Quarta-feira, 30/7/2008 • 07:07

Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos?
(Lucas 6, 43-47)
Não deixa de ser bonito. E eu sou a favor dessa história de amar os inimigos. Aliás, amor é provavelmente uma das cinco principais origens de grandes inimizades. Cobrança de impostos, de acordo com o Evangelho, deve estar bem próximo. Um dia desses tenho que fazer uma lista.
Mas, voltando ao tema, eu apóio sem restrições a mensagem evangélica. Sou a favor de fazer o bem aos inimigos. E o que poderia ser um bem maior que dar a eles ainda mais motivos para nos odiar? Alimentar rancores é o mínimo que se pode oferecer a quem tão gentilmente oferece a sua inimizade.
Arquivado como:Dia do Inimigo
Segunda-feira, 28/7/2008 • 19:07
O cão pode ter sido a primeira espécie domesticada. Mas o primeiro animal de companhia, precursor de todos os que conhecemos hoje, foi o camuche.
O pequeno roedor habitava as montanhas da Aracósia (atualmente um território dividido entre o norte da Índia, o Paquistão e o Afeganistão). É verdade que não deixava de ser também um animal criado por sua utilidade. Esta, porém, estava diretamente ligada ao seu caráter de bicho de estimação.
O camuche dava sorte. Mas só àqueles de quem gostava.
Os aracósios logo descobriram isso e passaram a cuidar bem do animalzinho. Crianças eram especialmente beneficiadas pelos seus bons fluidos. E quem tentava usá-los apenas para ganhar dinheiro, sem realmente se afeiçoar à mascote, não obtinha resultado algum.
Foi o que Alexandre Magno descobriu ao invadir o país e anexá-lo ao seu império — porque nem todos os camuches do mundo podiam resistir a um exército tão formidável. Foram várias tentativas de ganhar a afeição de um dos bichinhos, todas frustradas.
O imperador, então, agiu como já fizera ao cortar o nó górdio. Já que ele não conseguia receber a boa sorte dos camuches, mandou exterminá-los. E assim o pobre roedor tornou-se a primeira espécie deliberadamente extinta pelo homem.
Algumas peles e camuches empalhados foram usados ainda por algum tempo como talismãs. E deles surgiu a superstição de que pés de coelho dão sorte.
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Sábado, 26/7/2008 • 11:07
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 21/7 - resultados sabado liga burocrata 2008
As súmulas em três vias serão protocoladas dentro dos prazos legais.
Terça, 22/7 -siginificado do nome jactã
Jactão perguntando, vou pesquisar e respondo já.
(Ui)
Quarta, 23/7 -torres de telefonia celular faz barulho?
Sem elas, você nunca ouviria um ringtone.
Quinta, 24/7 -pra que serve a erva catai
Não sei, cataí algumas e a gente tenta descobrir.
(Ui de novo)
Sexta, 25/7 -bruxo do cosme velho + o porquê do apelido
Isso, copia e cola o meu post. Seu professor vai adorar.
Surpresa! A festa mais esperada do ano surgiu por fora, atropelou na reta e garantiu o primeiro lugar entre as mais procuradas da semana:
| dia do inimigo |
30 |
| almanaque |
21 |
| tigre |
10 |
| tigre de bengala |
9 |
| almanaque 2008 |
7 |
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Sexta-Feira, 25/7/2008 • 07:07
Desde que se aposentou, começou a se dedicar ao hobby de montar navios dentro de garrafas. E foi muito bem sucedido. Era paciente e meticuloso o bastante para criar réplicas perfeitas de veleiros como o Eliza, o Estramina e o Pequod.
Mas não era o suficiente. Queria ter controle total sobre o processo. E passou a fabricar suas próprias garrafas, aprendendo a arte de moldar vidro com o sopro.
Gostou tanto dos resultados que inverteu os termos. Hoje, monta miniaturas de navios para depois fazer garrafas dentro deles. Já está pensando em como construir um micronavio dentro da minigarrafa.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Quinta-feira, 24/7/2008 • 07:07

Começou a contagem regressiva para a festa mais esperada do calendário. É o Dia do Inimigo, aquele em que celebramos as rivalidades alimentadas ao longo de anos de escaramuças.
Os comerciantes já anunciam suas promoções. Celulares programados para receber spam via SMS todas as madrugadas. Roupas naquele corte perfeito para fazer qualquer pessoa se sentir feia. O CD do Roberto Justus.
Mas o Dia do Inimigo não é só comércio. Pelo contrário. Está na hora de resgatarmos o verdadeiro sentido dessa festa, lembrando que ela existe para celebrar alguns dos mais importantes sentimentos humanos: inveja, ira, ciúme, rancor, despeito, intolerância.
E você? Como e com quem pretende comemorar o Dia do Inimigo?
Arquivado como:Dia do Inimigo
Quarta-feira, 23/7/2008 • 19:07
A análise é quase… instintiva. O ins significa “dentro”, como em inserir e ínsito. E tinto é a forma sintética de “tingido”, como se diz dos vinhos. Instinto, assim, é o que parece ter sido tingido no âmago do indivíduo.
O antônimo, arcaico, é existinto, ou seja, “pintado por fora”, aquilo que foi adquirido pelo aprendizado e pela experiência. O vocábulo caiu em desuso por causa da confusão com extinto.
Arquivado como:Criptoetimologia
Segunda-feira, 21/7/2008 • 19:07
Duplamente meu colega (jornalista e funcionário público), Machado de Assis era apenas um bom escritor até 27 de dezembro de 1878. Foi quando uma grave doença exigiu que ele tirasse uma licença da Secretaria de Agricultura e interrompesse sua colaboração para a revista “O Cruzeiro”. E provocou a grande mudança da sua vida.
Em Nova Friburgo, onde se recuperava, o escritor mulato e canhoto conheceu o verdadeiro responsável não só pela sua cura mas pelo seu amadurecimento literário. Disse o milagre e digo o santo: Pai Nonato, o mesmo que menos de uma década antes havia inspirado José de Alencar a criar o feiticeiro Benedito de “O tronco do Ipꔹ.
Pois foi Pai Nonato que tirou a ziquezira do corpo de Machado. Na mesma sessão em seu terreiro, fez baixarem os espíritos que soltaram também as amarras de sua prosa. Em 15 de março do ano seguinte, o autor começava a publicar “Memórias póstumas de Brás Cubas” na “Revista da Semana”, inscrevendo seu nome entre os maiores gênios da literatura universal.
Machado trouxe Pai Nonato para morar nos fundos da sua casa. E era o preto velho que, originalmente, os amigos chamavam de Bruxo do Cosme Velho. Décadas mais tarde, quando o bruxo original já estava completamente esquecido, um poema de Drummond recuperou o apelido mas atribuiu-o erradamente ao romancista.
¹ Não foi por acaso que, ao fundar a Academia Brasileira de Letras, Machado escolheu Alencar como patrono para a sua cadeira, a de número 23.
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Sábado, 19/7/2008 • 15:07
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 14/7 - poesias o tamandua
O tamanduá quando nasce
Se esparrama pelo chão
Procurando o buraco
Onde mora o formigão.
Terça, 15/7 -o que significa profile ou pro file
E não esqueça o pró-filé.
Quarta, 16/7 -15 de de julho na historia universal
Dia da ressaca da Tomada da Bastilha.
Quinta, 17/7 -arwen maria crina
Arwen-maria poderia ser uma oração dos elfos (“cheia de graça, Ilúvatar é convosco”). Mas não entendi o que a crina tem a ver com a história.
Sexta, 18/7 -predadores naturais do tigre branco
Tigres brancos muito, muito grandes.
E as mais votadas da semana são:
| almanaque |
16 |
| tigre |
11 |
| tigre de bengala |
10 |
| william blake |
9 |
| sonhar com lacraia |
9 |
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Sexta-Feira, 18/7/2008 • 08:07
Especiarias, tecidos, jóias, alucinógenos, cornucópias, animais em extinção (vivos, empalhados ou em cortes nobres), corzumas, jornais do futuro, rapazes, moças, cogumelos, um país inteiro, relíquias de santos, amuletos, dentaduras, habeas corpi, figos colhidos da figueira sob cuja sombra Buda chorou, ratoeiras, esperanças, máquinas de descalçar chinelos, moedas antigas, piolhos amestrados, venenos e seus antídotos. Eu desisti de tentar imaginar alguma coisa que não esteja exposta no Mercado de Manamotamo.
A única coisa que você nunca vai encontrar por lá é alguém comprando ou vendendo mercadorias. Porque isso é proibido pelos milenares estatutos do lugar.
Quem quiser fazer negócios, que os faça da porta para fora. O Mercado de Manamotamo existe apenas para se ver, tocar, cheirar, provar. E desejar.
Arquivado como:Postais do Exílio
Quinta-feira, 17/7/2008 • 08:07
A independência de Kanuk foi resultado da guerra pelo controle de suas reservas de estrume de focas. Depois de séculos ignorando a existência da ilha e de seus habitantes, que viviam abandonados à própria sorte, as duas potências rivais passaram a considerar o território uma jóia a ser cobiçada quando os excrementos alcançaram altos valores no mercado de fertilizantes.
Veio então a guerra, cada lado pretendendo a soberania sobre a ilha. Mas depois de muitos anos de morte e destruição os kanukianos mostraram sua sabedoria política ao negociar a paz, comprometendo-se a fornecer o estrume para os dois lados em troca do reconhecimento da independência.
Assim, o dia do armistício é uma festa cívica em Kanuk. E os kanukianos, principalmente as crianças, comemoram recolhendo bolas de estrume seco para guerrear com elas nas ruas da capital.
Arquivado como:Folhinha
Segunda-feira, 14/7/2008 • 20:07
Do press-release da editora:
“Rações apropriadas para um filhote de tiranossauro. Os cuidados para a criação de dodôs em cativeiro. Como adestrar um Eohippus. O aquário ideal para um celacanto.
O fato de uma espécie estar extinta não impede que ela proporcione, ao menos teoricamente, bons animais de estimação. Assim, o Guia dos mascotes extintos preenche uma carência ao tirar todas as dúvidas sobre os melhores amigos do homem pré-histórico.”
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Sábado, 12/7/2008 • 10:07
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 7/7 - o minotauro:de benedito monteiro
Eu nem sei quem é esse, quanto mais que ele tinha um minotauro.
Terça, 8/7 -animais cujo nome começam com a letra w
Eu conheci um cachorro chamado Wauwau. Serve?
Quarta, 9/7 -“demonio sumerio foto”
Não existe. Eles são tímidos.
Quinta, 10/7 -parasitas alma humana
Lava com creolina que resolve.
Sexta, 11/7 -nomes femininos dos carpatos
Sei lá. Draculina, talvez.
A novidade entre os cinco mais votados da semana é o nosso parasita preferido, que aparece em quarto lugar:
| almanaque |
20 |
| sonhar com lacraia |
10 |
| tigre de bengala |
7 |
| bicho geometrico |
6 |
| almanaque editora abril |
5 |
Arquivado como:Gugleiros
Sexta-Feira, 11/7/2008 • 18:07
De todos os (muitos) carimbos com que trabalho, o mais enigmático é, sem dúvida, o que diz “EM BRANCO”. Nunca entendi para que serve.
Que ignorante, vocês dirão. É óbvio que ele serve para dizer que aquele papel está em branco. E que, se não estiver, é porque alguma coisa foi escrita depois de a folha ser anexada ao processo. Faz sentido.
Tudo bem. Mas e se alguém, por engano ou má-fé, carimbar “EM BRANCO” numa folha que não está em branco? O seu conteúdo é automaticamente anulado? Como garantir que aquela folha que hoje está em branco não será modificada por alguém que, mais tarde, resolvar impugnar o carimbo?
Algum processualista deve ser capaz de me explicar isso. Mas a dúvida ficou ainda mais grave na semana passada, quando eu carimbei por engano uma folha em branco que já estava carimbada.
Reparem no paradoxo. O segundo carimbo atesta que a folha estava em branco. Assim, anula o primeiro. E, portanto, diz que havia algum conteúdo ali.
É por isso que fiquei aliviado ontem, quando o carimbo de “EM BRANCO” quebrou. Você tenta carimbar e não aparece nada. Fica em branco. Deve ser o primeiro carimbo metalingüístico na história da burocracia brasileira.
Arquivado como:Vida de barnabé
Quinta-feira, 10/7/2008 • 07:07
Foi professora de inglês durante toda a juventude. Estudou italiano e russo, duas línguas que também passou a lecionar. Como toda poliglota, ficava admirada diante das semelhanças e diferenças entre os idiomas, sonhando com uma utopia qualquer de comunicação universal.
Mas não aderiu ao esperantismo. Em vez disso, descobriu algo ainda melhor.
Foi num dia em que almoçava num restaurante fast-food no centro da cidade. Estava sozinha e começou a se irritar com o barulho — aquela mistura caótica de vozes, formando um burburinho cinzento. Mais incompreensível que qualquer língua estrangeira, pensou. E foi então que a luz se acendeu em sua mente. Porque, mesmo naquele ruído, ela às vezes distinguia algumas palavras, às vezes bons trechos de frases ditas por alguém.
Uma língua estrangeira é como um ruído, concluiu. Basta filtrar o que é excesso e as palavras surgirão.
Não foi ao curso para as aulas da tarde. Ao invés disso, comprou uma passagem para Budapeste. Lá, aplicando o seu método de filtragem idiomática ao mesmo tempo que o desenvolvia, em poucos dias entendia húngaro perfeitamente. Hoje viaja pelo mundo tentando divulgar sua técnica.
A maior dificuldade que teve foi com o coreano, língua extremamente sintética. Mas depois de um mês de tentativas mal sucedidas, percebeu que naquele caso deveria também filtrar os silêncios. Hoje fala fluentemente.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Segunda-feira, 7/7/2008 • 19:07
Pouca gente conhece a comemoração, mas ela foi instituída há dois anos no Rio de Janeiro pelo vereador Miltão da Serra (PLR). Na sua exposição de motivos, o edil argumentou que o malabarismo de rua “conssubstancia (sic) a criatividade carioca e a solidariedade do povo”.
O dia 7 de julho foi escolhido por ter sido a data em que, no ano de 1999, o mochileiro argentino Jaime Herrera foi visto pela primeira vez fazendo malabarismo num cruzamento de Copacabana para tentar ganhar uns trocados e garantir mais alguns dias de permanência no Rio. Os meninos que o observaram aprenderam rapidamente.
Também é de Miltão da Serra o projeto (ainda em tramitação na Câmara) que institui os malabares como disciplina obrigatória no currículo das escolas de Primeiro Grau da rede municipal de ensino.
Arquivado como:Folhinha
Sexta-Feira, 4/7/2008 • 18:07
O Maurits é o único rio circular do mundo. Ao contrário dos outros, ele não deságua no mar, num lago ou num rio maior.
Nasce junto ao Mosteiro de Mauk, seguindo seu curso para nordeste. Contorna as montanhas de Friesland, virando para noroeste, e começa a descer de volta, descrevendo um arco rumo ao sul, onde deságua sobre si mesmo.
Arquivado como:Postais do Exílio
Quarta-feira, 2/7/2008 • 20:07
A anedota que atribui o nome e o prato a John Montagu (1718-1792), o Conde de Sandwich, acabou “pegando” e convencendo a maioria das pessoas. Mas o sanduíche original é francês.
Na Idade Média, o monge São Duílio se destacou por criticar duramente aqueles que não davam nada mais que sobras de pão duro — muitas vezes, bolorento — aos mendicantes. Dizia o santo que não havia virtude em dar apenas o que ninguém quer. Foi ele quem passou a pegar os pães dados aos pobres, cortá-los ao meio e pôr uma fatia de presunto ou rodelas de salame entre as duas metades.
Anos depois da sua morte, o “lanchinho de São Duílio” (Saint Douiche, como era chamado no languedoc) continuou sendo popular. E só decaiu após a Guerra dos Cem Anos, durante a fome que se seguiu ao conflito.
Mas foi justamente a guerra que permitiu a sobrevivência do saint-douiche. Porque os soldados ingleses gostaram da idéia — não tanto a parte de reforçar a merenda dos mendigos, e sim a de rechear o pão. E foi na Inglaterra que o sanduíche chegou aos tempos modernos, já com a grafia devidamente anglicizada.
A pretensa ligação com o Conde de Sandwich nasceu provavelmente nos Estados Unidos, durante a Guerra de Independência. Montagu era o almirante da Armada britânica e, no conflito, ganhou fama de incompetente. Espalhar que a maior conquista do comandante inimigo era preparar lanches produziu um efeito moral considerável.
Arquivado como:Criptoetimologia
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