Arquivo do mês: junho 2012

Criptoetimologia (56): Rabiscar

A palavra se origina do latim rabis, que quer dizer “raiva” – portanto, cognata de (anti)-rábico, rábido, rábidez.

O graffiti, como se sabe, era prática muito difundida no Império Romano. As mensagens de cunho político ou erótico, como se vê nas ruínas de Pompéia, certamente desagradavam a muitos. Por isso, era também comum tentar cobrir as inscrições, riscando-se qualquer coisa por cima delas. Como isso era quase sempre uma reação enraivecida, ganhou o nome de rabiscare.

Bestiário (117): Planchat

Théophile Steinlen (1859-1923) é mais conhecido pelo pôster Tournée du Chat Noir (1896), reproduzido em camisetas e cartões postais no mundo inteiro. Mas sua obra é extensa, com grande produção de cartazes, vários deles com desenhos de gatos¹.

Só que não são gatos.

Steinlen, ele mesmo um apaixonado criador de gatos, dizia que era preciso estabelecer muito bem a diferença: gatos eram vivos, macios, quentes, afetivos; o que ele desenhava eram figuras em papel, que se assemelhavam muito a gatos, mas não eram obviamente gatos, e portanto só podiam ser alguma outra coisa². À qual, por não saber como se chamavam, ele deu o nome de Planchat.


¹ Para não falar das suas esculturas, como “Chat angora assis”.
² No que influenciou Magritte e seu “Ceci n’est pas une pipe”.

Bestiário (116): Talares

Eles eram altos, esguios, e uma fina membrana semelhante a uma asa ligava suas patas dianteiras ao tronco. Não espanta que os Neandertais tenham acreditado que os talares eram homens alados. Os raros fósseis foram encontrados próximos das cavernas decoradas com pinturas rupestres que são a mais antiga representação de um anjo.

As “asas” não serviam para voar, no máximo permitindo um breve planeio. Porém, a estrutura de suas bocas e faringes não deixa dúvidas de que os talares eram capazes de uma fala extremamente complexa.

Paleontólogos, fonoaudiólogos e linguistas vem tentando reproduzir como seriam esses sons, os primeiros que a espécie humana ouviu e imitou quando criou sua linguagem. Um reflexo da língua dos anjos.

Histórias reais (16) Anazu, o deus tímido

Acreditam os kahuli que Anazu poderia ter criado o mundo, e que um mundo criado por ele teria sido bem melhor que o nosso. Porém, sua imensa timidez o impediu de arriscar-se a tamanho feito. Em vez disso, sugeriu discretamente a outros deuses a ideia, e eles criaram a Terra como a conhecemos, com todas as suas falhas.

Vendo o que havia acontecido, Anazu arrependeu-se. Começou a promover melhoras no mundo, corrigindo uma coisa aqui, outra ali. Foi ele quem aprisionou os demônios criados por seu irmão, e que assolavam a humanidade. Agradecidos, os kahuli celebraram um festival em homenagem a Anazu, que durou três dias e três noites.

Anazu assustou-se, e se recolheu. Passou a reparar os males do mundo da forma mais discreta possível.

Desde esse dia, para não espantar Anazu de vez, e em respeito pela sua timidez, os kahuli não mais lhe prestam culto. Só falam dele aos cochichos, em segredo.

Biblioteca de Babel (82): Hiperpalimpsesto

Um dia o funcionário que operava a fotocopiadora se enganou e tirou uma cópia de um documento sobre uma folha que já havia sido utilizada. O resultado foi ilegível, é claro. Mas ele raciocinou, corretamente, que aquela folha passara a ter o dobro da informação.

Passou a usá-la em todas as operações. Cada vez que tirava uma cópia de qualquer coisa sobre uma folha em branco, fazia uma adicional sobre aquela que fora reutilizada por engano.

O resultado há muito já é um borrão negro. Mas seu autor continua adicionando informações várias vezes por dia sobre o seu livro de uma página só.

Biblioteca de Babel (81): Tratado de Geografia de Lengrâmia

O próprio rei da Ilha de Lengrâmia, geógrafo amador nas horas vagas, supervisionou a redação. O resultado foi que o texto refletiu as suas peculiares concepções geopolíticas.

A começar pela própria Lengrâmia, definida no Tratado não como uma ilha, mas como um continente, dada a sua importância, enquanto os continentes tradicionais são classificados como ilhas – por serem, afinal, pedaços de terra cercados de oceanos por todos os lados.

Igualmente, o meridiano zero é o que corta a capital.

Dramatis Personæ (151): Mina Assayesh

Inventou (ou inventará, é difícil dizer qual a flexão verbal adequada) a máquina do tempo, em 2133.

Seu invento, porém, em vez de transportar uma pessoa ao passado ou ao futuro, faz o universo inteiro recuar trezentos anos. Às 17:33 (hora de Teerã) do dia 28 de setembro de 2133, portanto, o mundo voltou (voltará) para a mesma hora e data em 1833.