Terça-feira, 31/3/2009 • 00:03
Do latim tempora, plural de tempus, “tempo” (O tempora! O mores!). Isso é o que qualquer dicionário etimológico de razoável para baixo pode dizer. Mas o que tem uma região da testa a ver com o tempo?
A resposta está nos templos de Jano, o deus romano de duas caras. Antes de abrir as portas da paz ou da guerra, os sacerdotes (que não têm nada a ver com os janízaros, diga-se de passagem) deviam contar até cem. Ao fim da contagem, perguntavam ao imperador se a sua decisão se mantivera ou mudara. Era uma forma, ainda que simbólica, de evitar que uma decisão tão apressada fosse tomada sem reflexão.
Contar até cem rápido ou devagar? A medida era a pulsação da veia temporal, que os sacerdotes sentiam com os dedos pousados sobre a testa. Os pontos da cabeça usados para marcar a passagem dos tempos ganharam então o nome de tempora.
Arquivado como:Criptoetimologia
Domingo, 29/3/2009 • 18:03
Quando o naturalista George Shaw viu o primeiro exemplar de ornitorrinco empalhado a chegar à Grã-Bretanha, em 1799, proclamou peremptoriamente que se tratava de uma fraude. Garantiu que não passava de uma espécie de castor a que um taxidermista havia costurado um bico de pato. Ao ficar comprovado que o animal de fato existia, o cientista resolveu dedicar o resto dos seus anos a reencontrar o gualupe.
O gualupe fora trazido a ele por dois estudantes, cinco anos antes do ornitorrinco. Tinha o corpo de um quati, a cauda de um tamaduá e chifres de antílope. Shaw imediatamente expulsou os rapazes da universidade, dizendo que tinha mais o que fazer do que dar crédito a trotes.
A constatação do erro no caso do ornitorrinco levou Shaw a abandonar a cátedra e partir numa expedição ao coração da Amazônia, de onde nunca mais voltou. E também nunca mais se soube do gualupe, embora haja relatos de um animal semelhante nas lendas dos índios Paiquizes.
Os dois estudantes foram presos por falsificar notas de libras em 1812.
Arquivado como:Bestiário
Sábado, 28/3/2009 • 13:03
Em italiano, a palavra inicialmente designava os mosteiros, conventos e outros edifícios onde viviam os religiosos. Quem fazia o voto de castidade era chamado de “castello”, num tom entre carinhoso e pejorativo.
“Castello” passou a ser o lugar onde viviam os “castelli”, e mais tarde qualquer construção fortificada. E foi já com esse significado que a palavra chegou ao espanhol e ao português.
Arquivado como:Criptoetimologia
Quarta-feira, 25/3/2009 • 20:03
Deprimido com o desemprego, diante de uma crise que não oferecia boas perspectivas, optou pelo suicídio. Em parte como vingança, porém, resolveu usar a sua decisão de forma a aproveitar ao máximo o tempo de vida que lhe restava. E ofereceu sua causa mortis em leilão na internet.
As regras eram simples: o comprador ganhava o direito de assistir ao suicídio, que aconteceria na forma combinada, um ano depois de fechado o negócio. O valor teria que ser suficiente para sustentar Damien até a data marcada, além, naturalmente, das despesas operacionais que fossem necessárias – armas, venenos, o que mais fosse acertado.
O leilão, porém, foi mais bem sucedido do que se previa. E começaram a oferecer compradores oferecendo não só valores maiores mas também prazos de entrega mais amplos – dois, três, cinco anos de sobrevida. Começou a exigir dos interessados um depósito inicial para poder manter-se vivo enquanto não bate o martelo.
Atualmente, está com o suicídio marcado para 17 de outubro de 2017, numa arena de felinos selvagens em Kinshasa. Até lá, mora numa suíte no Marriott. Mas está aberto a novos lances.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Sexta-Feira, 20/3/2009 • 08:03
Sr. Diretor
Procedeu-se na última segunda-feira à instalação de bandeirolas azuis nos corredores da repartição, conforme estabelecido pela Lei 7467563748586, art. 157, § 47, item XVIII, alínea F, que dispõe, verbis:
Todos os corredores deverão contar com bandeirolas azuis.
Encerrado o procedimento, encaminhou-se memorando ao Departamento de Bandeirolas, solicitando a aprovação. Em resposta, o Departamento de Bandeirolas trocou as bandeirolas azuis que haviam sido instaladas por outras da cor vermelha, e enviou memorando acompanhado de parecer segundo o qual o legislador, ao especificar bandeirolas azuis, na verdade quis dizer vermelhas.
Diante do exposto, este Departamento houve por bem pintar de azul um dos lados das bandeirolas vermelhas até que seja aprovada Resolução determinando a cor a ser adotada.
Arquivado como:Vida de barnabé
Quinta-feira, 19/3/2009 • 19:03
O que é isso?

A resposta, como sempre, está nos comentários.
Arquivado como:Infâmia
Terça-feira, 17/3/2009 • 21:03
Na juventude, militou pela democracia e principalmente contra a corrida armamentista. A paz mundial tornou-se, mais do que um sonho, uma obsessão. Participou de todas as campanhas e mobilizações contra guerras onde quer que elas existissem.
Então concluiu que seu trabalho era inútil.
Guerras existem porque são lucrativas. E quem mais lucra com elas são os traficantes de armas. Foi por isso que Bojana, hoje conhecida como “Senhora Uzi”, decidiu tornar-se a maior deles.
Usou de todas as estratégias válidas ou não. Uniu a competência de mulher de negócios à paixão de militante, criou quase tantos inimigos quanto destruiu, e hoje é a maior traficante de armas do planeta.
Não é o bastante. Só vai descansar quando obtiver o monopólio global. E então, finalmente, poderá realizar o sonho de acabar de uma só vez com todas as guerras.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 12/3/2009 • 19:03
Saram, neto de Nimrod, era ainda uma criança quando foi erguida a Torre de Babel. Quando herdou o trono, resolveu consertar o erro de seu avô, e levar os povos da terra a falar novamente uma única língua.
Se Deus semeou a confusão porque os homens quiseram acançá-lo com uma torre, a única forma de inverter a maldição seria fazer o contrário. E Saram mandou reunir operários de toda a terra, um falante de cada língua que houvesse, para cavar um fosso tão fundo que chegasse aos infernos, onde suas falas seriam reunidas numa só.
O fosso de Tungre falhou tanto quanto a Torre de Babel. Mas, segundo a tradição, foi durante as suas obras que surgiram os primeiros tradutores.
Até hoje, tradutores e intérpretes do mundo todo vão ao local e, simbolicamente, retiram mais um punhado de terra do fundo do fosso.
Arquivado como:Postais do Exílio
Terça-feira, 10/3/2009 • 20:03
O Aliscor é o único livro que se conhece escrito em idioma taruche. Provavelmente nunca haverá outro, já que se trata de uma língua morta, cujos últimos falantes morreram quando sua aldeia foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial.
Mas não se trata de uma literatura tão pobre quanto parece, graças às características mutantes da língua taruche. Nela, não só as letras constantemente passam a representar sons diferentes, mas o significado das palavras se altera periodicamente. Assim, o Aliscor se transformava a cada vez que era lido.
Compreender as mudanças sempre foi a grande dificuldade para se aprender o tartuche, e que motivou a sua extinção.
Arlak “Unha-de-Tigre”, um falante nativo do tartuche que viveu durante vinte anos em Pequim no início do século passado, chegou a fazer treze traduções diferentes do Aliscor para o mandarim: seis romances, quatro estudos de História, dois manuais agrícolas e uma coletânea de provérbios.
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Domingo, 8/3/2009 • 01:03
Morten L. Kringelbach pesquisa como o prazer e o desejo atuam no cérebro humano.
Segundo o neurocientista, lutar contra o desejo é um desperdício de energia. Afinal, todas as nossas decisões e experiências são pautadas por uma expectativa de recompensa. A depressão, na sua análise, é um bloqueio nos mecanismos de prazer do cérebro.
Kringelbach também estuda o fenômeno mais semelhante ao prazer, que é a dor. Suas experiências mostram como estímulos elétricos no cérebro podem aliviar as dores de pacientes com doenças crônicas.
Se, como o pesquisador afirma, 1) Estímulos elétricos reduzem a dor; 2) O alívio da dor causa prazer, então as experiências com eletrodos podem conduzir à droga definitiva.
Pense numa droga que provoca prazer imediato, bastando apertar um botão. Nenhum efeito colateral. nenhuma dependencia química. Nenhuma necessidade de comprar mais doses – no máximo, uma recarga na tomada. Esse é o futuro.
Arquivado como:Fricção científica
Sexta-Feira, 6/3/2009 • 19:03
- E a Cláudia Leite, também está tentando engravidar?
- Não, essa já teve filho.
- Sério? E amamentou? Cláudia Leite deu o mesmo ao filho?
- Sei lá. E depois, ela botou outro T no Leite. Acho que Leitte com dois T’s não deve ser recomendável para recém-nascidos.
- É verdade, isso é leitte enriquecido.
- Igual ao do “Laranja mecânica”.
Arquivado como:Fale com ela
Quinta-feira, 5/3/2009 • 22:03
Todos os dias, senta-se na cadeira junto à janela e fica olhando para o leste. “É para ver o mar”, explica a quem pergunta. O mar está a centenas de quilômetros, as pessoas respondiam no início, quando ainda tentavam entender. “Não faz mal’, eu sei que está lá”, era a justificativa.
Recentemente, Etelvina veio ao Rio de Janeiro, pela primeira vez na vida, para ver o bisneto. Tentaram levá-la a Copacabana. Não quis: “Na minha idade, prefiro não sofrer decepção”.
Voltou para siua cidade e retomou o hábito de passar as tardes olhando para o mar distante. O mar que ela, e só ela, conhece.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Comentários