Arquivo do mês: outubro 2011

Postais do Exílio (82): Falso Horizonte

Todos os prédios da cidade tem suas fachadas cobertas por pinturas em trompe-l’oeil.

Num bairro se tem a impressão de estar em plena floresta tropical, outro simula um vale entre montanhas azuladas de picos nevados, noutro um conjunto habitacional cria a ilusão de uma praia tão realista que muitos turistas já tentaram mergulhar na parede.

Há até mesmo pinturas que simulam uma cidade cheia de prédios com paisagens pintadas nas fachadas.

História Universal da Infâmia (13)

Primeiro dia de aula. A professora vai distribuir atividades para os alunos. Daí um menino fala:

- Professora, eu tenho supervelocidade.

E corre em volta dela em velocidade supersônica. Assustada, ela manda o menino sair da sala e ir brincar. Daí uma menina mostra que é capaz de ficarinvisível, e é liberada também. A outra consegue encostar a ponta da língua na ponta do nariz. Um pequenininho solta um grito mais alto que a sirene da escola. Cansada, a professora pergunta:

- Alguém aqui não tem nada fora do comum?

Sobra só um garotinho. A professora manda o resto da turma sair e dá um caderno de deveres pra ele.

Qual é o nome do filme? Resposta nos comentários, é claro.

Postais do Exílio (81): Igreja de Todos os Santos

Localizada em Gelbenschloss-am-Meinz, foi construída em 1324 com o objetivo de ser um local de culto a cada um dos santos da Igreja Católica. Já no ano da inauguração, porém, estava defasada: no período da sua construção haviam ocorrido mais quatro canonizações. Sem se deixar abater, e, pelo contrário, demonstrando entusiasmo com o aumento da galeria de doutores e mártires, o primeiro pároco deu início ao que seria uma reforma permanente do templo, acrescentando capelas, altares e imagens à medida que era necessário.

Aos poucos, foram sendo erguidas capelas secundárias e outras soluções para dar conta da demanda crescente. As desigualdades, porém, se revelavam. Apóstolos estavam localizados na nave da igreja, assim como os padroeiros de classes e nações com prestígio, com imagens douradas, esculpidas por grandes artistas; enquanto isso, santos com menos devotos eram relegados a verdadeiros puxadinhos.

De qualquer forma, a igreja foi se expandindo, anexando prédios vizinhos, tornando-se maior até mesmo que o resto da cidade, mal ou bem atendendo a todos os santos. E conseguiu até o século XX. Foi no papado de João Paulo II (1978-2005) que começaram os problemas. Não houve como acompanhar o ritmo das canonizações, que ultrapassaram as 400 em menos de 30 anos, sem que os recursos para as obras crescessem na mesma velocidade.

Em 2004, o pároco chegou a se queixar abertamente. Houve boatos de um cisma. A morte de João Paulo II serenou os ânimos – pelo menos até que ele seja canonizado e tenha que ser entronizado na Igreja de Todos dos Santos.

Criptoetimologia (43): Cédula

O papel-moeda, como se sabe, foi inventado na China. Na Europa, foi só no século XIV, depois das viagens de Marco Polo (1254-1324) e seus relatos do Oriente, que banqueiros italianos e holandeses resolveram adotar a ideia. Com resistências, é claro. Nem todos se convenciam de que um pedaço de papel poderia valer a mesma coisa que um punhado de ouro.

Contribuiu para a aceitação o conceito criado pelo conselheiro Ermolao Donà (?-1450), um membro do Conselho dos Dez que assessorava o oge de Veneza. Foi ele quem, num tratado sobre o comércio, chamou os papeizinhos de cellula dura laborem, “pequena cela sólida do trabalho”, querendo com isso dizer que as notas eram o local onde habitava o (valor do) trabalho. Ou seja, a materialização do capital.

(Séculos mais tarde, Marx se inspiraria na obra de Donà, que conheceu na biblioteca do Museu Britânico. Mas isso é outra história.)

E a cédula? A cédula, ora, é uma abreviação criada também por Donà, formada pelas primeiras sílabas de cellula dura laborem.

Dramatis Personæ (133): Romeu

Seu passatempo é entrar em igrejas e fazer falsas confissões aos padres. Nas visitas ao confessionário, já foi terrorista, ladrão de jóias, sequestrador, idólatra, blasfemador, corruptor, homicida, perjuro. Quando o confessor o atende numa conversa mais informal, lado a lado num banco de igreja, costuma narrar com especial riqueza de detalhes os seus pecados contra a castidade, às vezes identificando uma excitação mal disfarçada do padre. Em outros casos, explora as possibilidades malignas de pecados mais tolerados, como a gula e a preguiça.

Biblioteca de Babel (67): Grimório Inócuo

Já em sua quinta edição, o Grimório Inócuo é uma compilação de feitiços, rituais e encantamentos de diversas origens e para os mais variados fins, todos testados pelos editores, que garantem que nenhum deles funciona.

Ainda que pareça inútil, a obra é de grande valia para os não-iniciados que pretendem praticar magia sem correr os riscos de seus efeitos. Também serve como guia: os feitiços que não estão no livro, em princípio, podem funcionar.

Esta quinta edição, pela primeira vez, foi reduzida em relação à anterior. Oito feitiços foram retirados porque alegadamente funcionaram, dois deles com consequências letais. Ainda que possa ter sido por coincidência ou efeito nocebo, os editores preferiram não comprometer a reputação do Grimório.

Postais do Exílio (80): Túmulo do Indigente Desconhecido

A população de Amugre, de índole pacifista, jamais se envolveu em guerras. Nunca existiu portanto entre seus naturais um desaparecido em combate ou um corpo não identificado achado nas trincheiras a quem reverenciar num monumento ao Soldado Desconhecido, como há em tantos outros lugares.

Em vez disso, Amugre homenageia os mortos em tempos de paz. Especialmente aqueles que se foram sem um parente ou amigo que providenciasse seu enterro. Os mendigos, os vagabundos, os pivetes, uns que vendem fumo e uns que viram Jesus, todos os que algures iriam para a Faculdade de Medicina ou para a vala comum, ganham ali após a morte o reconhecimento que nunca receberam em vida.

Dramatis Personæ (132): Ingrid e Téo

Aprenderam, cada um a seu tempo e cada um a seu jeito, que a vida após a morte é antes de tudo monótona. Limitados a andar apenas pelos mesmos lugares por onde haviam andado quando vivos, ver as mesmas coisas, dizer as mesmas palavras (ele, particularmente, nunca fora muito de falar, e nunca saíra de sua cidade natal). Depois de alguns séculos, as possibilidades de combinação se esgotam.

Foi a surpresa de ainda poderem se surpreender que primeiro os encantou quando descobriram um ao outro, e descobriram uma atração que dificilmente teria acontecido em vida – ela morrera aos 73 anos de idade, apenas oito anos depois de ele nascer.

Hoje tentam aproveitar ao máximo o pouco que a eternidade lhes permite, já que podem se ver apenas no minúsculo espaço que ambos conheceram em vida: a estação de trem da cidade de Téo, por onde Ingrid passara rapidamente numa viagem.

Bestiário (102): O gato azul

Um de cada cento e vinte e nove gatos nasce azul. Normalmente é o menor da ninhada, e normalmente a mãe o devora logo após o parto.

Quando por milagre um deles escapa e cresce, torna-se uma fera que se alimenta apenas dos filhotes recém-nascidos de qualquer animal – de condores a ratos, de seres humanos a dragões.

Postais do Exílio (79): O Museu do Inatingível

As galerias são corredores estreitos, que permitem passagem para apenas duas pessoas, e com o pé direito incrivelmente alto. Todas as obras estão penduradas nas paredes, a mais de vinte metros do chão. Mesmo olhando para cima, é impossível identificar qualquer coisa além de borrões.

O acervo conta com obras de valor incalculável, como o Rinoceronte de Da Vinci, o Auto-retrato com girassois, de Van Gogh, e a série de gravuras de Picasso sobre Hiroshima. Todas expostas de forma que ninguém seja capaz de vê-las.

Mesmo assim, as filas são sempre extensas. Quem visita o museu quer poder dizer que esteve lá, sob o mesmo teto que a Torera andaluza de Goya.

Dramatis Personæ (131): Muzrael

O demônio da Aleatoriedade é o mais poderoso dos seres que habitam o submundo infernal. Se fosse evocado para nosso plano de existência, sua mera presença bastaria para dissolver este e outros dez mil mundos numa sopa amorfa de matéria randômica.

Felizmente, as chances de que isso aconteça são mínimas. Nenhum necromante jamais desvendou o segredo para trazê-lo. Porque o ritual necessário é igualmente aleatório. Num dia pode exigir o sacrifício de treze cabras dentro de um círculo de sal, no outro pode ser necessário acender sete velas de cores diferentes ao som da Macarena.

Bestiário (101): Antiabelha

Antiabelhas despolinizam as plantas. Voam de flor em flor, seguindo as abelhas comuns e desfazendo seu trabalho, sugando o pólen caído nos estigmas.

Plantações inteiras foram esterilizadas depois da passagem aparentemente inocente de um enxame de antiabelhas.

A última tentativa de neutralizar a ação devastadora da antiabelha foi a reforma ortográfica, que removeu seu hífen. Até agora, contudo, a providência parece inócua.

Criptoetimologia (42): Samambaia

Mem de Sá (1500-1572) não foi apenas o último governador-geral do Brasil colônia e maior incentivador do início do tráfico negreiro para as terras brasileiras. Foi também um apaixonado pela nossa flora.

No fim dos anos 1560, depois de expulsar com sucesso os franceses da Guanabara, costumava deixar a recém-fundada (por seu sobrinho Estácio) cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro para alguns momentos de melancólica (ah, a nostalgia de Portugal) reflexão. E o seu local preferido era uma mata na encosta do morro Cara de Cão, onde brotavam folhas que lhe serviam de leito.

Os negros que havia trazido de Angola chamavam o lugar de Samumbeya (do quimbundo mumbe, “solidão, abandono”), ou seja, “lugar da tristeza de Sá”. E o governador usou a palavra (ligeiramente distorcida, como se vê) para batizar aquelas plantas, desconhecidas dos portugueses.

Meninos, eu li (15)

Ninguém duvida de que Luiz Gonzaga Assis de Luca entende de cinema, e mais ainda do setor de exibição. Mas “Cinema digital: um novo cinema?” (Imprensa Oficial de São Paulo, 2004) sofre de alguns problemas sérios. O menor deles é o fato de já ter sido escrito há sete anos e  estar um pouco defasado em relação à evolução tecnológica. Assim, a descrição de projetores e aparelhagens de compressão e envio de arquivos acaba funcionando como curiosidade ou referência de época, mal levando em consideração, por exemplo, a revolução do 3D. Os problemas mais graves são o texto mal escrito a ponto de incomodar a compreensão, revelando a ausência completa de um revisor que transformasse a dissertação acadêmica num livro de fato, e a abstinência do autor em ir mais fundo nas implicações políticas trazidas pela digitalização das salas.

Elie Wiesel mostra “O Golem” (Imagem, 1997) como uma fábula judaica em que as perseguições funcioname como pano de fundo mas o que de fato importa é a consciência da justiça. Porque o Golem ganha a vida por meio da palavra do rabino, os seus extraordinários poderes são apenas uma extensão da extraordinária sabedoria do seu criador. Os judeus do gueto se salvam graças a essa sabedoria e esse senso de justiça que se encarna em ações.

Cristiane Dantas venceu o concurso Literatura para Todos com esse “Madalena” (Ministério da Educação, 2006). Merecido. Literatura para adolescentes com qualidade, respeito à inteligência do leitor, estímulo à leitura e à escrita. A trajetória de Madalena, ao longo de décadas e contada por diversos pontos de vista, é carregada de verossimilhança na personagem principal e nos secundários, mesmo que alguns deles sejam mal esboçados ou fiquem perigosamente próximos do estereótipo.

O nome de Clive Barker na capa é um chamariz que funciona. Só depois de abrir “O ladrão da eternidade” (PixelMedia, 2006) é que você descobre que a adaptação é assinada por Kris Oprisko e Daniel Hernandez. Mas não fiquei decepcionado. Pelo contrário. A versão em quadrinhos funciona muito bem numa história que tem pouca coisa de original: menino acha que sua vida é um lixo, menino vai parar num mundo encantado, menino descobre que mundo encantado é uma cilada, menino conta com a ajuda dos amigos verdadeiros para enfrentar seus medos e voltar para casa. Dentro desse esquema batido, Barker, seguido por seus adaptadores, consegue adicionar elementos suficientes para criar uma fábula atraente.

“Homem-Aranha Noir” (Panini, 2011), de Fabrice Sapolsky e David Hine, é de certa forma tudo aquilo que um gibi de super-heroi deveria ser. Mostra um personagem conhecido numa situação diferente, vivendo uma aventura de fato e não uma série de lutas sem sentido. A ambientação na Nova York dos anos 30 revitaliza o Aranha, seus aliados e seus inimigos. Foi uma forma inteligente de recontar sem ser repetitivo uma história já mil vezes repetida, do jovem Peter Parker adquirindo seus poderes após uma picada de aranha, e aprendendo a lidar com dilemas éticos. Deu vontade de ler o “X-Men Noir” também.

Eu me lembrava de muito pouca coisa do filme “O Mahabharata”. Basicamente, a história de Ganesha e a cena em que Arjuna reconhece Vixnu no alto da montanha. Mas lembrava bem da vontade que deixou de conhecer o épico. A adaptação de Jean-Claude Carrière (Brasiliense, 1994), lançada naquela época, cumpre bem a função. Carrière, autor do roteiro do filme, é honesto ao explicar como cortou violentamente o poema para apresentar a história central. Foi eficiente ao mostrar a luta dos Pandavas pelo trono como um pretexto para refletir sobre o dharma e suas peculiaridades, entre elas a de que às vezes é preciso esquecê-lo para cumpri-lo.

Depois que a Pixel me deixou na mão no meio da publicação seriada de “As Fúrias”, anos atrás, tive que comprar essa edição encadernada da Panini (2011) para saber o que aconteceria com Lyta Hall. Mike Carey não é nenhum Neil Gaiman, mas deu um prosseguimento decente à saga de Sandman. Ao lado do desenhista John Bolton, teve como ponto alto a subversão do conceito de deus ex-machina para resolver o conflito.

Gugleiros (83)

As melhores buscas entre os visitantes do Almanaque no mês de setembro:

Quarta, 1 -noducos e eunucos demonios do sexo
E não se esqueça dos nabucos.

Quinta, 2 -um exemplo de maquete sobre o poema o bicho
Não temos. Paramos nas maquetes sobre “Batatinha quando nasce”.

Sexta, 3 -como empalhar cabeças de peixes
Tire a cabeça do peixe, depois encha de palha.

Sábado, 4 -penis zap
Ui!

Domingo, 5 -a balada do lobisomem
Foi a primeira história com o Silver Joe.

Segunda, 6 -quem inventou elefante colorido
Alguém que tinha bebido demais.

Terça, 7 -todo gato siames é caolho?
Não. Alguns são vesgos.

Quarta, 8 -“excrementos de cobra”
Curam dermatites graves, erisipela e hipercredulidade.

Quinta, 9 -romeu e julieta morreram foi achado na cena agua e vidro quebrado
Veja o desfecho em “CSI-Verona”.

Sexta, 10 -tigre de bengala porno
Ele comeu todo mundo.

Sábado, 11 -viverei com o catete o largo do machado
Eu vivo com a Glória.

Domingo, 12 -como se originam os filhotes de cobra
Começa quando o papai cobra encontra a mamãe cobra.

Segunda, 13 -modelos de desenhos em unhas centopéia passo a passo
Eu não sabia nem que centopeia tinha unha.

Terça, 14 -samambaia nhanderuvuçu
Diz a lenda que Nhanderuvuçu se esconde entre as samambaias. Mas a lenda diz muita coisa.

Quarta, 15 -eyes of the tigre
It’s the thrill of the typo.

Quinta, 16 -mecanismo de captura da dioneia
Não precisa de mecanismo para capturar, ela fica parada no vaso.

Sexta, 17 -“historia do lapis de cor”
Era uma vez um lápis de cor. Coloriu, coloriu e acabou. Fim.

Sábado, 18 -jorge ben jor compôs uma música sobre um magnífico palácio construído em homenagem a uma mulher morta onde fica o palacio
Posso pedir ajuda aos universitários?

Domingo, 19 -maquete de uma lacraia
De preferência, uma lacraia que seja arquiteta, né?

Segunda, 20 -carneiro quadrupede
Quatro patas bom, duas patas ruim.

Terça, 21 -para que serve o almanaque
Ainda não descobri.

Quarta, 22 -release dança abra suas asas
Solte suas feras, caia na gandaia.

Quinta, 23 -simbolo do infinitocom asas
E eu acho que deveria ter também um dragão e uma coroa em cima, e raios.

Sexta, 24 -a quarta-feira é conhecida como o dia das trevas.
Só quando o Flamengo perde.

Sábado, 25 -qual o sgnificado do nome peri no rock rio
Significa “se a vida começasse agora, se o mundo fosse nosso outra vez”.

Domingo, 26 -a luz da biblia sonhar com cupim
A Bíblia estava pegando fogo? Ou veio com lanterna embutida?

Segunda, 27 -aumanaque
É o almanaque dos cachorros.

Terça, 28 -eu : qual animal mais antigo do mundo ?? pessoa: bactéria? eu: não, a zebra! pessoa: zebra? porque a zebra? eu: porque ela ainda ta em preto e branco! e outras
Tchidum-tss!

Quarta, 29 -“quantos são os anões da branca de neve?”
Fácil: anote os nomes de todos eles e depois conte.

Quinta, 30 -tudo sobre a vida de barnabe
Leia o Diário Oficial.


E as dez expressões mais procuradas no mês foram:

almanaque 156
tigre de bengala 111
sonhar com lacraia 32
tigre 28
almanaque abril 2008 16
dia do inimigo 15
almanaque abril 2007 15
o que é almanaque 13
chafariz 10
sonhar com lacraia significado 9