Quem pretendia montar num belo corcel branco com asas de pássaro e voar como Belerofonte pode tirar o cavalo da chuva. Os verdadeiros animais desta espécie são bem diferentes. Lembram mais os hipocampos, com o mesmo corpo alongado e sem patas, a cauda enrolada e apenas a cabeça de formato eqüino. E suas asas se parecem com o par interno dos coleópteros.
Além de não se parecerem com o Pégaso das lendas na forma, também são diferentes no tamanho. Os maiores não chegam a trinta centímetros.
É claro que, mesmo assim, há relatos de que em algumas variações o cavalo voador atinge um porte considerável e pode ser montado por uma pessoa. Afinal, quando um mito é forte o bastante ele sobrevive mesmo sendo negado pela realidade.
Foi parceiro de Noel Rosa em pelo menos duas dezenas de sambas, alguns deles antológicos, como “Feitio de oração” e “Feitiço da Vila”. Mas acabou esquecido, sem que seu nome conste de qualquer registro. Por sua própria opção.
Operário nas horas de trabalho e músico autodidata nas noites de boemia, Nilton compunha melodias que mostrava ao parceiro nos bares da Aldeia. O poeta escrevia as letras e assim nasciam obras-primas fadadas ao esquecimento. Porque o compositor se recusava a permitir que elas fossem gravadas.
Restava a Noel, diante da letra recém-criada, procurar outro parceiro que a musicasse. Ou compor ele mesmo uma nova melodia, tarefa difícil, já que as de Nilton eram marcantes.
“Xis do problema” representou uma inversão dos papéis e também o fim da parceria e da amizade. Foi Nilton quem mostrou a Noel a letra original, de forte cunho sócio-político:
Eu sou operário
E passo a vida lutando no torno
A minha lida é dentro de um forno
Sou explorado nesse miserê
Noel compôs a música. E depois escreveu uma nova letra, a que todos conhecemos hoje. Nilton, que até então admitia as “traições” do parceiro, dessa vez se irritou por considerar a nova versão “frívola”. E rompeu relações.
Morreu em 4 de fevereiro de 1937, exatamente três meses antes do parceiro, que no enterro cantou “Fita amarela”.
Começou da mesma forma que muitos outros: como presidente executivo. E, sem ligar para os que não viam futuro na sua carreira, mostrou empenho e dedicação que um dia finalmente lhe valeram um cargo de diretor.
Foram anos difíceis. Mas Palhares nunca desistiu. Continuou trabalhando com afinco, estudando, aperfeiçoando-se e conquistando a confiança necessária para atingir a gerência.
Qualquer um se daria por satisfeito. Menos o Palhares. A essa altura, as suas virtudes iniciais se aliaram a fortes doses de autoconfiança e ambição. Dizem que foi às custas de bajulação e de algumas manobras pouco éticas que ele conquistou o cargo de administrador sênior. Mas, sem dar importância às intrigas, deu entrada num carro usado que fez questão de decorar com um adesivo que tinha a frase: “Não me inveje, trabalhe”.
De administrador sênior para júnior foi apenas questão de tempo. Mas o melhor estava por vir. Houve gente na empresa que duvidou que seu coração fosse agüentar. Quando recebeu a notícia, apertou contra o peito o retrato da mãe,morta apenas um mês antes. “Você não viveu para ver esse sonho se realizar, mãe”, chorou.
No dia seguinte, passeava com orgulho pelos corredores da empresa com o crachá de estagiário.
And they say
this boy’s born to be a bureaucrat
born to be all obsessive and snotty
I made my friends and relations fill long applications
to get into my tenth birthday party
Depois desse post, a Telinha me avisou que já tinha mais gente fazendo a mesma coisa no Flickr. Aí apareceram a Menina Eva e o Grande Abóbora. Então, já que é assim, vamos de especial Noel Rosa:
Afirma ter sido o primeiro cientista a clonar com sucesso um anjo da guarda.
Impedido pela legislação de tentar clonar seres humanos, percebeu que não havia restrições a experiências com espíritos puros. E agora pretende obter clones também de serafins e querubins. Arcanjos são uma possibilidade teórica, porém demandariam décadas de pesquisas e um nível de recursos proibitivo, explica.
É claro que seu trabalho atrai críticas. O comitê de ética da Universidade teme que o anjo usado na experiência seja um demônio disfarçado, e que Rubijn, sem saber, esteja na verdade clonando hostes infernais. Alguns bioteólogos já prevêem uma elevação no nível de tentações que obrigue a uma nova ampliação na lista de pecados capitais.
A Matemática é uma coisa que existe, como diria a Telinha. Você tem uma pilha com 86 pastas de processo, outra com 86 relatórios, outra com 86 cópias da defesa do autuado, e mais uma com 86 ofícios. Você começa a juntar um item de cada e no fim não fica nenhum processo, relatório, defesa ou ofício sobrando. Ainda bem que existe a Matemática.
Outra coisa fantástica é o Eterno Retorno. Você monta uma pilha de solicitações de abertura de processo, cada uma com um monte de papéis presos por clipes. Elas descem para o Protocolo e, quando voltam, cada uma dentro de sua pastinha, você pode tirar todos aqueles clipes que não precisam mais ficar ali. Então, às vezes a sua caixinha de clipes está transbordando, e outras vezes não tem nenhum. Mas eles sempre voltam. O importante é que eles circulem. É o fluxo vital, como no “Rei Leão”. Hakuna matata.
Ainda vou desenvolver um sistema filosófico, ou pelo menos um método de auto-ajuda, baseado nas verdades sobre a vida que aprendi no serviço público. Algo na linha “O monge e o burocrata”.
É a menor espécie de urso conhecida, e também a mais rara. Os poucos que existem vivem nos picos nevados dos Cárpatos, na Europa Oriental.
Não são grandes caçadores. Sem a força, o porte e as garras de seus primos das florestas, pouco ágeis e nada velozes, costumam limitar sua dieta a ovos, carniça e outras presas fáceis.
Vem daí outro de seus hábitos, também oposto ao dos ursos castanhos. Passa o verão em estado de hibernação, aguardando o inverno para acordar. É então que faz a festa, encontrando as tocas de coelhos, esquilos, marmotas e outros pequenos animais que estão hibernando e só despertam quando é tarde demais para fugir.
Talvez por causa dos hábitos invernais, pouquíssimas vezes foi visto por seres humanos, que evitam os pontos mais altos da cordilheira nos meses de maior frio.
Um macaco que aprendesse a usar uma máquina de escrever, com tempo infinito, ou um número infinito de macacos datilógrafos, num dado intervalo, escreveria a obra completa de Shakespeare (ou mesmo de Bruna Surfistinha), segundo um famoso teorema. Alguns cientistas já tentaram realizar a experiência, inclusive usando computadores que simulavam os escritores animais. Mas só recentemente uma editora universitária americana resolveu publicar os textos digitados por doze chimpanzés de um laboratório de matemática aplicada.
Até agora, a coleção tem 87 volumes e nenhuma obra de Shakespeare. Mas também nenhuma de Bruna Surfistinha, se isso serve de consolo.
Segundo um monitor do projeto, um dos macacos chegou a reproduzir “Comes the dawn” quase inteiro. Mas deletou o texto quando alertado de que o poema era de Veronica Shopstall, e não do Bardo.
— Eu acho que as musas, quando são adolescentes, treinam sua capacidade de inspiração com esses one-hit wonders. É uma espécie de estágio que elas fazem antes de se tornarem musas de verdade. Outro dia vi uma coletânea de vídeos dessas bandas e pensei que aquilo parecia uma festa de formatura de jovens musas.
— Todas mostrando seus TCCs.
— Isso. Depois elas vão inspirar artistas de verdade, que constróem uma carreira de sucesso, ou que são significativos. Porque musas são sempre mulheres adultas.
— E depois de velhas?
— Aí elas ficam inspirando crianças de Jardim de Infância a fazer desenhos, brincar, falar maluquices, essas coisas. É o topo da carreira.
Terça-feira, dia 15, aqui no Rio, tem noite de autógrafos do “Almanaque Anos 90″, do Silvio Essinger. Vai ser na livraria Saraiva do Rio Sul, a partir das 19h30.
Não sei se o Silvio assume isso no livro, mas os anos 90 foram aquela década em que ele fingia que tocava baixo numa banda chamada A Corja, ao lado de Fabiano e dos irmãos Zagari.
Quarta-feira, dia 16, em São Paulo, será o lançamento de “Figurinha carimbada”, de Márcio Araújo, com ilustrações de Renato Alarcão. Livraria da Vila, rua Fradique Coutinho 915, Vila Madalena, a partir das 18h30. Leve a garotada, inclusive a interna, porque vai ter peça de teatro.
O escritor eu não conheço. Mas o Alarcão só ilustra texto bom. Né?
Cidades cortadas por canais existem aos montes, de Veneza a Recife. Mas só Anataia é inteiramente aquática. Todas as suas casas e outras construções são flutuantes.
No centro da cidade fica um chafariz. De areia.
O jato de areia jorra vinte e quatro horas por dia, e os grãos caem formando um pequeno areal ao seu redor. Ali vivem pequenos caranguejos que as crianças se divertem em observar (e uma ou outra ave aproveita como refeição de vez em quando).
Essa é fácil: a palavra já evoca imediatamente o intelectual Sherlock Holmes ou o durão Columbo. Tinha que ter saído do inglês.
Elementar: os primeiros detetives eram encarregados principalmente dos crimes contra a propriedade, numa Inglaterra onde o capitalismo avançava a passos rápidos. Sua principal função era descobrir (“detect”, de raiz latina, via francês) os ladrões (“thieves”).
Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.
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