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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Fricção científica (7): A fala dos golfinhos

O espanhol Ramon Ferrer i Cancho, um especialista em sistemas, estudou o comportamento dos golfinhos na superfície da água. E descobriu que os seus padrões obedecem à mesma lei de economia dos sinais que rege a linguagem humana.

Ferrer i Cancho, ao lado do britânico David Lusseau, percebeu que os movimentos mais comuns dos golfinhos são os que utilizam menos elementos. Analogamente, nas línguas humanas as palavras mais usadas são as mais curtas, enquanto as mais longas são raramente empregadas.

Os dois cientistas não afirmaram que os golfinhos falam com suas batidas de nadadeira e movimentos de cabeça. Mas registraram sistemas compostos de padrões, que seguem os mesmos princípios usados pelos primeiros humanos a esboçar uma língua.

Se de fato isso for uma constante, podemos supor que seres com um número de sinais ainda mais reduzido, como anêmonas e esponjas, apenas falam uma língua mais simples que a nossa. Talvez até estejam o tempo todo se comunicando em linguagem binária.

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Dramatis Personæ (82): Moema

Começou usando o tarô de Marselha. Estudou com afinco os arcanos maiores e menores, decifrou os complexos símbolos das ilustrações. Atingiu um nível de compreensão tal que, quando punha as cartas, era como se estivesse assistindo a uma narrativa sendo representadapor 78 atores mudos (porém altamente expressivos) diante de seus olhos.

Passou a consultar outros tarôs. O egípcio, o de Crowley, o de Rider-Waite, o italiano, o de Etteilla, o da Aurora Dourada. Até mesmo o baralho cigano. E concluiu que o resultado era o mesmo, bastando que conhecesse as cartas o suficiente para deixar que elas lhe contassem uma história.

Hoje, lê o futuro usando Super Trunfo.

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A glória de um covarde

Fazia tempo que eu queria escrever sobre esse assunto, e acho que o dia é propício. Eu não aguento mais esses heróis que só protegem os fortes.

Nas suas “Cartas de um subdesenvolvido”, Henfil contou a experiência de viver nos EUA e tentar, sem sucesso, emplacar como quadrinhista no mercado americano. Ele percebeu de cara que criar humor numa democracia era bem diferente do que numa ditadura como a do Brasil do AI-5. Citando:

“O americano não consegue ver onde está a força de uma charge que tem a palavra liberdade no meio, e só. E no Brasil, só da gente colocar esta palavra numa charge ou música, já deu o recado! Estamos desenvolvendo uma linguagem cifrada, língua do pê, que só nos entendemos e só nós percebemos a gravidade e qualidade. Se a gente escrever a palavra “liberdade” num papel branco, sem mais nada escrito, já está ameaçando. Já fez um enorme esforço criativo! Pois aqui tem que escrever o resto do livro”.
(Carta a Tárik de Souza, 7 de janeiro de 1974)¹

O humor brasileiro, hoje, vive um cenário parecido, mas com o sinal trocado.

“Politicamente incorreto” é a qualificação que aparece nas descrições e nos (auto-)elogios de 99% dos humoristas brasileiros. E, na maioria dos casos, é a única apresentada. Fulano é engraçado? Ah, ele é politicamente incorreto que só vendo. Desrespeitar minorias virou condição necessária e suficiente para se fazer humor. Soltou um “crioulo safado”, desmunhecou, a claque vem abaixo.

Pois eu pergunto: é só isso, mermão? Cadê o resto do livro? Qual é a graça? E, principalmente, qual é o risco que você está correndo? A sempre criticada “ditadura do politicamente correto” é uma falácia. Porque quando eu chamo um racista de racista, um homofóbico de homofóbico, um machista de machista, não estou censurando. Estou dando nome aos bois. Estou apontando a covardia de quem replica e reforça a opressão.

A reação dos acusados é sempre a mesma: desqualificar e, se possível, calar a crítica. A liberdade de expressão só vale para o discurso dominante. Esses pretensos heróis apresentam como credencial a sua coragem de ser covardes. O que não chega a ser uma piada pronta, mas é um oxímoro dos bons.


¹ Mais tarde Henfil reveria seus conceitos, chegando à conclusão de que a aparente liberdade nos EUA apenas disfarçava uma ditadura do puritanismo. Mas isso é outra história.

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Biblioteca de Babel (46): ___

Quando os críticos afirmaram em coro que o Grande Escritor estava próximo do auge e que sua próxima obra seria provavelmente o romance definitivo da sua geração (pelo menos), ele não teve dúvidas. Publicou um livro sem título e com todas as páginas em branco.

As resenhas foram empolgadas, e “___” foi o seu maior sucesso de vendas.

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Postais do Exílio (51): Teneri

Na cidade-estado de Teneri fica o único túnel em U de todo o mundo.

O túnel começou a ser construído para celebrar a paz com a vizinha e rival Samarânia. Duas galerias foram escavadas na montanha que separa as duas cidades, para a abertura de um túnel duplo que se tornaria o símbolo da união entre os seus povos. Mas um incidente diplomático azedou novamente as relações e as obras foram interrompidas.

Para não desperdiçar o investimento, o governo de Teneri resolveu unir as duas galerias. E assim a cidade passou a contar com um túnel cujas duas bocas estão uma ao lado da outra. Tornou-se um símbolo da inimizade.

Para piorar, Samarânia alega que o ponto extremo da curva se localiza já em seu território. E exige o pagamento de pedágio.

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Calouros

hermes.jpg É sempre uma alegria ver uma nova turma de concursados assumindo seus postos. A empolgação de quem inicia uma nova carreira. O brilho em seus olhos sendo embaçado pelo mar de papéis a que vão sendo apresentados. A confusão diante do labirinto de siglas e procedimentos. A incredulidade com que reagem aos problemas que apresentamos.

Se existe um deus dos burocratas, eu peço a ele que traga novos servidores todos os anos.

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Bestiário (68): Bicho-viajante

Este pequeno verme se aloja sob a pele das pessoas, e pode ser visto em qualquer parte do corpo. De fato, ele costuma passear do braço para a barriga, de lá para a perna, e depois para o pescoço, ou para onde preferir. No caminho, alimenta-se das reservas de gordura subcutãneas do hospedeiro.

Mas chamar de hospedeiro o ser humano em que habita reduz o bicho-viajante ao status de um reles parasita. E não é. Pelo menos para os habitantes da região onde é mais comum, trata-se, pelo contrário, de um verdadeiro animal de estimação.

Crianças, principalmente, adoram brincar com seus bichos-viajantes. Algumas chegam a ter dois ou três, para inveja dos amiguinhos.

A morte do verme é considerada um mau agouro. Quase sempre, o dono morre de depressão pouco depois, se não conseguir encontrar outro. Mesmo quando o faz, às vezes a ligação emocional era tão forte que um novo companheiro não consegue substituir o que foi perdido.

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Dramatis Personæ (81): Silvana

Preocupa-se muito com a higiene das estátuas.

Não sai de casa sem um frasco de desodorante na bolsa. Aplica o spray nas axilas de todo general, maestro ou político de bronze que encontra nas praças por onde anda.

Dedica especial atenção ao monumento a Oswaldo Diniz de Magalhães, na Praça Saens Peña. Abomina os bustos, por motivos óbvios.

Acredita que os pombos só se acumulam em torno de estátuas malcheirosas, como fazem as moscas com as pessoas de carne e osso.

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36 vistas, o livro

Quem se tatua está sempre enviando duas mensagens. Uma, a mais óbvia, é para os outros, para quem vê a tatuagem hoje. Mas a segunda, a mais importante, se destina à pessoa que o tatuado vai se tornar no futuro, e que nunca poderá ignorar o que fez no passado. Da mesma forma que é impossível não ver uma estátua de trinta metros no alto de uma montanha.

Esta é uma das legendas que escrevi para as ilustrações do livro “36 vistas do Cristo Redentor“, do amigo e parceiro Renato Alarcão, lançado esta semana.

Foi um trabalho muitas vezes desafiador, porque eu não conseguia encontrar palavras que de fato acrescentassem alguma coisa às imagens. Mas por isso mesmo me deixou orgulhoso depois de terminado. Acho que consegui transpor para as legendas o espírito parte reflexivo, parte impressionista, parte fantasioso que se vê na arte do Renato.

O livro está à venda no site da editora Casa 21.

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Criptoetimologia (17): Senador

Quem estudou um mínimo de História Antiga, ou pelo menos leu os álbuns de Asterix, sabe que a instituição do Senado, com todos os seus defeitos, remonta aos tempos do Império Romano. E foi do latim que a palavra chegou ao português e a diversas outras línguas.

O Senado, então, era visto como uma espécie de teatro. Assim como os artistas representavam conflitos no palco, os tribunos representavam os diversos interesses em jogo na política romana. A diferença estava no fato de que o drama era apresentado por seus verdadeiros componentes. era, portanto, um teatro “sem ator” (sin actor). E dessa expressão surgiu o termo senator.

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Fricção científica (6): PQP!

O psicólogo Richard Stephens, da Universidade de Keele, descobriu que xingar diminui a sensação de dor. Ou melhor, comprovou o que já se sabia. Os 64 voluntários que participaram da experiência mergulharam suas mãos em água gelada. Orientados a gritar palavrões, eles suportaram a dor por um tempo superior ao aguentado gritando palavras mais neutras.

Stephens acredita que os palavrões, que existem em qualquer língua, exercem um papel primordial, ativando funções cerebrais que mascaram a dor. O que nos leva a formular duas hipóteses:

1 – O aumento da permissividade, com maior tolerância a palavras que antes eram tabus, diminui o poder analgésico do xingamento e portanto cria mal-estar social;
2 – Outras ocasiões que levam as pessoas a gritar palavrões (como gols perdidos e quedas na conexão) provavelmente são também experiências de dor.

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História Universal da Infâmia (8)

Um sujeito pergunta para o outro:

— Quantas são as cores do arco-íris?

— Sete.

— Quantos são os anões da Branca de Neve?

— Sete.

— Quantos pecados capitais?

— Sete.

— E as notas musicais?

— Sete.

E aí desiste porque a resposta é sempre a mesma. Qual é o nome do filme?

(Resposta, como de costume, nos comentários)

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Biblioteca de Babel (45): Orelhas completas

Aliás, o autor de “Cabeça” (ver a postagem anterior, Biblioteca de Babel 44) era conhecido justamente pela qualidade das orelhas que escrevia. nquanto outros escritores eram constantemente requisitados para redigir introduções e prefácios para obras de terceiros, ele se especializava nos sucintos parágrafos que acompanhavam as capas. Em muitos casos, criando obras superiores às que recomendava.

Foi questão de tempo para que um editor um pouco mais inteligente propusesse uma coletânea de sua obra auricular. Mas eram tão bons os textos que não foi possível selecionar os melhores. Impôs-se a publicação das Orelhas completas.

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Biblioteca de Babel (44): Cabeça

A maioria das avaliações negativas que recebeu veio de críticos que, erradamente, leram apenas as páginas do livro. E, dessa leitura apressada, concluíram que se tratava de uma obra superficial, confusa e redundante.

De fato, é isso mesmo. A não ser quando lida completa — ou seja, incluindo as orelhas.

A leitura dos dois pequenos textos acrescentam contexto e perspectiva ao livro, que assim se revela como uma autêntica obra-prima.

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Divisão de trabalho

hermes.jpg — Quantos funcionários públicos são necessários para trocar uma lâmpada?

— Espera. Deixa eu contar. Um pra constatar que a lâmpada queimou, um para solicitar a troca, um para autorizar a troca, um para chancelar a solicitação, um para levar a solicitação até o Departamento de Lâmpadas, um para protoc…

— Nada disso, basta um. Ele escreve um relatório dizendo “certifico que nesta data a lâmpada foi trocada” e oficialmente está resolvido.

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Criptoetimologia (16): Moleskine

Já houve protestos de associações de defesas dos animais contra a fabricação dos cadernos Moleskine, pela suposição errada de que eram feitos de mole skin (pele de toupeira, em inglês). Não são: nem de couro e nem de moleskin, nome de um tecido rústico e resistente, de algodão.

O primeiro Moleskine, na verdade, deve o nome a seu criador, o artesão Andrea Moleschini (1832-1903). Seus cadernos feitos à mão eram os preferidos de escritores como Alfred Jarry e Max Jacob, além de receberem rascunhos de Henri Rivière. Camille Saint-Saëns não chegou a compor num caderno de Moleschini, mas usou diversos deles como diários.

Com a morte do artesão italiano, a produção dos cadernos também se extinguiu. Só décadas mais tarde o nome seria adaptado pela companhia italiana que hoje manufatura os moleskines.

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Gugleiros (61)

As melhores buscas entre os visitantes do Almanaque no mês de junho.

Segunda, 1 -bicho da goiaba do ziraldo
Olha, se a goiaba é do Ziraldo, deixa que ele se preocupa com o bicho.

Terça, 2 -concorrentes da goiabada
Eram muitos, mas desistiram da competição porque era marmelada.

Quarta, 3 -presentes indesejados dia dos namorados
Chapéus de viking.

Quinta, 4 -quem é o público alvo dos incensos?
Ripongas, iogues e esse pessoal que precisa disfarçar cheiros no quarto.

Sexta, 5 -bicho dentro de lata de conserva
Se for uma lata de bichos em conserva, tudo bem.

Sábado, 6 -esiste unicorio
Só em livos de ledas.

Domingo, 7 -em toca de tamandua tatu caminha dentro
Setembro chove?

Segunda, 8 -dioneia nao come
Deve ser anoréxica. Ou vegetariana.

Terça, 9 -tanabata matsuri liberdade 2009
11 de julho. Leve seus pedidos.

Quarta, 10 -macacos datilografos de shakespeare
Foram eles que escreveram “Hamlet”. O bardo ficou com a fama e os coitados, só com bananas.

Quinta, 11 -macacos datilografos de shekspeare
Você de novo? E dessa vez escreveu errado.

Sexta, 12 -macacos datilografos shakespeare
Está ficando monótono.

Sábado, 13 -macacos datilografos shakespeare
Deve ser campanha para entrar na lista das 10 mais procuradas.

Domingo, 14 -os macacos datilografos de shakespeare
Gostou da brincadeira, pelo jeito.

Segunda, 15 -vulcão extinto em friburgo
Era usado pelos imigrantes suíços para fazer fondue.

Terça, 16 -porque o cérebro reconhece as cores?
Para poder passar no exame de habilitação.

Quarta, 17 -“bactéria boa, é bactéria morta”
E vírgula boa não fica entre o sujeito e o verbo.

Quinta, 18 -significado sonho cupim
Por via das dúvidas, verifique o estrado da sua cama.

Sexta, 19 -conclusão do conto rapunzel
“E foram felizes para sempre. Fim”.

Sábado, 20 -viverei com o catete o largo do machado
Machadassis que me perdoe, mas o meu destino é a Glória.

Domingo, 21 -onde fica o almanaque
Achou!

Segunda, 22 -enfeite+retrovisor+flamengo
Olha, no retrovisor do Mengão sempre aparecem Flu, Bota e outros timecos. mas nem dá pra chamar isso de enfeite.

Terça, 23 -o que significa sonhar com chifre
Isso mesmo que você está pensando.

Quarta, 24 -jogo do bicho santa anastacia
Aquela da canja? Tudo no galo.

Quinta, 25 -como fazer o caminhao correr e nao derrapar
Não faça curvas.

Sexta, 26 -fotos de radio
Serve essa?

Sábado, 27 -macacos datilografos de shakespeare
É, já vi que você não desiste.

Domingo, 28 -uivo do tigre demonio
Eu não quero estar perto para ouvir.

Segunda, 29 -macacos datilografos de shakespeare
Chega.

Terça, 30 -mas quase um janeiro de almanaque
E assim se passou um junho inteiro!


E é claro que o trending topic “macacos datilografos de shakespeare” entrou na lista das dez expressões mais procuradas do mês:

almanaque abril 2009 147
almanaque 78
sonhar com lacraia 41
goticas nuas 32
tigre de bengala 32
tigre 30
tanabata matsuri liberdade 2009 14
o que é almanaque 14
macacos datilografos de shakespeare 13

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Por aqui

Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.