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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Bestiário (60): Eluanga, a cobra-dupla

As cobras-duplas, já dentro do ovo, vivem enroscadas uma na outra, e assim ficam por toda a vida.

São sempre uma cobra preta e outra branca, uma peçonhenta e a outra não, uma grossa e a outra esguia, uma macho e a outra fêmea (mas jamais copulam entre si), uma agressiva e a outra arredia. Mesmo assim, nunca se separam.

Se alguém separar uma metade da outra, as duas morrem. Não que alguém já tenha conseguido.

Em raros casos, na muda de pele, a branca fica preta e vice-versa.

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Postais do Exílio (44): Ilsir

É impossível fazer turismo em Ilsir.

Na cidade mutante, os hotéis da noite para o dia viram estações de trem, os restaurantes se transformam em quartéis e os museus, em hospitais. Qualquer pacote reservado com meses de antecedência por um guia turístico é garantia de um pandemônio. Todos os roteiros são aleatórios.

Mesmo assim, Ilsir recebe muitos visitantes. São aqueles que preferem viajar a fazer turismo. Alguns nunca mais querem sair.

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Postais do Exílio (43): Terzel

E por falar em palácios, no centro de Terzel fica uma construção magnífica, que é a sede do Banco da Felicidade.

O BF é um banco igual a qualquer outro. As pessoas entram, abrem contas, e depositam sua felicidade, para sacar quando for conveniente. Infelizes podem obter empréstimos — mas as garantias exigidas são muitas, e a taxa de juros, exorbitante.

Justamente por isso, ninguém quer correr o risco de precisar de um empréstimo. Assim, a população deposita todas as suas alegrias, esperanças e sonhos nas contas de poupança. Sobra pouco ou quase nada para as necessidades do dia-a-dia.

Graças a uma política de investimentos muito bem planejada pelos diretores do BF, a Felicidade Interna Bruta de Terzel vem crescendo mais de 10% ao ano, e a Felicidade Per Capita já supera a do Butão. Mas o povo anda cada vez mais cabisbaixo.

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Criptoetimologia (12): Palácio

Caius Pallatius Tullus era um senador romano mas ao contrário de outros seus colegas de tribuna não se destacou pela atuação política. Sua fama se deve, em primeiro lugar, à fortuna que acumulou com o comércio de escravos, vinhos e azeite. E, em segundo lugar, ao desejo de ostentação.

Pallatius não se interessava pelos grandes debates no Senado. Usou o cargo apenas para facilitar algumas de suas transações comerciais. E, como forma de demonstrar seu absoluto desdém pela política, mandou construir uma casa maior e mais rica que a do próprio imperador. Era sua forma de dizer que, se desejasse ser César, seria; mas preferia os negócios particulares.

A casa do senador ficou conhecida como o Pallatium. E a ostentação transformou o nome próprio em comum, dando origem à palavra “palácio”.

Quando Nero incendiou Roma, no ano 64, o Pallatium foi completamente destruído, reduzido a cinzas. Aparentemente, o ciúme foi um dos motivos do imperador.

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Bestiário (59): Cueïl, o vampiro de emoções

O cueïl (do tukrit kweylle, “caçador de medos”) é o único animal, além de algumas espécies de morcego, que se alimenta de sangue. Mas com uma característica especial: o seu maior apetite é por hormônios que encontra na corrente sanguínea, especialmente adrenalina, dopamina e serotonina.

Como estratégia evolutiva, o cueïl desenvolveu a capacidade de usar ferramentas como a emissão de sons em altas frequências e a secreção de feromônios para alterar o estado emocional de suas vítimas antes de atacá-las. Sua simples aproximação pode causar medo, raiva, tristeza, prazer — conforme a espécie — e acelerar na vítima em potencial a produção dos hormônios desejados.

Em companhias de teatro itinerante, é um truque conhecido expor os atores à influência de cueïle antes de suas apresentações.

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Biblioteca de Babel (35): Submazarinos

Uma das cadeiras da Académie Française é ocupada por uma mentira há séculos, desde a sua fundação.

Seu titular é sempre alguém que um dia foi um jovem de grande charme e nenhum talento, mas que foi eleito secretamente pelos imortais para tornar-se um membro da academia. Foram eles que lhe ofereceram, prontos, os livros que assinou e publicou.

Construiu assim uma brilhante carreira literária às custas das obras alheias, até finalmente ser eleito para a Académie e ocupar a cadeira falsa.

É obrigação de todo acadêmico escrever pelo menos um livro que será mais tarde atribuído ao escolhido para ser o novo falso escritor. Os originais destas obras ficam guardados numa sala secreta, nos porões da Biblioteca Mazarine, no Institut de France. Por isso, são conhecidos como os sous-mazarins, submazarinos.

Houve pelo menos um submazarino que, após publicado, revelou-se melhor que toda a obra oficial de seu verdadeiro autor. Este, ao ver o sucesso do falsário e compreender que jamais escreveria algo do mesmo nível, cometeu suicídio em Notre Dame. O caso, evidentemente, foi abafado.

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Boicote, desinvestimento, sanções

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Bestiário (58): Colengo

O colengo levou a arte do mimetismo ao seu nível máximo de perfeição. Não apenas imita a aparência de outros animais, mas também seus odores, sons e comportamento. Torna-se uma réplica perfeita.

Estima-se que de 8 a 12% dos seres humanos no planeta são, na verdade, colengos. Em algumas regiões o índice chega a 15%.

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Eu suspeitava

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Postais do Exílio (42): Mungroe

Vulcões típicos expelem lava, ou seja, fogo e terra. Gêiseres soltam água e ar. O vulcão de Lapindo, na província de indonésia de Sidoarjo, expulsa  lodo, que é basicamente água e terra. Então, deveria existir alguma cratera com emissões de fogo e ar¹.

Existe. Fica no atol de Mungroe, no Pacífico Sul, entre as ilhas Pitcairn e as Gambieri. Uma vez por ano, seus vulcanitos (como são chamados pelos geólogos) entram em erupção, soltando grandes bolhas de gás incandescente. O espetáculo atrai muitos turistas, especialmente da Austrália, apesar do perigo que representa.

Um neozelandês chegou a morrer em 1999, atingido por uma explosão. Um americano, em 2003, sobreviveu mas entrou num estado de alucionação permanente.


¹ Evidentemente, não existem vulcões que soltem misturas de água e fogo, ou de ar e terra. Estes pares, como ensinava o alquimista Du Chesne, são absolutamente incompatíveis.

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Dramatis Personæ (68): Marcílio

Foi no cemitério de Inhaúma, como residente, que iniciou a sua carreira de redator de epitáfios. O reconhecimento ao seu talento não demorou. Os agradecimentos comovidos viraram elogios, os elogios deram origem às recomendações, as recomendações criaram fama. Logo era convidado para trabalhos no Caju, no São João Batista, no Jardim da Saudade. Foi a São Paulo, São Luís, Manaus. Chegou a exercer sua arte em Lisboa.

Não era para menos. Suas frases lapidares (e entenda-se o adjetivo tanto no sentido figurado quanto no literal) exprimiam aquilo que viúvos e órfãos queriam dizer mas a emoção não permitia expressar em palavras. Sucinto, sempre, como convém a um poeta da pedra, mas sempre dizendo todo o necessário. Seus textos eram quase hai-kais fúnebres.

Certa vez, quando um homem foi morto em mais uma escaramuça de uma longa rixa entre duas famílias, temia-se por uma carnificina no enterro. Os parentes estavam sedentos de vingança. Os rivais foram ao cemitério prontos para o conflito. Mas a leitura da lápide escrita por Marcílio bastou para reconciliar os inimigos, que saíram dali abraçados.

Sua candidatura à Academia foi recusada, sob o pretexto de que jamais publicara um livro. “Minhas obras permanecerão eternamente gravadas”, respondeu, desdenhoso. Em represália, nunca mais escreveu o epitáfio de um imortal.

Chegou a ficar rico graças ao seu trabalho. Seu testamento dispõe que toda a fortuna irá para o autor do seu epitáfio, a ser escolhido num concurso.

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Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.