Arquivo do dia: terça-feira, 4/9/2007

Reforma ortográfica

O emprego do trema tem conotações psicológicas: dá uma vaga ilusão de superioridade a quem o usa. Não é que o trema seja inacessível: é que denuncia bom gosto. Embora antigo, não tem ar de obsoleto; apesar das origens, não se tornou anacrônico.
Quando o trema sai de casa, olha-se no espelho e exclama:
— Mulheres, tremai!
As mulheres não tremam. Nem tremem, hoje em dia. Os homens, esses… bem, há exceções. Mas há. Nunca me esqueço, há cerca de três anos, fui ao alfaiate para pagar a confecção duns ternos. Saquei do cheque e escrevi a quantia por extenso: trezentos e cinqüenta cruzeiros. O alfaiate apertou a minha mão efusivamente, me abraçou comovido, seu olhar se desmanchava em gratidão. Fiquei sem entender tanta euforia por causa de um ato de rotina. Afinal eu não cumprira mais do que o meu dever. Fui franco, disse-lhe isso. Mas em seguida, como complemento às medidas da roupa, ele me deu a medida da minha importância:
— Parabéns, doutor! Meus parabéns! Faz muito tempo que eu não via uma pessoa distinta como o senhor, uma pessoa capaz de usar o trema. Isto, sim, é cinqüenta!
Faz tempo que não uso roupa talhada por ele. Mas seu entusiasmo ortográfico — o entusiasmo de um profissional que sabe melhor do que ninguém o que uma pessoa distinta deve usar — serviu para reforçar a minha convicção. Por isso uso trema.

BURNETT, Lago. “O trema não caiu”. In A língua envergonhada e outros escritos sobre comunicação jornalística. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991. Pag. 104. Originalmente publicado no Diário de Notícias, 6/7/71.