Fricção científica (3): Cores

O que os olhos vêem o coração não sente, porque o cérebro faz vista grossa. É essa a conclusão do psicólogo Robert Kentridge, da Universidade de Durham, na Inglaterra. Ele descobriu que, assim como muitos animais, o ser humano detecta as cores logo na primeira camada do córtex cerebral, a primeira a receber a informação dos nervos ópticos.

“A cor é um produto do sistema nervoso, um ‘pigmento’ da nossa imaginação. As cores que vemos têm mais a ver com o material de que as coisas são feitas do que propriamente com a luz refletida por elas”, diz Kentridge.

Ele comandou uma série de experiências com um paciente que sofreu danos na região do cérebro responsável pela operação. E descobriu que um passo fundamental para reconhecer as cores é identificar o contraste com objetos próximos.

“Se alguém, por causa de um dano cerebral, perder a capacidade de identificar o contraste, passará a achar que as cores mudam o tempo todo. Qualquer mudança de luz causa um efeito drástico”, explica o cientista.

Existem duas conclusões importantes. A primeira é que nós estamos programados para ver o mundo não como ele é, mas como uma redução, uma simplificação grosseira. É como se passássemos a vida inteira sendo informados sobre a realidade apenas pelo “Jornal Nacional”. E se não fosse assim, talvez não fôssemos capazes de elaborar conceitos, estabelecer definições, pensar.

Isso justifica a tendência geral a querer transformar os assuntos mais complexos num simples contraste entre vermelhos e azuis, um Fla-Flu cromático que molda a percepção e com ela a consciência.

A segunda conclusão é que, se dano cerebral faz as cores mudarem o tempo todo, os anos 70 finalmente fazem sentido. 

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3 Respostas para “Fricção científica (3): Cores

  1. Faz muito sentido, ainda mais combinados ao que se pensa sobre línguagem e cognição. E o dano cerebral na década de 70 foi tão sério que houve toda a geração de iuppies que se seguiu.

    R. Por favor, não me faça lembrar os anos 80.

  2. pois são todas vocês, pobres crianças que tentam andar por seus próprios pés, crias dos anos 60-70

    R. Fale por você. Eu sou um filho do século XIX.

  3. nah. não confunda origem com estilo

    R. Estilo é o que você mostra, origem é o que você esconde.

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