Meninos, eu li (19)

Luca Torelli, o protagonista de “Torpedo 1936″ (Volumes 3 e 4, Futura, 1987-88), só poderia ter sido criado nos anos 80. Individualista, cínico, orgulhoso de sua esperteza e amoralidade mas com um toque de humanidade que, quando prevalece, surpreende sem perder a coerência. O grande mérito das histórias de Sanchez Abuli (aqui, já no traço de Jordi Bernet, depois de Alex Toth abandonar a série) é esse: criar um personagem verossímil, um anti-herói que ganha umas e perde outras, com viradas de roteiro que aumentam o sabor “noir” das aventuras.

“O bom príncipe” (Panini, 2012) me obrigou a constatar que “Fábulas” jumped the shark. Não que seja ruim, mas a frustração que eu vinha sentindo desde o fim de “A marcha dos soldados de madeira” se intensificou aqui. O maior atrativo da série, para mim, sempre tinha sido o conceito inicial de personagens de contos de fadas vivendo no mundo atual, adaptando-se a ele, convivendo com personagens de histórias diferentes num contexto estranho e muitas vezes adverso. Isso ficou para trás e a série agora se limita a mostrar o combate contra o Império. Ainda por cima, a incursão do Papa-Moscas praticamente repete a do Garoto Azul, alguns volumes antes: personagem secundário usa item mágico, revelando-se um herói invencível. Só não cansa mais porque Bill Willingham e Mark Buckingham continuam sendo tecnicamente muito bons.

Bastam dez páginas, talvez menos, para se perceber que o jacaré de “Mastigando humanos” (Nova Fronteira, 2006) não é jacaré coisa nenhuma. É ser humano, paulista, tem nome e sobrenome: Santiago Nazarian. Não sei o quanto há de realmente autobiografico no romance que se anuncia “psicodélico” no subtítulo. Mas todos os personagens – o rato, o esquilo, a lata de gasolina, as cobras do Butantã – soam tão verdadeiros quanto seriam se o narrador os descrevesse como homens e mulheres. Ponto para o autor, que facilita a identificação (especialmente, acho, na segunda parte, quando começa a carreira acadêmica do protagonista) e assim cria a empatia necesssária para avançar nessa mistura de romance de formação, roman à clef e sátira.

O maior mérito de Luiz Kobayashi em “Peregrinos do Sol – A arte da espada samurai” (Estação Liberdade, 2010) é o trabalho de pesquisa. Percebe-se o quanto ele estudou o tema. Infelizmente, não soube muito bem o que fazer com tanta pesquisa. Na tentativa de traçar um histórico do kendô, acabou se perdendo em citar o máximo possível de nomes de mestres e de diferentes estilos sem porém explicar o que era cada um deles, em que se diferenciava dos outros ou mesmo por que estava sendo citado ali. Valeu mais pelas páginas de contexto histórico, que foram mais eficazes na hora de fornecer ao menos uma vaga impressão de como a esgrima japonesa foi se desenvolvendo através dos séculos e se adaptando às condições materiais e culturais de cada época. Valeu também pelas anedotas, que o autor fez questão de destacar como acidentais à história mas que se mostraram mais interessantes do que, por exemplo, as listas de nomes de golpes e outras partes sem contexto que eu simplesmente pulei.

“King Kong” foi um engodo. Comprei achando que era o livro havia sido adaptado para o cinema, mas foi justamente o contário. O romance é que é uma novelização do filme de 1933 (republicada pela Ediouro em 2005 no embalo da refilmagem de Peter Jackson). O texto de Delos Lovelace não acrescenta nada ao argumento original de Merian Cooper e Edgar Wallace. Teria que rever para afirmar com certeza, mas acho que até os diálogos são todos tirados do filme. No fim, a única coisa que o autor revela são as cores de um pôr do sol que no cinema era visto em preto e branco (spoiler: vermelho, laranja e amarelo). No fim, Ann Darrow e King Kong got caught in a cellulose jam do mesmo jeito. Caça-níqueis, e pegou os meus.

Este volume de “Poesia” de T.S. Eliot (Nova Fronteira, 2006, reedição da tradução de Ivan Junqueira, 1981) tem alguns problemas. Seria melhor se fosse bilíngue, por exemplo: é um pouco de esnobismo mas num livro de poesia faz uma grande diferença. As notas de Junqueira também não são grande coisa. Explicam o que não carece de explicação e deixa de contextualizar o que está menos acessível para o leitor comum, por exemplo na “Terra Desolada” (exceto quando apenas traduz as notas de uma edição espanhola e outra francesa). O que tem de bom: é Eliot. E, mostrando a trajetória desde “A canção de amor de J. Alfred Prufrock” até os Quatro Quartetos, permite compreender melhor a sua evolução (não num sentido positivista, de progresso constante rumo a um fim, mas no de uma transformação que no entanto não muda a essência). Com isso, até os versos de tema explicitamente religioso fazem sentido. Mesmo que Eliot, conservador, convertido ao Catolicismo, use os seus versos como uma prece a Deus, o leitor ateu consegue abstrair e ler um culto à Poesia. Amém.

(Também no skoob).

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2 Respostas para “Meninos, eu li (19)

  1. Ainda não me aventurei em “Fábulas”, mas tô doida nesse T. S. Eliot!

  2. Dez real na banca de saldos da Beta de Aquarius. Mesmo preço dos “Cantos’, do Ezra Pound, que está na fila.

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