Segunda-feira, 31/3/2008 • 19:03
Todos sabem que o número de microrganismos dentro de um corpo humano é dez vezes maior que o total de células de uma pessoa. Vivemos em simbiose, trocando serviços, dividindo o jantar. O que poucos sabem é quanto o microbioma afeta o comportamento humano.
Bactérias do tubo digestivo, por exemplo, são apontadas como responsáveis pelo apetite. Há aquelas que, quando proliferam, fazem a pessoa querer comer queijo; outras exigem cerveja; e a ausência de secreções produzidas por certos micróbios provocam aversão ao consumo de carne, criando vegetarianos convictos.
Mas nada disso se compara à ação das bactérias do amor.
Povoando as mucosas, elas são as principais responsáveis por aquilo que até agora, por falta de termo melhor, se chamava de “química” entre amantes. Floras bacterianas compatíveis, segundo as pesquisas, são responsáveis por 87,4% dos relacionamentos estáveis. E divórcios — especialmente aqueles em que a justificativa é simplesmente de que “o amor acabou” — quase sempre estão ligados à degeneração (ou mutação) das erotobactérias de um dos parceiros.
Laboratórios suíços já desenvolvem kits para teste de compatibilidade bacteriana entre casais.
Arquivado como:Bestiário
Sábado, 29/3/2008 • 11:03
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 24/3 - pq os inconfidentes odeiam tanto tiradentes
Não utilização de anestesia.
Terça, 25/3 -solo para dioneia
Talvez Stockhausen tenha composto algum, mas não estou certo.
Quarta, 26/3 - quem criou ou inventou o navio
Só sei dizer que não foi um suíço.
Quinta, 27/3 - como se chama a arvore do arvore do kiwi
Qual, essa? Parece um pinheiro.
Sexta, 28/3 - o que significa sonhar com tornados
Depende. O Tony era um deles?
E as cinco mais votadas da semana são:
| almanaque |
27 |
| william blake |
6 |
| dramatis personae |
6 |
| tigre de bengala |
5 |
| ik vind ze leuk in de dierentuin |
5 |
Arquivado como:Gugleiros
Sexta-Feira, 28/3/2008 • 19:03
Alguns cemitérios dispõem de anexos onde são sepultados cães e outros animais de estimação. O campo santo de Derzília é, que eu saiba, o único a contar com um de idéias. Ali estão os túmulos da Tese da Terra Plana, do Monofisismo, do 4-3-3 e da Fisiognomonia Lombrosiana.
Chegou a ser aberta uma cova para o enterro do Socialismo, em 1989. Contudo, os confrontos entre os que queriam promover o sepultamento e os que não o aceitavam foram tão violentos que acabaram dando mais habitantes ao cemitério principal. Os dois lados foram apartados pela polícia. Até hoje partidários dos dois lados vão todos os dias ao túmulo vazio para discutir.
Uma grande seção do cemitério é dedicada a deuses.
Arquivado como:Postais do Exílio
Quinta-feira, 27/3/2008 • 19:03
Não li a revista, mas a capa eu garanto que é mentirosa. Aquela banca que aparece na calçada da Graça Aranha não é de camelô de DVD pirata: é do vendedor de livros de segunda mão. Tem saldos de R$ 2 e outro dia me vendeu “The short stories of F. Scott Fitzgerald” (Scribners, capa dura, 775 páginas) por R$ 5.
Enfim, já começo a achar que qualquer revista que tenha o verbo “ver” no nome merece suspeita.
Arquivado como:Vida de barnabé
Quarta-feira, 26/3/2008 • 20:03
“Vocês estão no Fuga. É um novo reality show do Canal Quatro, estrelando vocês! É, vocês vão ser grandes astros!” Com isso eles começaram a olhar uns para os outros. Cultura da atenção. Nunca falha para seduzir os vaidosos cariocas. São os melhores participantes de reality shows do mundo, os cariocas. “O carro é de vocês, absolutamente, garantido, legal. Vocês só precisam escapar da polícia durante meia hora, e nós já dissemos a eles que vocês estão aí. Querem jogar?” Esse poderia ser o bordão: Fuga: quer jogar?
O garoto de roupa da Nike estava se mexendo.
“Preciso do áudio deles”, gritou Marcelina. João-Batista girou outra chave. Um baile funk sacudiu a van.
(…)
“Vou conhecer a Gisele Bündchen?”
“Vamos armar uma foto com a Gisele Bündchen, vocês três, e o carro. Os astros do Fuga e seus carros”.
“Eu gosto daquela Ana Beatriz Barros”, disse América.
——————–
Quer mais? Aqui.
Arquivado como:Etc.
Nada de óinc: para os mercadores da Liga Hanseática que habitavam a região de Flandres por volta do século XIV, a onomatopéia para o som do porco era koeffr. E assim eram chamados, pejorativamente, os primeiros banqueiros que, enfrentando a oposição da Igreja, emprestavam dinheiro cobrando juros. O apelido pegou.
Também foi por ali, em Bruges e outras cidades, que as pessoas começaram a guardar pequenas economias em porquinhos de cerâmica, que tinham uma fenda para se depositar as moedas. O objeto ganhou também o nome de koeffr; o que era brinquedo virou coisa séria e passou a designar também os lugares onde os banqueiros, já então respeitáveis, guardavam o seu dinheiro e o dos outros.
Arquivado como:Criptoetimologia
Terça-feira, 25/3/2008 • 18:03
Era uma vez um noviço que morava num mosteiro, servindo aos monges e aprendendo os Dez Preceitos. Ele procurava ser virtuoso em cada um de seus atos e viver segundo o Vinaya.
Um dia, porém, os monges perceberam que o rapaz exalava um aroma suave. Seu superior o recriminou por ceder à vaidade e se perfumar. Ele apenas pediu perdão.
No dia seguinte, o aroma estava mais sutil e delicado, porém ainda mais penetrante. O superior perguntou por que ele havia desobedecido, e o jovem viu-se forçado a confessar que não se perfumava, e aquele era apenas o seu cheiro natural.
Os monges não só não acreditaram no samanera como resolveram castigá-lo. Ficou preso num chiqueiro com os porcos durante uma semana. Mas em vão: a cada dia que passava ele recendia ainda mais a flores e especiarias.
Irritados, os religiosos soltaram o noviço, apenas para surrá-lo com bastonadas e pedradas até a morte.
Só então o abade percebeu o erro que haviam cometido, recriminando a si mesmo e aos seus monges. Todos choraram amargamente a morte do jovem e enterraram seu corpo no jardim do mosteiro.
Ali nasceu uma árvore cuja resina era perfumada como o samanera assassinado. E, para nunca mais esquecerem a lição aprendida com seu crime, os monges passaram a queimar aquela resina durante suas orações e meditações.
Foi assim que surgiu o incenso.
Arquivado como:Histórias reais
Segunda-feira, 24/3/2008 • 08:03
As melhores buscas da semana passada entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 17/3 - o unicórnio(qual o seu revestimento?)
Pelo, cascos e chifre.
Terça, 18/3 -o que significa sonhar com agenda telefonica
Várias coisas, todas em ordem alfabética.
Quarta, 19/3 - alexandre o grande e suas armas
Responda com sinceridade: quantas páginas de pornografia antes de chegar aqui?
Quinta, 20/3 - quarta-feira de trevas
Passou.
Sexta, 21/3 - significado de sonhar com minotauro
Calma. Não tem nada a ver com chifre.
Arquivado como:Gugleiros
Sexta-Feira, 21/3/2008 • 11:03
O latim “sabulum” (areia) deu origem, entre outras, a ”saibro”. Também é a raiz de “saburra”, que originalmente era um tipo de areia usado como lastro mas depois também passou a significar um sedimento na mucosa — o “sarro”, que tem a mesma origem latina.
Os antigos navios mercantes no Mediterrâneo usavam dois tipos de lastro: o “sarro” e o cascalho. Mas marinheiros inexperientes embarcavam apenas com o lastro mais fino, tornando-se motivo de pilhéria entre os velhos lobos-do-mar. Dizer que um navio levava duas cargas de sarro (um navio bisarro) era uma forma de zombar da sua tripulação e principalmente do seu capitão.
Do “bisarro” dos genoveses para o “bizarre” francês, já com significado de coisa estranha, foi uma passagem rápida. E do francês a palavra chegou ao português.
Arquivado como:Criptoetimologia
Quarta-feira, 19/3/2008 • 19:03
Toda lenda começa em algum lugar. E as lendas urbanas começam en Neuza.
Foi ela quem, ainda criança, espalhou num colégio pela primeira vez a lenda da Loura do Banheiro, história que mais tarde adaptaria para criar a Noiva da Dutra. Adolescente, fez um corte no próprio ventre para iniciar o boato sobre ladrões de rins. É provavelmente a autora do spam sobre o livro de geografia americano que mostra a Amazônia como território internacional. Foi vista pedindo anéis de latas de cerveja para juntar dez mil e trocar por um computador, isso quando mal existiam computadores pessoais. E, como não poderia deixar de ser, está também por trás do mito de que Beto Carrero e Pedro de Lara eram a mesma pessoa e por isso nunca foram vistos juntos.
Há quem duvide da existência de Neuza. Mas fartos dossiês comprovam não só a sua responsabilidade por estes fatos mas também pelo desaparecimento do jacaré que vivia no metrô de São Paulo — por puro ciúme. O Ibama está na sua pista.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Segunda-feira, 17/3/2008 • 19:03
Tentou ser escritor, não conseguiu. Foi bibliotecário, aposentou-se. Hoje vende livros usados numa calçada da Rua do Catete.
Seu maior esforço é para conciliar o espírito de bibliófilo com o código de ética dos livreiros de rua, que exige ignorância total sobre a sua mercadoria. Foi segurando as lágrimas que vendeu por menos de dez reais um raro exemplar do tratado de Monteiro Lobato sobre os sacis. E os álbus de quadrinhos importados por preços entre um e cinco reais.
Sua vingança é engambelar compradores que procuram best-sellers e livros de auto-ajuda, empurrando clássicos na esperança de que pelo menos algum dia sejam lidos. Já houve quem o abordasse pedindo “A lei da atração” e levasse “O espírito das leis”.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Sábado, 15/3/2008 • 10:03
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 10/3 - nome de darissa com d
Não serve com outra letra?
Terça, 11/3 -significado da palavra recuaram
significado da palavra demonstração
significado da palavra dama
Peguem um dicionário e procurem o significado de “almanaque”. É diferente.
Quarta, 12/3 - primeiro homem a usar o telefone
Não sei, mas o primeiro a ganhar dinheiro foi o que usou a conta de telefone.
Quinta, 13/3 - autenticidade da manteiga
Não tem a menor. É uma poser.
Sexta, 14/3 - origem da princesa tecela
Deve ser a rainha tecelã. Ou tecela, se você prefere assim.
Arquivado como:Gugleiros
Sexta-Feira, 14/3/2008 • 19:03
De cor eu sei o meu corpo
e a sua nua roupa de carne
tão exata: luva de pele
gesto-agulha que se costura
com as tintas linhas do sangue:
tantas, contidas em si, em tons
agudos que descobrem o som da cor
e o salto-susto de cada pulso.
De cada passo do tempo que tece
de poro a poro / ponto por ponto
na teia do instante, nas veias
o vínculo da vida e seu intervalo:
laços de sono, vão, letras de lã
no espaço das páginas de areia:
folhas de vento e fuga, ruga
e grão, degrau de sonho e de não.
De cor eu sei o meu corpo:
malha que me veste na camisa-de-força
da sua nudez — jaula, grades, capuz
de pele e esperma, mudo vulto envolto
na textura de sua própria epiderme
sem furos, de onde eu não escapo:
muros de mim, catapulta que espera
a bala do acaso que a morte dispara.
FREITAS FILHO, Armando. “Texto”. In 41 poetas do Rio, organização de Moacyr Félix. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.
Porque hoje é aniversário de Castro Alves e Dia Nacional da Poesia.
Arquivado como:Etc.
Quarta-feira, 12/3/2008 • 19:03
É o nome dado ao filho de um demônio com uma lebre, nascido à meia-noite de um dia 13. Com o corpo semelhante a um coelho, embora até duas vezes maior, herda do pai a cor vermelha e a cauda comprida com ponta triangular.
Carniceiro, não espera porém que sua comida morra. Ele mesmo mata suas vítimas com mordidas ferozes, inoculando um veneno que acelera a putrefação da carne. Quase sempre ataca coelhos e outros pequenos animais. Pessoas, só se estiver em bando — algo muito raro, porque tende facilmente ao canibalismo.
Quando não está matando, está destruindo: arrasa plantações, suja poços e derruba pequenas construções.
Pelo menos é o que dizem alguns manuscritos. Bartolomeu de Siena o chama de leporus morbis no seu Tratado sobre os seres malignos. No século XII, Anselmo, o Tutor, cita fontes contemporâneas da Fome de 1057 para responsabilizar a besta pela miséria que afetou a Baviera naquele ano.
Arquivado como:Bestiário
Segunda-feira, 10/3/2008 • 19:03
Dez de março, dia de Santa Anastácia, padroeira dos amantes rejeitados (*), é comemorado com cantadas agressivas, presentes indesejados e ocasionais encoxadas em transportes urbanos.
(*) Anastácia era dama-de-honra da imperatriz bizantina Teodora. Para evitar as cantadas do imperador Justiniano, maridão da patroa, fugiu da corte e se refugiou num convento em Alexandria, mais tarde disfarçando-se de homem para viver como eremita até o ano de 576, quando morreu.
Arquivado como:Folhinha
Sexta-Feira, 7/3/2008 • 19:03
A premissa é incontestável: se deixada à sua sorte, a humanidade já se teria destruído (ou pelo menos provocado graves danos) pelo menos quatro ou cinco vezes. E o estudo da História mostra claramente que a evolução natural dos conflitos deveria ter causado efeitos que desenhariam um mundo bem diferente daquele em que vivemos.
Houve, portanto, algum tipo de intervenção. Descartados tanto os deuses quanto os extraterrestres, sobra uma hipótese: os viajantes do tempo.
O autor se dedica, então, a identificar estes momentos. Os eventos cruciais em que tudo teria dado errado se não fosse pela ação cuidadosa de visitantes do futuro, quase sempre anônimos. Como o marinheiro que impediu o motim na nau de Colombo.
Sua atuação, evidentemente, foi a mais discreta possível. A descoberta de que eles estão nos observando e determinando o curso de nossas ações seria catastrófica. Mas uma análise cuidadosa mostra que foi isso o que aconteceu — ou que é isso que acontecerá, dito de outra forma. Basta observar bem.
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Quarta-feira, 5/3/2008 • 19:03
Se é verdade que ninguém entra duas vezes no mesmo rio, é mais certo ainda que não se entra duas vezes na mesma Lagoa de Naurimaã. Porque toda pessoa que se banha nela muda a cor de suas águas.
Nos tempos áureos, dizem, a lagoa era de um azul profundo, porque só pessoas felizes e sinceras tomavam banho em Naurimaã. Mas não há registros confiáveis e isso pode ser apenas uma lenda. O fato é que nos períodos de maior pessimismo e apreensão a lagoa tomou um tom marrom. Chegou a se aproximar do vermelho na época da ditadura. Um alegre bando de jovens que acampou por ali por volta de 1966 chegou a recuperar um pouco do antigo azulado. Hoje, muitos deles estão de volta mas não conseguem mais do que um amarelado pálido e repugnante.
Arquivado como:Postais do Exílio
Segunda-feira, 3/3/2008 • 20:03
Ao contrário do que muitos pensam, o unicórnio de fato existe — em algum planeta distante ou num universo paralelo, porém real.
Mas, diferentemente da criatura que nós consideramos lendária e que nos romances de fantasia é tratado com um respeito quase sagrado, o unicórnio verdadeiro é duramente perseguido e maltratado. Por mais que associações de defesa dos animais procurem acabar com a prática, é comum ele ter seu chifre serrado.
Não que atribuam poderes afrodisíacos ou outras virtudes ao chifre. Mas porque, depois de mutilado, o animal é vendido por contrafatores inescrupulosos como se fosse aquele animal lendário, que só existe nos mundos de fantasia, num planeta distante ou num universo paralelo porém real — o tal do cavalo.
Arquivado como:Bestiário
Comentários