Arquivo do mês: junho 2008

Bestiário (50): Pangotyr

Foi com o pangotyr que o homem aprendeu a tomar chá.

Depois de catar e macerar algumas folhas da planta, o pangotyr enchia de água seu bico — semelhante ao do pelicano — e ia para a borda da cratera do Krakatoa e de outros vulcões de Java, a única ilha que habitava. E ali ficava, com apenas o bico, extremamente resistente ao calor, exposto aos vapores incandescentes, até que a mistura fervesse.

Os javaneses que primeiro observaram o pássaro não deram muita importância ao seu estranho hábito. Mas os mercadores chineses experimentaram a infusão das folhas e se encantaram.

Foram eles, em grande parte, os responsáveis pela extinção do pangotyr. A coleta predatória de plantas de chá para abastecer o mercado chinês praticamente acabou com o alimento da espécie. Os incêndios que devastaram metade da ilha durante a Guerra dos Três Sultões (1087-1123) terminaram o trabalho. Quando Marco Polo esteve em Catai, o pangotyr já era apenas uma história.

Dois exemplares levados ao Imperador foram empalhados. Eles estão até hoje num museu na Cidade Proibida, em Pequim.

Gugleiros (41)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 23/6 - a historia do cavalo almanaque
Nunca ouvi falar de um cavalo com esse nome.

Terça, 24/6 -anedotas sobre diamantes
Era uma vez um diamante português chamado Manoel e outro diamante ortuguês chamado Joaquim. O Manoel perguntou ao Joaquim por que ele usava um lápis atrás da orelha. E o Joaquim respondeu: “É para fazeire a conta de cabeça, ó pá”.

Quarta, 25/6 -como montar uma colonia de formigas
Primeiro, convença todo mundo de que a formiga rainha é uma ditadora cruel e sanguinária. Então, invada o formigueiro. Mate todos que resistirem. Pronto, agora ele é sua colônia. De preferência, escolha um que produza petróleo.

Quinta, 26/6 -palavra encoxar em ingles
Encoxation.

Sexta, 27/6 -baianos em tampere
Pode procurar que tem. Se não tiver, tem cearense.


E desta vez temos novidade na quinta posição! As mais votadas da semana são:

almanaque 23
tigre de bengala 16
almanaque abril 2008 9
tigre 6
sonhar com lacraia 5

Desejos

hermes.jpg É natural que a primeira avaliação de desempenho provoque um friozinho na barriga. E um sentimento de alívio depois de passar por ela — e bem. Mas depois vem a constatação de que, por melhor que você tenha se saído, ainda não passou do primeiro degrau na sua escalada.

Porque a verdadeira medida de poder e prestígio não está no valor (ou mesmo no percentual) da sua Gratificação de Desempenho. Nem nos cargos e suas siglas esotéricas. Há coisas muito mais importantes. Coisas que você só aprende a perceber (e valorizar) quando entra para o serviço público.

Não se engane: o real parâmetro de poder e prestígio está nos perfuradores de papel.

O meu, por exemplo. É pequeno, daqueles que furam apenas meia dúzia de folhas de cada vez. No máximo, oito. Oito folhas! Não é nada num processo. O que fazer quando chegam aquelas cópias de autos com dezenas de documentos anexos? Ainda por cima, está velhinho e não funciona muito bem. O furo de cima sai certinho, mas o de baixo… Tem que ficar apertando e reapertando para ter certeza de que os papéis vão sair prontos para serem arquivados.

Mas basta olhar para a mesa do lado e ele está lá. Um legítimo 565000 Maped. Prata! Um verdadeiro rolls-royce dos perfuradores. Cento e cinqüenta folhas, sem nenhum esforço — eu aposto que a lâmina é de liga de titânio.

Por enquanto, só me resta suspirar. Mas chefias vão e vêm, cargos de confiança mudam, a maré vira, e um dia aquela mesa pode ficar vazia.

Quando isso acontecer…

Folhinha (14): Dia dos Potros

Em Balacan, o mais tradicional local de disputas de turfe do mundo¹, hoje é o dia de uma prova muito especial. O único páreo da noite é uma carreira de 100 metros. E nela os humanos é que carregam os cavalos².

A tradição começou no século XII, quando o bispo da cidade quis erradicar as corridas. Como o édito eclesiástico proibia apenas aquelas em que jóqueis montassem “cavalos, éguas, mulas, asnos, jumentos, touros ou qualquer outro animal”, os aficionados mais radicais encontraram assim uma forma de contornar a proibição.

A lei que proibia as corridas foi suspensa em 25 de junho de 1139. Mas a diversão alternativa se manteve e virou tradição, servindo também como forma de comemorar a vitória dos turfistas.

O vencedor do Dia do Potro ganha o privilégio de nunca poder ser usado como montaria em corridas e passa o resto da sua vida como reprodutor.


¹ Há indícios de que as apostas em corridas na cidade começaram ainda nos tempos do Império Romano.
² Sempre potros machos de um ano.

Banzai!

hermes.jpg E, como não poderia deixar de ser, recebi um link para o tal vídeo comparando a burocracia japonesa com a brasileira. Quem é a melhor? Prace your bets NOW!

Só uma dica: do outro lado do mundo, são séculos de tradição de funcionalismo sob o comando da Casa Imperial.

Tudo bem. Mas o que inicialmente parece um desprestígio para o funcionalismo nacional é apenas uma prova de como somos capazes de nos virar mesmo sem as mesmas condições materiais. Ou alguém acha que meu carimbo agüenta tantas carimbadas sem ter que voltar na almofada de tinta?

Criptoetimologia (8): Moldura

Pintores medievais não dispunham da facilidade de hoje em dia para comprar telas prontas, no tamanho e na medida que quisessem. Normalmente trabalhavam em pedaços de tecido, abertos sobre uma mesa ou mesmo sobre o chão. O resultado da pintura era a ars mol(lis), ou “arte mole”.

Se estivesse satisfeito com o resultado, o artista tratava de apresentá-lo de uma forma mais bem acabada, em que o ondulado do tecido não prejudicasse a apreciação do seu trabalho. A tela era então presa em qualquer suporte disponível, tornando-se ars dura, “arte dura”.

Os primeiros quadros de madeira feitos especialmente para este fim foram chamados de mol dura factor, ou seja, o que transformava a arte mole, tornando-a fixa. E daí saiu a palavra moldura.

Gugleiros (40)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 16/6 - significado de sonho com bacterias
significado de sonhar com camisa de força

Terça, 17/6 -o significado de sonhar com lacraia
Quarta, 18/6 -sonhar com tigre de bengala
siginificado de sonhar com gorila

Quinta, 19/6 -sonhar com tigre branco
Sexta, 20/6 -sonhar com minotauro
o que significa sonhar com chifre

Procurem um psicanalista. Principalmente se vocês todos forem a mesma pessoa.


E as mais votadas da semana são:

almanaque abril 2008 22
almanaque 18
almanaque abril 2007 12
tigre de bengala 10
tigres 8

Bestiário (49): Camistro

Quando se começou a falar sobre vírus informáticos, houve uma certa confusão. Muita gente pensou que era uma nova variedade de camistros. Estes, porém, são outra coisa: parasitas informacionais.

Claro que nem sempre foi assim. Há alguns milhares de anos, os camistros efetivamente produziam a informação que consumiam. Restam alguns fósseis de catálogos camistrianos, encontrados em locais onde provavelmente viviam pequenas colônias.

Os hábitos mudaram quando surgiu a escrita humana. Foi então que os camistros passaram a se alimentar da informação produzida pelos homens. Com a invenção do papel, o parasitismo se tornou a única fonte de alimentação de toda a espécie, que hoje não consegue sobreviver de outra forma.

Burocratas foram sempre as maiores vítimas dos camistros. Para proteger seus dados, passaram a aumentar a redundância de seus registros, mantendo assim as informações necessárias mesmo em tempos de  praga.

Hoje os camistros podem ser vistos em bandos junto a antenas de TV e torres de telefonia celular. A ICANN teme que a propagação de uma variedade especialmente daninha a transferências de dados por banda larga possa inviabilizar a internet até 2013.

Bestiário (48): Magul

Ele não tem corpo nem cabeça. Apenas uma boca. Nada de lábios, dentes, nem língua. Só uma boca. Ele é só uma boca.

O fato de não precisar nutrir um estômago permitiria supor que o Magul não precisa comer. Talvez não precise. Mas é só o que ele faz. Come tudo o que encontra pela frente, e o que passa pela sua boca desaparece no seu corpo inexistente.

O Magul não pode ser aprisionado, porque comeria a sua jaula. Não pode ser morto, porque devoraria qualquer arma, veneno ou predador como se fosse apenas mais um prato.

A única maneira de se ver livre dele é encontrando outro e deixando que os dois se devorem. Como as duas cobras que se comem até as duas desaparecerem.

Postais do Exílio (33): Candures

Numa cidade tão pacata e ordeira, quase ninguém pensaria em abrir uma academia de defesa pessoal. Mesmo assim, houve um pioneiro que tomou a ousada iniciativa.

Quase foi à falência.

Só se salvou porque, quando o fracasso era iminente, vislumbrou uma idéia genial. E abriu do outro lado da rua uma escola de ofensa pessoal.

Hoje os dois estabelecimentos são um sucesso.

Gugleiros (39)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 9/6 - desenhos de bicho geografico
Passa no Cartoon Network?

Terça, 10/6 -filme menino cai buraco formiga
“Negrinho do Pastoreio – A Lenda”.

Quarta, 11/6 -nome de animais com as letras: gu ou gÜ
Guaiamum, guaxinim e gusano.

Quinta, 12/6 -definição da palavra encoxar
Tanto faz. O tapa na cara vai ser igual.

Sexta, 13/6 -+ser que ao cortar uma cabeça, nascia 3
CPI.


E as mais votadas da semana são:

almanaque 21
almanaque abril 2007 18
tigres 11
tigre de bengala 7
bicho geometrico 6
william blake 6

Saci 2014

O Mouzar Benedito lançou a campanha, o Ricardo Kotscho e o Torero apoiaram. E eu daqui lanço também minha humilde declaração de apoio. Queremos o Saci como mascote da Copa do Mundo de 2014, “antes que os marketeiros e lobistas inventem um mascote besta que nem o tal do Cauê“.

O Ziraldo, como se vê pela ilustração ao lado, já sacou há muito tempo que o Pererê com uma perna só joga mais que qualquer mascote pré-fabricado com duas.

(Este post deveria ter sido publicado ontem. Mas preferi não mexer nesses assuntos numa sexta-feira 13)

Dramatis Personæ (59): Elza

Passou a infância tentando se decidir entre ser atriz ou aeromoça. Já adolescente, resolveu que seria as duas coisas.

Hoje, as colegas de tripulação lhe dizem “merda pra você” antes de cada embarque. Quando o avião começa a taxiar, ela apresenta os procedimentos de emergência.

E brilha.

Cada gesto de demonstração do modo de afivelar os cintos e usar as máscaras de oxigênio, cada iflexão de voz ao transmitir as instruções de segurança, tudo faz de Elza uma estrela. Arranca do texto emoções insuspeitadas, levando os passageiros ao delírio, aos aplausos, aos pedidos de bis. Vem a repetição em inglês, e nova ovação. Muitos lamentam que não haja uma conexão, em que teriam mais uma oportunidade de assistir ao espetáculo.

Pirâmide invertida

hermes.jpgParticipar desses eventos é bom porque você entra em contato com as novidades do mercado, as tendências, essas coisas todas. Eu, por exemplo, descobri o pão-de-queijo no palito.

Vamos repetir para não haver engano: pão-de-queijo no palito. É. Na sorveteria. Assim:

Depois disso você vê a moça, provavelmente gaúcha, dirigindo seu carro usando somente a mão esquerda, porque a direita estava ocupada segurando uma cuia de chimarrão. Na Rua Augusta. E você pensa: ela está rigorosamente dentro da lei, porque afinal aquilo não é um telefone celular, e sim uma cuia de chimarrão.

A caminho de Congonhas, durante o engarrafamento regulamentar, você descobre que está a seis graus de separação de Osama bin Laden. E não consegue deixar de pensar nisso no vôo de volta.


Primeiro dia de volta à agência, curso de redação de relatórios e pareceres. O professor, na aula de abertura, vai listando os princípios básicos: clareza, concisão, objetividade, frases curtas, palavras simples. Você descobre que já estudou isso na faculdade de Comunicação. E começa a achar que redação de documentos oficiais pode ser tão simples quanto a de textos jornalísticos.

Então você se dá conta de que o que aprendeu nas aulas nunca foi exatamente posto em prática nas redações onde trabalhou. E que não há motivo para no serviço público ser diferente. Pelo menos não tem pescoção.

Requisição de passagem

hermes.jpgTrês dias longe de processos, memorandos, ofícios e despachos. Até sexta-feira estou no Forum Brasil – Mercado Internacional de Televisão, em São Paulo. Semana que vem, o blog e o burocrata voltam à programação normal.

E ao relatório de viagem, é claro. Com todas as comprovações de despesas e certificados de participação.

Dramatis Personæ (58): Vlaclav Smoček

De todos os prodígios da música tcheca contemporânea, nenhum conseguiu o seu brilho. É unanimemente apontado como o maior tourneur de pages vivo, e só mesmo os críticos mais tradicionalistas ainda se recusam a considerá-lo o maior de todos os tempos, insistindo na preferência por Giacomo Zambini (1857-1912), de cujas performances porém não há muitos registros.

Ganhou fama ainda aos 17 anos, dando provas de seu virtuosismo. Como na noite em que, sozinho, virou as páginas das partituras de todos os músicos da Filarmônica de Berlim. Mas aos poucos o enfant terrible dos palcos deu lugar a um concertista que levou a viração de páginas a requintes jamais vistos antes num palco.

O imenso talento de Smoček só se compara ao seu rigor e ao preciosismo que demonstra em seus concertos. Recentemente, irritou-se com um pianista com quem se apresentava interpretando o Concerto nº 3 de Rachmaninoff, ao perceber que o músico não apenas conhecia a peça de cor mas sequer olhava para as páginas. Com profissionalismo, apesar da grave ofensa, manteve-se em seu posto até o fim. Recebeu a maior ovação de sua carreira, ostensivamente dando as costas ao pianista.

Seus álbuns estão entre os mais vendidos das paradas de música de concerto desde 1993.