Foram muitos anos operando uma mesa de edição. Impossível contar quantas horas avançando e recuando fitas de vídeo, localizando o ponto exato do corte. Um dia, Severiano estava trabalhando quando percebeu que conseguia compreender as palavras ditas pelo entrevistado, mesmo em fast-forward.
Achou que deveria ser impressão sua. Afinal, já tinha ouvido aquele trecho da gravação antes, provavelmente estava apenas recordando. Mas pegou uma entrevista nova e viu que era verdade. O som acelerado era tão nítido para os seus ouvidos quanto uma pessoa falando.
Passou a assistir a filmes sempre na velocidade mais alta do aparelho de DVD. Tirou do porão o velho toca-discos e começou a ouvir (em 78 rotações por minuto) os seus LPs. Tudo não apenas fazia sentido, mas parecia até mais agradável que do jeito normal.
Desde então, começou a se queixar cada vez mais da falta de conteúdo nas músicas e nos filmes. Todos só ficam engambelando e enchendo o tempo com bobagens, reclama. Aliás, já acredita que isso acontece também quando outras pessoas conversam com ele.
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