve fraudes, com tartarugas comuns sendo apresentadas como acéfalas. Fica na conta da precipitação em se comprovar a existência deste animal tão raro. Ainda mais porque, em muitos casos, a tartaruga-sem-cabeça também não tem patas, o que torna ainda mais difícil encontrá-la.

Bestiário (154): Hurminto

Papagaios e corvos reproduzem sons. Certos insetos e peixes conseguem imitar a aparência de animais maiores. Mas só o hurminto consegue copiar aromas. Suas glândulas conseguem expelir hormônios com o mesmo cheiro de suas presas, quando deseja atraí-las, ou o de grandes predadores, quando quer afastar os inimigos.

Em cativeiro, já puderam ser adestrados para cheirar como flores diversas, frutas maduras, livros velhos e o suor de um mentiroso.

Hurmintos só não conseguem imitar o cheiro de outro da sua espécie.

Bestiário (153): Preguiça Satori

Ao contrário das outras preguiças, esta espécie não apresenta as características de metabolismo lento, baixo percentual de massa muscular e membros adaptados para permanecer a maior parte do dia agarrados a uma árvore. A Preguiça Satori, de fato, poderia teoricamente correr tanto quanto um veado ou uma onça.

Apenas acha que não vale a pena.

Bestiário (152): Coala do Espaço

Foi a única criatura inteligente vinda do espaço sideral a visitar a Terra. Aqui chegando, descobriu a boa vida que levava por aqui o coala, tranquilamente mastigando seus eucaliptos na Austrália, e decidiu substituí-lo.

Foi uma operação discreta. As naves chegaram sem serem notadas, e se autodestruíram sem deixar vestígios. Os alienígenas se estabeleceram e rapidamente eliminaram os coalas verdadeiros, ocupando seus lugares.

Ninguém jamais suspeitou.

Bestiário (151): Criptossauro

De todos os animais pré-históricos, este é o que mais intriga os paleontologistas, que até agora nada sabem dizer sobre ele.

Pode ter sido um gigante herbívoro, um predador terrível, um fantástico lagarto voador, um colosso dos oceanos. Talvez até tudo isso ao mesmo tempo. Porque os restos fossilizados de criptossauro simplesmente não se encaixam. Enquanto alguns ossos sugerem certas características anatômicas, outros sugerem coisa completamente distinta. A única coisa certa é que todos pertenceram a essa mesma e elusiva espécie.

Bestiário (150): Tigre polar

O urso polar, como se sabe, quando vai á caça precisa cobrir com a pata o focinho escuro, única parte do seu corpo que pode denunciar sua presença, destoando da camuflagem natural.

O tigre polar não enfrenta esse problema. Seu corpo é inteiramente branco. Invisível sobre a calota polar, seus passos macios sobre a neve só são percebidos quando já é tarde demais.

É por isso que ninguém jamais viu o tigre polar. Ninguém que tenha voltado para contar.

Bestiário (149): Prakanchit

É o único pássaro cuja dança de acasalamento precisa ser praticada junto com outra espécie. Infelizmente, com humanos.

As prakanchiti fêmeas só se sentem atraídas pelos machos quando estes conseguem executar uma série de circunvoluções sobre a cabeça de pessoas, que por sua vez devem se mover de forma perfeitamente simétrica, além de imitar o canto das aves. Aparentemente, o prakanchit desta forma consegue se fazer passar por uma criatura tão poderosa que é capaz de controlar uma outra que tem várias vezes o seu tamanho. Humanos, por sua vez, em geral se divertiam com a brincadeira, e durante milênios conviveram em harmonia com este ritual reprodutivo.

Nos últimos anos, porém, desde que o ritmo do chaka-chaka, sucesso nas grandes cidades, começou a se espalhar também pela região, ninguém mais quer dançar e cantar como os prakanchiti. Estes, sem sucesso em suas danças, estão condenados à extinção.

Bestiário (148): Estúrgia

Quando uma estúrgia pousa no seu ombro, é melhor nem tentar fazer alguma coisa. Porque ela não vai sair dali.

Inicialmente não incomoda muito. Leve, mal se nota a sua presença. A não ser pela reação das outras pessoas. Porque a estúrgia, sempre com seus olhos arregalados, maiores que todo o resto da cabeça e quase tão grandes quanto o corpo inteiro, fita insistentemente quem vem falar com você. De um jeito constrangedor, com um olhar que dá a impressão de que todos os segredos estão sendo revelados.

(Dizem que é impossível mentir para alguém que tem uma estúrgia sobre os ombros. Por isso ela era o símbolo da justiça no país de Algovar.)

Desnecessário acrescentar que, quando se tem uma estúrgia, ninguém quer estar por perto. A solidão aos poucos se torna insuportável, e ainda mais por ser resultado de um abandono premeditado. Não há amor ou amizade que resista.

Quando uma estúrgia pousa no seu ombro, é melhor tentar não fazer nada. Quem sabe ela se entedia e resolve ir para outro lugar.

Bestiário (147): Fiandeira

Cada espécie de aranha tece um formato diferente de teia. Mas só a da fiandeira, que aliás sequer poderia ser chamada de teia (nem o verbo “tecer” se aplicaria, pelo mesmo motivo), é formada por apenas um longo e espesso fio.

Ainda por cima, o fio é lilás. E brilhante. Ostensivamente exibindo-se, à vista de todo animal que passe, em contraposição às armadilhas transparentes das outras aranhas.

Em resumo, só cai preso no fio da fiandeira quem não faz questão de permanecer vivo. Nem por isso ela morre de fome.

Bestiário (146): Camalu

Tem cabeça de vaca, corpo de vaca, pernas de vaca, rabo de vaca, até mesmo chifres de vaca, mas não é vaca. Para começo de conversa, não é ruminante. Aliás, nem herbívoro.

Come cobras. Sucuris, mais especificamente.

Deixa-se capturar pela cobra, fingindo sufocar no seu abraço (abraço?). Quando é finalmente engolido, vira o jogo e começa a comer a sua caçadora de dentro para fora.

Às vezes sobram alguns pedaços da pele da sucuri colados o couro do camalu. É o único jeito de saber que não é uma vaca.

Bestiário (145): Caveirino

Se um crânio humano limpo é deixado exposto em certos lugares, em épocas do ano apropriadas, pode ser tomado por um caveirino.

O caveirino, uma vez instalado, recobre o crânio (e o maxilar) com seus músculos e pele, formando o que parece ser novamente a cabeça de um ser humano. A não ser pelas asas: se a cabeça estiver voando por aí, solta do corpo, não é de uma pessoa, e sim um caveirino.

Bestiário (144): Gorotujo

“O mosquito, mesmo tão pequeno, sabe muito bem que é um animal de rapina. Mas pelo menos ele só quer meu sangue para encher a barriga, e não para guardá-lo num banco”, dizia D.H. Lawrence.  Pois é isso que faz o gorotujo. epois de sugar o sangue de suas vítimas, volta para sua toca onde cospe tudo de volta.

Lawrence provavelmente ainda perdoaria o inseto se os coágulos que se formam servissem, no fim das contas, para ele comer. Ou seus filhotes. Mas não. O gorotujo não come sangue. Come os outros insetos que tentam entrar na sua toca, atraídos pelo cheiro.

No fim das contas, não deixa de ser um banqueiro.

Biblioteca de Babel (110): Bestiário de Leunammi

Cataloga e descreve todos os animais imaginários conhecidos à época da sua publicação: o rinoceronte, o ornitorrinco, o celacanto, o dodô, a antilocapra e vários outros.

É bem verdade que todas estas espécies existem, ou ao menos existiram . Não são, portanto, imaginárias. A não ser pelo fato de que só passaram a existir depois da publicação do Bestiário. Até então, eram apenas sonhos, ou menos que isso.

Bestiário (142): O unicórnio e a quimera

Como é do conhecimento geral, o unicórnio e a quimera se encontravam regularmente para procriar. Quando a cria era macho, era um novo unicórnio; quando fêmea, uma nova quimera.

Assim foi durante séculos, até o dia em que, atendendo ao chamado para que todas as criaturas escapassem ao dilúvio universal, dirigiram-se à Arca. Noé, porém, foi inflexível: a ordem clara de Deus era de deixar entrar um casal de cada espécie, e aqueles dois não formavam um casal nem eram da mesma espécie.

E foi por isso que ambos desapareceram da face da terra.


Wilfredo Machado, é claro, oferece outra explicação.

Bestiário (141): Tricórnio

Resulta do improvável, porém efetivo, cruzamento do unicórnio com o minotauro.

Dos seus três cornos, dois matam e um cura. O saldo é negativo, verdade; mas, como em todas as criaturas, o que vale é a intenção.

Rabo, tem apenas um. Nem cura, nem mata.

Bestiário (140): Verme da Serpente Marinha

Ao contrário da sua hospedeira, que é uma criatura fantástica e portanto nunca existiu, o verme da serpente marinha é real.

Na impossibilidade de infestar os tubos digestivos mitológicos que seriam seu habitat natural, parasita animais menos formidáveis. Neles, porém, jamais alcança o tamanho que poderia desenvolver dentro de uma legítima serpente marinha, se tal houvesse.

(Felizmente para o verme, as amebas que o parasitam são, essas sim, tão mitológicas quanto a serpente.)

Bestiário (139): Tiole

O tiole é verbívoro.

Instala-se na garganta e consome todas as palavras que o hospedeiro tenta dizer.

A mudez causada pelo tiole é tão terrível quanto o fato de que o silêncio não leva à introspecção ou a estados meditabundos. Pelo contrário, provoca ânsias de falar mais e mais, sempre frustradas. A palavra presa na garganta vira um grito, mas do grito não sai nem um sussurro.

Bestiário (138): Traça de Woolf

Ao contrário das traças comuns, que devoram qualquer papel que esteja na sua frente, esta variedade se mostra exigente na sua dieta, comendo apenas obras literárias de alta qualidade. Demonstra especial predileção pelos livros da autora de Orlando, daí seu nome.

Quando uma estante é infestada por traças de Woolf, a única solução é encher as prateleiras com best-sellers de autoajuda, para que elas morram de inanição. Algumas pessoas consideram, porém, que neste caso o tratamento é pior que a doença.

Bestiário (137): Golfinho de Bougainville

Leva o nome de Louis de Bougainville, o primeiro europeu a avistar a Grande Barreira de Coral australiana, em 1768. Foi ele também quem primeiro identificou esta espécie de golfinho, que vive apenas naquela região.

O motivo para essa exclusividade, porém, só seria descoberto 150 anos depois, quando naturalistas se renderam à evidência de que os Bougainvilles são os únicos animais, além do homem, a manter bichos de estimação.

Peixes, naturalmente. O golfinhos cercam pequenos aquários feitos de coral, onde criam diversas variedades de peixinhos ornamentais, alimentando-os e protegendo-os. Alguns, às vezes, aventuram-se em regiões um pouco mais distante para trazer espécimes exóticos e assim valorizar seus nichos.

Um aquário vasto e diversificado funciona como signo de status, garantindo ao seu dono a liderança sobre os demais golfinhos.


Com agradecimento especial à bestiarógrafa Alessandra, por me chamar a atenção para esta espécie pouco conhecida.

Bestiário (136): Dragão

Dragões eram comuns em histórias e relatos até a Idade Média, quando a proliferação de heróis, cavaleiros andantes, caçadores e outros profissionais (ou amadores) da dracomaquia praticamente levaram a espécie à extinção.

Praticamente.

Porque, como não é do conhecimento geral, dragões são metamorfos. Assim, para evitar o pior, muitos deles assumiram a forma de seres com maior chance de sucesso na convivência com a cada vez mais numerosa espécie humana – cães, gatos, papagaios, jabutis, para ficar nos exemplos mais comuns.

Só assumiam sua forma verdadeira quando percebiam que alguém poderia revelar essa estratégia, ameaçando sua sobrevivência. Nesses casos, era mais prudente matar o menestrel ou naturalista atrevido. Por isso são tão poucos os relatos que nos chegaram sobre as metamorfoses draconianas.

Este Almanaque, portanto, está sob sério risco.

Bestiário (135): Cão das Neves

É o melhor amigo do abominável homem das neves (doravante chamado AHN, para facilitar). E, assim como ele, é abominável.

Atribui-se aliás à ação do abominável cão das neves (ACN) o fato de até hoje não terem sido encontradas provas irrefutáveis da existência do yeti. Tão diligente quanto abominável, o cão esmera-se em apagar todos os rastros deixados por seu dono, além de deixar pistas falsas que confundem os criptozoólogos, exploradores e jornalistas.

A teoria mais recente é de que na verdade o ACN é o dono do AHN, e não o contrário. E que isso seria o que há de mais abominável nos dois.

Bestiário (134): Pulga vegetariana

Tem horror a sangue. Esconde-se na pelagem dos animais apenas em busca de proteção, já que a vida no meio dos matagais é sempre incerta, com tantos predadores à espreita.

Nem por isso é inofensiva. Para evitar ter que abandonar o hospedeiro, ainda que temporariamente, em busca de comida, muitas vezes cultiva fungos – dentro do ouvido do cão ou gato, por exemplo. Torna-se dessa forma um terrível fator de propagação de doenças.

Sofre assédio por parte das pulgas comuns.

Bestiário (133): Mucuiú

O canto do mucuiú prevê as condições climáticas com absoluta precisão.

Qualquer pessoa que conheça bem o mucuiú pode dizer, ao ouvi-lo cantar, que o dia seguinte será, por exemplo, de céu limpo passando a levemente encoberto, com rajadas de vento no fim da tarde, e temperatura entre 33 e 36 graus. E que dois dias depois haverá pancadas de chuva.

O mucuiú, infelizmente, está em extinção. Seu desaparecimento gradual coincide, segundo as estatísticas, com o crescimento em abrangência e precisão da atividade de meteorologistas profissionais. Há quem veja nisso simples coincidência, mas há quem enxergue algum complô.

Bestiário (132): Pingúcio

Come apenas frutinhas fermentadas. Da mesma árvore em que faz seu ninho, por comodidade e para não se perder na volta. Depois de algum tempo comendo começa a piar, primeiro com empolgação mas logo depois melancólico.

A dança do acasalamento é confusa e espalhafatosa. Acabam procriando apenas os poucos que continuam de pé ao fim de horas e horas, produzindo uma geração ainda mais resistente.

Os ovos de pingúcio são deliciosos, especialmente quando misturados com cerveja preta.

Bestiário (131): Uaramuchi

O uaramuchi é o ancestral mítico do povo oguay. Era um pássaro com cabeça de homem, corpo de homem, pernas de homem, braços de homem. Mas um pássaro.

Por isso os oguay até hoje não sabem se são homens ou se são pássaros. E nunca desistiram de voar.

Bestiário (130): Galinha

As primeiras menções à galinha são encontradas em lendas pré-semíticas, provavelmente derivadas de algum mito mesopotâmico. Dali a crença teria se espalhado tanto em direção ao Oriente quanto para o Egito e o resto da África, mais tarde chegando à Europa via Grécia.

As características estranhas e ambivalentes (é uma ave, mas não voa; põe ovos, mas muitos deles não dão filhotes, servindo de alimento ao homem) explicam por que a crença na galinha tenha se tornado tão popular, chegando até os nossos dias.

Ainda hoje, milhões de pessoas não só acreditam na existência da galinha como discutem a melhor maneira de cozinhá-la, e agem como se ela fosse um prato comum no seu dia a dia. Há toda uma indústria em torno da galinha, movimentando imensas somas e influenciando a economia.

Tal é a força de um mito.

Bestiário (129): Chororão

Ninguém tem um choro mais triste, mais sentido, mais melancólico que o chororão. Tanto que quem ouve imediatamente se comove, a ponto de ficar também tristonho, macambúzio, jururu. Encolhe-se num canto, choramingando, sem querer saber de mais nada, vai definhando.

Então o chororão aproveita e ataca. Depois, sai rindo.

Bestiário (128): Tonilha

Camaleões mudam de cor, corvos reproduzem a voz humana e outros sons. Mas só a tonilha é capaz de imitar cheiros.

Com um faro refinado e glândulas que se ajustam em segundos, a tonilha é capaz tanto de atrair as presas simulando o cheiro de alimentos ou parceiros sexuais quanto de espantar possíveis predadores fazendo-os acreditar que um animal de maior porte anda por ali.

Tonilhas nunca confiam uma na outra, já que não podem identificar pelo faro as intenções uma da outra.

Bestiário (127): Tapiribé

Difícil é dizer que gosto tem a carne do tapiribé. Porque ela pode ter qualquer gosto. Às vezes parece vaca, às vezes porco, ou galinha, ou milho, às vezes até gosto de capim molhado de sereno em manhã de inverno.

Dizem que isso não depende tanto do animal, nem do jeito como é preparado, e sim da pessoa que o come. O gosto do tapiribé diz o futuro. Então, conforme o caso, ele também sabe a viagem longa, amor verdadeiro ou sorte grande.

Por isso muita gente evita comer tapiribé. De medo de sentir o gosto da morte.

Bestiário (126): Jacutinga mestre-sala

Costuma acompanhar o tamanduá-bandeira, comendo as formigas que ficam espalhadas pelo chão quando ele ataca um formigueiro.

Sua dança, voando em rodeios em torno da cauda aberta do tamanduá, inspirou os movimentos dos mestre-salas das escolas de samba.

Bestiário (125): Corvorino

Enquanto os corvos – sejam criados ou não – arrancam olhos de forma até proverbial, os mais sutis corvorinos – sejam criados ou não – arrancam olhares. De surpresa, de admiração, de ternura, de ódio.

À medida que o corvorino vai bicando, a pessoa vai ficando sem expressões, limitada a um rosto baço e anódino. Até que só lhe reste aquele olhar que mal é um olhar, olho de peixe morto.

É então que chegam os corvos.

Bestiário (124): Tatu-icosaedro

Assim como o tatu-bola, é capaz de se enrolar sobre si mesmo, deixando exposta apenas sua carapaça. No entanto, a forma que assume é a de um sólido de 20 faces, como indica o seu nome.

Ao contrário do seu congênere esférico, porém, não se fecha apenas por proteção ou quando está com medo. Na verdade, seu comportamento é completamente aleatório.

Bestiário (123): Elefante-sem-cabeça

Quando Shiva partiu em viagem, Parvati ficou sozinha e criou Ganesha do barro, para ficar como guarda de seus aposentos. Shiva retornou e tentou entrar na casa, mas Ganesha o impediu. Irritado, Shiva decapitou-o. Quando Parvati viu o corpo morto, ordenou que Shiva lhe devolvesse a vida. Shiva então cortou a cabeça de um elefante e a colocou no deus.

Essa é a história de Ganesha e de como ele recebeu sua cabeça de elefante. E também de como surgiu o elefante-sem-cabeça.

O elefante-sem-cabeça vaga pelas florestas indianas à procura de uma cabeça. Ao contrário da congênere mula, ele não solta fogo pelas ventas inexistentes. Nem por isso é menos temível: sem a sabedoria que foi dada a Ganesha, ele é pura fúria, tão intensa que contamina tudo ao seu redor.

Quando alguém age de forma descontrolada e passional, é porque encontrou o elefante-sem-cabeça.

Bestiário (122): Beloquimera

Nasceu do cruzamento de um tanque com uma bomba. É, portanto, uma criatura além dos limites não apenas do possível mas até do imaginável.

Não porque seus pais sejam máquinas sem vida. Nem por serem de alguma forma incompatíveis. Mas porque, sendo ambos feitos apenas para a guerra, não são capazes de um ato de amor que pudesse gerar descendentes.

Bestiário (121): O sonho de um gato

Existem animais imaginários, que só existem na mente humana, muitos dos quais conhecemos por descrições míticas ou poéticas: dragões, unicórnios, krakens, manatis, boitatás.

Existem, porém, outras criaturas que existem somente na imaginação de outros animais. Gatos, por exemplo, que se agitam enquanto sonham sabe-se lá com quê.

Não é impossível especular que seres povoam os sonhos de um gato. Mas, ao contrário dos unicórnios, será impossível conhecê-los.

Bestiário (120): Banheiro biológico

Em resposta às múltiplas queixas recebidas contra os banheiros químicos que haviam sido instalados no último carnaval (a maior parte delas referente ao mau cheiro exalado pelos equipamentos), a prefeitura decidiu que no próximo ano adotará a tecnologia dos banheiros biológicos.

No fundo de cada latrina de um banheiro biológico vive um jacaré. Não um jacaré comum, mas uma variedade transgênica, desenvolvida a partir dos espécimes encontrados nos esgotos e que já haviam naturalmente se adaptado a uma dieta predominantemente de excrementos. Os répteis posicionados nos banheiros biológicos digerem os detritos e os transformam numa substância inodora.

Ambientalistas, porém, protestaram contra a medida alertando para o risco de uma horda de jacarés transgênicos superalimentados com a abundante produção fecal humana tomar as cidades de assalto e trancafiar a população em banheiros, transformando a todos nós em meros produtores de coprólitos para seu deleite.

Bestiário (119): Cão de duas cabeças

Hujico, o cão de duas cabeças, nasceu em Puebla, no México, em 1973.

Além de duas cabeças, Hujico tinha também dois corpos, devidamente separados. Duas caudas, oito patas. Dois corações, dois fígados, todos os órgãos em dobro.

De fato, à primeira vista, qualquer um diria que se tratava de dois cães diferentes. Bastava observar Hujico atentamente, porém, para se concluir que os dois eram um só.

Bestiário (118): Pirruxuíra

Os ovos da pirruxuíra são sempre diferentes um do outro. Tamanho, forma, cor, manchas, listras, texturas, tudo muda de um ovo para outro.

Já houve casos de uma pirruxuíra pôr um ovo duas vezes maior que ela própria. (Era azul escuro com pintas cintilantes, que lembravam pequenas estrelas).

Um par de ovos de pirruxuíra iguais é considerado um dos mais poderosos amuletos do mundo. Há grande intercâmbio de informação entre colecionadores de ovos do mundo inteiro, ainda que a prática tenha se tornado clandestina devido à ameaça de extinção da espécie. Se alguém, algum dia, conseguiu reunir um desses pares, não há prova concreta.

Bestiário (117): Planchat

Théophile Steinlen (1859-1923) é mais conhecido pelo pôster Tournée du Chat Noir (1896), reproduzido em camisetas e cartões postais no mundo inteiro. Mas sua obra é extensa, com grande produção de cartazes, vários deles com desenhos de gatos¹.

Só que não são gatos.

Steinlen, ele mesmo um apaixonado criador de gatos, dizia que era preciso estabelecer muito bem a diferença: gatos eram vivos, macios, quentes, afetivos; o que ele desenhava eram figuras em papel, que se assemelhavam muito a gatos, mas não eram obviamente gatos, e portanto só podiam ser alguma outra coisa². À qual, por não saber como se chamavam, ele deu o nome de Planchat.


¹ Para não falar das suas esculturas, como “Chat angora assis”.
² No que influenciou Magritte e seu “Ceci n’est pas une pipe”.

Bestiário (116): Talares

Eles eram altos, esguios, e uma fina membrana semelhante a uma asa ligava suas patas dianteiras ao tronco. Não espanta que os Neandertais tenham acreditado que os talares eram homens alados. Os raros fósseis foram encontrados próximos das cavernas decoradas com pinturas rupestres que são a mais antiga representação de um anjo.

As “asas” não serviam para voar, no máximo permitindo um breve planeio. Porém, a estrutura de suas bocas e faringes não deixa dúvidas de que os talares eram capazes de uma fala extremamente complexa.

Paleontólogos, fonoaudiólogos e linguistas vem tentando reproduzir como seriam esses sons, os primeiros que a espécie humana ouviu e imitou quando criou sua linguagem. Um reflexo da língua dos anjos.

Bestiário (115): Porco D’ouro

O porco d’ouro recebeu esse nome devido à sua irresistível atração por metais preciosos. Em vez de chafurdar na lavagem ou escavar o solo em busca de trufas, como fazem seus primos mais comuns, ele é encontrado em aluviões, bebendo a água das torrentes e engolindo pepitas de ouro.

O hábito de caçar porcos d’ouro para abrir suas barrigas e extrair as pequenas fortunas acumuladas dentro delas levou à extinção da espécie. Também foi a origem dos cofrinhos em forma de porco.

Bestiário (114): Ratagal

Um ratagal não é, a rigor, um animal, e sim uma colônia. No entanto, da mesma forma que outras colônias (corais, caravelas portuguesas ou holotúrias, por exemplo), ele aparenta ser um só indivíduo. Formado, no caso, por milhares de ratos.

Os membros de um ratagal não agem como indivíduos. Apenas contribuem para uma inteligência coletiva, cujo QI pode ser comparado a de seres humanos.

O maior ratagal já registrado foi visto na Polônia, em 1663. Tinha mais de 40 mil componentes e causou um surto de peste em Gdansk.

Bestiário (113): Melônio

Foi uma flautista quem gerou o primeiro melônio. Um dia, tocou uma sequencia de notas inusitada e esta, em vez de desaparecer, ficou se repetindo no ar. Era o primeiro animal musical jamais visto – aliás, ouvido.

A mesma flautista experimentou depois uma outra frase, semelhante porém com uma dissonância a mais. Pronto: outro melônio se espalhou pelo ar. Os dois encontraram-se e reproduziram-se, gerando descendentes.

Na ilha onde vivia aquela flautista hoje habitam milhares deles, ecoando, ressoando, repercutindo.

Bestiário (112): O verme esteta

A arte, hoje se sabe, é uma doença. Todo artista tem o cérebro infestado por um verme, recentemente descoberto.

Mesmo a capacidade de apreciar a arte parece ser resultado da ação do parasita. É possível que se trate de uma espécie de ritual de acasalamento.

A Organização Mundial de Saúde estabeleceu um plano para erradicar o mal, extinguindo a arte (e seu principal sintoma, a beleza) até 2035. Críticos da própria entidade, porém, acreditam que surtos criativos continuarão afligindo a África Subsaariana, a América Central e o Sudeste Asiático.

Bestiário (111): Lingra

Também é conhecida como serpente invertida, por motivos óbvios: tem a cabeça no lugar do rabo, e o rabo no lugar da cabeça.

Por isso, aparenta estar sempre andando para trás.

Bestiário (110): Cranole

É o animal de temperamento mais imprevisível que existe. Aliás, caótico. Cranoles podem ser mansos, ariscos, melancólicos, agressivos, oceânicos, brincalhões,  aparentes.

Por isso mesmo, é difícil domesticar um cranole. Alguns, é verdade, já são domesticados de natureza. Outros nunca aceitarão o cativeiro. Raros aprendem a aceitar bem a companhia humana. E há os que fingirão serem treináveis, apenas para depois devorar quem tenha tentado domesticá-los.

Bestiário (109): Nogau

Depois de muito estudar o nogau, chegou-se à conclusão de que ele é o única espécie de animal teleomnemônico, ou seja, que se lembra dos eventos futuros, e não dos passados.

Nogaus, por isso, já saem do ovo com um conhecimento perfeito do ambiente onde vivem e do que devem fazer (exceto os que morrem ou são predados logo após o nascimento).

A maior parte das tentativas de domesticação da espécie foi frustrada. Em compensação, em alguns casos raros, quando um nogau encontra a pessoa que será sua futura dona, manifesta por ela uma grande afeição, e já é capaz de executar todos os truques para os quais será treinado.

Todo nogau sabe quando vai morrer.

Bestiário (108): Plauri

O bico do plauri é levíssimo. E magnético. Por isso, está sempre apontando para o norte.

Foi usando plauris como bússolas que os navegantes polinésios conseguiram chegar à América no século XIV.

Sua maior dificuldade é caçar no verão, quando a maioria de suas presas migra para o sul.

Bestiário (107): Voadeira do Kainji

Tubarões precisam nadar o tempo todo. Se pararem, a água deixa de fluir pelas suas guelras e eles não conseguem respirar.

Coisa semelhante acontece com a voadeira do Kainji, que é incapaz de inspirar sozinha e só respira o ar que entra por suas narinas enquanto voa.

Voadeiras dormem de asas abertas, planando em correntes de vento. Reproduzem-se também em pleno voo.

Bestiário (106): Capa-Azul

Durante muitos anos pensou-se que a baleia-azul era o maior animal do planeta. Hoje sabe-se que não. Sabe-se, aliás, que a baleia-azul não é sequer azul.

A cor, na verdade, se deve à capa-azul, que recobre inteiramente o seu corpo, e é portanto o mais extenso dos seres vivos.

Capas-azuis parasitam as baleias desde o nascimento – na verdade, desde o útero – até a morte. Seus corpos são extremamente delgados, tendo a espessura de uma célula de epitélio em alguns pontos.

Suspeita-se que capas de outras cores recubram outros animais. Talvez o homem, inclusive.