Arquivo do mês: setembro 2010

Eu voto

Este texto já devia ter sido escrito há muito tempo, pelo menos há um mês, quando decidi todos os meus votos. Vai atrasado, mas vai. Pela ordem:

Presidente – Dilma Roussef – 13
Foi o voto mais fácil de decidir. Dilma é a manutenção de uma política de responsabilidade administrativa aliada à opção pela redistribuição de renda, uma união que provocou a melhor década da história recente do Brasil. A falsa premissa de que era preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo deu lugar a uma visão de que o bolo só cresce depois que é dividido. Foi assim que passamos pela crise financeira internacional, foi assim que aumentamos o crescimento, foi assim que diminuímos a pobreza e a desigualdade. É assim que precisa continuar.

Governador – Sérgio Cabral Filho – 15
Não é que eu morra de amores pelo governo Cabral. Mas teve seus acertos, como as UPAs, as UPPs e, já no finzinho, a implantação (até que enfim!) do bilhete único. Foi fundamental no processo de escolha do Rio para sede dos Jogos de 2016. Não cometeu nenhum erro grave, que eu me lembre. Além disso, e o mais importante, votar em Cabral é fortalecer o bloco político que vem promovendo as mudanças de que falei acima.

Senador (1) – Lindberg Farias – 131
Vários motivos a escolher. Para fortalecer o apoio ao governo Dilma. Para não deixar Cesar Maia ir para o Senado. Porque Lindberg mostrou amadurecimento na sua trajetória política. Porque fez uma boa administração em Nova Iguaçu. Porque renova tanto o Senado quanto o PT. E porque ele tem fortes chances de se tornar governador do Rio em 2014, deixando a vaga para o seu suplente Emir Sader!

Senador (2) – Milton Temer – 500
O medo de pintar uma vaga para Cesar Maia ainda me deixa com o pé atrás. Mas votar no Crivella é dose. Então vamos de Milton Temer, que mesmo sendo desse partidinho mequetrefe é um sujeito responsável e, na hora de fazer avançarem as causas populares, não vai brincar de oposição em troca de uma fala no Jornal Nacional.

Deputada Federal – Jandira Feghali – 6565
Outro voto muito fácil de escolher, e o que mais me empolga depois da Dilma. Jandira, em quem votei mas que infelizmente não consegui eleger senadora em 2006 nem prefeita em 2008, dessa vez vai pra Brasília. E com ela na Câmara melhora substancialmente o debate sobre saúde, direitos da mulher, minorias, aborto, cultura.
E ainda tem outra coisa: Jandira é Mengão.
Como é que eu não votaria nela?

Deputada Estadual – Cida Diogo – 13313
Pena que a Câmara vai perder Cida Diogo, que se candidatou à Assembleia Legislativa. Tem meu voto porque, assim como Jandira, vem sendo uma batalhadora pelos direitos da mulher, pela ampliação da saúde pública, pelas minorias, pelo meio ambiente.

É isso aí. Agora é resolver a parada no primeiro turno. Se possível, mandando a oposição pra segunda divisão.

Bestiário (81): Oreya

Ao contrário das outras cobras, que ou são peçonhentas ou constritoras, a oreya vale-se de outro expediente para matar suas vítimas: a inanição. O nome quer dizer justamente “ladra de comida” na língua Iban, falada em partes da Malásia, onde vive.

Ela procura animais maiores, e às vezes seres humanos, entra em suas bocas e desce até o estômago. Lá chegando, vira-se e sobe novamente até a faringe. Ali passa a se alimentar de tudo o que a vítima põe na boca.

Quando alguém é atacado por uma uma delas e não consegue arrancá-la antes que desça até o estômago, só existe uma saída: passar a comer excrementos. A cobra sai imediatamente. Mas nem todos conseguem fazer isso e muitos acabam morrendo de fome, enquanto alimentam a oreya.

História Universal da Infâmia (10)

Depois de um documentário sobre os cinco tricampeonatos do Flamengo, começa uma série de filmes de sexo explícito. Qual é o nome do filme?

A resposta, para quem não sabe, está nos comentários.

Bestiário (80): Moiomod

Em algumas regiões da Valáquia, subsiste a crença no Moiomod, o ladrão de sombras.

Ele age sempre no alvorecer ou no crepúsculo, quando o sol está baixo e as sombras são longas. Nessas horas, elas ficam mais expostas e portanto vulneráveis. É quando a criatura se agarra a ela e começa a devorá-la aos poucos.

Em alguns dias, a sombra deixa de existir, substituída pelo Moiomod, que assume a sua forma. Porém, ao contrário daquela, ele possui vontade própria. E aos poucos começa a se impor à pessoa que acompanha, fazendo-a mudar de comportamento, normalmente aumentando a agressividade, a libido e o apetite.

Dramatis Personæ (98): Tugurq

Foi o chefe de uma das tribos da Ásia Central que tentaram em vão se opor ao avanço irrefreável de Temujin (mais tarde, chamado Gengis Khan). Até que conseguiu aproveitar a topografia da região onde vivia para dificultar ao máximo o avanço dos mongóis, sustentando sua posição por mais tempo que outros antes e depois. Porém, não foi por isso que seu nome foi gravado.

Com a derrota, Tugurq foi preso e decapitado. Sua cabeça serviu, como era hábito, para uma espécie de jogo de bola entre os guerreiros mongois. Foi seu grande momento. Porque seu crânio era tão perfeitamente redondo que os jogadores se entusiasmaram. Nunca antes partidas tão boas haviam sido disputadas. E o próprio Temujin, assistindo ao jogo, mandou honrar o inimigo vencido.

Os xamãs tengri inscreveram o nome de Tugurq no Livro do Céu. Seus filhos, que haviam sido vendidos como escravos, foram recomprados pelo triplo do preço e instalados em um palácio. Hoeghei, o poeta oficial de Temujin, dedicou-lhe uma ode. E o crânio foi guardado para ser usado apenas nos jogos solenes que celebravam o aniversário do líder.

Dramatis Personæ (97): Rubem

“Todas as histórias já foram contadas”, raciocinou certa vez. “Logo, diante de um caso supostamente novo, basta saber que história ele repete para saber como termina”. E foi assim que Rubem se tornou um detetive literário.

É verdade que no início cometeu erros. Confundiu clichês, subestimou viradas nas tramas. Mas aos poucos refinou sua capacidade de análise. Hoje, basta-lhe entrevistar um suspeito, duas testemunhas, ou até mesmo dar uma boa olhada na cena do crime para concluir qual conto de Simenon, Christie ou Chesterton foi replicada ali. Em seguida, estabelece a correspondência entre os personagens da ficção e os da vida real para chegar ao assassino. É elementar.

Sua maior frustração foi nunca ter encontrado uma duplicata dos assassinatos da Rue Morgue.

Bestiário (79): Mungupi

O Mungupi é um dos menores sapos do mundo. Foi encontrado recentemente, numa descoberta que teve que mudar também tudo o que os biólogos imaginavam saber sobre as plantas do gênero Nepenthes.

As Nepenthes eram tidas como plantas carnívoras, que digeriam os insetos que caíam dentro de suas folhas em forma de jarro.

Hoje se sabe que a planta mantém uma relação simbiótica com o mungupi. Ela atrai insetos para a borda da sua cavidade, mas é o sapo, que vive dentro dela, quem os come. Mais tarde, os seus excrementos servem de adubo para a hospedeira.

O mungupi só sai da Nepenthes para se reproduzir. Depois de acasalar, a fêmea deposita os ovos dentro de uma planta vazia. Os girinos lutam entre si, o sobrevivente devorando os irmãos mais fracos e tornando-se o sapo residente.