Arquivo do mês: janeiro 2008

Jam (6): Isenção fiscal e o melhor do carnaval

(G.R.E.S Acadêmicos do Largo do Machado)

Brasil, oh meu Brasil
Eu também estou na área
Pra mostrar na passarela tão gentil
Essa tal de reforma tributária

Ninguém sabe o que será
Se é boa ou se é má
Mas todos dizem que é muito necessária

Lá no Egito
O faraó inventou de tributar
Provocou o maior agito
O imposto era infinito
E o povo não podia mais pagar

Em Minas, Tiradentes
Junto com os Inconfidentes
Enfrentou a tirania
Hoje aqui na Zona Sul
Eu boicoto o IPTU
Que não dá cidadania

Paguei CPMF, PIS e Cofins pro Leão
Só meu samba é isento dessa tributação
Paguei CPMF, PIS e Cofins pro Leão
Só meu samba é isento dessa tributação

Bestiário (38): Magaru

O mais acertado é falar do ovo de magaru e não do animal em si, porque ninguém jamais viu um deles sequer. Só os seus ovos — redondos, de cores variadas, brilhantes, com pintas, raias, manchas.

Muitos acreditam que o magaru conseguiu dar um jeito de se reproduzir sem sair do ovo, mas não se sabe muito bem como isso seria possível. Só é certo que os ovos encontrados na natureza e coletados nunca eclodem, mas quando você menos espera aparece outro no meio deles.

Gugleiros (20)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 21/1 - catalago telefonico universal
Se você me explicar para que servem lagos telefônicos, eu ensino como catar um.

Terça, 22/1 - tiger wings
Isso é procurar chifre em cabeça de cavalo.

Quarta, 23/1 - lista telefonica encontrar numeros
Eles ficam na coluna da direita, normalmente.

Quinta, 24/1 - a mulher e o poder de tigre
É música da Rosana?

Sexta, 25/1 - yashin vestiu a camisa no flamengo
Foi em 1964, mas ele era banco do Marco Aurélio.

Biblioteca de Babel (17): Kaito Hamawaki

Hamawaki San não é uma pessoa. É um livro. Ou melhor, um mangá.

Ele mesmo escreveu e desenhou a história de sua vida, que um tatuador profissional reproduziu na sua pele. A cada evento importante, acrescentava quadros, que aos pucos foram ocupando todo o seu corpo. Ao chegar à conclusão de que a obra estava encerrada, desenhou o último quadro num estêncil e matou-se bebendo uma dose de tinta vermelha à base de sulfeto de mercúrio.

Seu testamento continha instruções explícitas para que o capítulo final fosse tatuado na sola de seu pé esquerdo, e que sua pele fosse conservada para a posteridade.

Dramatis Personæ (47): Ted Tromba

Grande astro de filmes ponô nos anos 90, converteu-se e decidiu abandonar a longa carreira. Mas descobriu que seu contrato extremamente rígido com a produtora exigia mais nove filmes. Depois de duras negociações, chegaram a um acordo. Cumpriu os termos. Mas em todas as produções seu personagem também se convertia no fim e fazia uma pregação, lendo o versículo 33. Qualquer versículo 33.

Foi um sucesso ainda maior que o de seus filmes anteriores. Tanto que renovou o contratro e decidiu continuar a série. Para difundir a religião, garante.

Mudança

Poderia ser um item da série Dramatis Personæ: Barnabé. Mas é um raro post pessoal neste blog. Só porque eu sinto necessidade de dizer que abandonar uma carreira de mais de quinze anos para me tornar um iniciante é algo que, apesar de cercado de uma série de garantias, me deixa muito assustado.

Bestiário (37): Oiagapap

De todas as aves que imitam a voz humana, é a mais impressionante. Porque imita ao contrário.

Se você tentar ensinar um oiagapap a falar, por exemplo, “biscoito”, ele dirá “otiocsib”. Se insistir com “currupaco”, ele retornará “ocapurruc”.

Quando um oiagapap é exposto a palíndromos com muita freqüência, geralmente enlouquece e se mata.

Em 1877, foi encontrado nas matas da Guiana um oiagapap que não invertia as palavras. No entanto, ele as previa, e repetia as coisas que ainda iam ser ditas. Sir Habacuc Naughtley quis levá-lo à rainha Vitória, mas foi preso e acusado de alta traição por pretender que uma ave pudesse reinar no lugar da soberana.

Gugleiros (19)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 14/1 - bichinho geometrico em pessoas
Que intimidades são essas?

Terça, 15/1 - fotografia+grande+de+esmeralda+quasimodo
Ainda não existia fotografia no século XV.

Quarta, 16/1 - análise do conto rapunzel
Chega. Isso já perdeu a graça.

Quinta, 17/1 - comida para tamanduá
Já tentou a loja de ração?

Sexta, 18/1 - roupas do tom e jerry
Não usavam.

Criptoetimologia (4): Azul

Em inglês é blue, am francês é bleu e a forma hoje reduzida aos domínios da heráldica é blau. Então, de onde veio o azul? Do céu e do mar. E, é claro, do árabe, como quase tudo na nossa língua que não tenha saído do latim nem do grego.

Aliás, de um árabe específico: Nasrallah Ibrahim Al-Zur, comerciante de tecidos que conquistou um quase monopólio na Península Ibérica durante décadas. O segredo de seu sucesso era o controle de um corante extraído das montanhas do Marrocos e que proporcionava um tom único, profundo, brilhante e inimitável.

(O Museu da Reconquista, em Salamanca, exibe dois mantos provavelmente de Al-Zur; as cores esmaeceram com o tempo, mas ainda é possível constatar o seu luxo.)

Alzur logo se tornou o nome da cor, como mais tarde o mundo capitalista transformaria marcas comerciais em substantivos comuns. E, por metátese (o mesmo fenômeno que cria corruptelas como vrido e tauba), virou arzul, que originou a forma atual.

(O provençal manteve uma versão mais próxima do original, azur, hoje usada praticamente apenas para se referir à Côte d’Azur francesa.)

História Universal da Infâmia (5)

Um homem entra numa botica e pede um pouco de vitríolo. O boticário procura na prateleira onde estão os vidros dispostos em ordem alfabética, mas logo depois de “uréia” vem “xantina” e ele diz que está em falta. Qual o nome do filme?

Aos novatos: a resposta está nos comentários. Leila, você sabe que está proibida de comentar. 

Postais do Exílio (27): Gargólia

O que há de mais interessante em Gargólia é a Casa do Caldeirão. E mesmo quem é estrangeiro chega lá facilmente. Basta seguir o cheiro.

Sobre um fogareiro sempre aceso, fica o caldeirão que dá nome ao lugar. De vez em quando, alguém aparece, serve-se de uma ou duas conchas de sopa e põe algumas moedas na bandeja que fica sobre a mesa ao lado. Outras vezes, chegam pessoas que jogam na caçarola um punhado de legumes, um naco de carne, ou mesmo água, sal e temperos, tirando o pagamento que julgar conveniente.

Já houve ocasiões em que o caldeirão ficou quase vazio enquanto uma montanha de moedas se acumulava na bandeja. E outras em que ele quase transbordava de sopa, com o dinheiro sumindo. Mas, de forma geral, o equilíbrio sempre se manteve. E nunca em Gargólia alguém passou fome.

Dramatis Personæ (46): Bebel, a florista,

só vende flores murchas.

E cobra mais caro. O preço da experiência, justifica. Cada pétala morta e cadente carrega uma história de amores, pedidos de perdão, desejos  realizados ou não que nenuma flor em pleno viço poderia ter.

Gugleiros (18)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 7/1 - buraco negro mais feroz ja visto
Quem viu não sobreviveu para contar.

Terça, 8/1 - só mesmo postais de aniversario
Mais nada? Nem um cafezinho?

Quarta, 9/1 - como e que o macho panda atrai a femea
como e que o Falcao atrai a femea
como se reproduz o cavalo?

Os outros dois, não faço idéia. Quanto ao Falcão, experimente perguntar à Flavia Frontoni.

Quinta, 10/1 - porque os toros não gosta de vermelhos
Isso é folclore. Eles não gostam mesmo é de erros de concordância. Cuidado.

Sexta, 11/1 - análise do conto rapunzel
Estou ficando especialista nisso. Anote aí: a chave é a Teoria da Evolução. O pai de Rapunzel consegue transmitir seus genes porque é eficiente no cuidado com a prole, mesmo que para isso precise roubar rabanetes. A bruxa, como não se reproduz, é extinta. O príncipe traz material genético novo e favorece a propagação da espécie.

Postais do Exílio (26): Firélis

É fácil entender por que o palácio é conhecido como Casa Rosa. Toda a fachada é revestida de mármore rosado, do chão até as cúpulas das suas altas torres. Ele também é chamado de Parreira, por causa das colunas decoradas com relevos de videiras, assim como seus portões de bronze.

Um lugar tão imponente poderia ser a casa de um baronete, a sede do governo, o fórum local ou alguma espécie de museu. Mas não é nada disso. E o nome mais usado pelos habitantes de Firélis explica a sua função: Palácio dos Mendigos.

Nas suas dezenas de quartos luxuosos vivem todos os mendigos, vagabundos, pedintes, lumpen de Firélis. Dizem que essa é avontade de seu construtor, que teria gasto toda a sua imensa fortuna para erigir um palácio e nele viveu como um miserável cercado de ouro.

Já ia esquecendo

Um ano de Almanaque, 217 posts (contando com este), 11.707 visitas, 131 comentários.

Eu deveria mudar a template ou algo assim, mas fica para outro dia.

Dramatis Personæ (45): Letícia

“Remédio para baratas”, no seu consultório, é remédio mesmo.

Ser a única veterinária especializada em insetos na cidade não é fácil. Pouca gente a procura para cuidar de suas  borboletas ou joaninhas de estimação.

Mesmo assim, não abandona os seus ideais. E acredita firmemente numa mudança de paradigma. Virá  o dia, prevê, em que o bem-estar de formigas, cupins e bichos-pau  será respeitado. Eles não serão mais tratados como lacraias, essas coisas nojentas.

Bestiário (36): Ik vind ze leuk in de dierentuin

Ao contrário do que muitos pensam, o ik vind ze leuk in de dierentuin não é um nome dado a cachorros ou gatos, nem um demônio sumério-babilônico, muito menos uma forma carinhosa de se referir ao Rômulo. É apenas uma praga. Para ser mais específico, um vírus, que invade uma bactéria que parasita um protozoário que vive no tubo digestivo de um ácaro que infesta a cabeça de um percevejo que chupa o sangue do cavalo.

O cavalo se irrita com o percevejo, que viveria muito mais feliz sem o ácaro, que reza todos os dias ao deus dos ácaros para se ver livre do protozoário, que odeia a bactéria, que já fez de tudo para expulsar o vírus. Mas o ik vind ze leuk in de dierentuin tem as costas quentes e não deixa a cadeia se romper. E assim cada parasita continua importunando seu hospedeiro, até o fim dos tempos.

Gugleiros (17)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 31/12 - todas as imagens da hello kitty que houv
Seja mais específico.

Terça, 1/1 - arapuca para pegar gato
É igual a de passarinho, mas a isca é uma sardinha.

Quarta, 2/1 - como comunica entre si o panda gigante
Primeiro ele aprende gramática.

Quinta, 3/1 - nova diva islandesa
Trjeniecka Ksträvsngl? Traidora do movimento. Gostava mais antes de ela ficar comercial.

Sexta, 4/1 - domador de leões devorado
Só posso dizer que ele não deve ter domado muito bem.

Bestiário (35): Mercril

Assim como o corvo, o caramanchão-cetim e o arganaz-da-pradaria, gosta de catar objetos coloridos e brilhantes para enfeitar a sua toca. Mas vai muito além disso.

Este pequeno roedor desenvolveu uma sociedade com regras bem mais complexas que as de abelhas e cupins. Nela, como era de se esperar, os membros de mais alta posição hierárquica detêm as tocas com mais enfeites, e também os maiores e melhores.

Até aí, nada de se admirar. O que torna os mercris especiais é que alguns deles se tornam mercadores.

Um mercril comerciante faz exatamente isso: troca botões por pedras, conchas por vidros, contas por penas e todas essas coisas por grãos. Sempre levando um bom lucro na transação, o suficiente para garantiur uma boa toca e seu sustento. De fato, num agrupamento típico ele costuma ser um dos machos sob proteção da fêmea dominante. Em troca, ela exerce uma espécie de opção de preferência nos bens mais valiosos do estoque.

Grupos de mercris em contato com povoados humanos aprenderam até mesmo a usar dinheiro, passando a roubar moedas para intermediar as trocas dentro da colônia. Uma infestação quase arruinou completamente a frágil economia do Marjiristão, no outono de 2003.

Postais do Exílio (25): Anaürac

Em Anaürac, a diversidade religiosa chegou a tal ponto que cada pessoa tinha seu próprio deus. Sendo assim, não havia templos nem sacerdotes profissionais. Cada um criava sua religião e cada casa contava com a sua capela.

Alguns construíam templos suntuosos, verdadeiras catedrais-do-Eu-sozinho. Outros preferiam construções mais modestas. E havia casas sem igreja nenhuma, onde viviam os ateus.