Meninos, eu li (6)

Não é que eu estivesse desde maio sem ler. Mas veio a obra, depois a mudança, os meses sem estante, mais um período de muita complicação e nenhuma disposição pra registrar minhas leituras aqui. Então, retomo a seção com o que li em novembro.

Ozma de Oz (São Paulo: Hemus, s/ data) é o primeiro livro de L. Frank Baum que eu leio, e o terceiro da série (depois de O Mágico de Oz e O Mundo Encantado de Oz). Não creio que tenha feito muita falta ler os anteriores, até porque o primeiro já se encontra praticamente no domínio da tradição oral. Dedicado às crianças, também não traz grandes atrativos para leitores adultos. Boa parte dos novos personagens apenas recicla com pouca variação o Lenhador de Lata, o Espantalho e o Leão Covarde (que também voltam a dar as caras). Até mesmo a galinha Bilina é um Totó melhorado, inclusive salvando o dia. Pelo menos não traz aquele reacionarismo característico de outros autores infantis, de Lobato a Lewis e Dahl.

Sim, a capa da edição capa dura de Cybertypes: Race, Ethnicity, and Identity on the Internet (Oxford: Routledge, 2002) é toda preta mesmo. Talvez como uma forma de ressaltar a principal tese de Lisa Nakamura: negros (e índios, e pobres, e minorias em geral) não tem vez na internet, apesar das promessas de um ciberespaço pós-racial, em que as desigualdades de classe, gênero ou nacionalidade deixariam de existir. Pode estar um pouco datado, mas continua relevante no ponto principal, de chamar a atenção para a distância entre o discurso utópico e a realidade, a forma como o online reproduz o offline. Mas também aponta os caminhos para usar a internet efetivamente como meio de enfrentar preconceitos. Nesse sentido, é quase uma versão para o século XXI do clássico Apocalípticos e integrados.

Fechei o mês com A travessia dourada (São Paulo: Dervish, 1995), de Sirdar Ikbal Ali Shah. O grande mérito do autor foi conseguir, especialmente nos primeiros capítulos, integrar seus contos árabes e persas com a descrição de uma peregrinação a Meca e outros lugares sagrados. Mais à frente, a relação entre as viagens de Shah e as histórias que ouve fica mais frouxa. Mesmo assim, tem bons momentos, como o conto do guerreiro afegão em busca de vingança, que chega a lembrar Borges. A curiosidade é o capítulo “O deus serpente decide”, que reproduz quase nos mínimos detalhes (inclusive no comic relief dos guardas medrosos) a trama de “O Castelo de Otranto”, escrito 200 anos antes, mas que também pode muito bem ter se inspirado em alguma lenda oriental anterior. Fica a dúvida de quem copiou quem.

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