Arquivo do dia: quinta-feira, 10/7/2008

Dramatis Personæ (60): Dona Sônia

Foi professora de inglês durante toda a juventude. Estudou italiano e russo, duas línguas que também passou a lecionar. Como toda poliglota, ficava admirada diante das semelhanças e diferenças entre os idiomas, sonhando com uma utopia qualquer de comunicação universal.

Mas não aderiu ao esperantismo. Em vez disso, descobriu algo ainda melhor.

Foi num dia em que almoçava num restaurante fast-food no centro da cidade. Estava sozinha e começou a se irritar com o barulho — aquela mistura caótica de vozes, formando um burburinho cinzento. Mais incompreensível que qualquer língua estrangeira, pensou. E foi então que a luz se acendeu em sua mente. Porque, mesmo naquele ruído, ela às vezes distinguia algumas palavras, às vezes bons trechos de frases ditas por alguém.

Uma língua estrangeira é como um ruído, concluiu. Basta filtrar o que é excesso e as palavras surgirão.

Não foi ao curso para as aulas da tarde. Ao invés disso, comprou uma passagem para Budapeste. Lá, aplicando o seu método de filtragem idiomática ao mesmo tempo que o desenvolvia, em poucos dias entendia húngaro perfeitamente. Hoje viaja pelo mundo tentando divulgar sua técnica.

A maior dificuldade que teve foi com o coreano, língua extremamente sintética. Mas depois de um mês de tentativas mal sucedidas, percebeu que naquele caso deveria também filtrar os silêncios. Hoje fala fluentemente.