Sexta-Feira, 29/2/2008 • 18:02
Funciona assim:
O macaco do chão passa a banana para o macaco do galho de baixo. O macaco do galho de baixo passa a banana para o macaco do galho do meio. O macaco do galho do meio passa a banana para o macaco do galho de cima. Aí o macaco do galho de cima diz:
— Não pode. Está de cabeça para baixo.
E a banana volta para o macaco do chão. Ele não entende muito bem qual é a diferença entre uma banana de cabeça pra cima e uma banana de cabeça pra baixo, mas vira mesmo assim. E, como o macaco do galho de cima estava passando por ali naquele momento, aproveita e entrega:
— Taqui, ó, de cabeça para cima.
Mas o macaco do galho de cima responde:
— Entrega para o macaco do galho de baixo, que ele dá para o macacao do galho do meio, que passa para mim.
E começa tudo de novo.
Arquivado como:Vida de barnabé
Quinta-feira, 28/2/2008 • 20:02
Quarta-feira, 27/2/2008 • 19:02
O cartão diz “Mortimer C. Smith – Agenciador de homicídios”. E não seria preciso acrescentar muita coisa. Apenas a forma como ele entrou nesse ramo de negócios.
Smith já havia sido proxeneta, bookmaker e interceptador. Conhecia praticamente toda atividade ilegal ou minimamente marginal em que houvesse alguma oportunidade de ganhar dinheiro como atravessador. Mas foi como traficante de órgãos que se destacou. Foi o intermediário perfeito entre todos os desesperados que estavam dispostos a vender um rim ou um olho e aqueles prontos a pagar pequenas fortunas pelo transplante.
Um dia, recebeu uma proposta diferente. Um antigo fornecedor que já não tinha mais órgãos a oferecer propôs a venda da própria vida. Por uma quantia razoável, paga com um adiantamento suficiente que lhe permitisse gastar o dinheiro, aceitaria ser assassinado por qualquer um interessado em sentir a emoção do crime. Tudo perfeitamente pactuado em contrato.
Foi fácil encontrar um comprador. E, depois de aberto o caminho, mais fácil ainda explorar as suas múltiplas possibilidades.
Em recente entrevista, admitiu que seu próximo objetivo é agenciar um ataque terrorista.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Segunda-feira, 25/2/2008 • 19:02
Dedicado observador de pássaros, sai de casa todos os dias com o seu binóculo. E, somando à paciência uma capacidade de percepção rara, encontra curiós, curiangos, nizálias, tiês, malacochis, tirienas e até pintassilgos.
Difícil é convencer a polícia. Quase sempre acaba preso, acusado de estar olhando para as janelas das casas onde as mulheres trocam de roupa. Ele jura que estava apenas vendo os pássaros, que ninguém mais parece capaz de enxergar.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Sábado, 23/2/2008 • 10:02
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 18/2 - significado da palavra antegozando
Procure “ejaculação precoce”.
Terça, 19/2 -significado da palavra “antegozando”
Não adianta pôr aspas que não muda nada.
Quarta, 20/2 - o que significa a palavra antegozando
qual é o siginificado da palavra antego
Você de novo?
Quinta, 21/2 - ver o buraco mais fundo que ohomen fez
Desculpe, eu só jogo pôquer.
Sexta, 22/2 - significado da palavra antegozando
Ah, bom. Achei que tinha desistido.
Arquivado como:Gugleiros
Sexta-Feira, 22/2/2008 • 19:02
No me interesa lo que un hombre pueda trasmitir a otros hombres; como el filósofo, pienso que nada es comunicable por el arte de la escritura. Loas enojosas y triviales minucias no tienen cabida en mi espíritu, que está capacitado para lo grande; jamás he retenido la diferencia entre una letra y otra. Cierta impaciencia generosa no ha consentido que yo aprendiera a leer. A veces lo deploro, porque las noches y los días son largos.
BORGES, Jorge Luis. “La casa de Asterion”. In El Aleph.
Arquivado como:Etc.
Fechado no Labirinto, o Minotauro passava meses e meses sem ocupação alguma. Portanto, é natural que tenha se tornado poeta.
Usando o sangue das moças donzelas e dos rapazes imberbes que Atenas enviava a Creta, ele escreveu com mãos humanas a sua própria epopéia nas paredes. E com isso tornou o Labirinto ainda mais traiçoeiro: ler os versos do seu morador era outra forma de se perder.
O fio — em grego, “nema” — que Ariadne deu a Teseu poderia ser, na verdade, um “phronema” (forma de pensar). Só assim, com o código para poder decifrar a escrita do Minotauro, ele foi capaz de compreender o Labirinto e encontrar a sua saída.
O herói, porém, jamais revelou o que dizia o poema.
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Quinta-feira, 21/2/2008 • 19:02

…e dados eram de Júpiter.
Arquivado como:Etc.
Quarta-feira, 20/2/2008 • 18:02
Lembro dos primeiros ofícios que carimbei. Eram carimbadas tímidas, hesitantes, próprias de quem está apenas começando. Ainda estou longe do nível que pretendo um dia alcançar, mas já melhorei muito.
Você reconhece um bom burocrata pela forma como ele carimba seus papéis. As marcas são inconfundíveis: firmes, decididas, sem um pingo de tibieza. Quand encontrar um carimbo tão preciso que seja impossível distingui-lo de um timbre impresso, tenha a certeza de estar diante do trabalho de um verdadeiro profissional.
(Hoje foram 293 folhas carimbadas e assinadas só num processo. Eu, o matador de árvores. Ou fico musculoso nos dedos ou ainda pego uma LER.)
Arquivado como:Vida de barnabé
Segunda-feira, 18/2/2008 • 19:02
Um dos predadores mais temidos da floresta, inclui em sua dieta macacos, cervos e eventualmente homens. Mas de todos os grandes carnívoros é com certeza o menos dotado de garras, presas e outras armas semelhantes. Poderia até mesmo passar por um pacífico ruminante. Em vez disso, o marunã, como fazem certos sapos, expele um a toxina letal quando é atacado.
Isso cria um problema para sua alimentação. Porque, sem ser atacado, o marunã é inofensivo — e morre de fome.
A sua estratégia é ser irritante. Ao escolher a sua presa, salta diante dela com gritos, caretas, trejeitos e outras provocações até que a vítima não suporte mais e reaja com uma mordida ou patada. Antes que acerte o marunã, porém, tomba no chão, paralisada pelo jato de veneno.
Apenas cobras (e uns poucos seres humanos) mostram o sangue-frio suficiente para ficar cara a cara com um marunã e sobreviver. Em algumas tribos, este é um teste decisivo para apontar o próximo chefe.
Arquivado como:Bestiário
Sábado, 16/2/2008 • 10:02
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 11/2 - convergência digital
Tipo isso aqui?
Terça, 12/2 -o que posso fazer com a polpa de goiaba
Entre quatro paredes, e se ela topar, vale tudo.
Quarta, 13/2 - tigre de bengala branca
Deve ser cego.
Quinta, 14/2 - fotos cachorros com fungos
Serve essa?
Sexta, 15/2 - definição de almanaque
“O melhor blog de todos os tempos”, que tal?
Arquivado como:Gugleiros
Numa casa sem janelas e com apenas uma porta fica guardada a Coisa Mais Preciosa do Mundo.
Ninguém sabe exatamente do que se trata. Qualquer visitante pode entrar no local, mas lá dentro a escuridão é total. Assim, todos saem de lá incapazes de dizer o que viram — já que não viram nada. Mesmo assim, a maioria acredita que esteve diante da Coisa Mais Preciosa do Mundo.
Há boatos de que alguém a roubou um dia. Teria sido pouco antes da Segunda Guerra. Outros, pelo contrário, garantem que durante a ocupação nazista os soldados alemães tentaram invadir a casa mas recuaram assustados e acabaram batendo em retirada de Maligraine.
Arquivado como:Postais do Exílio
Quarta-feira, 13/2/2008 • 18:02
Cuicátl, na língua nahuatl, quer dizer “canto”. E amate é “figueira”. Cuicatlamate é exatamente isso: o canto da figueira. Ou a figueira que canta, segundo alguns tradutores. Mas é também um poema ilegível.
Porque amate também é o papel que os astecas (e maias) produziam usando a casca da figueira, macerada e transformada em polpa. Mas as palavras que os homens escrevem sobre ele são apenas uma sombra, como um palimpsesto, das que os deuses escreveram por dentro da árvore.
Para ler uma figueira seria preciso retirar sua casca inteira, sem partir um só pedaço, quando desse seus primeiros frutos. Ali está escrito o Cuicatlamate, um poema épico que conta toda a história do mundo, passada, presente e futura.
Arquivado como:Biblioteca de Babel
Segunda-feira, 11/2/2008 • 18:02
Cães, gatos, coelhos, cavalos e vários outros animais domésticos levados pelos europeus para a Austrália desbundaram com aquela imensidão de terras e largaram pata da vida de fazenda, procurando uma volta à vida selvagem e desenvolvendo variedades ferais de suas espécies. Mas nenhum caso foi tão notável quanto o das cabras de Gibson.
Acostumadas demais com os seres humanos, foram as cabras os animais que mais relutaram em abandonar a civilização. Tanto que acabaram criando a sua própria.
Seminômades, acampadas em torno dos oásis do Deserto de Gibson, cujo nome adotaram, elas acreditam que são humanas. Comerciam com brancos e aborígenes, achando muita graça daquelas raças que não gozam da sua exuberância capilar e precisam comprar seu excedente de lã.
Há poucas informações sobre a sua organização social. Mas um cabrito de Gibson que esteve uma vez num bar de Laverton e bebeu muito mais do que se esperaria de um dos seus garantiu que a sociedade caprina é tão perfeita que, se adotada em escala global, garantiria a paz no mundo. Conversa de bêbado.
Arquivado como:Bestiário
Sexta-Feira, 8/2/2008 • 17:02
Na primeira sexta-feira da Quaresma, grandes fogueiras são acesas nas aldeias do Vale de Tlocoalixatlan. E nelas a população queima as máscaras e fantasias que foram usadas durante o carnaval. O objetivo é afugentar — com uma demonstração inequívoca de renúncia à festa da carne — os últimos demônios carnavalescos que ainda possam estar no ar.
Aquele que nao queimar a fantasia, diz a tradição, será perseguido pelos demônios durante todo o ano, até o carnaval seguinte, quando ficará doente e não poderá participar da folia. Por isso, os mais atrevidos na festa são também os mais fervorosos na fogueira. Nem que seja só para garantir o direito de pecar no ano seguinte.
Arquivado como:Folhinha
Quinta-feira, 7/2/2008 • 18:02
É hoje o único mestre de Yan Quan, a antiga arte marcial chinesa que projeta a voz humana para transformar palavras em armas de ataque e defesa. Seu mentor, Wong Suchiang, era capaz de matar um homem com um monossílabo.
Dizem que Han se tornou o único mestre vivo ao derrotar Han num duelo.
Vive recluso num templo no oeste da China. Por segurança, transmite todos os seus ensinamentos aos discípulos por escrito.
Sonha em se tornar um astro da música popular. Chegou a se inscrever num concurso de calouros, mas o governo chinês proibiu a sua participação.
Arquivado como:Dramatis Personæ
Sexta-Feira, 1/2/2008 • 19:02
Antigamente o céu era claro de dia e de noite. E não havia estrelas. Nessa época, a lua morava numa gruta, junto com a pantera. E não saía de lá de jeito nenhum.
O céu chamou a lua para ficar com ele durante a noite, quando o sol ia embora. Mas a lua disse que não. Só se ele se cobrisse com um manto todo preto.
Para atender à lua, o céu fez um manto todo de asas de graúna. E a lua, quando viu que tudo tinha ficado escuro, cumpriu a sua promessa e subiu para brilhar nas noites.
A pantera ficou enciumada porque tinha perdido a sua companheira de toca. E disse que queria uma roupa igual, também toda preta. Como o céu não quis dar, ela começou a cravar as suas unhas no manto. Onde cravava, deixava um furo, e por ali a luz passava. Foi assim que o céu ficou todo estrelado.
Para não ficar mais furado ainda, o céu atendeu à pantera, que então passou a ter também um manto da cor da noite.
Arquivado como:Histórias reais
Comentários