Terça-feira, 30/9/2008 • 06:09
Ganha a vida como eliminador de pessoas infelizes.
Desde que o Índice de Felicidade per Capita (IFC) passou a ser decisivo para determinar o progresso de uma nação, desbancando indicadores como renda, industrialização e escolaridade, ser infeliz tornou-se praticamente uma ameaça à segurança nacional. Foi assim que Atanahiro ganhou sua profissão. Procura pessoas infelizes, que com seu baixo-astral elevam o risco-país, e elimina uma por uma.
Já cometeu erros. Matou pessoas equlibradas e perfeitamente felizes, que deram o azar de serem entrevistadas num dia de úlcera ou de derrota do seu time de bocha. Hoje, sabe que a análise deve ser mais sutil e precisa.
Atanahiro gosta do seu trabalho. Só teme ficar, algum dia, insatisfeito e infeliz. Porque sabe o que deverá fazer nesse caso. Gasta boa parte do salário com terapia.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Sábado, 27/9/2008 • 15:09
Nada se compara com o que aconteceu quarta-feira no blog da Telinha. Mas, de qualquer forma, aqui estão as melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Sábado, 20/9 - resumo da historia de lolo barnabe
Nem faço idéia de quem seja.
Domingo, 21/9 - goticas nuas
Agora esse blog vai bombar.
Segunda, 22/9 - balada monte castelo
Sinto muito. Aqui eu só toco Raul.
Terça, 23/9 -a formiguinha e o monge com comentarios
O comentário do monge foi “obrigado, nada. Vai tirando”.
Quarta, 24/9 -cascatas embutidas
Boa idéia. Vou instalar no meu banheiro.
Quinta, 25/9 -para que serve um almanaque?
Eu até agora ainda não descobri.
Sexta, 26/9 -nome da biblioteca de caruaru
Biblioteca Municipal Álvaro Lins.
E as mais procuradas da semana, sem contar as expressões repetidas e as que contenham a palavra “almanaque”, foram:
| sonhar com lacraia |
14 |
| tigre de bengala |
11 |
| abnegado |
6 |
| significado do nome coleópteros |
3 |
| pao de queijo no palito |
3 |
Arquivado como:Gugleiros
Sexta-Feira, 26/9/2008 • 07:09
O talento de Sá Costa como organizador já era uma unanimidade. Mas faltava uma obra deste porte, para dar ao leitor uma visão ampla da sua trajetória. Aqui estão reunidas as suas mais significativas antologias, desde o início da carreira, com “Poetas sergipanos do século XIX” até a definitiva “Nova coletânea do conto brasileiro”, que a Academia premiou com o Tutano de Ouro da categoria em 2007.
É claro que algum leitor poderá reclamar que faltou isto ou aquilo. Natural. Para ser de fato uma antologia perfeita, teria que ser organizada pelo próprio Sá Costa, que já não está entre nós.
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Quinta-feira, 25/9/2008 • 18:09
Entra na sala vazia e antes de mais nada forra o chão com jornal. Depois, raspa a pintura das paredes, passa a massa corrida, deixa secar, lixa.
Aí entra em ação com os pincéis e as tintas. Cria murais que ao mesmo tempo chocam o cérebro e encantam os olhos. Uma obra-prima atrás da outra dentro de um apartamento. E ninguém vê.
Porque, depois do último retoque, vem a parte mais difícil: passar o rolo de tinta, cobrindo as imagens nascidas da sua imaginação e deixando a parede lisa, toda azul, ou amarela, ou verde, ou a cor pedida pelo cliente.
Algum dia, suas obras serão descobertas. Alguém vai raspar a camada de tinta mais superficial e revelar o trabalho do maior muralista desde Rivera. Mas por enquanto ele é apenas Rildo, o pintor de paredes.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Terça-feira, 23/9/2008 • 18:09
- Il s’habille bien…
- Et les gants! ¹
O diálogo é do teatro de marionetes francês e sempre acompanhava o personagem Tichou, um mau-caráter de hábito refinado. O povo reconhecia no vilão o retrato da aristocracia corrupta e sempre atenta às aparências, despida de escrúpulos mas que não se descuidava das luvas.
Com o tempo, o bordão “et les gants“, que provocava gargalhadas entre os espectadores, passou a ser usado, a princípio pejorativamente, para indicar que alguém estava sempre bem vestido.
A expressão perdeu o sentido crítico quando foi promovida aos próprios salões que pretendia ridicularizar. E virou “élégant“, que em português deu “elegante”.
¹ — Ele se veste bem…
— E as luvas!
Arquivado como:Criptoetimologia
Sábado, 20/9/2008 • 09:09
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Sábado, 13/9 - nos confins da galaxia+camelo
Será que ele chega lá sem beber água?
Domingo, 14/9 - qual o significado de uma onça tatuada
Significa que ela nasceu sem as pintas e precisou mandar fazer maquiagem definitiva.
Segunda, 15/9 - no almanaque 2008 como se chama o dia 13
“Treze”.
Terça, 16/9 -tubo digestivo é qual é a ordem certa:
Convém começar pela boca.
Quarta, 17/9 -vulcões extintos nova friburgo
Estão todos sendo usados como panelas de fondue.
Quinta, 18/9 -contrario de purpura
Aruprup.
Sexta, 19/9 -o concÍlio de nicÉia e os extraterrestres
Daqui a pouco vão começar a achar que eu invento essas buscas.
E as mais procuradas da semana, sem contar as expressões repetidas e as que contenham a palavra “almanaque”, foram:
| tigre |
9 |
| bicho geometrico |
8 |
| sonhar com minotauro |
6 |
| cadeia alimentar da lacraia |
4 |
| abnegado |
3 |
Arquivado como:Gugleiros
Sexta-Feira, 19/9/2008 • 07:09
Quando o exército sufocou a Revolução dos Poetas, todos os conspiradores foram condenados à morte. Mas o governador concedeu indulto a cada um deles. Em troca de um poema.
Não havia imposição de tema nem estilo. Quase todos foram panfletários (e francamente ruins), com ataques ao Estado e ao próprio governador (incluindo ataques à honra de sua mãe, sua mulher e sua filha). Houve os arrependidos, que aderiram ao regime e o elogiaram. Houve os escapistas com suas fantasias góticas nuas de qualquer conotação política. Houve, como sempre, versos de amor para todos os gostos.
E houve A Forca. Foi o último poema que o governador leu. E ficou tão revoltado que mandou enforcar sua autora, uma revolucionária cujo nome não ficou guardado.
O manuscrito de A Forca foi enterrado junto com sua autora. O governador morreu de uma doença misteriosa e fulminante no mesmo dia.
O povo não tomou o poder. Mas o novo governo de coalizão incluiu os romancistas e filósofos, que tinham se mantido afastados da Revolução. Eles assumiram o compromisso de jamais exumar A Forca ou rebilitar sua autora.
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Quarta-feira, 17/9/2008 • 19:09
Deveria ser uma cidade banal, sem qualquer atrativo, tão rasa quanto a imensa planície no meio da qual fora fundada. Mas entrou no mapa — e nesta coleção de postais — graças a um prefeito visionário.
Foi ele quem mandou trazer de localidades distantes milhares de caminhões carregados de pedras e terra. O entulho foi denso despejado e amontoado na entrada da cidade, formando uma verdadeira (ou melhor, falsa) montanha.
E por dentro dela foi aberto o Túnel Mais Desnecessário do Mundo, para orgulho dos parnirenses.
Arquivado como:Postais do Exílio
Terça-feira, 16/9/2008 • 19:09
Já era um astrólogo de renome, respeitado entre seus pares, quando começou a se dedicar também à Ufologia. Foi quando descobriu que vinha de outro planeta, embora o acesso às suas memórias extraterrestres fosse algo difícil e até mesmo doloroso. Logo em seguida adotou o pseudônimo, que afirma ser o seu verdadeiro nome.
A principal conseqüência da sua descoberta, porém, foi a constatação de que precisava questionar tudo o que pensava saber sobre si mesmo. Por exemplo, não poderia mais se considerar um sagitariano: nascera sob um céu completamente diferente do nosso, em que Sagitário não era sequer visível.
Começou então o trabalho para traçar a carta celeste e calcular o calendário de seu planeta natal¹. Foi preciso não apenas desenhar novas constelações, mas interpretar o seu significado, praticamente partindo do zero.
Anos mais tarde, reunia condições para elaborar seu verdadeiro mapa astral. Descobriu ser do signo de Cavalo, com ascendente em Cíclope, uma das luas em Tigre e a outra em Pomba (o que explicava muito sobre sua personalidade).
Hoje, é o mais respeitado astrólogo interplanetário da Terra. Talvez até de Thznluurÿsg.
¹ MOA-2007-BLG-192-L b, como é chamado pelos astrônomos terrestres; Egorkion, contudo, afirma que os habitantes do planeta o chamam de um nome impronunciável para nós, cuja correspondência fonética mais próxima é “Thznluurÿsg”.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Sábado, 13/9/2008 • 11:09
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Sábado, 6/9 - sonhar com guaiamum significa
No mínimo, que você estava dormindo.
Domingo, 7/9 - tipo de som que os gatos emitem
Miau.
Segunda, 8/9 - quantos exilio existem
Teve um sujeito que conseguiu ser deportado de todos os países onde viveu. Mas essa é outra história.
Terça, 9/9 -como montar lagos artificiais
Comece cavando um buraco. Beeeeem grande.
Quarta, 10/9 -porque o animal sapo tem língua comprid
Durante a festa no céu, ele estava muito longe dos canapés e precisava esticar a língua para pegar um. Esticou tanto que ficou assim. Mas ninguém lembra desse detalhe da história e só ficam contando aquele pedaço das pedras.
Quinta, 11/9 -origem do cavalo de pau do odisseu
Foi a manobra arriscada em que Odisseu ultrapassou Ajax na corrida para ganhar a taça de prata de Aquiles. Ajax não conseguiu fazer a mesma coisa e derrapou no esterco de boi. Pode conferir: Ilíada, XXIII, 740-780.
Sexta, 12/9 -porque uma planta é chamada de carnívora
Responde você: e se ela comer outras plantas, é vegetariana ou canibal?
E as mais procuradas da semana, sem contar as expressões repetidas e as que contenham a palavra “almanaque”, foram:
| tigre |
13 |
| sonhar com lacraia |
10 |
| historias reais sobre preconceito |
8 |
| sirênio |
6 |
| animais que se reproduzem na lua cheia |
5 |
Arquivado como:Gugleiros
Sexta-Feira, 12/9/2008 • 19:09
Onédrias são minúsculas aranhas que tecem suas teias no interior do tubo digestivo de alguns mamíferos, entre eles o homem. Longe de serem nocivas, desempenham um papel fundamental no controle de parasitas, alimentando-se de vermes intestinais.
A onédria humana, também chamada de cumuzum em algumas regiões de Minas Gerais, Goiás e Bahia, é porém uma agente dupla. Põe seus ovos dentro das larvas de vermes, que deixa escapar para que contaminem outros hospedeiros, levando junto consigo a sua cria. Ou seja: para sobreviver, precisa prejudicar o próprio homem.
Mesmo assim, seria pior sem ela para combater os efeitos das infestações.
Arquivado como:Bestiário
Quinta-feira, 11/9/2008 • 07:09
A razão do fracasso de todos os seus relacionamentos era um tipo muito peculiar de ciúme: o futuro. Não conseguia lidar com o fato de que um namorado teria outras mulheres depois dela.
— Quem é essa vagabunda com quem você vai sair daqui a três anos?
Traçava perfis psicológicos extremamente precisos tanto de si mesma quanto de seus parceiros. Assim, era capaz de prever que tipo de mulher seria a sua sucessora.
— Pára de olhar para a filha do vizinho. Eu sei que é ela que vai consolar você quando a gente terminar.
Às vezes telefonava para algum ex-namorado só para confirmar o acerto de seus prognósticos. Sem ressentimentos.
— Viu? Você não acreditava quando eu dizia que você era gay. Agora, preste atenção: esse Marcelinho pode ser importante neste momento de descoberta, mas ainda não é o homem certo para você. Seja feliz.
Um dia, encontrou o homem. Foi quase instantâneo, e a análise confirmou a intuição: ela era a definitiva. Casaram-se. Como, porém, nada é perfeito, o marido sente ciúme do passado de Oletta.
— Não acredito! Você me traiu com meu melhor amigo — no pré-vestibular?
Arquivado como:Dramatis Personæ
Segunda-feira, 8/9/2008 • 18:09
Em Kamalak fica um dos melhores mercados de peixe do mundo. O que não seria de surpreender, a não ser pelo fato de a cidade ficar no meio do deserto, a centenas de léguas de qualquer rio, lago ou litoral.
Mas o deserto salino, como todos sabem, um dia foi o leito do oceano. E sob as camadas de areia ainda é possível encontrar peixes, muitos peixes. Todos deliciosamente conservados pelo sal que os envolve.
Chefs dos restaurantes mais sofisticados do planeta vão a Kamalak para comprar os peixes salgados recém-pescados, antes que a exposição ao ar moderno arruine o seu sabor pré-histórico.
Arquivado como:Postais do Exílio
Sexta-Feira, 5/9/2008 • 19:09
Gustav Nachod (1881-1933), primo e admirador do compositor Arnold Schönberg, resolveu adaptar o dodecafonismo para a poesia. Como o parente havia feito na música, com a série de 12 tons, estabeleceu elementos poéticos que nunca deveriam se repetir no texto antes que toda a escala fosse usada.
Foi assim que escreveu “Abe” (1927), um poema de 144 estrofes. Mas sua poesia dodecafônica foi mal recebida pela crítica. Apenas Walter Benjamin escreveu uma resenha favorável.
Nachod pensou então em passar da poesia para a prosa, escrevendo um romance também baseado numa série de 12 “tons” lingüísticos. Mas, enquanto ainda trabalhava na estrutura da obra, morreu durante um ataque nazista a uma sinagoga, em Leopoldstadt.
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Quarta-feira, 3/9/2008 • 07:09
Arcos do triunfo existem aos montes. Mas só Avençon conta com um Arco do Fracasso.
O magnífico monumento começou a ser erguido para homenagear a vitória de Napoleão sobre os ingleses e seus aliados, que o prefeito dava como certa. O último tijolo foi posto no fatídico (para o exército francês) dia 18 de junho de 1815.
Um batalhão formado por jovens daquela região, ao voltar de Waterloo, indignou-se ao chegar à cidade. Mas os soldados estropiados não tinham forças sequer para derrubar o Arco — e ele ficou.
Arquivado como:Postais do Exílio
Segunda-feira, 1/9/2008 • 19:09
No ano de 2938, surgiu um vírus que matava implacavelmente os homens com mais de 23 anos, causando uma falência de diversos órgãos. Mas a técnica de transplante permitia que muitas vítimas sobrevivessem, tendo seus cérebros transplantados para corpos femininos anencefálicos especialmente clonados com esta finalidade.
É claro que isso gerou polêmica. E uma aliança inesperada.
O Partido Feminista Mundial, que não vencia as eleições universais desde 2886, vira na praga a chance de finalmente tornar-se hegemônico. E protestou contra as operações por considerá-las uma tentativa de retomada da opressão masculina.
Em seu apoio veio a Liga Espiritual, que reunia as três maiores religiões (cristãos neoneopentecostais, muçulmanos transxiitas e cavaleiros Jedi). Tradicionais inimigos das feministas, os líderes religiosos se posicionaram contra os transplantes por não conseguirem chegar a um consenso¹ sobre que tipo de relação sexual um homem seria autorizado a manter depois de ganhar um corpo de mulher.
¹ Nem mesmo depois do XXVIII Congresso Ecumênico de Bizâncio.
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Comentários